Notas iniciais
Um capitulo fresquinho para vocês.

LÚCIA


Com a visita de seu irmão, a mãe de Lúcia não desejava afastar-se de casa. Queria aproveitar cada instante daquela visita tão rara, matar a saudade e permitir que o dia passasse sem a pressa dos afazeres cotidianos. Contudo, as obrigações vinham primeiro, e ela já se conformava em vê-lo partir ao lado dos demais.


A surpresa veio quando seu irmão lhe informou que havia conseguido uma folga também para Lúcia, para que a jovem pudesse desfrutar daquele dia junto da família.

Como seguiriam até a feira, Pierre prontamente se ofereceu para acompanhá-los. A ideia pareceu agradá-lo, pois a feira lhe trazia lembranças de outros tempos, quando, antes de se tornar conselheiro, dividia seus dias entre o trabalho como feirante e os estudos que, pouco a pouco, o conduziriam ao caminho que escolhera para sua vida.


E, como se a notícia da folga já não fosse suficiente, Pierre ainda acrescentou que aproveitaria o dia para continuar os estudos de Lúcia.

A jovem não conseguiu esconder o brilho que lhe tomou o semblante.

Embora tivesse sido sua própria escolha abandonar os estudos, nunca deixara de amar o conhecimento. Todas as noites, antes de se recolher, encontrava algum livro e, à luz das velas, dedicava alguns momentos à leitura.


Talvez por isso a possibilidade de voltar a aprender, ainda que de maneira diferente, lhe parecesse um presente inesperado.

E ter Pierre como seu mestre tornava tudo ainda mais especial.

O conselheiro percebeu a animação da afilhada e, com um discreto sorriso, perguntou:


— Então, Lúcia... diga-me. Em qual área desejais vos aprofundar?


Lúcia permaneceu em silêncio por alguns instantes enquanto ajudava a montar as barracas. Ao redor, as pessoas iam e vinham, algumas reconhecendo Pierre e cumprimentando-o com respeito e familiaridade. Ele respondia a cada uma com a mesma cordialidade, sem deixar de auxiliar nos afazeres.

Foi então que Lúcia começou a observar aquelas famílias com mais atenção.

Havia crianças correndo entre as barracas, pais preocupados com o sustento de seus lares e rostos marcados pelas dificuldades que ela, até então, conhecia apenas pelos livros.

Por um instante, imaginou como seria estar do outro lado daquelas preocupações, tendo conhecimento e autoridade suficientes para encontrar caminhos que pudessem tornar a vida daquelas pessoas um pouco mais justa.


Se um conselheiro podia aconselhar um rei sobre o destino de um reino, talvez também pudesse fazer algo por aqueles que raramente tinham alguém para falar por eles.


Lúcia então ergueu os olhos para o padrinho.


— Quero aprender a ser conselheira.


Pierre interrompeu por um instante o que fazia e voltou-se para ela, surpreso pela resposta.


— Conselheira?


Ela assentiu, ainda olhando para o movimento da feira.


— Quero aprender a compreender as pessoas... e, quando estiver ao meu alcance, ajudá-las. Talvez um dia eu possa fazer por famílias como estas aquilo que hoje apenas desejo poder fazer.


Pierre permaneceu em silêncio por alguns instantes, ainda surpreso com a resposta. Contudo, não demorou para compreender onde sua afilhada desejava chegar.

Um sorriso discreto surgiu em seu rosto.


Ser conselheiro era muito mais do que ensinar um herdeiro a se portar como rei, organizar seus compromissos ou prepará-lo para os inúmeros deveres que um dia repousariam sobre seus ombros.


Um verdadeiro conselheiro precisava compreender o reino, conhecer seu povo e, acima de tudo, saber que cada palavra dita ao soberano poderia alcançar muito além das paredes do castelo.


Uma orientação dada no momento certo poderia mudar uma decisão. Uma decisão poderia mudar o destino de uma família. E, por vezes, o destino de todo um povo.


Por isso, antes de receber tal responsabilidade, havia anos de estudos, ensinamentos e provas. Era preciso demonstrar conhecimento, prudência, lealdade e, sobretudo, honestidade para com o povo e para com aqueles a quem se servia.


Pierre conhecia bem o peso daquela escolha.

Mas, enquanto observava Lúcia, não conseguia enxergar apenas a jovem criada diante de si.

Havia nela algo que o surpreendia.


Aquela vontade de aprender. A maneira como seus olhos acompanhavam o movimento da feira. A preocupação genuína com pessoas que sequer conhecia. E, acima de tudo, aquela determinação silenciosa de quem já havia encontrado um propósito antes mesmo de saber como alcançá-lo.


Pierre respirou fundo.

Por um breve instante, teve a estranha impressão de estar diante de outra pessoa.

Os olhos de Lúcia, brilhando enquanto falava sobre o futuro, fizeram-no lembrar de Lucian.

Era o mesmo brilho que já havia visto no jovem príncipe quando este falava sobre aquilo que desejava se tornar.


A lembrança o pegou desprevenido.


Pierre voltou a olhar para a afilhada e, desta vez, não enxergou apenas uma menina que desejava estudar.


Viu uma jovem que talvez tivesse encontrado seu próprio caminho.


E, com o passar das horas, Pierre e a jovem Lúcia dividiram o dia entre os estudos e os afazeres da feira.


Entre uma lição e outra, a jovem ajudava os demais feirantes a carregar caixas e organizar as barracas, arrancando de uns olhares agradecidos e pequenos sorrisos.

Havia dias em que alguns deles trabalhavam sem ajuda suficiente. Os mais velhos já não possuíam a mesma força de outrora, e os mais jovens nem sempre estavam por perto.

Por isso, embora todos soubessem que Lúcia agora passava seus dias no castelo, sua ausência era sentida.


Era ela quem tantas vezes aparecia para ajudar com as caixas que os mais velhos já não conseguiam carregar.

Naquela manhã, contudo, parecia que a feira havia recuperado um pouco da antiga rotina.

Enquanto Lúcia terminava de organizar algumas mercadorias, Pierre a observava em silêncio. Esperou que ela se aproximasse novamente e então retomou a lição.


Mas, desta vez, sua pergunta não era apenas para ela.

Sua voz saiu firme o bastante para alcançar as barracas vizinhas:


— Dizei-me, Lúcia... o que deve possuir um conselheiro para que seja digno de tal posição?


A pergunta fez com que alguns feirantes interrompessem o que faziam.

Um deles pousou a caixa que carregava. Outro deixou de arrumar suas mercadorias. Até mesmo alguns visitantes que passavam pela feira diminuíram o passo, curiosos para ouvir a resposta daquela jovem que, naquela manhã, estudava entre livros e ajudava a carregar caixas como se jamais tivesse deixado aquele lugar.


Lúcia percebeu os olhares voltados para si.


Por um instante, permaneceu em silêncio.

Então ergueu os olhos para Pierre, compreendendo que aquela não era uma pergunta sobre aquilo que havia aprendido nos livros.

Era sobre aquilo que realmente acreditava.


E, diante de todos, respondeu:


— Padrinho... um conselheiro deve, antes de qualquer coisa, possuir lealdade, integridade e absoluta honestidade. Deve conhecer as leis, os tratados, a administração do reino e os princípios que sustentam a soberania da Coroa.


Fez uma breve pausa.


— Mas não pode limitar seu conhecimento aos assuntos discutidos nos salões do castelo. Deve conhecer também as necessidades dos súditos, as dificuldades das províncias e as consequências que as deliberações da Coroa produzem sobre aqueles que vivem sob seu governo.


Lúcia percorreu com os olhos a feira ao seu redor.


— Um conselheiro deve compreender o reino em sua totalidade. Deve conhecer aquilo que chega aos ouvidos do soberano, mas também aquilo que jamais atravessa os portões do castelo. Afinal, é ele quem deve servir de elo entre a autoridade da Coroa e as necessidades de seus súditos.


Pierre permaneceu em silêncio.


— Ele é os olhos e os ouvidos do rei, mas também deve ser a consciência de suas decisões. Uma única recomendação pode alterar o curso de uma política, modificar a administração de uma província, determinar o destino de uma família ou até mesmo comprometer a estabilidade de todo o reino. Por isso, suas palavras jamais podem ser movidas por interesses pessoais, vaidade ou conveniência.


A jovem ergueu um pouco mais o queixo.


— Um conselheiro deve compreender que governar não consiste apenas em ordenar. Consiste em ponderar. Deve avaliar as consequências de cada decisão, considerar os diferentes interesses do reino e buscar aquilo que preserve a ordem, a justiça e a prosperidade dos súditos.


Alguns dos feirantes já haviam deixado completamente seus afazeres para escutá-la.


— Deve possuir firmeza para sustentar uma posição quando acreditar que ela é necessária, prudência para reconhecer quando deve recuar e sabedoria para compreender que nem toda batalha precisa ser travada. Deve saber negociar, ouvir e conciliar, pois muitas vezes a estabilidade de um reino depende mais da diplomacia do que da força.


Lúcia então voltou os olhos para Pierre.


— E deve respeitar a autoridade do soberano. Porém, respeito não significa concordância absoluta. Se um conselheiro perceber que determinada decisão ameaça os interesses da Coroa ou causa injustiça aos súditos, sua obrigação não será permanecer em silêncio.


Sua voz tornou-se mais firme.


— Sua obrigação será apresentar ao rei aquilo que ele talvez não queira ouvir, mas precise ouvir. Deverá fazê-lo com respeito à autoridade, sem afrontar a soberania do trono, mas também sem permitir que o temor o transforme em alguém incapaz de cumprir sua própria função.


Lúcia respirou fundo antes de concluir:


— Porque um conselheiro que apenas concorda com seu soberano não o aconselha... apenas o acompanha. E aquele que recebe a confiança da Coroa deve compreender que seu dever maior não está em agradar ao rei, mas em servir ao reino.


O silêncio que se seguiu foi profundo.


Até mesmo Pierre, acostumado a ouvir homens instruídos discutirem política, tratados e assuntos da Coroa, permaneceu alguns instantes sem encontrar uma resposta.

Diante dele não estava mais apenas a menina que desejava estudar.


Havia, naquela jovem, uma compreensão que ainda precisava ser lapidada, mas que já carregava algo raro:

A consciência de que poder e responsabilidade jamais deveriam caminhar separados.

Notas finais
Espero que gostem Kizlars