Notas iniciais
Como falei, vou postando conforme ainda tiver fresco as ideias. Espero que gostem!

LUCIAN


— Vossa Alteza, erguei-vos e apresentai-vos. Não há tempo a perder. Devemos dar continuidade ao vosso itinerário. Sei que os estudos e os deveres vos pesam, mas um herdeiro não se forja no conforto. Cada lição que hoje suportais é um passo para o futuro que vos aguarda. Portanto, coragem, meu príncipe. O vosso dever vos chama.


Ao ouvir a voz de Pierre, o choque desapareceu de sua face. Lucian pediu desculpas novamente à jovem e escondeu-se no quarto onde ela estava, rezando para que o destino fosse seu aliado e ela não o entregasse. Se isso acontecesse, sua missão de fuga estaria acabada.


LÚCIA


Assim que escutou a voz de Pierre, a jovem Lúcia entendeu duas coisas que acabavam de acontecer. A primeira: ela havia esbarrado no príncipe. A segunda: tivera a audácia de mandar o príncipe ajudá-la.


— Por Deus, Lúcia, onde estavas com a cabeça para dar ordens ao futuro rei?!


Só então percebeu que falara em voz alta e novamente se puniu mentalmente. Olhou para os lados para se certificar de que ninguém a escutara e suspirou aliviada ao notar que Pierre ainda não havia entrado em seu campo de visão.


— Jovem Lúcia, o que sucedeu? Estais bem? Pelas condições das toalhas, ouso supor que vos esbarrastes com Vossa Alteza. Estou correto?


Ela sabia que, por mais que Pierre fosse seu padrinho, naquele momento ele era o Conselheiro Real. E que ironia do destino: ela, que crescera com ele, não conhecia o herdeiro.


— Está tudo bem, padrinho... Quero dizer, Conselheiro Pierre. Perdoai-me pela minha falta de atenção. Na verdade, não conheço o príncipe. Porém, se o jovem afobado que passou por aqui há pouco era Vossa Alteza, então creio que sim. Ele parecia estar com muita pressa... Quando me dei conta, já havia partido, e não vi para onde seguira.


Por algum motivo, ela também não sabia por que estava omitindo de seu padrinho onde o jovem se encontrava. Mas sabia o quanto Pierre era respeitado e rígido. Se o príncipe estava fugindo dele, algum motivo teria, e não seria ela a se meter em assuntos reais.


— Não vos preocupeis, jovem Lúcia. Não tendes culpa. Se avistardes Vossa Alteza novamente, dizei-lhe apenas que o Conselheiro Pierre o procura. Quanto a mim, cuidarei de encontrá-lo antes que cause mais estragos... e, se possível, antes que outras toalhas tenham o mesmo destino.


Com isso, Pierre se afastou pelos corredores à procura do príncipe.


Lúcia recolheu a última toalha do chão e deu uma leve batida na porta.


— Podeis sair, Vossa Alteza. Vosso conselheiro já partiu pelos corredores à vossa procura. E... se me permitis a ousadia, talvez devêsseis ter um pouco mais de cuidado por onde andais. Perdoai-me... não deveria ter sido tão atrevida.


Sem dar tempo para que o príncipe respondesse, ela partiu na direção oposta, levando as toalhas para serem lavadas novamente.


Assim que chegou ao seu destino, Amélia arqueou as sobrancelhas ao ver as toalhas. Sabia que a jovem era sempre muito cuidadosa e, ainda assim, lá estava ela novamente com as toalhas para lavar.


— O que aconteceu, Lúcia? Assustaste-te com os fantasmas dos corredores?


— Deus do céu, Amélia! Não me venhas novamente com essas histórias de fantasmas. Graças a Deus, nunca vi nada.


A jovem tinha pavor só de imaginar que as histórias da mais velha pudessem ser verdadeiras.


— Um jovem esbarrou em mim. Ele estava fugindo do meu padrinho.


Amélia encarou a jovem por alguns instantes antes de começar a rir, divertindo-se com a inocência dela por não saber quem era o jovem em questão.


— Vejam só, Margarida... Nossa jovem Lúcia esbarrou com o jovem Lucian sem saber quem ele era.


— Quem?


A outra criada também riu. Nunca imaginara que a jovem não conhecesse o príncipe Lucian. O que tornava tudo ainda mais irônico, considerando que os dois tinham praticamente o mesmo nome e haviam nascido no mesmo dia.


— Príncipe Lucian, minha cara. O futuro rei do nosso condado. E, se ele está fugindo de Pierre, pode ter certeza de que estará bem encrencado quando o conselheiro o encontrar.


Com isso, as mulheres mais velhas pegaram as toalhas, ainda rindo, e dispensaram a jovem para que voltasse aos seus afazeres.


Lúcia ficou submersa em pensamentos, imaginando qual seria o castigo para alguém que tinha tudo e, ainda assim, escolhera fugir de seus próprios deveres.


Então, voltou para o andar dos quartos, rezando para não esbarrar com mais ninguém da realeza. Já tivera emoções demais para um único dia.



LUCIAN


O jovem Lucian permanecia submerso em pensamentos, tentando entender tudo o que havia acontecido.


Primeiro, uma criada que não o conhecia e ainda tivera a audácia de pedir que ele a ajudasse a recolher as toalhas. Depois, descobrira que era a primeira vez que escutava Pierre falar sem ser tão duro e assustador com alguém. Sabia que seu conselheiro era bastante rígido por conta de sua posição, mas nunca o vira deixar as barreiras caírem daquela maneira.


E, por último, havia o que mais o surpreendera: a jovem mentira que sabia onde ele estava, mantendo seu esconderijo seguro por mais algum tempo.


Lucian permaneceu em silêncio até ouvir os passos de seu conselheiro desaparecerem pelo corredor. Antes que pudesse sair ou dizer qualquer coisa, escutou uma batida na porta.


— Podeis sair, Vossa Alteza. Vosso conselheiro já partiu pelos corredores à vossa procura. E... se me permitis a ousadia, talvez devêsseis ter um pouco mais de cuidado por onde andais. Perdoai-me... não deveria ter sido tão atrevida.


Antes que pudesse responder, Lucian ouviu o som dos passos da jovem se afastando.


Quando finalmente abriu a porta, ela já não estava mais à vista, deixando-o ainda mais intrigado.


Ao tentar encontrá-la, porém, entrou no corredor errado e deu de cara com seu conselheiro, que saía de um aposento. Assim que o viu, Pierre lançou lhe um olhar reprovador.


— Príncipe, já vos adverti sobre vossa insistência em fugir de vossos afazeres. Compreendo que nem sempre sejam agradáveis, mas deveis compreender a seriedade de vossa posição: sois o futuro rei. Haveis, portanto, de seguir à risca os ensinamentos e as normas de conduta que vos foram confiados. Não podeis esconder-vos pelos corredores sempre que um dever vos desagrada, pois um soberano deve aprender a enfrentar suas obrigações, e não fugir delas.


— Eu compreendo, Pierre... e não ignoro os deveres que me aguardam. Sei que um dia caberá a mim portar a coroa e governar este reino. Mas, por vezes, desejo apenas um breve momento de liberdade. Poder despertar sem que me chamem à hora determinada, tomar meu desjejum em paz, sem ouvir uma repreensão por haver segurado um talher de maneira imprópria... Queria, ao menos por um dia, viver sem que cada gesto meu fosse observado e regido por tantas regras.

Notas finais
O que estão achando? Beijos Kizlars ❤️