Entre Barreiras de Uma Nação
10 Capítulo 9 - Não ajudo espartanos.
Notas iniciais
O que lhe parecia ter sido um sinal divino agora já parecia castigo. Caminhara por horas debaixo da chuva forte e parecia não haver um sinal sequer de civilização. O que aquilo tudo queria dizer? Deveria ser punida por tentar salvar seu pai?
As lágrimas que antes eram de alegria agora eram de desespero. Por conta da chuva a terra virou lama o que a impossibilitava de andar corretamente. Tombou por diversas vezes, e seus braços já estavam flagelados de tanto tentarem a reerguer. Acabou voltando a sua posição inicial – sentada orando aos céus para que os deuses tivessem compaixão.
A viagem não havia sido uma boa idéia. Enquanto atravessava o mar de Creta a chuva parecia vir atrás de nós; o céu tornava-se escuro e a inquietação no coração do jovem Alexandre parecia crescer conforme as nuvens se tornavam mais espessas.
Foi questão de algumas horas para que a chuva alcançasse a embarcação. As águas se tornaram rebeldes e o vento rugia bravamente. Seria aquilo Poseidon avisando que não deviam navegar por tais águas?
- Senhor! Não poderemos avançar até Creta.. Devemos parar na península do Peloponeso e de lá caminharemos até o porto mais próximo da ilha. – Urrou o capitão do navio em direção ao jovem louro.
- Como assim? Quanto tempo demora a caminhada até a beira da península? – Alexandre obviamente não queria ter de ir caminhando, as poucas horas que seriam a navio iriam se transformar em dias se fossem feitas a pé.
- Por volta de três dias senhor.
- Ah não! Vamos para Creta direto...
- Você é louco?! – questionou o capitão sem esperar resposta – Vamos para a península. Não quero morrer por conta da fúria de Poseidon.
- Está bem... Vamos lá. – Respondeu relutante, embora aquilo não tivesse sido uma pergunta.
Com velocidade o capitão mudou o rumo da embarcação em direção à terra. Em trinta minutos ancoraram e tiraram as coisas para seguirem rumo ao porto. O capitão ficaria junto com a embarcação até que a chuva parasse e lá seguiria para o porto, enquanto os outros seguiriam a pé. Dessa forma a perda seria menor caso algum incidente ocorresse.
- Rapaz, você vem conosco? – Indagou um dos tripulantes do navio que partiriam imediatamente.
- Não... Pretendo ir por um antigo caminho que meu pai ensinou quando eu ainda era garoto. Fará bem se lembrar de algumas coisas – Inventou uma desculpa qualquer para não seguir junto com aquele grupo de que nada gostava.
- Pois muito bem. Esperamos-lhe no porto, vemo-nos em três dias – E com um aceno do braço um rapaz alto e de cabelos castanhos se despediu.
- Até – Rebateu sem muito entusiasmo erguendo apenas a mão direita.
Ficou observando eles partirem por algum tempo, e logo seguiu sua jornada por um caminho oposto. A chuva já estava ficando mais fraca, porém ainda incomodava quando era juntada com o vento gélido que provinha do mar.
Caminhou por horas a fio, já devia ter chegado em alguma civilização. Pelo menos havia sido assim quando tinha vindo com seu pai, a menos que... Tivesse se perdido. Ah céus! Era isso, ele havia se perdido.
Já desanimado continuou sua caminhada, não era hora para voltar atrás, isso só provaria àqueles homens brutamontes que havia errado ao se separar do grupo. Com uma trouxa sobre os ombros e os pés se arrastando seguiu viagem por algum tempo.
Já era noite e a lua pairava alto. A chuva já não mais caia e com toda certeza seria melhor parar de caminhar e acampar em algum lugar. Por sorte havia trazido o suficiente para armar uma barraca improvisada. Caminhou por mais algum tempo e ao longe avistou uma árvore alta. Era o lugar ideal! Conforme aumentava a velocidade para chegar ao seu lugar de descanso uma imagem foi se tornando visível.
Uma menina estirada ao chão estava ao lado da árvore. Estava toda enlamaçada, os cabelos eram castanhos e caiam sobre o chão. Os membros estavam flagelados, provavelmente era alguma fugitiva. De que lugar seria?
Em alguns minutos estava ao seu lado, e agora o luar iluminava sua face e conseguia ver com mais clareza os traços da menina. Era jovem, sem ter um corpo exuberante, embora ter um corpo com esse adjetivo combinado com machucado seria algo difícil.
Com cuidado virou a garota que estava de lado para uma posição mais confortável – de barriga pra cima. Ele tinha que ajudar aquela garota! Poderia ser a sua primeira ação como médico... Sim sim, e logo poderia contar à Ulisses e quem sabe melhorar sua posição no hospital.
- Moça... Er... Moça? – Chamou baixo cutucando-a – Está me ouvindo? – Ela parecia não ouvir ao chamado. Estaria morta?
Com muita cautela aproximou o rosto da boca semi aberta para ver se ainda respirava. Uma brisa, quase como um sussurro provinha da boca da jovem. Ela estava viva, porém fraca.
- Moça, acorde... – O cutucão dessa forma foi um pouco mais forte e a voz um pouco mais forte.
Aos poucos os olhos da pequena foram se abrindo e uma imagem foi se projetando. Um rapaz louro e de ombros largos estava a sua frente, com o rosto próximo ao seu... Seria um sonho? Não, ela não sonhava havia um bom tempo, por que haveria de sonhar agora? Estaria morta... ah, não podia nem pensar nisso.
- O...o que aconteceu? – Tentou se erguer sobre os braços para sentar, porém tombou. A dor foi eminente. Agora sabia que não estava morta, nem sonhando. – Quem é você?
- O que lhe aconteceu eu não sei... Vim caminhando para uma jornada, ia acampar sobre esta árvore, porém você estava aqui. Tentei chamá-la algumas vezes porém você não me respondeu. – Sua voz era grossa e ainda assim suave e pela primeira vez em dias se sentia calma – Sabe me dizer o que lhe aconteceu? De onde vem?...
- O senhor apenas me fez perguntas, mas não respondeu nenhuma das minhas – Apesar de se sentir melhor ao lado do rapaz sua guarda permanecia levantada e seu jeito permanecera o mesmo – Quem é você?
- Sou Alexandre, de Atenas. E você é? – Os olhos da jovem esbugalharam. Por quê? Por que dentre tantos gregos, logo um ateniense tinha de encontrar com ela? Agora estava acabado, com toda certeza ele a deixaria ali, largada ao relento.
- Sou... Helena – Não podia mais falar que era de Esparta, uma vez que havia sido banida.
- Helena apenas? Sem pátria? – Ele indagou confuso.
- Sim... Originalmente sou de Esparta, mas uma vez banida... – Helena não pode finalizar a frase
- Esparta? – O jovem se ergueu rapidamente e seu semblante antes pacífico agora demonstrava raiva. – Eu devia imaginar que uma moça tão desleixada vinha de lá – A sua voz era ríspida, e o tom era mais grave e assustador.
- Desleixada? Senhor, fui banida, maltratada... Passei por diversos problemas desde que fui lançada para fora de minha cidade – A voz embargada saia com muito esforço. Como ele podia falar assim dela? Daquela forma? Sem nem ao menos a conhecer.
- Então são piores do que imaginei e do que disseram... Maltratam o próprio povo. – As palavras pareciam ser cuspidas sobre a dona dos orbes castanhos.
- Não... não... Não são todos assim... – As lágrimas irrompiam de seus olhos. O que por pouco parecia ter sido a salvação agora era uma tortura.
- Pois bem Helena de Esparta, digo, Helena de lugar nenhum... Vou seguir viagem, recuso-me a ajudar uma Espartana, mesmo que não mais a seja.
- Por favor... não... – Já não agüentava mais, tentou erguer os braços para impedi-lo de a deixar ali, porém o cansaço falou mais alto e ela tombou contudo contra o barro.
E ali estava Alexandre, em uma situação onde havia duas escolhas – Deixar a jovem ali por conta da raiva que seu povo tinha dos Espartanos, ou ajudá-la tendo em mente que assim como os outros ela era uma pessoa que devia ter seus devidos cuidados.
Ficou fitando-a por alguns instantes, e uma trovejada anunciou que a chuva em breve voltaria. Dito e feito, em questão de segundos novas gotas voltaram a pingar e o rapaz se pegou em um ato de compaixão e se aproximou da menina
- Sei que não do feitio de um ateniense ajudar a um espartano.. Mas por favor, ajude-me. – suplicou em meio ao barro.
- Esta bem... Levante-se te levarei até minha casa, e lá vejo o que faço por você. – Disse ele estendendo a mão para ela.
Poderia se arrepender de sua ação, mas no momento tudo o que pode fazer foi pegar uma capa em sua trouxa e colocar sobre os ombros da garota. Pegou um de seus braços e colocou ao redor de sua cintura para que ela o usasse como apoio.
Caminharam dessa forma em silêncio por mais algum tempo até acharem uma caverna, onde protegidos da chuva finalmente fizeram seu acampamento. Era impossível fazer uma fogueira com os pedaços de madeira molhados, então apenas armaram um varal improvisado.
Alexandre tirou as roupas de sua trouxa e colocou no fio estendido; Enquanto Helena ficou calada apenas observando-o. Com o vento forte que soprava na entrada da caverna não demorou muito e as roupas estavam secas.
- Tome – Falou ele estendendo uma túnica branca para a jovem – Tire essa roupa úmida e coloque isso, ou vai ficar pior do que já está.
- Obrigada... – Foi só o que ela conseguiu dizer. Estendeu o braço e receosa pegou a roupa que lhe fora oferecida.
Foi até o canto da caverna e por fim se virou para encarar Alexandre. Este também a encarava;
- Você... pode virar para lá? Para que eu possa me trocar. – Falou sem graça. Era a primeira vez que ficava sozinha na companhia de um homem;
- Ah.. Claro. Também vou me trocar, portanto, não espie – Deu uma piscadela e se virou de costas enquanto começava a tirar sua Túnica.
Ela ficou observando ao rapaz por um tempo, tempo o suficiente para ver suas costas. Ele parecia ter um físico bem trabalhado, talvez por conta dos treinamentos que Atenas também possuía. Quando a túnica alcançou a região inferior do corpo a jovem se virou rapidamente de costas e se despiu.
- Posso me virar?
- NÃO! Digo... Ainda não – Ele era maluco? Em tão pouco tempo não dava tempo para se arrumar. Por fim ela colocou a túnica que lhe fora dada – Pronto...
Novamente eles se encararam. Os olhos de Alexandre já não pareciam tão agressivos e os de Helena já não mais tão apavorados.
- Você fica bem melhor com roupas Atenienses, parece menos desleixada – E soltou uma sonora risada.
- Ah... Não acho. Prefiro minhas roupas espartanas... Embora não seja mais de lá – Uma tristeza sem tamanho assolou seu ser fazendo com que abaixasse o olhar e se sentasse em um canto da caverna.
O rapaz preferiu não questionar como aquilo havia acontecido, afinal, haviam acabado de se conhecer. Caminhou até a garota e sem dizer nada pegou suas roupas molhadas e pendurou juntamente com as suas no varal.
- Amanha partiremos ao amanhecer – Disse sem mais delongas.
- Ok... – Finalizou o dialogo em uma monossílaba.
Notas finais
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As localizações são ilustradas aqui-> http://lh3.ggpht.com/_Xr9Xtayxo4w/TTTVWdTdEJI/AAAAAAAAALs/50oxYaB31Ks/localiza%C3%A7%C3%B5es%20ebdun.jpg
* na primeira é onde ambos se localizam assim que Alexandre sai do navio.
http://lh3.ggpht.com/_Xr9Xtayxo4w/TTTVWls0wZI/AAAAAAAAALw/yPh5UcXu0Iw/localiza%C3%A7%C3%A3o%202.jpg
* A segunda ilustra onde eles se encontram
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