Notas iniciais
No início do capítulo 01, vemos que Balieu já está adulto, casado e com um filho que acabara de ser apresentado ao seu deus. Este capítulo, ocorre vinte e três anos antes de tal acontecimento. E será necessário para que possam entender os acontecimentos que sucederão...

Quando criança, lá estava ele, Balieu, sentado em uma calçada que ficava bem em frente à sua casa, observava atentamente a rua deserta diante de si, a mal iluminação — devido às lâmpadas queimadas dos raros postes presentes ali — não ajudavam muito; havia apenas um poste a cada 130 metros. Aquele garoto de apenas doze anos podia sentir os respingos da chuva caírem por seus cabelos e escorrerem por todo o seu corpo até tocarem o chão. A água escorria por todo seu rosto, sua bela jaqueta azul marinho estava encharcada, sua calça jeans, com rasgos na região das pernas causava um certo contraste com sua vestimenta superior. Ele usava uma pulseira preta no braço direito, a mesma possuía uma placa de bronze com uma águia entalhada. Seu olhar fixo no sapo que estava bem à sua frente, era notado por sua prima Raquel.

— O que você está fazendo — disse ela — sentado nesta calçada suja pela lama?

Raquel, apenas 4 anos mais velha que Balieu, possuía a mania de o perturbar quando o mesmo estava quieto. Seus cabelos loiros e a suavidade de sua pele clara, refletiam a sua beleza, seus olhos verdes fixavam a Balieu, ela o observava com um belo sorriso em seu rosto, tentando entender o porquê do garoto estar naquela chuva.

— Ô idiota, eu te fiz uma pergunta.

— Não precisávamos ter vindo pra cá... — disse ele, virando suavemente a cabeça para seu lado esquerdo, afim de poder enxergar o reflexo de sua prima, que estava em pé, debruçada sobre uma porta de madeira, dividida ao meio, formando duas partes, inferior e superior — Podíamos ter ido para Dayne Lest, lá é mais seguro.

— Seria tolice, já apareceram casos de surtos lá também. E mais uma coisa, poderiam nos pegar no caminho. Você sabe disso.

— Balieu, sai da chuva menino! Amanhã você tem escola. — Enterrompe uma mulher ruiva, de cabelos curtos, era a mãe de Balieu, que aparece na porta.

Balieu se levanta calmamente e caminha para dentro de casa.

— Você está encharcado.

[Na manhã seguinte...]

Balieu se prepara para seu primeiro dia de aula na nova escola, ele tinha certeza de que não iria estudar lá por muito tempo, logo iriam acabar se mudando novamente. Em seu quarto, nem um pouco atraente devido ao amontoado de bagunça e coisas ainda encaixotadas, ele arruma a sua mochila, a põe em suas costas, enquanto caminha lentamente até a saída é interrompido.

— Balieu, o que foi? Não vai tomar café? — Pergunta a sua mãe.

— Não estou com fome. — Disse ele saindo de casa.

À uns vinte passos de sua casa, Balieu é interrompido por um homem alto de cabelos pretos chegando aos ombros, seu pai, que insiste em o levar à escola.

— Eu não preciso, já sei me cuidar, você mesmo disse isso naquele dia, lembra?

— Eu sei filho, mas não estamos em Rivelly Land, e não há mais lugar seguro para nós...

— Pai, você já me disse... Eu sei... Eles não vão me encontrar, e mesmo que me encontrem... O que poderão fazer? Tenho apenas 12 anos.

— Por enquanto... Você não terá essa idade pelo resto da vida e... Quando o dia chegar, espero poder estar do seu lado para te proteger.

— Pai...

Ambos se olham por uns instantes e em seguida dão um abraço aconchegante.

— Eu te amo filho, e farei de tudo para te proteger.

O olhar de seu pai Thom, reflete o afeto que este tinha por seu filho. Eles caminham até Ersminy Ralzen, uma escola que ficava à trezentos metros da casa para qual haviam se mudado. Chegando na escola, eles caminham até a recepção. Thom se identifica, assina alguns papéis e é acompanhado por uma secretária até a sala onde Balieu iria estudar; chegando no local, Balieu se despede de seu pai e entra na sala de aula, que se localizava no terceiro corredor do térreo, a sala número sete.

A grande escola possuía quatro andares, sendo o térreo apenas para alunos do fundamental, segundo andar para os alunos que cursavam o ensino médio, sendo o terceiro utilizado para fins recreativos. No quarto se localizava a sala do diretor, que quase não caía fora de sua sala. Apenas em casos de emergência.

— Turma, hoje estamos recebendo um novo coleguinha — Balieu encara a velha sinistra, a qual possuía uma pele pálida, olhos pretos e cabelos brancos, vestia uma blusa rosa com estampa creme e uma saia jeans preta, calçava um sapato de salto lilás que dava à impressão de infantilidade. — vamos garoto, o que está esperando? Se apresente à turma! — Fala ela dando batidas com seu salto alto no chão.

— Olá pessoal, me chamo Balieu.

Um grupo de quatro garotos no final da sala caem na gargalhada.

— hahaha, quem diabos te deu esse nome horrível? — Disse um deles. — Sua mãe? — Balieu não reage.

A velha senhora, percebendo o desconforto do garoto, repreende-o.

— Já chega! — Disse ela com uma cara de brava —Balieu, sente-se.

Balieu, com seu pescoço curvado para baixo, caminha vagarosamente até a terceira carteira e senta-se na segunda banca, ao lado de um garoto loiro, pele clara e olhos castanhos, o óculos que usava não o deixava nada atraente.

— Não liga pra eles, gostam de perturbar com as pessoas. -— Diz o garoto — Depois você se acostuma.

— Não sei como posso me acostumar com isso...

A sala em que estavam possuíam vinte por trinta metros quadrado, localizava-se no terceiro corretor do térreo, os becos de cada corredor eram lisos e escorregadios, possuíam penas um metro e meio de largura, com algumas plantas presentes em jarros de barro no decorrer dos mesmos. O rápido diálogo entre Balieu e o seu novo colega é interrompido com o estrondo de algo que parecia como que de vidros se quebrando e se espatifando no chão. Todos ficam paralisados, ouvindo atentamente; o silêncio toma conta da sala de aula, mas logo é quebrado por sons de disparos efetuados no meio do corredor principal, onde ficava as entradas para os demais corredores. O barulho logo se espalha ao som de gritos.

— O que é isso professora? — Grita uma aluna assustada.

Neste momento, o alarme de incêndio da escola começa a soar. Dentro de poucos segundos um enorme alvoroço toma conta da área térrea da escola. Alunos e professores correm pelos corredores, ao som de incontáveis disparos. O som dos tiros é ensurdecedor. A professora, muito assustada, tenta pedir calma aos alunos, mas não obtém êxito, todos estão em choque.

— C... Calma... Logo saberemos o que está acontecendo — Disse ela.

— Vanessa! — Um homem de terno preto e cabelo grisalho aparece na porta da sala de aula, e no meio do barulho grita para a velha senhora — Três jovens entraram atirando... — Com o suor escorrendo pelo seu rosto, ele prossegue — Leve a todos para um local seguro... Leve-os... Para o quarto andar... Peraí... Droga... — Ele entra na sala de aula e tranca a porta com a chave, que estava pendurada na fechadura — Me ajude a arrastar esta mesa para o pé da porta! Rápido! — Grita ele.

Balieu estava atônito, o pavor tomava conta dos estudantes, o constante barulho dos disparos o deixara com dor de cabeça. Da sala de aula podia-se ouvir as pessoas gritando e pedindo que não as matassem. A professora muito assustada e trêmula, com muito esforço, tenta empurrar uma grande mesa de mármore branca — que estava à uns quarenta centímetros da porta ao lado do enorme quadro branco colado na parede, a mesa possuía mais ou menos dois metros de comprimento e um de largura — porém seus esforços são inúteis. Ela tenta mais uma vez, porém novamente não obtém êxito, pois suas forças haviam abandonado seu corpo.

— Crianças, se acalmem, tudo vai ficar bem, — Disse o homem — se escondam em baixo das bancas.

Então o homem, vendo o desespero da professora, observa as crianças ali presentes, tentando encontrar alguém que possa ajudar a pobre senhora. Ele rapidamente observa as expressões faciais daqueles que ali estavam, como quem escolhe alguém para uma missão muito importante. Ele observa atentamente, e sua visão é direcionada para dois garotos que estavam no meio da turma, abaixados, quietos, sem fazer o mínimo barulho. O homem olha fixamente para Balieu e o garoto ao seu lado e dispara:

— Vocês dois! Me ajudem com o a mesa... Vamos!

O homem, que antes segurava firmemente a maçaneta da porta, dá um largo passo em direção à mesa e a agarra pelas extremidades, Balieu, ainda em choque, corre rapidamente até a bela a formosa mesa e com a ajuda da velha (que à alguns instantes parecia intimidadora) e de seu novo colega, ao qual seu nome ainda não lhe fora revelado, empurram com muito esforço a mesa pesada até a porta.

— Perfeito, obrigado crianças, — ele dá um meio sorriso e continua — agora preciso que todos me ajudem a empilhar as mesas que vocês usam aqui na porta, para fazer uma barreira.

O homem alto corre ligeiramente e pega a primeira mesa que vê a frente e arrasta para a porta, em seguida, a põe em cima da belíssima mesa de mármore que estava atravessada em frente à porta, bloqueando a passagem de quem quisesse sair, também impossibilitando de alguém arrombar a porta pelo lado de fora da sala de aula. Logo após tal feito, o homem, ainda descontente e atemorizado, pega outra mesa, que é arrastada para junto da enorme mesa que bloqueava a porta; a professora, com as mãos encolhidas na ragião das bochechas, tenta se acalmar respirando profundamente, porém o barulho dos tiros a deixa perturbada. A partir daí, Balieu e mais alguns alunos, em um grande alvoroço, tentam ajudar o homem à empilhar mais bancas no pé da porta. No decorrer disto o misterioso homem pede que todos se abaixem e não façam barulho. Como se não bastasse, os tiros começam à ecoar mais fortes e intensos, sinal de que os atiradores estão chegando mais perto; em meio à situação que parecia estar um pouco "controlada", o pavor das crianças e de todos naquele local, aumenta rapidamente quando os atiradores chegam ao terceiro corredor, em que estava localizada a sala em que Balieu estava, todos se encontravam em um estado de terror. Neste momento, os pensamentos de Balieu se voltam para seu pai, o semblante do garoto denota preocupação. Dentro daquela sala eles estavam isolados. Com tanta agitação, o calor estava se tornando insuportável. De repente, uma das alunas que estava agachada no pé da parede, atrás de uma das mesas, cai no chão e começa a se debater.

— Glóriaaa! — berra sua amiga ao lado, agarrando-a nos braços ela pede ajuda, não sabe o que fazer — ajudem-na! Alguém faz alguma coisa.

O terror toma conta, afinal, são apenas crianças, o homem corre para os pés da garota e tenta fazê-la tornar ao seu estado consciente, dando tapinhas na sua pequena bochecha, ele a pega pelos braços e desesperado não sabe como proceder naquele momento. De imediato, muitas das aproximadamente vinte e cinco crianças naquela sala começam a passar mal. Dentro de poucos minutos, tiros são disparados contra a porta da sala de aula.

— Se abaixem — Grita Vanessa. A professora tenta correr mas é atingida por tiros que perfuraram a porta de madeira.

— Aaaaaahh — grita ela caindo no chão. As crianças se desesperam mais ainda e gritam chamado a atenção dos atiradores.

— Não tem para onde escapar, vamos matar todos! — Grita um dos atiradores realizando disparos contra a porta.

— O que está acontecendo... — grita alguém aos choros.

Com a gritaria cada vez mais alta. Balieu, põe as duas mãos em sua cabeça, e sente como se ela fosse explodir, a dor que estava sentindo aumentava a cada segundo. Parecia insuportável, o garoto não aguenta a tensão e apaga.

— Mantenham a calma…! — Grita o homem deitando no chão a garotinha que muito se debatia. — Pelos deuses, o que eu faço? — Disse ele muito preocupado, a tensão aumentava com os tiros que eram disparados cada vez mais contra a porta. Os garotos assustados olhavam afligidos para o corpo sem vida da velha, que estava banhada em uma piscina de seu próprio sangue.

— O que eu faço? O que eu faço? O que eu faço? — Dizia o homem repetidas vezes com os dedos cruzados entre a parte de trás do pescoço.

De repente os tiros cessam, e um silêncio amedrontador toma conta da área. Todos estão atônitos, a partir deste momento uma forte frieza começa a tomar conta do local. Um forte cheiro de enxofre e carniça exala por toda a escola. O silêncio é quebrado quando as luzes se apagam e se acendem repetidas vezes, tal fenômeno perdurou por um intervalo de vinte e cinco segundos. Ao término do ocorrido, ouviram-se um enorme estrondo vindo do quarto andar, algo que parecia um rugido totalmente desconhecido ecoa por todo canto.

Balieu estava lá, caído e desacordado; no interior de seu subconsciente, ele se via num estado de paranormalidade, como que tivesse sido abduzido para outra dimensão. Ele se encontrava num lugar completamente diferente, ao qual não conseguia descrever. A claridade do lugar que ofuscava sua visão distorcida pouco a pouco foi diminuindo, até que aos poucos ele pode ver com nitidez o que se encontrava à sua frente. Não era outra dimensão... — Não, Não era nada disso — O local se modifica, de modo que a escuridão passou a reinar no local, na penumbra, ele pode observar as árvores sombrias com galhos grandes e largos, quase sem as folhagens. Ele caminhava entre os arbustos úmidos tentando encontrar a saída daquele lugar medonho e sinistro. Aos poucos, Balieu vai entrando em desespero, queria urgentemente sair daquele lugar e voltar à realidade; de tão apavorado, Balieu até se esquece da situação em que ele estava anteriormente. Ele caminha apressado, quase que correndo entre os galhos das árvores que batiam em seu rosto. Ele sem enxergar direito estende os braços para frente, a fim de poder apalpar os as coisas para não se machucar, porém não adiantava muito, ainda assim os galhos continuavam o ferindo.

De repente Balieu escuta um barulho entre as árvores, ele se abaixa devagar, e escondido atrás de um tronco caído observa entre as árvores a sombra do ser misterioso andando entre o matagal. Aos poucos a "coisa" vai tomando forma, a imagem que Balieu, às escuras, consegue observar o deixa aterrorizado, o ser negro e alto parecia procurar por algo, ou alguém, seus olhos vermelhos e suas enormes orelhas em pé era notada pelo garoto, que se aterrorizava cada vez mais. O ser estava olhando para um lado e outro, tentando achar o que buscava.

Sem querer Balieu acaba pisando no que parecia ser um graveto, que faz um pequeno estalo; neste momento, a criatura que estava à uns doze metros de distância do garoto escuta o barulho. Então ele para, escuta, e rapidamente vira o rosto para Balieu, que o encara nos olhos. O ser amedrontador levanta a sua cabeça e Balieu pode observar seu focinho, então, abrindo sua boca com dentes extremamente afiados, o monstro sem nome faz um barulho estrondoso, o som que saía de sua boca horrível era indescritível.

Balieu não tinha reação, estava paralisado, trêmulo com o que estava bem à sua frente. Aumentando mais ainda a tensão, Balieu, de repente é surpreendido por detrás. O pobre garoto grita apavorado. Neste momento, o ser amedrontador que estava "rugindo" à sua frente, abaixa a cabeça e começar a correr em direção ao garoto. Balieu não tem para onde correr; estava cercado.

A surpresa que aparecera por detrás de Balieu o alcança... O homem de óculos escuros — isso mesmo, óculos escuros — o agarra pelo braço esquerdo e toca-o com a mão direita no ponto em que se localiza sua nuca dizendo:

— Acorde!

Notas finais
[Continua...]
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.