Entre Carícias e Lobos
1 Entre Carícias e Lobos
Notas iniciais

O castelo de Winterfell regozijava-se com algo que não sentia há bastante tempo: o sinal claro de sangue Stark pingando no solo e manchando as pedras do local. Sangue bem-vindo pelo seu propósito e pelo motivo como viera. O Stark sangrando divergia do modo como os outros haviam sofrido o mesmo destino: esse sangrava pela vitória, por estar finalmente colocando os pés em solo familiar. O líquido vermelho escuro que pingava de suas feridas era praticamente uma oferta e um sacrifício único; ele poderia entrar no castelo, respirar o ar gelado que o local sempre tinha e por fim fechar os olhos até ser embargado por aquela sensação inquieta e prazerosa que não o tomava desde que saíra dali, alguns anos antes: a sensação de estar, enfim, em casa.
Sansa conseguia ver como ele estava cansado, bem como parecia um pouco perdido com tudo o que estava acontecendo naquele momento. Seu rosto, uma máscara vermelha de êxtase e dor, às vezes se contorcia em uma careta quando os cortes profundos repuxavam, lembrando-o de que estava a tempo demais sem se cuidar. Deveria deitar-se, descansar e tratar de assuntos de posses outro dia, quando a terra úmida de Winterfell já tivesse engolido o sangue inimigo e desaparecido de vez com todos os rastros daqueles homens vis.
Os olhos extremamente negros encontraram os dela por breves segundos, e neles Sansa conseguiu distinguir tanto a gratidão quanto a exaustão que o tomava aos poucos. Mas aquelas orbes escuras fizeram com que uma estranha sensação percorresse seu corpo, também cansado, e atingisse diretamente o centro do seu peito. Ela o via com outros olhos agora. Não sabia se era a fé que trocara com Jon, ou se fora por finalmente vê-lo sair debaixo do casaco pesado de seu pai e tomar um caminho de vida muito diferente do que estava esperando vê-lo seguir.
Jon agora era um homem adulto, e com isso vinham todos os aspectos que um homem daquele tipo possuía: coragem para enfrentar os inimigos, grandes responsabilidades nas costas, uma maturidade que fazia com que ela confiasse nele — colocando-se à sua disposição para tudo — e, finalmente, uma energia forte que emanava do seu corpo e chegava aos olhos, fazendo com que ela se aproximasse cada vez mais dele, sem realmente perceber o que estava fazendo.
Perceber até aquele momento. Sansa não conseguia desgrudar os olhos de Jon Snow, ou, para ela naquele momento, Jon Stark. Não conseguia sequer parar de observar aquele homem adulto que um dia fora seu irmão bastardo, mas que agora tomara uma posição completamente diferente em sua vida.
Mas que posição era aquela? Sansa não conseguia dizer a si mesma, pois temia a resposta que fatalmente encontraria.
[...]
O tempo passou mais rápido do que ele imaginara. Logo após a retomada do Norte, o inverno se instalou por toda a área, deixando praticamente impossível que pessoas de outras vilas chegassem a Winterfell ou que o castelo fosse preenchido com visitas. A temporada de negociações havia sido levemente suspensa e tudo estava relativamente calmo; a névoa que encobria o Norte fazia com que o castelo ficasse invisível até aos olhos mais astutos, e a neve que cobria o solo, fazendo com que se tornasse um obstáculo impossível de quebrar.
Naquele frio costumeiro e familiar, Jon sentava-se à mesa e bebia calmamente um cálice de vinho, sentindo o líquido quente correr por sua garganta e aquecer seu corpo. Desde que chegara a Winterfell evitava a cerveja, já tomara bastante disso na Muralha. Escutava as conversas travadas na mesa de forma desatenta, sua audição captando apenas palavras de seu interesse. Mas quando o tom de voz dela chegou a seus ouvidos, ele finalmente descolou os olhos negros do cálice e levantou-os, a fim de observá-la. Não falava diretamente a ele, pelo contrário, estava do outro lado da mesa comprida e beliscava levemente uma torta de carne de pombos, que fora assada e servida minutos atrás. Jon não sabia quanto tempo ficara ali, observando-a de forma discreta e até mesmo envergonhada. Envergonhada, sim, pois há algum tempo não conseguia mais olhar para Sansa e aceitar que aquela garota cheia de vontades infantis e sonhos inocentes havia se tornado a mulher que estava a sua frente. E quando os olhos extremamente azuis encontraram os dele, a boca rosada que antes se movia para travar conversas supérfluas esticou-se em um sorriso que fez até mesmo o salão gelado do castelo aquecer-se, e com isso, consequentemente, ele também.
Jon desviou os olhos de Sansa, tentando enfiar em sua mente que o vinho bebido havia distorcido sua mente e enfiado imagens estranhas em sua cabeça. E, embora estivesse um pouco embriagado, sabia que era nela em quem ele pensava todas as noites antes de dormir, quando se deixava se jogar na cama quente e escutava o leve crepitar da madeira na lareira, pensando seriamente que um corpo ao seu lado faria com que as noites fossem menos solitárias. Ele não se permitia pensar que o corpo que desejava ao seu lado fosse o dela, não quando estava tão próximo de Sansa, quando ela estava tão alcançável. Mas sim, era o corpo de Sansa Stark que imaginava cobrir com o seu, era o corpo dela que ele secretamente ambicionava percorrer com as mãos calosas.
Mas Sansa era tão proibida para ele quanto a liberdade para um homem da Patrulha da Noite.
[...]
Escutou passos cortando o silêncio do corredor de pedra e voltou seu corpo em direção ao som, esticando o pescoço para ver quem era. O fogo das tochas já estava fraco, em breve a pouca luz ia ser engolida pela escuridão. Mas aquilo já não a amedrontava mais, não depois que voltara a percorrer tantas vezes aquele castelo como Sansa Stark.
Depois da batalha pela retomada de Winterfell, quando andava no castelo pela noite conseguia ver os fantasmas dos inimigos caminhando pelos corredores, ou até mesmo sentir o cheiro de morte pairando no ar. Conseguia também sentir a presença de Ramsay Bolton em algumas salas específicas, mas depois de um tempo aquela sensação perturbadora havia passado. Principalmente pela noite, quando via rostos familiares virando corredores ou retirando os pratos do jantar.
Naquele momento, o rosto que cortava a luz bruxuleante das tochas era o rosto que ela mais buscava ver.
— Jon.
Ela deixou escapar o nome e apenas aquele sussurro fez com que ele parasse e percebesse que não estava só. Parecia imerso em pensamentos, alheio ao que estava a sua volta, mas se aproximou dela quando a viu, um pouco cauteloso e lento. Sansa perguntou a si mesma o motivo disso e só quando ele finalmente estava próximo o suficiente, percebeu certa preocupação em seus olhos.
— O que houve? — ela o questionou.
Jon demorou a entender a pergunta, mas não a respondeu de fato.
— O que está fazendo andando pelo castelo? — ele perguntou. — Já é tarde.
O meio sorriso que Sansa lhe deu fez com que sua mente, que já estava um pouco atordoada pela quantidade de vinho, ficasse ainda mais confusa.
— Às vezes gosto de andar pelos corredores à noite. É quando consigo me conectar ainda mais a Winterfell. Preciso saber que estou no lugar que chamei de lar.
Jon se aproximou dela de forma repentina, mas nem por isso Sansa recuou. Apesar de tudo o que havia sofrido nas mãos de homens vis, sabia que ele nunca lhe faria mal, nem se realmente precisasse. Porém, Jon a surpreendeu quando colocou as mãos cobertas com grossas luvas de couro em seu rosto, e ali ele as pousou uma em cada lado, segurando-a com tranquilidade.
— Você está em casa, Sansa — ele disse com convicção. — E não sairá dela nunca mais. Não enquanto eu viver.
A urgência como aquilo foi dito fez com que um arrepio percorresse o corpo dela. Ele sentia... Sansa poderia jurar que ele sentia o mesmo que ela, aquele sentimento que estava estrangulando os dois em palavras não ditas e toques não dados, porque ambos não ousavam. Não ousavam quebrar aquela frágil barreira que separava dois irmãos afastados pelos acontecimentos de uma guerra sangrenta, de dois adultos que desejavam um ao outro e não se importavam muito com as consequências disso.
Afinal, até que ponto Jon poderia ser considerado seu irmão?
Sansa não queria pensar muito nisso. Aquela pergunta martelava em sua mente desde que o vira anos depois na pequena ala de Castelo Negro, desde que correra em direção a ele e Jon a pegara nos braços. Conseguia sentir sua força, que vinha não somente dos músculos adquiridos pelos anos de batalha, e sim da maturidade que ele emanava. E foi ali, pela primeira vez depois de tudo, que se sentira verdadeiramente protegida.
— Jon... — Os lábios vermelhos se abriram para dizer algo, mas Sansa engoliu em seco para tentar fazer com que as palavras voltassem. — Obrigada.
Ele a fitou com aqueles olhos de corvo, e naquele momento, Sansa percebeu que Jon tomara uma decisão pelos dois: ele finalmente iria quebrar a frágil barreira que os separava e daria o primeiro passo decisivo para que Sansa embarcasse naquela loucura junto a ele. Ela não objetou, apenas esperou os lábios encontrarem os seus e sentiu-os quentes sobre sua boca, bem como as mãos que lhe deixaram e correram para seu ombro. Jon a puxou para si e a pressão da boca aumentou, obrigando-a a abrir-se para ele, sentir a língua buscar a sua e encontrar com facilidade absurda, o sabor do vinho ainda presente no gosto dos lábios carnudos, cobrindo os dela com todo o desejo reprimido.
Sim, ele estava finalmente a tocando. Tocando-a da forma como queria desde que a vira depois de tantos anos e correra em sua direção para abraçá-la, em um gesto desesperado e protetor. Naquele momento, sentiu o corpo de Sansa prensá-lo, sentiu como ela havia crescido. A inocência havia dado espaço para uma maturidade adquirida à força. Ela não era mais uma criança sonhadora e sim uma mulher, quebrada das mais diversas formas possíveis. E Jon agora estava lá, ao seu lado para cercá-la de afeto e proteção e nunca mais deixar que as pessoas violassem seus sonhos novamente.
A parede o impediu que a empurrasse mais, e ele finalmente conseguiu prensá-la, dessa vez de uma forma diferente. Sansa não usava a capa grossa feita de pelos, muito menos os vestidos de lã pesada. Jon conseguiu sentir cada nuance do seu corpo, mesmo com a mão coberta pelo couro grosso da luva. Conseguiu escutar a respiração de Sansa cada vez mais pesada, bem como as mãos femininas pousadas em seu peito e puxando-o vagarosamente cada vez mais pelo gibão.
Os lábios dele eram tão tenros e urgentes... Como poderia ser os dois ao mesmo tempo?
O cheiro de madeira queimada emanava do seu corpo, bem como o da neve impregnava os cachos grossos de seu cabelo escuro. Jon era inverno, mas a aquecia de uma forma que Sansa nunca sentira em vida, e quando colou o corpo ainda mais fortemente ao dela, seu desejo foi sentir toda a força que ele carregava consigo de uma forma que ambos buscavam naquele momento.
E então, com relutância e verdadeiro controle, ele se afastou. Ela abriu os olhos e percebeu que Jon ainda mantinha os seus fechados, como se realmente estivesse fazendo uma oração aos deuses, mas Sansa sabia que sua religiosidade já não existia mais.
Jon respirou fundo e Sansa sentiu novamente o cheiro do vinho que ele bebera.
— Desculpe-me, Sansa — pediu gentilmente. — Eu... Eu sou um tolo.
Antes que ela pudesse retrucar e dizer que Jon era tudo menos um tolo, foi-se. Sansa ficou ali, sozinha naquele corredor frio com o vento gelado correndo por sua pele e tremeluzindo os resquícios do fogo das tochas, que não demorou a apagar.
[...]
Ele a evitava a todo custo. Sansa não via Jon há dias, mesmo sabendo onde ele se encontrava a cada momento. Por mais que quisesse ir atrás para tentar conversar, sabia que se ele não queria encontrá-la, precisava respeitar sua decisão. Mas a decisão de Jon era baseada em um pensamento equivocado. Ele achava que havia ultrapassado os limites, e que se distanciar de Sansa era a coisa certa a fazer. Sansa tinha um pensamento completamente oposto. Haviam ultrapassado os limites, sim, mas qual limite não tinha sido derrubado durante a guerra? Ela não queria o distanciamento. Queria exatamente o contrário daquilo tudo: queria Jon.
Foi andando no mesmo lugar onde ela dissera que o inverno estava em Winterfell que o viu, depois de tantos dias. Não próximo a ela, infelizmente ele nem mesmo conseguia vê-la. Sansa se debruçou sobre o muro de pedra e encostou-se ali para observá-lo melhor. A tarde estava quase terminando e o crepúsculo fazia com que a neve do local ficasse em um tom levemente azulado; os pequenos flocos insistiam em cair e amontoar-se em locais diversos, fazendo com que o trabalho dos nortenhos ficasse ainda mais difícil.
Jon estava logo ao lado da casa onde os ferreiros passavam boa parte do tempo fazendo consertos nas armaduras, machucadas pelo tempo e pela batalha travada há meses. Permanecia em uma pequena casa coberta de palha e neve, com apenas um fogo fraco para iluminar o local, mas Sansa conseguia ver perfeitamente os movimentos dele ali dentro. Por mais que o inverno tivesse se instalado no Norte, Jon estava sem camisa e o suor que percorria os músculos do seu corpo mostrava o quanto estava cansado. Mas os braços não paravam o trabalho e o abdômen ficava ainda mais evidente quando ele levantava os punhos para logo depois abaixar o machado largo pela tora de madeira, partindo-a em duas.
Sansa observou-o por longos momentos, parte por estar hipnotizada em vê-lo um pouco despido, parte por conseguir capturar nos movimentos dele certo desespero, como se Jon estivesse cortando madeira mais para ficar exausto do que para ter lenha para o fogo pela noite. O céu agora estava coberto por uma neblina densa, o manto escuro havia tomado toda a claridade do dia e a noite finalmente se instalara. Ela continuou a observá-lo por longos momentos, até a névoa encobri-lo completamente. Assim, finalmente tomou uma decisão, e com ela em mente, deu meia volta, saindo do local e finalmente entrando no castelo.
[...]
Sansa não estava presente no jantar, e aquele fato não passou despercebido por Jon, que apesar de está-la evitando, tinha os olhos sempre atentos sobre ela. Conseguia sentir sua falta até mesmo nas reuniões, momentos que ela começara a compartilhar consigo, mesmo insistindo naquele título ridículo de Rei do Norte. Para Jon, Sansa era a verdadeira detentora do Norte, e ele era apenas seu protetor.
Mas que tipo de protetor desejava tanto o corpo de sua protegida a ponto de sentir dor no baixo ventre?
Ele tomou um gole de vinho, mas não tocou na bebida depois, lembrando-se do que ela havia feito em seus pensamentos dias atrás. Jon gostaria muito de colocar toda a culpa no líquido denso que agora fitava, enquanto girava o cálice, mas sabia que o que havia ocorrido naquele corredor era completa culpa dele. O vinho apenas retirou todos os véus de preocupação e noção de responsabilidade que ainda possuía.
Mal tocou na comida, e apenas meneou a mão quando alguém perguntou por Lady Sansa. Mas depois de um tempo, sua curiosidade venceu e ele chamou uma das aias dela e perguntou por onde andava.
— Lady Sansa foi se deitar mais cedo. Disse estar cansada. — Ao ver a preocupação nos olhos do seu rei, a aia o acalmou. — É apenas uma indisposição.
Jon assentiu e dispensou-a, saindo logo depois da mesa e desejando boa noite a todos que ainda estavam ali. Decidiu subir ao quarto e tomar um banho para tirar o suor de sua roupa. Havia cortado madeira a tarde inteira em uma tentativa tola de fazer com que seu corpo chegasse à exaustão e sua mente estivesse bloqueada para pensamentos tolos que estava tendo nos últimos dias. Mas ao fechar a porta do quarto e respirar o ar cálido do cômodo, percebeu que sua tentativa falhara miseravelmente. Ali, no quarto escuro, a solidão o embargava e o desejo pelo corpo proibido o abraçava fortemente.
Fechou os olhos e engoliu em seco, retirando o cinto e colocando-o no chão junto à espada e aos adereços. As mãos fizeram o trabalho de desabotoar a proteção de couro que impedia que o vento gelado chegasse ao gibão e as botas foram arremessadas para um canto qualquer do cômodo. Jon se sentou em uma cadeira confortável, colocando os cotovelos nas pernas e abaixando a cabeça para pensar um pouco sobre tudo o que estava acontecendo, mas não conseguia tirá-la da cabeça. Respirou fundo e soltou o ar vagarosamente pelo nariz, levantando-se e indo em direção a uma grande tina que ficava em cima de um móvel. Jogou a água gelada no rosto e sentiu a temperatura fazer com que sua mente se tornasse mais clara. Percebeu que estava melhor depois de um tempo ali, mas quando achou que estava livre de pensamentos impróprios, mesmo que momentaneamente, ela apareceu.
Em uma fração de segundos ele tinha em mente deitar-se na cama e dormir, mas ao virar o corpo e vê-la ali, em seu quarto, tais convicções se misturaram ao vento do Norte e distanciaram-se de tal maneira que Jon nunca mais as viu.
— Sansa. — ele disse tolamente. — O que faz aqui? Aconteceu alguma coisa?
Ela não respondeu de imediato e apenas se aproximou dele, percebendo como os olhos negros captavam cada movimento seu.
— Preciso conversar com você. – disse.
— Pensei que já estivesse dormindo. — Jon admitiu.
— Todos acham que estou.
Ela permaneceu calada, e naquele momento ele percebeu certa malícia naquela frase. Engoliu em seco, fazendo com que ela reprimisse o riso. Às vezes Jon voltava a ser o garotinho bastardo de quem ela se lembrava.
— Bom... O que precisa conversar comigo? Sabe que sempre pode contar comigo, quando quiser... — ele disse.
Sansa sabia que aquelas promessas eram voltadas à política do Norte e conselhos de irmão para irmã, mas o assunto que ela queria tratar com Jon naquele momento fugia completamente daqueles dois tópicos.
— Preciso conversar com você sobre o que aconteceu naquela noite, no corredor.
Naquele momento, Sansa percebeu-o ficar tenso. Os ombros e as costas não se moveram um centímetro e os olhos astutos agora estavam atentos a tudo. Ela voltou a se aproximar dele, mas Jon não recuou. Pelo contrário, parecia dar um pequeno passo a frente de forma involuntária, sem realmente perceber o que estava fazendo.
— Sansa, aquilo foi um absurdo. — Ele parecia procurar as palavras corretas. — Foram as ações de um tolo.
— Você pode ser tudo, menos um tolo. — Sansa o interrompeu. — Um tolo não toma o Norte com apenas uma batalha.
Jon queria ter dito que, para ele, aquilo não havia sido apenas uma batalha. Dissera em Castelo Negro: estava cansado de batalhas, havia enforcado uma criança e matado seus próprios homens. Retomar o Norte havia sido um grande sacrifício.
Mas agora, naquele exato momento, a batalha que estava enfrentando conseguia ser ainda mais difícil do que todas as outras que havia vencido.
— Jon... — Ela finalmente deu um último passo, ficando agora de frente para ele numa distância tão curta que Jon conseguia sentir seu perfume de flores. — Preciso pedir que esqueça isso... Você aceita meu pedido?
— As imagens daquela noite irão me seguir sempre, lembrando-me de como consigo manchar tudo o que é o correto... e puro. — Ele a fitou com intensidade. — Me desculpe, Sansa... Sei que errei.
— Não estou pedindo para você esquecer o que houve naquela noite. Estou pedindo para que pare de pensar que é um tolo.
— Mas...
— Eu quero você, Jon. — ela o interrompeu, fazendo-o se calar em surpresa. — Não como um irmão bastardo e muito menos como irmão. Quero você como meu protetor. — As mãos femininas foram em direção ao peito largo, sentindo ali o gibão quente que ele usava e o coração batendo fortemente dentro do peito. — Quero você como homem.
Sansa sabia que tomara uma decisão que não teria volta, e dizer aquilo diretamente a ele poderia ser uma loucura, mas não poderiam ficar como estavam. Jon teria que fazer algo. Ou se afastaria de vez dela, e Sansa não conseguia sequer pensar em perdê-lo depois de tudo que haviam passado, ou desistiria de lutar contra um sentimento quase corrosivo e se entregaria àquele momento de insanidade.
Ele escolheu a segunda opção.
Jon não deveria tê-la olhado naquele momento. Mas quando o fez, percebeu que já era tarde. Sua resposta veio em forma de toque, os lábios carnudos e quentes voltaram a encontrar os de Sansa, em um primeiro momento de forma relutante, como se estivesse pedindo permissão e desculpas pela ousadia em tocá-los novamente. Depois, quando percebeu que Sansa não havia recuado diante de seu toque, Jon não parou. Sua língua encontrou a dela de forma intensa e as mãos masculinas e judiadas pelos anos de manejo da espada encontraram a cintura delicada, apertando a carne trêmula.
Sansa percebeu que o toque dele parecia tímido de certa maneira, mas depois de um tempo as mãos tomaram confiança e Jon pareceu acreditar que ela estava ali, e não ia oscilar naquela decisão. Agora, sem as luvas de couro grosso, ele conseguia até mesmo sentir a temperatura elevada que o corpo feminino possuía, e sorvia o gosto dela com a boca, bem como suas curvas com o toque. Queria mais, queria mais daquele corpo, queria mais de Sansa Stark.
Foi com aquele pensamento pecaminoso em mente que a puxou para si, pegando-a no colo e rumando para a cama, onde a colocou com certo cuidado, sentindo o cheiro floral impregnando seus sentidos. Sansa esperou pacientemente que ele retirasse o gibão negro — a cor que nunca abdicava — e o jogasse de qualquer forma no chão. Esperou que Jon se despisse até ficar parado a sua frente. A luz da lareira percorria sua pele pálida e coberta de cicatrizes. Sansa lembrava de alguns cortes, heranças da batalha de Winterfell. Seus olhos claros correram por toda a extensão do corpo revelado, apreciando cada imperfeição que uma lâmina inimiga deixara ali, aquilo fazendo com que ela o desejasse ainda mais.
Ele se juntou a ela na cama, olhando-a intensamente. Sansa conseguiu encontrar certa inocência naqueles olhos escuros, mas Jon estava imerso na sensação que os olhos claros lhe proporcionavam. Com uma calma absurda e prazerosa, ele começou a desatar cada cordão do vestido, até fazer com que as barbatanas do corpete ficassem mais soltas para que fosse possível abaixar o tecido claro. Os seios de Sansa ficaram expostos e a mente dele foi preenchida com lascívia, sentimento que catalisou em gestos, abaixando até o corpo feminino para capturá-los com a boca, sugando-os quase reverencialmente. Sansa arqueou o corpo, o que facilitou o trabalho dele, sentindo a mão de Jon subir por sua perna e afastar o vestido no processo. Ele percorreu a pele sedosa com as mãos calosas, sentindo-a quente. Tocou-a nas panturrilhas, subindo as mãos até as coxas e estacionando-as em seu ventre, para retirar os lábios de seus seios e afastar-se o suficiente para fitá-la nos olhos. O negro das orbes parecia ainda mais escuro.
Sansa percebeu que ele queria continuar com aquilo tudo, mas ao mesmo tempo parecia um pouco perdido, como se realmente estivesse indeciso no modo correto de como tocá-la. Mas ela tinha a convicção de que ele já havia tocado outra mulher daquela maneira, pois realmente só conseguia se concentrar em seu toque e em como os olhos escuros pareciam buscar sua alma. Jon descobria seu corpo e sua alma ao mesmo tempo.
Então, ele a tocou. Sansa não queria admitir a si mesma, mas sentiu certo receio nessa parte. Suas experiências com homens não eram as melhores, mas os dedos de Jon a fizeram se esquecer de tudo o que havia vivido, fazendo com que os sentimentos ruins desaparecessem facilmente de sua memória e abrissem espaço para o prazer da forma mais crua possível, um prazer que nenhum homem deveria negar a uma mulher. E ele não negou, introduzindo um dedo em seu centro no mesmo momento em que finalmente voltara a sugar seus seios.
Sansa conseguia sentir o cheiro de suor no corpo dele, assim como de madeira em seus cabelos negros e densos, o mesmo aroma presente no dia em que Jon a beijara. Queria mais dele, queria os lábios de Jon sobre os seus. Com a mão livre, puxou-o pelo cabelo e Jon finalmente levantou o rosto, tomando os lábios dela com certa urgência.
As mãos fortes foram em direção ao vestido e Sansa percebeu que ele lutava para se desfazer daquele monte de panos que o impedia de ter acesso ao seu corpo. Ela se sentou na cama, levantando os braços e ajudando-o no processo. Com um puxão um pouco delicado e ansioso, ele finalmente jogou o vestido para o chão, fitando-a como se estivesse descobrindo algo completamente novo. E estava. Jon não se deitara com outra mulher além de Ygritte, e Sansa era diferente. Havia nela certa delicadeza que não encontrara no corpo da selvagem e ansiava por cada nuance daquela pele, pelo motivo de cada curva pertencer a Sansa.
Ele sentiu seu rosto pegar fogo ao perceber que ela esperava o fascínio dele passar. Jon engoliu em seco e deitou-a calmamente no colchão, posicionando-se entre as pernas dela, mas antes de afundar-se dentro de seu corpo, olhou-a nos olhos e percebeu as orbes azuis em fogo, bem como os lábios rosados em expectativa.
— Eu... Me avise se você sentir algo... — ele pediu gentilmente.
Ele mexeu levemente o quadril com certa delicadeza, invadindo-a vagarosamente e sentindo-a apertar-se em volta dele. Sansa esperava dor, vergonha ou até mesmo resistência, mas ele se afundou nela como se pertencesse àquele lugar. Em vez da dor lacerante que já havia sentido naquele ato, seu corpo foi coberto por um prazer completo, e a resposta dela foi arquear-se em direção ao fornecedor daquele prazer. Jon soltou um gemido culpado que estava contendo. Ela estava quente e úmida, e foi praticamente impossível reprimir a reação do seu quadril, que afastou e voltou a encontrá-la, o membro agora deslizando para dentro mais facilmente.
— Eu não suporto pensar em você com aquele monstro. — ele confessou em meio aos movimentos. — Um homem nunca mais a tocará daquela forma, ou de qualquer outra.
Sansa respondeu com gestos, as pernas o puxando cada vez mais para si, sentindo o membro afundar-se nela cada vez que ele movimentava o quadril. Jon abaixou-se, mas não a beijou, enfiando apenas o rosto na curva do pescoço feminino e sentindo o cheiro que o deixava louco; a pele sedosa que ele cobriu com os lábios e sugou fortemente, como se quisesse possuir até mesmo a essência dela.
E Sansa sentiu. Sentiu-o tomá-la cada vez mais, sentiu seu corpo corresponder a cada investida e esqueceu-se de que estava se deitando com alguém que a vida toda chamara de irmão, mesmo que soubesse de sua origem bastarda. Esqueceu-se completamente de que era errado, mas nunca poderia deixar de esquecer que era Jon quem estava a reivindicando naquele momento. E pela primeira vez, ela se doou por completo, obedecendo a tudo.
E depois o prazer completo veio como um bálsamo, fazendo-a abrir os lábios e arfar em excitação pura, cada músculo perdendo a força no mesmo momento em que seu corpo era embargado por uma sensação incontrolável.
Jon não parou, mas também não deixou de ficar extasiado ao vê-la completamente entregue a ele. Um sentimento proibido e egoísta que o deixou a ponto de finalmente parar seus movimentos, invadindo-a uma última vez e buscando seu próprio ápice, ao mesmo tempo em que beijava novamente seu pescoço.
Sansa sentia a respiração dele em sua pele e o peso do corpo cansado prensá-la no colchão. Ficaram assim por um tempo, ambos apreciando o corpo exausto e satisfeito um do outro. Ele se afastou brevemente dela, ainda entre suas pernas, e deu um beijo casto entre seus seios, mordiscando ali levemente. Sansa sorriu.
Jon finalmente levantou o rosto. As orbes negras carregavam preocupação, mas não arrependimento. Sansa conseguia encontrar nos traços do rosto dele as perguntas que embargavam sua mente naquele momento: o que iriam fazer agora? Na verdade, como iriam conviver com aquela ânsia pelo corpo um do outro, e com a consequente saciedade quando finalmente quebravam os limites do permitido?
— Bom... Você nunca foi meu irmão... Bastardo. — ela respondeu a pergunta que ele estava prestes a fazer, fazendo ironia com um assunto delicado. — Teremos tempo o suficiente para arrependermos dessa loucura.
— Tempo é o que menos teremos a partir dessa noite. — Ele voltou a beijar o vale dos seios dela.
O sorriso de Sansa foi a confirmação de que ela concordava com aquela atitude egoísta. Logo ele voltou a se aproximar dela, tomando os lábios aveludados com os seus. Sansa sentiu o corpo dela corresponder àquele toque, bem como Jon voltando a se aproximar por entre suas pernas. Os braços dele a tomaram protetoramente, e Sansa compartilhou da mesma sensação que a embargara quando o reencontrou em Castelo Negro. Jon era seu protetor, sua muralha, e sempre seria.
Já ele era tomado por suas próprias convicções. Naquele momento, Sansa Stark era sua, sua Lady, sua Rainha. Sansa Stark era tudo.
Fale com o autor