Entre Cavalos e Números
3 Capítulo 2
Rio de Janeiro — Brasil
Canteiro de obras do Residencial Jasmine
—Então, seu Ezequias, como está o andamento do emboço das paredes internas? —Daniel questionou ao funcionário responsável por coordenar o serviço, enquanto caminhavam por um dos apartamentos do segundo andar.
—Tá tudo certo, seu Daniel. A gente teve uns problemas com o encanamento do banheiro, mas o pessoal da hidráulica já resolveu.
—Muito bem. Semana que vem nós iniciamos a colocação do piso e eu preciso que vocês agilizem ao máximo o serviço. O cliente tá apertando e nós precisamos entregar essa obra dentro do prazo.
—Pode deixar que eu vou dar um gás na turma pra terminar tudo a tempo.
—Ok, seu Ezequias. O senhor por acaso sabe se... — Daniel não teve a chance de concluir a frase, pois foi interrompido pelo toque do celular. Como não conhecia o número, afastou-se do mais velho, procurando um local mais tranquilo para atender a ligação.
"Alô."
"Boa tarde, João. Tudo bem?" — uma voz masculina perguntou, do outro lado da linha.
"Desculpe, mas esse número não é dele."
"Quem tá falando?"
"O senhor quer falar com quem?"
"João Dantas."
"É o meu pai. Quem tá falando?"
"Oi Daniel, tudo bem? Aqui é o Teodoro. O João por acaso tá aí?"
"Oi tio, tudo bem. Meu pai deve estar no escritório da construtora com a minha mãe."
"É que eu tô tentando falar com ele desde cedo, já liguei umas três vezes pra lá e a secretária disse que ele tinha saído. Na última ligação, ela me passou esse número."
"Aconteceu alguma coisa?"
"Não. É que eu preciso fazer uma reforma e construção na minha propriedade e queria conversar com o seu pai a respeito."
"Que tipo de obra seria?"
"Revitalização do hotel fazenda e construção de um galpão."
"É algo muito urgente?"
"Um pouco. Como você sabe, daqui a alguns meses começa a alta temporada e os festivais de inverno na região e eu queria agilizar ao máximo essa reforma pra não causar tantos transtornos aos hóspedes do hotel fazenda."
"Entendi. Se você quiser, a gente pode marcar uma visita pra saber quais são as suas necessidades e a melhor forma de atendê-las."
"Seria ótimo. Quando vocês podem vir?"
"Bem, hoje já é quarta e a semana tá meio corrida, não sei se conseguiríamos ir amanhã ou sexta. Pode ser na semana que vem?"
"Sim, mas eu tenho uma ideia melhor. Por que vocês não vêm passar o fim de semana aqui com a gente? Faz tempo que não vejo o seu pai e a Chang vive perguntando da sua mãe."
"Obrigado pelo convite. Vou falar com eles e retorno a sua ligação, tudo bem?"
"Ok, vou aguardar. Tenha uma boa tarde."
"Boa tarde pra você também." —ao finalizar a ligação, Daniel retornou ao trabalho e foi resolver o que ainda faltava até o fim do expediente.
Mais tarde, ao chegar em casa, encontrou os pais sentados no sofá da sala vendo um filme qualquer que passava na TV à cabo.
—Boa noite, meu filho. — Narcisa foi a primeira a dizer.
—Boa noite, mãe. Boa noite, pai. — disse, dando um beijo em cada um.
—Então, filho, como foi o dia no Residencial? Queria ter ido lá, mas precisei visitar um cliente com a sua mãe e acabou que demoramos mais que o previsto.
—O mesmo de sempre. Tá tudo caminhando dentro do prazo e eu acredito que em dois meses já podemos entregar tudo pro Accetti.
—Que bom!
—Eu só recebi uma ligação do tio Teodoro. Ele disse que tava tentando falar contigo faz um tempo.
—Sério? Tá tudo bem?
—Tá sim. Disse que tá com uma obra pra fazer lá no hotel fazenda e queria a nossa ajuda. Ele, inclusive, chamou a gente pra passar o fim de semana com eles.
—Mas que ótimo! Tava precisando mesmo sair um pouco dessa cidade. O que acha, Narcisa?
—Adorei a ideia, querido. Tô mesmo com saudade da Chang.
—Sinto muito, mas eu não vou poder ir. — Daniel comunicou.
—E eu posso saber o motivo?
—Marquei de ir pra Angra com a Cecília e o George. Ele cismou que quer aprender a surfar e eu fiquei de ensiná-lo.
—Poxa, Daniel, não tem como desmarcar? Seria um fim de semana em família, faz tempo que não passamos uns dias juntos.
—Sinto muito, mãe, mas eu prometi ao George. Além do mais, eu também tô precisando relaxar e vocês sabem que o melhor lugar pra isso é o mar.
—Deixa ele, Narcisa. Filho, pode ir pra Angra. Nós vamos pra Ipiabas, eu converso com o Teodoro e na segunda, assim que chegarmos ao escritório, te informo o que ficou decidido. —João assegurou, sob o olhar decepcionado de Narcisa.
—Obrigado, pai. Mãe, não me olha assim. Você sabe que eu não dispenso uma praia, muitas ondas e um belo pôr do sol.
—Eu sei, meu amor. — Narcisa o abraçou. — Tava só fazendo um drama, jamais te obrigaria a ir a um lugar que eu sei que não se sente bem.
—Ah, é? Bom saber. Quando a senhora me obrigar a ir àquelas festas de final de ano dos nossos fornecedores, cheias de gente chata, vou usar essa desculpa pra não ir. Pai, o senhor tá de prova. — os três riram e João ficou encarregado de ligar para o amigo.
O resto da semana passou sem nenhuma novidade e no fim de semana, conforme combinado, João e Narcisa partiram para Ipiabas. Saíram do Rio às 17h e chegaram à cidade do interior por volta de 19h30. Foram recebidos pelo dono do hotel fazenda e levados à sua casa, que ficava próxima do estabelecimento. Ao chegarem à residência — uma casa de um andar na cor amarela, com janelas de madeira e uma ampla varanda que dava para um jardim — foram acomodados em um quarto de hóspedes, no qual aproveitaram para tomar um banho. Em seguida se dirigiram à sala de jantar, onde Teodoro e Chang os aguardavam com uma comidinha especial feita pela morena.
Durante todo o jantar, a conversa girou em torno das histórias que João e Teodoro viveram no passado, o que arrancou muitas risadas das esposas. Relembraram o tempo em que serviram o exército, os perrengues que passaram no quartel, os bailes que frequentavam na região, entre outros fatos. O papo fluiu de tal maneira que quando foram ver, já passava das 22h. Teodoro pediu licença aos hóspedes, deu um pulo na fazenda pra ver se estava tudo em ordem e só depois de se certificar de que estava tudo bem é que retornou à sua casa.
No sábado, acordaram cedo e enquanto Chang ia pra faculdade dar aula, João, Narcisa e Teodoro foram dar uma volta pelo hotel fazenda. Foram até a casa principal, aos chalés — feitos para aqueles hóspedes que desejam um pouco mais de privacidade, ao lago de pedalinho, às piscinas e ao espaço kids, área reservada pras crianças. Também passaram pelos estábulos onde ficam os cavalos usados para entretenimento dos hóspedes e chegaram aos pastos. Lá puderam ver a enorme criação de gado Guzerá de corte, o verdadeiro orgulho do filho mais velho dos Marcondes. Ele mostrou aos amigos como é feito todo o processo de manejo dos animais — desde a criação através do pastejo rotacionado* até o abate em uma área específica da fazenda — e João ficou encantado com a paixão com que o amigo falava sobre o seu trabalho.
Depois do almoço, enquanto Narcisa e Chang preparavam um delicioso bolo para o café da tarde, Teodoro e João sentaram na varanda da casa e falaram sobre o real motivo da ida do casal a Ipiabas: a reforma na fazenda. Já havia muito tempo que ele e o irmão Francisco estavam querendo reformar a casa e decidiram que aquele era o momento certo, já que o turismo na região crescia a cada ano e o hotel fazenda recebia cada vez mais hóspedes na alta temporada. Também chegaram à conclusão de que os passeios a cavalo não estavam sendo suficientes para entreter os hóspedes. Sendo assim, pensaram em construir um centro de treinamento completo, com todos os obstáculos necessários às provas de salto, tambores e etc. Desta forma, visitantes e moradores da região poderiam desfrutar da atração. A ideia foi bem aceita por João, que deu algumas sugestões do que poderia ser feito e se comprometeu em entregar o primeiro esboço do projeto até o fim da semana seguinte.
Enquanto isso, Daniel se divertia em Angra dos Reis com Cecília e George. Aproveitaram que o tempo estava bom pra ir até a Praia Brava, a praia da Usina Nuclear. Como o próprio nome diz, é uma praia com águas agitadas e muitas ondas, ideal para a prática do surf. Como prometido, Daniel tentou ensinar o marido da prima a surfar, mas George é tão desengonçado que tomou muitos tombos e não conseguiu ficar em pé na prancha um minuto. Quando viu que não ia conseguir, o economista desistiu e foi curtir a praia ao lado da mulher, deixando o engenheiro livre para praticar o seu esporte preferido. Ali, em meio às ondas e ao mar agitado, Daniel se sentiu verdadeiramente em casa. Todo o estresse gerado ao longo da semana por conta das obras no Residencial Jasmine foi embora no momento em que subiu em sua prancha e começou a deslizar entre as ondas. Aquele era o seu lugar preferido no mundo e, não importava o quão agitada e estressante tenha sido sua semana de trabalho, quando estava ali, tudo desaparecia momentaneamente. Dessa forma, o fim de semana passou.
Na segunda-feira, de volta ao escritório da Dantas Engenharia, pai e filho se reuniram na sala de reunião para discutir sobre o projeto de Teodoro Marcondes.
—Então, meu filho, o buraco é mais embaixo do que nós pensávamos. —João foi o primeiro a dizer.
—Por que, pai? O que o senhor viu de tão problemático lá? — Daniel questionou,
—Lembra que o Teodoro havia dito que era só a revitalização do hotel fazenda e a construção de um galpão?
—Sim. O que tem isso?
—Ele e o Francisco decidiram que o hotel precisa de um centro de treinamento completo para as provas de hipismo, não um galpão pra armazenar entulho.
—Centro de treinamento? Provas de hipismo?— perguntou, sentindo um frio na espinha.
—É. Um centro de treinamento com balizas, tambores, obstáculos pra provas de salto, essas coisas. Não sei se você lembra, mas o Francisco competia no Concurso Completo de Equitação, que envolve as provas de adestramento, salto e cross country. Já faz um tempo que ele encerrou a carreira e como surgiu essa necessidade de melhorar as atrações do hotel, os dois decidiram que o Francisco vai dar aulas de equitação tanto pros hóspedes quanto pros moradores.
—Tá, mas o que tem de tão errado nisso?
—Nada. Acontece que o nosso arquiteto especialista em obras rurais tá encostado no INSS e eu vou ter que ficar responsável por esse projeto. O problema é que tem mais um monte de serviços pra fazer e não queria deixar essa reforma nas mãos do Olavo.
—Por que, pai? Ele é tão competente. — questionou, sem entender onde o mais velho queria chegar.
—Sim, mas o dono do supermercado que nós reformamos recentemente reclamou demais dele. Disse que ele foi super arrogante, chegou lá botando a maior banca de engenheiro fodão e eu não posso deixar isso acontecer com o Teodoro.
—Não sabia disso. Amanhã eu vou passar lá no Residencial Rubi e falar com ele. Onde já se viu? Tá arriscado a gente perder um cliente por conta da ignorância desse cara. — revoltou-se.
—Tudo bem. A questão é que eu preciso de alguém pra acompanhar essa reforma no Recanto das Orquídeas e não vejo pessoa mais certa pra estar lá a não ser você.
—Eu?
—Sim. Você já conhece o Teodoro e o Francisco, conhece a cidade e eu vou ficar muito mais tranquilo sabendo que o melhor tá sendo feito. Se eu colocar o Olavo, é bem capaz de ter que ir lá pelo menos duas vezes na semana pra supervisionar o trabalho dele. Eu sei que essa questão do centro de treinamento te assusta um pouco, mas eu realmente preciso da sua ajuda. Topa entrar nessa comigo, filho?
—Eu vou ter que chegar perto dos animais?
—Creio que não.
—Então pode contar comigo, seu João.
Aliviado por contar com a ajuda do filho, João explicou a Daniel a real situação do hotel e os dois começaram a discutir detalhes do projeto. Trocaram ideias, analisaram alguns pontos e ao final do dia, já tinham uma noção do que seria feito. O mais velho ficou responsável pela elaboração da planta, enquanto o engenheiro acompanhava a obra do Residencial Jasmine. Caso o projeto fosse aprovado, Daniel seria o responsável por executar a obra em Ipiabas.
* Pastejo rotacionado é um sistema caracterizado pela mudança dos animais de forma periódica e frequente de um piquete para outro de forma sucessiva, voltando ao primeiro após completar o ciclo.
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