Entre Acasos e Destinos
6 Capitulo 6
Notas iniciais
Pensei bastante sobre quem deveria continuar aparecendo neste momento da história: se deveria seguir desenvolvendo Lucia ou acompanhar novamente o jovem Lucian.
Depois de pensar um pouco, acredito que podemos continuar acompanhando os dois separadamente por enquanto. Quero que conheçamos melhor seus mundos, suas dificuldades, seus desejos e, principalmente, aquilo que cada um carrega consigo.
Mais adiante, conforme os capítulos avançarem, suas histórias começarão a se entrelaçar naturalmente, até que suas vidas finalmente se cruzem.
Afinal, antes de unir seus caminhos, quero que conheçamos quem eles são quando ainda caminham por estradas completamente diferentes.
Lucian
“Comporte-se como se todos estivessem observando, mas trate cada pessoa como se ela fosse a única pessoa naquela sala.”
Mais um dia se iniciava no castelo, e aquela frase, repetida todos os dias, já estava gravada na mente do jovem Lucian.
Antes mesmo de ouvir Pierre, seu conselheiro real, dar início às habituais orientações da manhã, Lucian levantou-se e começou sua higiene pessoal. Assim que terminou de se arrumar, porém, percebeu algo incomum.
Pierre estava atrasado.
Aquilo jamais havia acontecido em todos aqueles anos. Seu conselheiro costumava chegar antes mesmo que Lucian tivesse tempo de processar um simples “bom dia”.
Seus pensamentos, entretanto, foram interrompidos por uma leve batida na porta.
Antes que pudesse pronunciar qualquer palavra, uma criada entrou empurrando um carrinho com seu café da manhã.
Aquilo tornou aquela manhã ainda mais estranha.
De acordo com sua agenda, seu desjejum seria servido apenas às oito horas, na sala de refeições, juntamente com seus pais.
— Bom dia, Vossa Alteza. Por ordem de Sua Majestade, a Rainha, trouxemos vosso desjejum até vossos aposentos nesta manhã. Esperamos que tudo esteja de vosso agrado. Com vossa licença, meu príncipe.
Da mesma forma que entrou, a criada saiu, deixando o jovem perplexo.
Lucian permaneceu parado por alguns instantes, esperando que Pierre surgisse pela porta a qualquer momento, dando-lhe as habituais orientações sobre postura e lembrando-o de que um príncipe jamais poderia fugir de suas obrigações.
Tão absorto em seus pensamentos, nem percebeu quando se sentou à beira da cama.
Seu olhar permaneceu fixo sobre o banquete diante de si.
Não sabia o que fazer.
Deveria sair à procura de Pierre?
Ou simplesmente aproveitar aquela estranha mudança e tomar seu café da manhã?
Uma nova batida na porta interrompeu seus pensamentos.
Desta vez, a porta se abriu de maneira mais tímida.
— Bom dia, meu filho...
A rainha permaneceu por alguns instantes junto à porta, observando-o em silêncio.
Havia algo de diferente em seu semblante, como se aquela simples visita exigisse dela mais coragem do que qualquer audiência diante da corte.
— Eu sei que talvez minha presença vos cause estranheza... Faz tanto tempo que não venho até vossos aposentos... — Ela se aproximou devagar, deixando de lado, por um instante, a postura de rainha.
— Hoje, vim apenas perguntar se... me permitiríeis tomar o desjejum convosco.
Um breve sorriso, tímido e quase maternal, surgiu em seus lábios.
— E, se Vossa Alteza assim consentir... gostaria de recuperar, ao menos por uma manhã, algo daquilo que deixamos para trás. — Lucian não respondeu de imediato.
Por alguns segundos, apenas encarou a mulher diante de si.
Então, sem que nenhum dos dois pudesse prever o que aconteceria a seguir, o jovem príncipe se levantou e a abraçou.
E foi naquele abraço que ambos permitiram que as lágrimas, há tanto tempo contidas, finalmente caíssem.
Todo o sentimento maternal que a rainha havia guardado estava ali.
E Lucian, pela primeira vez em muito tempo, permitiu-se chorar.
Era daquilo que sentia falta.
Era aquilo que ansiava todos os dias.
O colo de sua mãe.
Havia anos que não o recebia. Seus pais estavam presentes apenas nos horários determinados para tratar de seus estudos, durante as refeições e nas raras ocasiões em que seu pai lhe dirigia algumas palavras que não estivessem relacionadas aos seus deveres como herdeiro.
Quando finalmente se afastaram, Lucian retomou, quase por instinto, a postura que lhe havia sido ensinada desde a infância.
— Será sempre uma honra receber Vossa Majestade em meus aposentos, minha mãe.
Fez uma breve inclinação de cabeça, mas seu semblante logo revelou a estranheza diante daquela manhã incomum.
— Contudo, confesso que me encontro deveras perplexo. Onde está Pierre? A esta hora, deveríamos já estar a caminho de nossos estudos, e minha agenda não costuma admitir tamanha demora. — Seu olhar percorreu a mesa cuidadosamente posta em seus aposentos.
— Ademais, se bem me recordo, meu desjejum é servido à oitava hora, na sala de refeições, conforme determina a rotina que me foi estabelecida. Por que, então, foi trazido até meus aposentos?
Voltou os olhos para a rainha, mantendo a postura ereta e respeitosa.
— Perdoai minha franqueza, Majestade, mas começo a suspeitar de que esta manhã não será como as demais. Há alguma razão para que minha rotina tenha sido alterada?
A rainha observou a postura e as palavras do filho e, naquele instante, lembrou-se do que sua ama havia dito sobre a tristeza que carregava o olhar de seu primogênito.
Sentiu-se, então, culpada por não ter percebido antes.
Por tantos anos, enxergara diante de si o herdeiro que precisava ser preparado para o futuro, mas talvez tivesse se esquecido de enxergar o menino que ainda existia por trás daquela postura impecável.
Aproximou-se novamente e abraçou o filho antes de conduzi-lo até a mesa já posta.
— Claro, meu filho. Hoje não seguiremos as orientações do velho Pierre, tampouco nos curvaremos às exigências de tua rotina. Hoje, quero apenas ser tua mãe e ter meu filho ao meu lado.
A rainha aproximou-se da mesa com um sorriso sereno e pousou a mão sobre ela.
— Teremos um dia nosso, Lucian. Sem horários, sem lições, sem obrigações que nos chamem às pressas. Apenas nós dois, como deveria ter sido tantas vezes.
Seu olhar tornou-se ainda mais afetuoso.
— As obrigações do reino podem esperar por algumas horas. O trono não há de ruir porque seu herdeiro tomou o café da manhã ao lado de sua mãe.
Ao ver o sorriso que enfim surgira no rosto de seu filho, a rainha compreendeu que havia feito a escolha certa.
Por alguns instantes, deixou de enxergar o herdeiro do trono, o futuro rei ou aquele jovem moldado diariamente para carregar o peso de uma coroa.
Diante dela estava apenas Lucian.
Seu filho.
Antes de ser herdeiro, ele precisava ser filho.
Antes de aprender a governar um reino, precisava ter a oportunidade de simplesmente viver.
A liberdade que lhe fora tirada desde o nascimento não poderia continuar sendo sacrificada em nome de uma preparação que parecia nunca ter fim.
Talvez tivesse chegado o momento de compreender que nem todo futuro rei precisava viver cercado por regras, horários e obrigações.
Os tempos estavam mudando, e talvez a educação de um príncipe também precisasse acompanhar essas mudanças.
A rainha sabia que teria uma conversa séria com Pierre.
Não pretendia desfazer tudo aquilo que havia sido construído, pois compreendia a importância da preparação de Lucian. Mas, a partir daquele momento, faria questão de que houvesse espaço para algo que também era essencial:
Sua juventude.
Se dependesse dela, haveria mudanças na rotina.
Talvez uma semana inteira de descanso de tempos em tempos.
Ou, ao menos, um dia a cada quinze dias em que Lucian pudesse deixar de ser o príncipe e simplesmente ser um adolescente.
Porque, afinal, uma coroa poderia esperar algumas horas.
A juventude de seu filho, não.
Fale com o autor