Entre Amores e Segredos
17 Capítulo 17
O tempo passou em silêncio.
Não o silêncio tranquilo de quem descansa, mas o silêncio pesado de quem sobrevive. Um silêncio feito de contagens invisíveis, em que as semanas não eram marcadas no calendário, e sim pelos ciclos da quimioterapia.
Naquela manhã, Mia estava sentada na cama do quarto que havia deixado de ser apenas um quarto. Tornara-se um pequeno campo de batalha. Frascos de remédios alinhados sobre a cômoda, bilhetes coloridos colados nas paredes, desenhos de Jena presos com fita adesiva no criado-mudo. O corpo estava mais frágil, os ombros mais estreitos… mas os olhos ainda carregavam fogo.
Segundo ciclo.
Bella a observava da poltrona ao lado da cama, em silêncio. Tentava se convencer de que aquilo era apenas uma fase, uma travessia difícil. Mas havia algo diferente no ar. Uma antecipação dolorosa, como se o mundo estivesse prendendo a respiração.
Mia passou os dedos pelos cabelos castanhos — sempre seu orgulho. O gesto foi lento, quase ritualístico.
— Mãe… — chamou, em voz baixa.
Bella ergueu o olhar no mesmo instante.
— Ele vai cair, né?
Bella engoliu em seco. Não havia mentira possível ali.
— Vai — respondeu, com cuidado. — Mas isso não define quem você é.
Mia assentiu. Ficou em silêncio por alguns segundos, como quem toma uma decisão grande demais para a própria idade.
— Eu não quero esperar — disse, por fim. — Quero cortar.
O mundo de Bella parou.
Stefan, encostado à porta, sentiu o peito apertar. Aproximou-se devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar algo.
— Tem certeza, meu amor?
— Tenho — ela respondeu. — E eu quero que o Anthony faça.
Anthony estava sentado no chão, distraído com o celular. Ao ouvir seu nome, levantou o olhar, surpreso.
— Eu?
Mia sorriu. Fraco, mas sincero.
— Você é quem me faz sentir menos medo.
O silêncio tomou conta do quarto.
Anthony se levantou lentamente, como se cada passo carregasse um peso invisível.
— Se você quiser… eu faço — disse, a voz falhando.
Minutos depois, toda a família estava ali.
Bella e Stefan ao lado da filha. Edward encostado na parede, os olhos marejados. Renée segurava um lenço estampado que parecia grande demais para aquela dor. Lily murmurava orações baixas. Carlisle e Esme permaneciam de mãos dadas.
Rosalie cruzava os braços, tentando não chorar. Emmett estava sério como raramente se via. Damon quieto demais. Alice mordia os lábios para não desabar, enquanto Jasper mantinha os braços ao redor dela, em silêncio absoluto.
Anthony segurava a máquina com mãos trêmulas.
— Pronta? — perguntou.
Mia assentiu.
Quando o som começou, Bella não conseguiu conter as lágrimas. Cada mecha que caía no chão parecia arrancar algo dela também.
Anthony parou no meio do processo, respirando fundo.
— Desculpa… — sussurrou.
Mia segurou sua mão.
— Não pede desculpa. Você está me ajudando a lutar.
Quando terminou, Anthony desligou a máquina e encostou a testa na dela.
— Você é a pessoa mais forte que eu conheço.
Mia sorriu.
— Então fica comigo.
Ele a abraçou. Forte. Inteiro.
E naquele abraço, não havia doença.
Havia amor.
Mais tarde, quando o choro já havia passado, Alice surgiu no quarto arrastando uma mala enorme.
— Muito bem, senhoras — anunciou — preparem-se para o desfile mais brega e glamouroso da história.
Dentro da mala, perucas de todas as cores e estilos.
— Essa é a diva francesa — disse, exibindo uma peruca loira estilo Chanel.
— Essa aqui é rockstar dos anos 80 — mostrou uma ruiva dividida ao meio, com cachos definidos.
— E essa… — Alice colocou uma rosa-choque na própria cabeça — é crise de identidade.
Renée gargalhou.
Rosalie revirou os olhos.
Bella riu pela primeira vez em semanas.
Mia experimentou várias, rindo, fazendo poses exageradas. As avós aplaudiam como se fosse um grande espetáculo.
Depois de alguns minutos, porém, Mia retirou a peruca e a colocou sobre a cama.
— Não — disse. — Eu quero ser eu. Careca. Doente. Viva.
O silêncio foi quebrado por um abraço coletivo, apertado, cheio de amor.
Naquela noite, Stefan fez algo que não fazia havia muito tempo: cozinhou.
A casa estava silenciosa quando Bella desceu as escadas e encontrou a mesa posta. Velas acesas. O cheiro familiar da comida favorita dela. E, no centro, uma torta de morango.
— Stefan… — murmurou.
— Senta — ele disse. — Hoje você não é mãe, nem esposa, nem forte. Hoje você é só você.
Eles jantaram em um silêncio confortável, sem cobranças, sem medos. Depois, ele a levou pela mão até o quarto.
O amor veio lento. Cuidadoso. Necessário.
Naquele momento, eles se amaram como não faziam havia mais de vinte anos — antes de Edward, antes do caos. Bella não pensou em Edward. Pela primeira vez em muito tempo, ela enxergou Stefan apenas como seu companheiro.
Não foi fuga.
Foi ancoragem.
Depois, Bella chorou com a cabeça apoiada no peito dele.
— Eu estou tão cansada…
— Eu sei — Stefan respondeu, passando os dedos pelos cabelos dela. — Descansa em mim.
E ela descansou.
Mais tarde ainda, Bella encontrou Edward no corredor vazio.
— Eu não sei o que fazer — confessou, à beira do colapso.
Edward a encarou com dor contida.
— Então não faz nada. Só sente.
E aquilo foi o mais perigoso de tudo.
O tempo voltou a correr depois do segundo ciclo. A família tentava amenizar o caos, mas todos estavam exaustos.
Numa manhã cinzenta, Stefan encontrou Anthony na varanda. O sol ainda não havia decidido nascer. Anthony segurava uma caneca de chá frio.
— Dormiu? — Stefan perguntou.
— Não muito.
Eles não precisavam fingir normalidade.
— Obrigado — Stefan disse.
— Pelo quê?
— Por ser quem ela precisa.
— Eu só a amo — respondeu Anthony.
Stefan assentiu, os olhos marejados.
— Às vezes, isso é tudo.
— Ela é nossa prioridade — Anthony disse.
Stefan estendeu a mão.
— Então estamos do mesmo lado.
Não era um acordo. Era um pacto.
No andar de baixo, Bella conversava com Renée quando Lily, parada no corredor, ouviu tudo. O rosto empalideceu. A raiva cresceu.
Minutos depois, Lily entrou no quarto de Stefan sem bater.
— Bella ama o Edward — disse, direta. — Está na hora dele ir embora.
— Ela está confusa.
— Não. Está dividida — Lily rebateu. — E isso destrói tudo. Inclusive os negócios.
— Eu não vou desistir da minha família — Stefan respondeu, firme.
— Amor não sustenta impérios — Lily retrucou, antes de sair.
Stefan ficou sozinho. Quebrado. Mas firme.
Naquela mesma noite, Bella encontrou Edward no jardim.
— Algumas coisas nunca mudam…
— Nem eu — ele respondeu.
E quando Edward confessou que nunca deixou de amá-la, o passado voltou com força demais.
Eles se beijaram. Um beijo carregado de tudo o que nunca morreu.
— Eu sempre fui seu — ele disse.
— Não podemos — Bella murmurou.
Edward apenas a abraçou.
À beira da piscina, Anthony dançava com Mia sob luzes suaves.
— Em qualquer mundo — ele disse. — Eu te amaria.
Ela sorriu. Viva.
Mais tarde, no escritório, Stefan e Edward fizeram uma trégua.
— Pelo bem dela — disse Stefan.
— Pelo bem da Mia — Edward concordou.
As mãos se apertaram.
E ali, naquele acordo frágil, o futuro começou a ser desenhado — mesmo que ninguém soubesse se ele sobreviveria.
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