Entre Amor e Dever

14 A Aceitação Do Que Jaz no Coração


Os ventos mudaram em Lindon.

Desde a noite da colheita, o palácio inteiro se manteve em vigília.

Os curandeiros élficos falavam em veneno, mas nenhum antídoto surtia efeito.

A pele de Anisha brilhava em tons prateados sob a luz das velas — como se o próprio luar houvesse se misturado ao seu sangue.

Gil-galad permanecia à porta de seus aposentos, sem permitir que ninguém a removesse do lugar.

Elrond e o Grande Mago cuidavam dela, enquanto os murmúrios cresciam pelos corredores de cristal.

“Dizem que ela não é mortal…”

“É filha de Valar, ou de algo ainda mais antigo…”

“E se for uma arma?”

Os rumores eram como sombras: invisíveis, mas frias.

Ao amanhecer, Elrond chamou o Alto Rei para uma conversa reservada.

— A substância no vinho não é comum. — começou, pousando um frasco de vidro sobre a mesa. — Contém essência de morchantar, usada em rituais para quebrar selos de energia espiritual.

Gil-galad o fitou, pensativo.

— Romper selos…quer dizer que se não foi utilizada erroneamente, alguém quis libertar o que estava oculto dentro dela.

Elrond assentiu.

— Não matá-la. Despertá-la.

O rei se ergueu, o semblante carregado.

— E isso a expôs a todos nós. Quem quer que tenha feito isso, o fez dentro de Lindon.

Elrond hesitou.

— Há rumores no Conselho. Alguns acreditam que ela foi enviada por forças antigas. Que o destino dela... não pertence aos Filhos de Ilúvatar.

Gil-galad desviou o olhar, respirando fundo.

— E o que você acredita, Elrond?

Um longo silêncio.

Então, em voz baixa:

— Acredito que ela é a primeira pessoa a fazê-lo sentir algo real em séculos, e isso o assusta mais do que qualquer magia.

Gil-galad ergueu o olhar — ferido, mas sem negar.

— Assusta, sim. Porque tudo o que toco, Elrond…se torna perda.

🍂

Horas depois, Anisha despertou.

A luz do entardecer entrava pelas janelas altas, dourando o quarto.

Ela abriu os olhos devagar, e o mundo pareceu brilhar em reflexos novos — cada som, cada cor, cada respiração ao seu redor se movia em sintonia com algo dentro dela.

— Onde… — murmurou, confusa.

O mago se aproximou, apoiando o cajado ao lado.

— Está entre amigos, filha da aurora.

Ela franziu o cenho, confusa e irritada.

— Não sou filha de ninguém além da terra que me criou.

O velho sorriu.

— Sua linhagem fala por si, mesmo que sua mente ainda não recorde. Em seu sangue repousa a centelha dos Maiar Perdidos, os servos divinos que abandonaram Aman quando as luzes se apagaram. Seu corpo é mortal, sim, mas sua alma… não pertence inteiramente a este mundo.

Anisha fechou os olhos, tentando compreender.

— Então… tudo o que sinto — as visões, as vozes, as forças que às vezes me tomam — não são loucura?

— Não! — respondeu o mago. — São ecos do que você é. Mas agora, todos os olhos a vigiam. E nem todos desejam a luz que você carrega.

🍂

Ao cair da noite, Elrond entrou discretamente nos aposentos do rei.

Gil-galad estava à janela, observando a cidade iluminada.

— Ela está desperta. — disse Elrond. — Mas o Conselho já exige providências. Há quem diga que ela deve ser enviada a Valfenda sob vigilância. Outros… pedem seu exílio.

Gil-galad virou-se lentamente.

— Exílio? Por ser o que é?

— Por talvez ser perigosa. — respondeu o meio-elfo. — E… por mexer com o coração do rei.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Gil-galad baixou os olhos, murmurando:

— Não me peça que finja indiferença, Elrond. Já perdi esse controle.

— Então aprenda a escondê-lo melhor. — respondeu o amigo, com dor na voz. — Antes que o amor de um rei destrua o que resta da paz em Lindon.

🍂

Mais tarde, quando a lua já dominava o céu, o rei foi até a varanda dos jardins.

Lá estava Anisha, envolta em um manto simples, os cabelos soltos ao vento.

Os olhos dela pareciam conter mil constelações — um brilho que não era deste mundo.

— Disseram que eu morreria — ela disse, sem se virar. — Mas não morri. Disseram que eu era humana… e também erraram. O que sou, então?

Ele se aproximou, detendo-se a um passo.

— Algo que nem os Valar ousaram mencionar.

Ela virou-se.

— E ainda assim, você me teme.

Gil-galad hesitou.

— Não temo você, Anisha. Temo o que o destino pode nos fazer, se eu ousar amá-la.

Ela deu um meio sorriso triste.

— O destino não precisa de permissão. E eu… já o amo, mesmo sem querer.

A lua se ergueu sobre Lindon, testemunha silenciosa de um amor condenado.

Nas sombras, o mago observava da distância, o cajado em punho, murmurando:

“A Luz desperta. E com ela… o juízo dos antigos se aproxima.”