Entre Amores e Segredos
3 Capítulo 3
POV Bella
31 de dezembro de 2005 — Forks, Washington
Acordei com a sensação estranha de estar exatamente onde deveria estar… e, ao mesmo tempo, completamente fora do meu mundo.
Era como se meu corpo tivesse chegado a Forks antes da minha alma — ou talvez o contrário. O silêncio daquele lugar não era vazio. Não havia buzinas, nem vozes apressadas, nem o murmúrio constante da cidade grande. Em Forks, o silêncio tinha peso. Um peso calmo, profundo, quase respeitoso, como se a própria cidade respirasse devagar.
Passei os dedos pelo lençol macio, de um tom claro que refletia a pouca luz da manhã nublada. O cheiro de chuva impregnava o ar, misturado a algo amadeirado, antigo, como árvores que observam mais do que dizem. Antes que eu pudesse organizar meus pensamentos — ou entender por que meu coração estava tão estranhamente tranquilo — senti braços fortes me envolverem pela cintura.
O gesto era tão natural quanto respirar.
— Bom dia, meu amor — murmurou Stefan, com a voz baixa e quente junto ao meu ouvido.
Sorri antes mesmo de abrir completamente os olhos. Havia algo profundamente seguro naquele abraço. Algo que me ancorava no presente.
— Bom dia — respondi, virando-me devagar para encará-lo.
Stefan me observava como se eu fosse algo raro. Seus olhos verdes percorriam meu rosto com atenção genuína, quase reverente, como se cada detalhe meu fosse importante demais para ser ignorado. Ele afastou uma mecha do meu cabelo com cuidado — como sempre fazia — e depositou um beijo leve na minha testa.
— Dormiu bem? — perguntou.
— Melhor impossível — respondi, sincera.
Ele sorriu satisfeito, como se aquela resposta fosse uma pequena vitória pessoal. Stefan sempre foi assim: atento, presente, inteiro. Desde muito novos, fazia questão de que eu me sentisse segura, amada, escolhida — não apenas em palavras, mas em gestos constantes, silenciosos, firmes.
— Eu pensei em tudo — disse ele, apoiando o cotovelo na cama. — Hoje vamos ao Studio de Ballet, depois almoçamos com seus pais, mais tarde passo na delegacia pra falar com seu pai… e à noite, a festa do Emmett. Tudo no seu ritmo.
Meu coração aqueceu.
Ele não apenas lembrava de tudo — ele se importava. Incluía meus pais, minha história, meus sonhos, como se fossem parte natural da vida dele.
— Você não precisa fazer tudo isso — murmurei.
— Preciso sim — respondeu, com naturalidade absoluta. — Sua felicidade é a minha prioridade, Bella.
E naquele momento, acreditei plenamente.
Quando chegamos à casa nova, encontrei meus pais exatamente como sempre foram — e como sempre me sustentaram.
Meu pai estava firme, silencioso, atento a cada detalhe ao redor. Minha mãe, delicada, emotiva, observadora demais para deixar qualquer coisa passar despercebida.
Charlie Swan vestia seu uniforme impecável. O distintivo brilhava preso ao peito, símbolo de uma carreira construída com respeito, autoridade e escolhas difíceis. Ele havia se transferido como xerife de alto escalão para Forks, e mesmo em pouco tempo, seu nome já era pronunciado com admiração e cuidado.
— Bom dia, filha — disse ele, com a voz grave, envolvendo-me em um abraço protetor.
— Bom dia, pai — respondi, sentindo aquele conforto antigo, sólido, que só ele sabia oferecer.
Stefan estendeu a mão com firmeza.
— Xerife Swan.
— Stefan — meu pai respondeu, sério, mas respeitoso.
Não havia hostilidade ali. Havia avaliação. Meu pai não era um homem de palavras fáceis, mas observava atitudes — e Stefan, silenciosamente, parecia passar em todos os testes.
Minha mãe surgiu logo atrás, sorrindo com suavidade.
Renée Swan tinha uma elegância que não vinha das roupas simples que vestia, mas da postura. Ex-bailarina profissional, seu corpo ainda carregava a memória da dança — cada movimento era gracioso, consciente, quase poético. Depois que nasci, ela havia deixado os palcos para se dedicar inteiramente a mim, e isso moldou profundamente quem eu era.
— Bom dia, meus amores — disse ela, segurando meu rosto entre as mãos. — Você está feliz, Bella… dá pra ver nos seus olhos.
— Estou, mãe — respondi, sem hesitar.
Ela olhou para Stefan por um segundo a mais do que o normal, como se tentasse ler algo invisível nele. Algo que não se dizia em voz alta.
— Obrigada por cuidar da minha filha — disse, sincera.
— Sempre — Stefan respondeu, sem hesitar.
E naquele instante, percebi: meus pais viam o que eu sentia, mesmo sem compreender tudo.
O Studio de Ballet foi um impacto à parte.
Assim que atravessei a porta, senti algo se reorganizar dentro de mim, como peças antigas encontrando novamente seu lugar. O chão de madeira clara, os espelhos enormes, o cheiro familiar de resina, disciplina e repetição… era como voltar para casa.
Enquanto realizava minha matrícula, senti minha mãe me observando em silêncio. Seus olhos brilhavam — não de tristeza, mas de orgulho contido.
— É aqui que sua história continua — ela disse, baixo, quando assinei os papéis.
Assenti, sentindo um nó suave se formar no peito. Talvez algumas histórias nunca acabem. Apenas mudem de cenário.
À noite, enquanto me arrumava para a festa, minha mãe entrou no quarto sem fazer barulho.
— Forks vai te mudar — disse ela, sentando-se na cama. — Só espero que você se permita sentir tudo.
Olhei meu reflexo no espelho.
— Eu confio no Stefan — respondi.
— Eu sei — disse ela, tocando minha mão. — E isso já diz muito sobre quem ele é… e sobre quem você é.
A festa estava cheia, animada, viva. Risadas ecoavam, música preenchia o ambiente, e mesmo assim, Stefan não soltou minha mão em nenhum momento. Me apresentava com orgulho, perguntava se eu estava bem, se queria ir embora, se precisava de algo.
Era como se ele estivesse sempre um passo à frente — cuidando.
E então… eu o vi.
Edward Cullen.
Foi como se o ar mudasse de densidade. Como se algo antigo tivesse sido despertado sem permissão. Nossos olhares se cruzaram, e por um instante, tudo silenciou.
Não foi paixão.
Não foi curiosidade.
Foi reconhecimento.
Algo dentro de mim sussurrou que aquele encontro não era novo. Que ele carregava histórias que minha mente não lembrava — mas minha alma, sim.
E ali, sem saber, eu havia dado o primeiro passo em um caminho que atravessava vidas, escolhas e destinos.
Fale com o autor