Entre Amor e Dever

17 O Eterno de Todas As Manhãs


As florestas de Lindon dormiam sob o luar.

Somente o murmúrio dos ventos e o cantar das folhas denunciavam que o mundo ainda respirava.

Gil-galad avançava entre as árvores antigas, guiado por um instinto que não podia negar.

Ele a sentia — como se o próprio ar o chamasse pelo nome.

E então, a viu.

Anisha estava à beira do lago do Bosque dos Esquecidos. O reflexo da lua dançava em seus cabelos castanhos e sua presença parecia fazer o tempo hesitar.

Havia nela algo novo — uma força serena, antiga, quase divina.

Mas também, uma distância que o feria mais do que qualquer espada.

— Eu sabia que viria — disse ela sem se virar. Sua voz, doce e firme, carregava o peso de mil memórias.

— Como não viria? — respondeu ele. — Quando o coração chama, nem a coroa pode me segurar.

Ela fechou os olhos.

— Devia ter ficado em Lindon. Há forças neste bosque que nem mesmo os deuses compreendem.

Gil-galad se aproximou um passo, o rosto iluminado pelo luar.

— E mesmo assim, não temo. Nem a morte, nem o destino… apenas perdê-la.

Anisha finalmente o fitou.

Seu olhar, antes ferido, agora trazia uma luz indomável.

— Não pode me tocar — sussurrou. — Há algo dentro de mim... algo que pode destruí-lo.

— Então destruirei com você — murmurou ele, num tom tão baixo que o vento mal ousou levar suas palavras.

Ela recuou, o coração em tumulto.

— Não diga isso, meu rei. Eu não sou mais aquela guerreira que jurou lealdade à sua bandeira.

— O que é agora? — ele perguntou, com um misto de dor e reverência.

Anisha respirou fundo, e sua aura começou a brilhar como fogo contido.

— Algo entre a luz e a escuridão. Eu carrego as cinzas dos deuses e o fardo dos mortais. Por toda a minha existência, só conheci dor, medo e sobrevivência. Mas agora... — seus olhos se encheram de lágrimas contidas — encontrei um propósito.

“Você.”

O mundo pareceu silenciar.

— Eu não serei destruição nem ruína — continuou ela. — Eu serei renovação. E lutarei por você, mesmo que precise morrer para isso. O mal já toca Lindon, e eu o deterei… mas preciso me fortalecer antes que seja tarde.

Gil-galad aproximou-se, e sua voz quase falhou:

— E quem me defenderá de você?

Anisha desviou o olhar, com o coração em guerra.

— Ninguém. Porque eu o amo o bastante para destruí-lo... se for o preço para salvá-lo.

Por um instante, o ar pareceu arder entre eles.

Gil-galad não suportou mais o abismo que os separava.

Com um gesto contido e reverente, tomou-lhe o rosto entre as mãos.

Ela tentou resistir, mas o toque dele era como um chamado antigo, vindo de um tempo antes do tempo.

E então ele a beijou.

Não foi um beijo de desejo carnal, mas de alma — uma fusão entre luz e sombra, entre o eterno e o efêmero.

O ar ao redor brilhou como cristal; o lago se ergueu em reflexos de prata, e as estrelas acima cintilaram em uníssono.

Por um instante, o mundo todo pareceu respirar com eles.

Quando se afastaram, o rei pousou a testa contra a dela.

— Agora compreendo — disse ele, em tom grave e terno. — Não há trono, nem coroa, nem Era capaz de me separar de ti. Minha alma está ligada à tua, Anisha. Para além da vida. Para além dos deuses.

Lágrimas quentes escorreram pelos olhos dela.

— E mesmo assim, preciso ir.

— Se for, leve comigo o que resta de mim.

— Já o levo — sussurrou ela, tocando o peito dele. — Desde o primeiro olhar.

O vento soprou, e as folhas antigas se ergueram ao redor deles como um véu.

Anisha se afastou lentamente, envolta em uma luz dourada que se misturava à penumbra do bosque.

“Não me siga, meu rei. O amor, às vezes, precisa partir para sobreviver.”

E então ela desapareceu entre as árvores — deixando para trás o eco do beijo que uniu o destino de um elfo e uma filha dos deuses.