Entre Amores e Segredos
5 Capítulo 5
POV Bella
1º de janeiro de 2006 — Forks, Washington
Acordei com o coração acelerado, como se tivesse corrido por quilômetros sem sair do lugar.
O sonho ainda estava preso à minha pele.
Eu estava em um campo aberto, coberto por névoa prateada. O céu não tinha sol nem lua — apenas uma luz difusa, suave, quase sagrada. Sentia o vento tocar meu rosto, mas não fazia frio. Era… familiar. Reconfortante e perturbador ao mesmo tempo.
Edward estava ali.
Não havia surpresa no meu peito ao vê-lo, apenas uma estranha sensação de reencontro. Como se aquele momento estivesse atrasado há muito tempo.
— Você também sonha com isso, não sonha? — ele perguntou.
— Com o quê? — minha voz saiu baixa.
Ele deu um passo à frente, e tudo ao redor pareceu reagir.
— Com o que fomos.
Antes que eu pudesse responder, uma dor atravessou meu peito — não física, mas profunda — como se algo estivesse sendo arrancado de mim.
Acordei assustada.
Stefan dormia profundamente ao meu lado, o braço firme ao redor da minha cintura, protetor como sempre. Seu rosto estava sereno, bonito, real. Toquei sua mão, buscando ancoragem.
— Foi só um sonho — sussurrei para mim mesma.
Mas meu coração sabia que não.
Os sonhos haviam mudado.
Antes, eram fragmentos sem rosto, sensações soltas, memórias que não se encaixavam em nenhuma linha do tempo. Agora, tinham nome. Tinham olhos castanhos. Tinham voz.
Bella.
No sonho daquela madrugada, eu a via caminhando por uma floresta antiga. As árvores pareciam se curvar à sua passagem. Quando ela me olhava, não havia surpresa — apenas reconhecimento.
Acordei com o peito pesado e Caroline virando-se bruscamente na cama.
— Você falou o nome dela dormindo — disse, seca.
Fingi confusão.
— Do que você está falando?
— Da garota — Caroline sentou-se, cruzando os braços. — A que você finge que não existe.
Suspirei.
— Você está vendo coisas.
— Não — ela rebateu. — Quem está vendo coisas é você. Vivendo em um mundo que não me inclui.
Ela se levantou, pegando o celular.
— Sua família inteira me olha como se eu fosse descartável. Só a sua mãe ainda tenta gostar de mim.
Isso era verdade.
Esme sempre tentava.
— Você precisa decidir, Edward — Caroline disse antes de sair do quarto. — Ou para de sonhar com fantasmas… ou eu paro de fingir que aguento.
Fiquei sozinho, encarando o teto, com uma certeza incômoda se formando:
Eu já tinha decidido.
Só ainda não tinha coragem de admitir.
A visita de Lilian Salvatore aconteceu no início da tarde.
Ela entrou na nossa casa como quem avalia um futuro já planejado. Elegante, postura impecável, olhar atento a cada detalhe — dos móveis ao meu sorriso.
— Está tudo muito bonito, Renée — disse ela. — Forks combina com você.
Minha mãe serviu café, tranquila, mas alerta.
— Combina com recomeços — respondeu.
Sentaram-se frente a frente. Duas mulheres que se conheciam desde meninas, mas que agora representavam escolhas muito diferentes.
— Bella sempre foi especial — Lilian disse, olhando diretamente para mim. — Desde criança. Sempre soube que ela teria um papel importante.
Senti o peso daquela frase.
— Ela não nasceu para carregar expectativas — minha mãe respondeu com doçura firme. — Ela nasceu para ser feliz.
O olhar de Lilian endureceu por um segundo.
— Stefan precisa de alguém à altura das responsabilidades dele.
— E Bella precisa ser livre para escolher — minha mãe rebateu.
O clima só se quebrou quando a campainha tocou.
Esme Cullen estava à porta.
Bastaram poucos minutos para que algo se encaixasse. As duas começaram a conversar como velhas amigas, rindo, trocando impressões, sentindo-se.
— Dá pra sentir o amor nessa casa — Esme disse.
— E na sua também — minha mãe respondeu. — Vocês criaram algo raro.
Lilian observava em silêncio.
Eu percebi:
as mães estavam se encontrando antes dos filhos entenderem o porquê.
À tarde, fomos para a casa dos Cullen. O clima era leve, ensolarado apesar das nuvens. Emmett havia organizado uma confraternização simples: piscina aquecida, música, comida espalhada pelas mesas.
Stefan parecia animado demais.
— Relaxa, Bella — ele disse, pegando uma cerveja. — É feriado.
Franzi o cenho.
— Você sabe que eu não gosto disso.
— É só hoje — respondeu, sorrindo.
Uma virou duas. Depois três.
Eu observava de longe, conversando com Alice e Rosalie. As duas eram diferentes, mas incrivelmente presentes. Alice parecia captar coisas antes que acontecessem. Rosalie, apesar da postura firme, tinha uma lealdade silenciosa que me fazia sentir segura.
— Você está inquieta — Alice comentou.
— Estou — admiti. — Algo não está… no lugar.
Foi então que senti.
Edward estava do outro lado do quintal. Não me encarava diretamente, mas seus olhos sempre voltavam. Como se fossem puxados.
Stefan percebeu.
— O que foi? — perguntou, chegando perto demais. — Por que você está olhando pra ele?
— Eu não estou — respondi, irritada. — Você bebeu demais.
Ele riu, mas havia algo tenso em seu olhar.
— Não me chama de louco.
Edward se aproximou, calmo.
— Está tudo bem aqui? — perguntou.
— Está — Stefan respondeu rápido demais. — Só achei que você estivesse… encarando demais a minha noiva.
Edward franziu a testa.
— Você está vendo coisas, Stefan. E claramente passou do limite na bebida.
O silêncio ficou pesado.
— Não vem bancar o sensato — Stefan deu um passo à frente. — Eu sei quando alguém olha pra ela diferente.
— Você está paranoico — Edward respondeu, firme. — E bêbado.
Foi o suficiente.
O empurrão veio primeiro. Depois o soco.
Gritos. Correria. Emmett entrou no meio rapidamente, segurando Stefan com força.
— Chega! — ele gritou.
Bella estava pálida.
— Stefan! — chamei, sentindo algo se partir dentro de mim.
Edward estava com o lábio cortado, os olhos escuros — não de raiva apenas, mas de dor contida.
— Isso não é sobre você — ele disse, olhando para Stefan. — É sobre o que você está com medo de enxergar.
Stefan não respondeu.
Mas eu soube.
Naquela noite, sozinho, encarei meus desenhos.
Ela sempre esteve ali.
E eu finalmente entendi:
não era desejo.
Não era traição.
Era memória.
E o destino…
já tinha começado a cobrar.
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