A sala da casa dos Cullen estava envolta em uma quietude estranha, quebrada apenas pelo som suave do algodão sendo pressionado contra a pele ferida. Bella estava sentada no sofá, inclinada para frente, o rosto concentrado enquanto cuidava dos pequenos cortes nas mãos e no rosto de Stefan. Seus movimentos eram firmes, mas carregados de impaciência.

— Você perdeu completamente o juízo — ela resmungou, sem olhá-lo nos olhos. — Agir daquele jeito… como se fosse um animal. Eu nunca imaginei isso de você.

Stefan tentou sorrir, mas o movimento fez o lábio arder.

— Eu só estava defendendo o que é meu — respondeu, teimoso. — Edward estava olhando pra você. Eu vi.

Bella ergueu o olhar de imediato, os olhos castanhos faiscando.

— Não, Stefan. Ele não estava. — Sua voz saiu mais dura do que pretendia. — Ele estava sendo educado. Gentil. Como sempre é com todo mundo. Você exagerou… e bebeu demais. Eu odeio isso, você sabe.

— Você está sendo ingênua — insistiu ele. — Ele sente alguma coisa, Bella. E você também sente, só não quer admitir.

— Chega. — Ela se afastou, respirando fundo. — Você está dizendo coisas que não fazem sentido porque perdeu o controle.

Antes que Stefan pudesse responder, passos ecoaram pelo corredor. Esme entrou na sala com Edward ao seu lado. O estado dele era pior: o supercílio aberto, o maxilar levemente arroxeado, o braço enfaixado de maneira improvisada.

O olhar de Esme percorreu a cena rapidamente — Bella, Stefan machucado, a tensão no ar — e algo em sua expressão se partiu.

— Stefan… — disse ela, com a voz carregada de decepção. — Eu estou profundamente triste com você.

Ele baixou os olhos de imediato.

— Você e Edward se conhecem desde crianças — continuou Esme. — Cresceram juntos. Eu te amo como a um filho. Sempre amei. E ver vocês dois assim… brigando, machucando um ao outro… parte meu coração.

Stefan abriu a boca para se justificar, mas Esme ergueu a mão.

— E você também, Edward. — Ela se voltou para o filho, firme. — Quando um não quer, dois não brigam. Vocês dois criaram uma situação vergonhosa, desnecessária e injusta com a Bella.

Bella sentiu o rosto queimar. O peso do constrangimento finalmente caía sobre ela, como se só agora tivesse permissão para sentir.

— Vocês agiram como dois animais — Esme concluiu, sem elevar a voz, o que tornava tudo ainda mais sério. — Isso não é aceitável.

Edward respirou fundo.

— Desculpa, mãe.

— Me desculpa — murmurou Stefan logo em seguida.

Esme balançou a cabeça.

— Não é a mim que vocês devem desculpas. — Ela olhou diretamente para Bella. — E você, Stefan… chega de bebida. Isso é feio. Não combina com o homem que você diz ser.

O silêncio que se seguiu foi pesado.


Mais tarde naquela noite, Bella estava sentada no balanço do jardim de sua casa, o movimento lento indo e voltando enquanto o vento frio de Forks brincava com seus cabelos. As luzes da casa estavam apagadas, exceto por uma lâmpada suave na varanda.

Ela ainda sentia um nó no peito.

Depois da confusão, mandara Stefan embora. Não suportava bêbados sem limites — isso sempre a incomodara profundamente — e descobrir esse lado dele foi como encontrar uma rachadura onde antes havia segurança.

Ela suspirou, perdida em pensamentos, quando sentiu o balanço afundar levemente ao seu lado.

Edward.

— Posso ficar? — perguntou ele, a voz baixa.

Bella assentiu.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada. O rangido suave das correntes preenchia o espaço entre eles.

— Eu vim pedir desculpas — disse Edward, finalmente. — De verdade. Eu nunca quis te colocar naquela situação. Nem causar problemas entre você e o Stefan.

Bella o observou com atenção. Mesmo machucado, havia nele uma serenidade estranha… e uma culpa silenciosa.

— Eu sei — respondeu ela. — Mas isso tudo me fez pensar.

— Sobre o quê?

— Sobre como as coisas não são tão simples quanto parecem.

Edward sorriu de leve.

— Nunca são.

A conversa foi se aprofundando sem que percebessem. Falaram sobre infância, sobre expectativas, sobre o peso de sempre tentar ser quem os outros esperavam. Edward falou, com cuidado, sobre se sentir preso a uma vida que não escolheu completamente. Bella falou sobre amar seus pais, mas sentir que sempre precisou ser mais madura do que deveria.

Havia ali uma compreensão silenciosa. Um conforto raro.

Quando se deram conta, não eram mais apenas conhecidos… eram amigos.

E, ainda assim, algo vibrava no fundo do peito dos dois. Algo antigo. Familiar. Como um eco de outras vidas, de reencontros que o tempo insistia em repetir.

Nenhum deles ousou nomear.


Na manhã seguinte, Bella caminhava pelas ruas de Forks depois de deixar o almoço para o pai na delegacia. O ar estava fresco, e a cidade parecia especialmente calma.

Na praça central, ela avistou Alice e Rosalie sentadas em um banco, rindo de algo no celular de Alice.

— Bella! — Alice se levantou num pulo, abraçando-a com entusiasmo. — Vem cá!

Rosalie sorriu, elegante, abrindo espaço.

— Estávamos falando de você.

— Espero que bem — brincou Bella, sentando-se.

— Sempre — respondeu Rosalie. — E, sinceramente… você parece precisar de amigas.

Algo na forma como ela disse aquilo tocou Bella.

O tempo passou rápido entre conversas, confidências e risadas. Alice era espontânea, intensa, enxergava beleza em tudo. Rosalie, mais reservada, tinha uma lealdade silenciosa e uma força que impressionava.

Ali, naquela praça simples de Forks, nascia algo importante.

Uma amizade verdadeira.

E Bella sentiu, pela primeira vez desde que chegara à cidade, que talvez estivesse exatamente onde deveria estar.

Mesmo que o destino já estivesse, silenciosamente, se movendo ao redor dela.