Entre Cavalos e Números
7 Capítulo 6
Conforme prometido, Annabelle acordou cedo no dia seguinte e foi até o hotel fazenda. Ao chegar lá, notou uma movimentação no galpão onde o material de construção é armazenado, mas não viu ninguém com as características descritas por Helena. Como não tinha nada pra fazer, decidiu andar a cavalo para distrair a cabeça. Pegou o Mangalarga Marchador de pelagem negra chamado Zimbabu — presente do pai em seu aniversário de dezoito anos, logo depois de ter perdido a pampa Crioula do Recanto — , selou o animal e montou, seguindo em direção à saída do Recanto das Orquídeas. Notou que o cavalo estava meio agitado quando montou, mas mesmo assim seguiu seu rumo.
****
Daniel chegava para mais um dia de trabalho no hotel fazenda Recanto das Orquídeas. A manhã de segunda-feira estava fria por volta das 08h; os termômetros marcavam 04°C e o dia seria longo. A reforma do hotel avançava, mas ainda havia muito trabalho a ser feito. Por ser uma construção muito antiga, surgiram vários problemas com os quais não contavam e tudo indicava que demoraria bem mais que o previsto pra entregar a obra concluída. Vinha tão distraído ouvindo John Mayer que não viu quando uma garota surgiu na sua frente, montada num cavalo negro. O cavalo se espantou com o veículo e empinou, fazendo com que Daniel tomasse um susto e tirasse as mãos do volante por alguns instantes.
Crash — Foi o barulho que se ouviu a seguir.
A Ford Ranger preta, que terminava de fazer a curva, oscilou e bateu em uma árvore à beira do barranco. O estrago teria sido maior que apenas alguns amassados na parte da frente se Daniel não estivesse em uma velocidade baixa e se não tivesse conseguido frear a tempo. Tomado pelo susto e sentindo o coração bater acelerado, o rapaz ficou um tempo dentro do carro, tentando controlar a respiração. Enquanto isso, Annabelle dominou o animal e o amarrou à cerca que ficava na beira da estrada. Ao se aproximar do veículo, pôde ver que o motorista estava consciente.
— Você tá bem? — perguntou, se debruçando na janela do lado do carona, que se encontrava aberta.
— O que você acha? — respondeu, ríspido.
— Ei, calma aí. Pode parar com a grosseria. Só queria ajudar.
— O que você tem na cabeça, garota? Aparecer do nada, no meio da estrada e sem controle do cavalo?
— Se você não percebeu, tá na estrada que dá pra uma fazenda. É a coisa mais natural do mundo encontrar pessoas andando a cavalo por aqui.
— Não a essa hora do dia.
— Pois saiba que não tem hora pra isso. Além do mais, eu não fazia ideia de que ia encontrar você aqui, muito menos que o Zimbabu ia se assustar.
— E agora, como é que a gente faz? — Daniel perguntou, saindo do carro e olhando a parte da frente amassada.
— Não sei, ué. A culpa não foi minha se você se assustou e bateu na árvore.
— Como não? Eu só bati porque o seu cavalo empinou. Se você não tivesse andando com ele em plenas 08h da manhã, o que me parece uma hora bem estranha pra uma patricinha estar acordada, nada disso teria acontecido.
— Escuta aqui, cara, você não me conhece pra dizer se eu sou ou não uma patricinha. — disse, apontando o dedo na cara dele. — Se você fez merda e tá estressadinho, o problema é seu. Eu só parei pra saber se você tá legal, mas pelo visto, tá ótimo, né?
— Graças a Deus eu tô bem, foi só um susto, mas você já pensou que podia ter acontecido uma merda? Se eu tivesse em alta velocidade, a batida podia ter sido mais forte e eu provavelmente ia estar desacordado dentro do carro.
— Eu sei, não sou burra. O problema é você vir de grosseria pra cima de mim, sendo que eu só tava tentando te ajudar. Eu não tinha obrigação nenhuma de parar, podia muito bem ter te deixado se ferrar sozinho, sem nem saber se tava vivo. Ninguém ia saber o que aconteceu até o meu pai ou qualquer funcionário da fazenda aparecer.
— Ah, então eu tenho que te agradecer por ter parado, sendo que a culpa pelo acidente foi sua?
— Puta que o pariu, que cara chato! Já falei quinhentas mil vezes que a culpa não foi minha e você insiste em dizer que sim. — respirou fundo, massageando as têmporas. — Vamos fazer o seguinte: Eu volto lá pra fazenda, chamo o meu pai e o meu tio e eles veem como podem te ajudar, beleza?
— Tudo bem, eu espero, mas não demora.
Annabelle afirmou com a cabeça, desamarrou o cavalo da cerca e retornou à fazenda. Encontrou o pai e o tio no escritório, resolvendo algo sobre a possível contratação de novos funcionários para a alta temporada.
— Ué, filha, já voltou? Aconteceu alguma coisa com o Zimbabu? — Francisco questionou, preocupado.
— Não, meu cavalo tá bem.
— Então por que voltou tão cedo?
— Queria saber há quanto tempo o Zimbabu tá preso na baia, sem se exercitar. — disse, cruzando os braços.
— A última vez que o Sorriso tirou ele da baia foi na terça-feira passada. — Teodoro respondeu pelo irmão, olhando desconfiado para a sobrinha.
— Então tá explicado. Nós temos um problema na estrada.
— Que problema?
— Um cara bateu uma Ranger preta naquela curva perto da entrada da fazenda.
— Como assim? — perguntou, levantando-se da cadeira.
— Foi o que você ouviu, tio. Tem um cara com a frente da caminhonete amassada um pouco antes da entrada da fazenda, indo daqui pra lá.
— Meu Deus, quem é esse cara? Ele tá bem? O que aconteceu pra ele ter batido? — foi a vez de Francisco perguntar. Os irmãos se entreolharam e o mais velho pegou a chave da Toyota Hilux prata, enquanto caminhavam em direção à saída.
— Não sei, não conheço. Só sei que eu tava indo em direção à porteira da fazenda, quando eu dei de cara com essa caminhonete na curva. O Zimbabu se espantou e acabou empinando. Acho que o cara assustou e bateu na árvore, na beira do barranco.
— Temos que ir até lá ver o tamanho do estrago. Pela hora, só pode ser o Daniel.
— Quem é Daniel? — Annabelle perguntou, interessada, enquanto os três se dirigiam à caminhonete.
— É o engenheiro responsável pela obra e filho de um grande amigo nosso. — Teodoro respondeu, ligando o automóvel e dando a partida.
— Ah, então ele que é o tal engenheiro gato que a Lena falou. — disse, baixinho, mas não o suficiente pra que o pai e o tio não ouvissem.
— Você e a Lena andaram falando do Daniel, Belle? — Francisco perguntou, rindo.
— Não foi nada demais. Ela só disse que vocês contrataram um cara bem gatinho pra comandar a reforma do hotel, mas eu não sabia que era conhecido.
— Ele é filho do João e da Narcisa, os donos da construtora e nossos amigos de longa data.
— Hum, legal. Agora, vamos falar sobre o que realmente interessa. — disse, dando um jeito de mudar de assunto. — Vocês sabem que essa bagunça toda só aconteceu porque o Zimbabu tá ficando muito tempo preso dentro da baia, não sabem?
— Não é bem assim. — Teodoro disse, rolando os olhos.
— Como não, tio? Você mesmo disse que a última vez que ele saiu da baia antes de hoje foi na terça-feira. Zimbabu é um cavalo inteiro*, tem energia de sobra pra gastar, precisa ser solto mais vezes.
— Você sabe que os nossos animais seguem uma rotina, Belle. Tem sempre um funcionário pra alimentar, escovar, tirar da baia e levar pra correr no redondel**. Acontece que na quinta passada, que era o dia do seu cavalo se exercitar, uma das vacas que tavam soltas no pasto caiu num buraco e ficou presa lá. Tivemos que chamar o Corpo de Bombeiros e mobilizar uma boa parte dos nossos colaboradores pra ajudar no resgate do animal. Os que não foram, ficaram pra atender aos hóspedes. Não tinha como eu mandar um funcionário lá só pra tirar o Zimbabu da baia. — explicou, estacionando o carro um pouco antes da curva.
— Não sabia disso, mas tudo bem, eu entendo. Só tenho um pedido a fazer.
— Que pedido? — Francisco perguntou, antes que saíssem do carro.
— O Daniel não pode saber de jeito nenhum que a culpa por ele ter batido o carro foi minha. Jurei de pés juntos que ele era o culpado e vocês sabem que eu não volto atrás. — os irmãos se entreolharam, riram e saíram do carro, juntamente com Annabelle.
Como era previsto, encontraram Daniel encostado na lateral da caminhonete, falando ao celular e gesticulando. Quando percebeu a chegada de Teodoro, Francisco e Annabelle, o engenheiro finalizou a ligação e os quatro foram dar uma olhada no estrago. Depois de muito conversar e analisar as possibilidades, chegaram à óbvia conclusão de que Daniel deveria ligar para o seguro, solicitar o guincho e levar o carro a uma oficina habilitada pela seguradora. Caso o seguro não cobrisse o conserto do carro, o hotel fazenda arcaria com os prejuízos, visto que o acidente ocorreu nas dependências do estabelecimento. Com isso, entre a chegada do guincho até o encaminhamento do veículo à oficina mais próxima, o engenheiro perdeu um dia de trabalho. Alguns contratempos ele conseguiu resolver pelo telefone, como as latas de tinta que vieram com cores erradas e o pau de escoramento que não havia sido entregue até a hora do almoço. Entretanto, um problema maior o aguardava: A substituição do telhado. Devido aos efeitos do tempo, a estrutura de madeira foi se deteriorando e não havia outro jeito de sanar o problema a não ser remover a antiga e colocar uma nova. O trabalho de substituição era difícil e ao mesmo tempo arriscado, já que em alguns pontos a madeira estava podre. Por conta disso, mandou que a equipe focasse no acabamento dos quartos de hóspedes e deixasse o telhado para o dia seguinte.
Enquanto isso, Annabelle passou o dia em casa vendo a segunda temporada de Skam. À noite, decidiu ir até Vassouras encontrar Helena. A melhor amiga tinha acabado de sair de um plantão de 12h no Hospital Universitário e as duas foram comer o cachorro quente do Chapolin — disputado entre os universitários que estudam à noite. Sentaram em um banco da praça onde compraram o cachorro quente e entre uma mordida e outra, conversaram sobre o ocorrido mais cedo. É claro que Helena riu de Annabelle quando ela falou que bateu o pé e não assumiu a culpa pelo acidente, afinal, conhecia a garota tempo suficiente pra saber que ela nunca daria o braço a torcer em uma situação como essa. A futura médica também incentivou a amiga a aparecer na obra no dia seguinte pra ver qual era a do engenheiro. Os dois se conheceram em um momento de muito estresse e o que poderia ser o início de uma relação cordial, acabou não sendo agradável para ambos. A amazona não deu muita ideia para a amiga, mas prometeu pensar no assunto.
No dia seguinte, conforme planejado, teve início a troca do telhado da sede da fazenda. O maior desafio da equipe foi remover a estrutura antiga. As ripas*** de apoio das telhas estavam deterioradas e o pendural**** apresentava uma pequena rachadura que poderia aumentar com o passar do tempo e provocar a queda do telhado, caso não fosse substituído à tempo. Durante a manhã, os funcionários da Dantas Engenharia se ocuparam em retirar as telhas e desmontar a armação do telhado.
Na hora do almoço, depois de se alimentarem, alguns operários se espalharam em volta do galpão onde os materiais estavam armazenados e aproveitaram pra descansar um pouco antes de retornar ao trabalho. Daniel fez o mesmo, sentando em um banco de madeira próximo ao portão. Sua ideia era usar o pouco tempo livre para conversar com Cecília e saber sobre a saúde do bebê, que agora tinha sexo e um nome — seria um menino e se chamaria Murilo. Porém, seus planos foram por água abaixo quando a bela morena de olhos azuis, responsável pelo incidente no dia anterior, se aproximou e sentou ao seu lado.
— Ei.
— Oi. — Daniel respondeu, olhando de esguelha para a sua mais nova companhia.
— Você tá bem? Conseguiu resolver a parada do carro? — perguntou, como quem não quer nada.
— Consegui. A Ranger já tá na oficina e felizmente o seguro cobriu todo o gasto com o incidente. Tio Teodoro e seu Francisco não vão ter que pagar nada.
— Legal. Que bom que tudo se resolveu. Você tá bem mesmo?
— Tô. Por que tá tão preocupada?
— Sei lá. — deu de ombros.
— Será que não é consciência pesada por ter provocado o acidente?
— Não. Já disse várias vezes que não foi culpa minha. É tão difícil assim pra você entender?
— É claro! Você aparece de repente, o seu cavalo empina, me assusta e o culpado sou eu? — perguntou, irônico.
— Na boa, cara, eu só queria saber se tava tudo resolvido, mas já que você não sabe ser educado, não faz sentido eu continuar aqui. — ameaçou levantar-se, mas foi impedida por Daniel.
— Não vai, fica. — pediu, segurando-a levemente pelo braço. — Eu não devia ter sido grosso desse jeito, me desculpa. É que esse acidente atrasou em um dia um serviço importante e eu vou ter que adiar mais uma vez a data de entrega da obra concluída. Isso não é algo que eu goste de fazer.
— Tudo bem, eu sei exatamente o quanto o tempo é importante.
— Sabe?
— Sim. Na minha profissão, o tempo é crucial e muitas vezes define quem ganha e quem perde.
— E o que você faz da vida? Por acaso é advogada, juíza ou, quem sabe, médica?
— Nada disso. Eu sou amazona da seleção brasileira de hipismo na modalidade salto. Você já deve ter ouvido falar de mim.
— Acho que não.
— Tem certeza de que nunca escutou o nome Annabelle Marcondes na televisão? Semana retrasada mesmo eu dei uma entrevista pro Globo Esporte. — a mais nova se gabou, estranhando o fato de não ser reconhecida pelo engenheiro civil.
— Desculpa, mas eu raramente vejo televisão. Meu trabalho ocupa a maior parte do dia e quando chego em casa, tudo o que eu mais quero é descansar. Você, por acaso, é filha do tio Teodoro?
— Não, sou filha do Francisco, irmão dele. Você deve ser o Daniel, né?
— Sim. Como sabe o meu nome?
— O meu pai e o meu tio me disseram quando eu fui chamar os dois pra ver a sua caminhonete.
— Ah, tá. — nisso, um dos funcionários apareceu, perguntando ao engenheiro se a nova estrutura do telhado começaria a ser montada naquele momento. Daniel negou com a cabeça e se virou pra Annabelle. — Desculpa, mas meu horário de almoço acabou e eu preciso voltar ao trabalho.
— Tudo bem, eu também tenho um compromisso daqui a pouco, não ia poder ficar mais tempo. — mentiu. — De qualquer forma, foi legal te conhecer.
— Digo o mesmo. — Daniel sorriu e estendeu a mão direita para Annabelle, que retribuiu o gesto. Os dois se afastaram e, enquanto o engenheiro retornava para a obra, a amazona seguia para casa. Tinha um sorriso enorme no rosto e a estranha sensação de que as coisas seriam diferentes a partir daquele momento.
* Cavalo inteiro — É o nome dado ao cavalo macho que não foi castrado. Também é conhecido como garanhão.
** Redondel — É um curral circular, podendo ter o diâmetro de 7 a 14 metros, com piso de areia, terra, ou grama. Tem várias utilidades, entre elas, soltar o cavalo e iniciar a doma.
*** Ripas — São aquelas peças de madeira que ficam na longitudinal dos telhados, ou seja, ficam "deitadas". A principal função dessas peças é servir de apoio às telhas que virão sobre ela.
**** Pendural — É uma peça de madeira que fica no centro da estrutura principal do telhado, sobre a qual se apóia a cumeeira, ou seja, o topo do telhado.
Fale com o autor