Entre Cicatrizes e desejos

7 CAPÍTULO 6/ A REVELAÇÃO


O silêncio não foi imediato.


Caiu.


Lentamente.


Pesadamente.


Como se o mundo tivesse esquecido de respirar.


Mia não se mexeu.


Nem um centímetro.


Sua mão ainda estava no meu braço, mas agora… era diferente. Não era apenas um toque. Era firme. Presente.


Real.


Eu não conseguia olhar para ela.


Não depois de dizer aquilo.


Minhas palavras ainda ecoavam no ar, como algo que não deveria existir fora da minha cabeça.


“Engravidei aos doze anos.”


“Foi meu pai quem fez isso.”


Eu queria voltar no tempo.


Apagar tudo.


Engolir cada sílaba.


Mas era tarde demais.


Já estava entre nós.


Vivo.


Irreversível.


“Katherine…”


Sua voz saiu baixa. Não de choque escandaloso. Não de julgamento.


Cuidado.


Isso foi pior.


Muito pior.


Porque eu estava preparada para tudo… exceto para compreensão.


Eu ri. Uma risada curta e entrecortada.


“Você pode dizer alguma coisa agora”, murmurei, ainda sem olhar. “Qualquer coisa.”


Silêncio.


Um segundo.


Dois.


E então—


Ela me puxou.


Não com força.


Mas com firmeza.


Seus braços me envolveram antes que eu pudesse reagir.


E eu congelei.


Meu corpo inteiro travou.


Porque aquilo…

aquilo não era familiar.


Era novo.


Era estranho.


Era… quente.


“Você não está sozinha”, ela disse, perto do meu ouvido.


Assim, sem mais nem menos.


Sem perguntas.


Sem pressão.


Sem horror explícito.


Apenas… presença.


E isso quebrou algo dentro de mim.


Minhas mãos, que estavam rígidas ao meu lado, se ergueram lentamente.


Hesitantemente.


Como se eu não soubesse o que fazer com elas.


Mas então…


Retribui o abraço.


E foi aí que desabei.


Não foi bonito.


Não foi silencioso.


Foi feio. Incontrolável. Cru.


Anos.


Anos presos ali vieram à tona de uma vez só.


Minha respiração falhou, minhas mãos tremeram, meu corpo inteiro pareceu me desobedecer.


E ela não me soltou.


Nem por um segundo.


"Estou aqui", ela repetiu, várias vezes. "Estou aqui."


E, pela primeira vez em muito tempo…


Eu acreditei nela.


---


Não sei quanto tempo se passou.


Minutos.


Talvez mais.


Mas, quando finalmente me afastei, meus olhos ardiam, meu rosto estava molhado e minha cabeça… leve. Estranhamente leve.


Como se parte do peso tivesse sido tirado de mim.


Não todo.


Nunca todo.


Mas… o suficiente.


“Por que você nunca me contou?”, perguntou Mia, cautelosamente.


Dei de ombros, enxugando o rosto com a manga.


“Porque ninguém perguntou do jeito certo.”


Ela absorveu a informação em silêncio.


“E… seu pai?”, perguntou, ainda mais cautelosamente.


Meu estômago embrulhou.


“Ele não faz mais parte da minha vida.”


Meia verdade.


Mas o suficiente.


Ela assentiu.


Sem pressionar.


Sem invadir.


E isso… me fez confiar mais nela.


“Você está segura aqui”, disse ela.


Com firmeza.


Como uma promessa.


Eu queria acreditar.


De verdade. Mas antes que eu pudesse responder—


Passos.


No corredor.


Firmes. Conhecidos.


Meu corpo reagiu antes da minha mente.


Tensão.


Alerta.


Simon.


Ele apareceu na porta, ainda com as mesmas roupas da noite anterior, o cabelo um pouco despenteado, como se não tivesse dormido bem.


E então ele parou.


Porque ele viu.


Nós dois.


Eu… visivelmente abalada.


E Mia… ainda muito perto.


Seu olhar mudou instantaneamente.


“…O que aconteceu?”


Sua voz estava diferente.


Mais séria.


Mais… perigosa.


Desviei o olhar imediatamente.


Não.


Eu não ia lidar com ele agora.


Não depois de ontem.


“Katherine?” ele insistiu, dando um passo à frente.


“Está tudo bem”, respondi rápido demais.


Mentira óbvia.


Ele não acreditou.


Claro que não.


Simon olhou para Mia.


E, naquele segundo—


Algo passou entre eles.


Algo silencioso.


Mas claro.


Ela não disse nada.


Mas também não desviou o olhar.


E isso foi o suficiente.


Seu maxilar se contraiu.


Seus olhos escureceram.


Quando ele olhou para mim de novo…


Não era o mesmo olhar da festa.


Nem o da piscina.


Era diferente.


Mais intenso.


Mais carregado.


“Quem fez isso com você?”


A pergunta saiu baixa.


Controlada.


Mas repleta de algo que eu não consegui identificar naquele momento.


E, pela primeira vez…


Eu não tinha uma resposta fácil.


O silêncio retornou.


Mas agora—


Era diferente.


Porque algo havia mudado.


E eu sabia disso.


A partir daquele momento…


Nada seria como antes.

Notas finais
CAPÍTULO NOVO TERÇA-FEIRA⚠️
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.