Entre Acasos e Destinos
29 Capitulo 29
Notas iniciais
A noite avançava, arrastando consigo as horas, mas, para Lucian e Lúcia, o baile parecia ter se transformado em uma verdadeira batalha.
Lucian lutava contra o cansaço.
Havia mais de duas horas que dançava com diferentes princesas, mantendo o sorriso cordial, a postura impecável e a paciência que se esperava de um futuro rei.
Lúcia, por outro lado, enfrentava uma batalha de natureza completamente diferente.
A cada grupo de nobres que a rainha lhe apresentava, as perguntas se tornavam mais difíceis, mais delicadas e, algumas vezes, perigosamente indiscretas.
Ainda assim, para surpresa de muitos, a jovem estava se saindo muito bem.
Respondia com respeito, mas sem se diminuir. Contornava perguntas inconvenientes com inteligência e, quando percebia que uma conversa estava prestes a ultrapassar os limites que conseguia administrar sozinha, recorria discretamente ao código que havia combinado com Lucian.
Duas vezes naquela noite.
E, nas duas, o príncipe compreendera o pedido silencioso antes mesmo que ela precisasse explicar.
Mas havia algo que poucos naquela sala haviam percebido.
Antes que Lucian chegasse para ajudá-la, Lúcia já havia conseguido escapar de algumas das perguntas mais constrangedoras por conta própria.
A rainha observava tudo em silêncio.
E, depois de algumas horas, pareceu satisfeita.
Ela já havia feito seus testes.
Agora era a vez do rei.
Sentado a certa distância, ele acompanhara cada resposta da jovem com atenção. Até então, permanecera apenas como observador.
Mas finalmente se levantou.
A movimentação não passou despercebida.
À medida que o rei atravessava o salão, as conversas diminuíram pouco a pouco.
Os nobres abriram espaço.
Quando ele se aproximou, todos fizeram uma profunda reverência.
Lúcia também.
Baixou a cabeça como os demais, mantendo a postura respeitosa.
Porém, quando tornou a erguer os olhos...
Parou.
Seu olhar encontrou o rosto do rei.
E, por um instante, todo o restante do salão pareceu desaparecer.
Aquele rosto.
Aquele mesmo olhar.
Aquela expressão que ela conhecia tão bem.
Lúcia piscou uma vez.
Depois outra.
Não.
Não podia ser.
O homem diante dela era o rei.
O mesmo homem que conhecera naqueles almoços aparentemente casuais.
O mesmo homem que se sentava diante dela, fazia perguntas e ouvia seus pensamentos sobre o reino.
O mesmo homem a quem havia contado coisas que jamais imaginaria dizer diante de um soberano.
O pintor.
O misterioso pintor que ela acreditara ser apenas um homem curioso demais sobre suas opiniões.
Lúcia permaneceu imóvel.
Por dentro, porém, sua mente estava em completo tumulto.
Ela não sabia se deveria se sentir traída.
Ofendida.
Envergonhada por tudo o que havia dito.
Ou simplesmente rir da situação absurda em que sua vida parecia insistir em colocá-la.
Porque, de todos os homens que poderia ter encontrado naquele castelo...
Justamente aquele a quem havia exposto seus pensamentos mais sinceros era o próprio rei.
O rei que agora estava diante dela.
E, de repente, todos aqueles almoços adquiriram um significado completamente diferente.
As perguntas.
Os comentários.
O interesse incomum em suas opiniões.
A maneira como ele parecia sempre querer saber o que ela realmente pensava sobre o reino.
Tudo fazia sentido.
Lúcia respirou lentamente.
Talvez seu maior problema não fosse descobrir que o pintor era o rei.
Talvez fosse lembrar exatamente de tudo o que havia dito a ele.
E, pela primeira vez naquela noite, a jovem desejou desesperadamente que existisse algum código capaz de fazê-la desaparecer dali.
O rei, por sua vez, apenas a observou.
Então, um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
Como se estivesse se divertindo muito mais com aquela descoberta do que deveria.
Lúcia teve a sensação de que todos os olhos do salão estavam sobre ela, embora soubesse que aquilo provavelmente não passava de impressão.
Não podia permitir, porém, que aquela revelação desestabilizasse tudo o que havia construído durante aquela noite.
Ela havia chegado àquele baile como uma simples criada.
Agora, nobres a ouviam.
Princesas conversavam com ela.
A rainha a havia colocado à prova.
E ela havia permanecido de pé.
Não deixaria que descobrir a verdadeira identidade daquele homem mudasse isso.
Lúcia respirou discretamente, recompôs a postura e fez novamente uma reverência diante do rei.
— Senhorita Lúcia — disse ele, com a mesma voz que ela conhecia tão bem.
Ela engoliu em seco.
Aquela voz.
Agora que sabia quem ele era, parecia impossível não reconhecê-la.
— Vossa Majestade...
O rei inclinou levemente a cabeça.
— Finalmente nos conhecemos.
Por alguns segundos, Lúcia permaneceu em silêncio.
Sua mente ainda tentava assimilar a revelação, enquanto uma sucessão de lembranças daqueles almoços passava diante de seus olhos.
O pintor.
O homem com quem havia conversado tantas vezes.
O homem a quem expusera seus pensamentos sobre o reino.
Era o rei.
Mas Lúcia não permitiria que aquela descoberta destruísse tudo o que havia construído naquela noite.
Respirou fundo.
Endireitou os ombros e fez novamente uma reverência, dessa vez diante do soberano que finalmente reconhecia.
— Será uma honra, Vossa Majestade.
O rei pareceu satisfeito com a resposta.
— Peço que me acompanhe em algumas rodas. Acredito que minha esposa já a tenha monopolizado por tempo suficiente. — Lançou um breve olhar para a rainha. — Gostaria de apresentá-la a alguns nobres. Creio que terão muito a ganhar ouvindo seus pensamentos sobre política.
A rainha ergueu discretamente uma sobrancelha.
Não estava exatamente satisfeita com o marido por lhe roubar a jovem depois de ter passado boa parte da noite preparando-a para aquele momento.
Ainda assim, fez uma pequena reverência ao esposo e consentiu.
— Naturalmente.
O rei estendeu o braço para que Lúcia o acompanhasse.
Ela deu um passo em sua direção.
Porém, antes que os dois se afastassem, a rainha se aproximou.
Segurou delicadamente a mão de Lúcia por um instante e inclinou-se o suficiente para que apenas ela pudesse ouvir.
— Não deixe que eles a menosprezem.
Lúcia ergueu os olhos para a rainha.
A soberana continuou, em voz baixa:
— Mostre tudo aquilo que conhece. E, quando não souber alguma coisa...
Fez uma breve pausa.
— Devolva a pergunta.
Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
— Dessa forma, ganhará tempo para pensar antes de responder.
Lúcia não conseguiu evitar um discreto sorriso.
— Entendido, Vossa Majestade.
A rainha soltou sua mão.
— Vá.
Lúcia então voltou-se para o rei.
E, enquanto caminhava ao lado dele em direção ao primeiro grupo de nobres, uma nova preocupação surgiu em sua mente.
Até aquele momento, acreditava que estava sendo testada pela rainha.
Agora percebia que talvez tivesse passado a noite inteira sendo observada pelo rei também.
E, pela primeira vez, compreendeu que talvez aquele baile não tivesse sido apenas uma avaliação.
Talvez tivesse sido uma preparação.
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