Entre Acasos e Destinos
27 Capitulo 27
Notas iniciais
Toda a atenção estava voltada para o jovem herdeiro.
Uma após outra, as princesas e jovens damas aproximavam-se para cumprimentá-lo, e Lucian, como lhe fora ensinado desde a infância, recebia cada uma com a devida cortesia.
Pierre, entretanto, parecia determinado a não lhe conceder um único instante de descanso.
Não saberia dizer quantas vezes haviam atravessado o imenso salão.
O conselheiro conduzia o príncipe de uma roda a outra, apresentando-o a princesas, filhas de nobres e jovens damas de famílias importantes, enquanto Lucian mantinha o sorriso impecável e a postura digna de um herdeiro.
Seus pais, sentados no alto do salão, observavam tudo atentamente.
Até que a rainha se levantou de repente.
A ama, que permanecia próxima, imediatamente voltou-se para ela.
— Onde vais, Vossa Majestade?
A rainha ajeitou discretamente a saia do vestido antes de responder:
— Preciso ajudar Pierre. Quero ver como Lúcia se sai com essas esnobes, mas não conseguirei descobrir se ela continuar sendo a sombra dele.
O rei não conseguiu conter uma breve risada diante da impaciência da esposa.
Ainda assim, assentiu, concordando com ela.
A rainha fez uma pequena reverência em respeito ao marido e, sem perder mais tempo, desceu os degraus que levavam ao salão.
Sua presença foi imediatamente percebida.
À medida que avançava, rainhas, duquesas e princesas interrompiam suas conversas para fazer reverências, enquanto ela seguia majestosa pelo salão, envolta em seu elegante vestido de festa.
Quando finalmente alcançou o grupo, dirigiu-se a Pierre com um sorriso sereno.
— Conselheiro Pierre, poderia me emprestar a jovem Lúcia por alguns instantes? Gostaria de sua companhia enquanto cumprimento algumas das rainhas presentes.
Pierre compreendeu imediatamente a intenção por trás do pedido.
Fez uma discreta reverência.
— Naturalmente, Vossa Majestade.
Lucian, porém, não pareceu tão disposto a aceitar a mudança de planos.
— Vossa Majestade... minha mãe, acredito que Lúcia ainda esteja aprendendo algumas coisas e talvez...
— Vossa Alteza...
A voz de Lúcia o interrompeu antes que pudesse terminar.
Ela deu um pequeno passo à frente.
— Se me permitirdes interrompê-lo, acredito que posso acompanhar Vossa Majestade.
Lucian voltou os olhos para ela.
Lúcia sustentou seu olhar por um breve instante antes de continuar:
— Até porque o príncipe precisa iniciar o baile e escolher uma princesa para conduzir a primeira valsa.
Por um momento, Lucian ficou sem resposta.
Pierre baixou o rosto, disfarçando um sorriso.
A rainha, por outro lado, parecia ter acabado de receber exatamente a resposta que esperava.
Lúcia fez uma reverência respeitosa e aproximou-se da rainha, posicionando-se à sua direita, ligeiramente atrás, como exigia a etiqueta.
A soberana lançou ao filho um olhar breve.
Vitorioso.
— Então está decidido.
E, antes que Lucian pudesse inventar qualquer outra desculpa, a rainha voltou-se para as demais convidadas.
— Se nos derem licença...
Com isso, tomou Lúcia consigo, deixando para trás um príncipe que, pela primeira vez naquela noite, parecia ter perdido o controle da situação.
Pierre aproximou-se discretamente do herdeiro.
— Parece que, desta vez, Vossa Alteza terá de se virar sem sua sombra.
Lucian lançou-lhe um olhar de reprovação.
— Não acho graça.
— Eu acho — respondeu Pierre, contendo o sorriso.
E, no outro extremo do salão, Lúcia percebeu que a rainha também sorria.
A rainha caminhava pelo salão com Lúcia ao seu lado.
A jovem mantinha os olhos baixos na medida certa, a postura ereta e as mãos delicadamente unidas à frente do corpo.
Por dentro, porém, seu coração parecia querer escapar do peito.
Não era todos os dias que uma simples camareira caminhava ao lado da rainha diante de toda a corte.
— Não fique tão tensa — murmurou a rainha, sem sequer olhar para ela.
Lúcia ergueu discretamente os olhos.
— Estou tentando, Vossa Majestade.
A rainha sorriu de canto.
— Eu sei.
Poucos passos depois, aproximaram-se de um pequeno grupo formado por três rainhas e algumas nobres.
A soberana cumprimentou-as com a elegância habitual.
— Vossas Majestades. É uma alegria revê-las.
Depois, voltou-se para Lúcia.
— Permitam-me apresentar-lhes uma jovem que tem me acompanhado nos últimos dias.
As mulheres voltaram os olhos para ela.
— Esta é Lúcia.
Lúcia fez uma profunda reverência.
— É uma honra conhecê-las, Vossas Majestades.
Uma das rainhas sorriu.
— Lúcia... É um nome bastante simples.
O comentário pareceu inocente.
Mas o olhar da mulher dizia outra coisa.
Lúcia apenas sorriu.
— Talvez por isso seja fácil de lembrar, Vossa Majestade.
A rainha ao lado conteve um pequeno sorriso.
A primeira mulher arqueou uma sobrancelha, surpresa por ter recebido uma resposta tão rápida.
— Vejo que és espirituosa.
— Procuro apenas ser cuidadosa com as palavras, Vossa Majestade.
— E de onde vem essa habilidade?
Lúcia hesitou por um instante.
— De ouvir muito, Vossa Majestade.
A mulher pareceu não compreender.
— Ouvir?
— Sim.
Lúcia manteve o tom sereno.
— Quem fala costuma escolher as palavras que deseja que os outros escutem. Quem observa em silêncio, por vezes, acaba percebendo também aquilo que não foi dito.
Houve um breve silêncio.
A rainha lançou um olhar discreto para Lúcia.
Era exatamente aquele tipo de resposta que esperava dela.
Uma das nobres presentes resolveu participar da conversa.
— Então sois uma observadora?
— Tento ser.
— E o que exatamente uma jovem como vós teria para observar em uma corte?
Lúcia percebeu o tom.
Não era uma pergunta.
Era um desafio.
Ainda assim, não se deixou provocar.
— Muitas coisas, minha senhora.
— Como o quê?
Lúcia olhou brevemente ao redor do salão.
— Quem fala quando deveria ouvir.
Algumas das mulheres trocaram olhares.
Lúcia continuou:
— Quem permanece em silêncio quando deveria falar.
A nobre cruzou os braços.
— E imagino que também observe quem merece confiança.
Lúcia sorriu discretamente.
— Essa talvez seja a coisa mais difícil de observar.
A resposta arrancou um pequeno sorriso de uma das rainhas.
Mas a nobre não desistiu.
— Diga-me, menina... O que uma jovem poderia saber sobre assuntos da corte?
Lúcia sentiu a pergunta pesar.
Por um instante, pensou em responder que nada.
Seria a resposta mais segura.
Mas então se lembrou de tudo o que aprendera observando os corredores do castelo, ouvindo criados, soldados, comerciantes e nobres. Lembrou-se das conversas que ouvira sobre impostos, colheitas, famílias que não conseguiam alimentar seus filhos e decisões tomadas em salas onde jamais seriam ouvidas.
Então respondeu:
— Talvez eu não saiba tanto quanto Vossa Senhoria.
A mulher sorriu, satisfeita.
Mas Lúcia ainda não havia terminado.
— Contudo, uma coisa aprendi.
A nobre voltou a fitá-la.
— O que aprendestes?
— Que uma decisão tomada por alguém que conhece apenas o palácio pode parecer perfeita dentro dele.
Lúcia fez uma pequena pausa.
— Mas pode ser muito diferente quando chega aos que vivem fora de seus muros.
O sorriso da nobre desapareceu lentamente.
Ninguém disse nada.
Lúcia imediatamente fez uma pequena reverência.
— Perdoai-me se fui além do que deveria.
A rainha então tomou a palavra.
— Não foi.
Lúcia olhou para ela.
A soberana voltou-se para as demais mulheres.
— Ela apenas respondeu à pergunta que lhe foi feita.
Uma das rainhas sorriu.
— E respondeu com bastante cuidado.
— É justamente o que tenho observado — respondeu a soberana.
Lúcia baixou novamente os olhos.
A rainha, porém, continuou:
— Há pessoas que sabem falar.
Fez uma pausa.
— Há pessoas que sabem ouvir.
Depois olhou para Lúcia.
— E existem raras pessoas que sabem quando fazer cada uma dessas coisas.
Lúcia ficou imóvel.
Não esperava aquele elogio.
A rainha então voltou-se novamente para as convidadas.
— Creio que isso seja muito mais útil em um conselho do que qualquer sobrenome importante.
Aquelas palavras fizeram Lúcia erguer os olhos.
Por um breve instante, encontrou o olhar da rainha.
E compreendeu.
Aquilo não havia sido apenas uma apresentação.
A rainha estava mostrando à corte exatamente por que havia escolhido aquela jovem para caminhar ao seu lado.
E, talvez pela primeira vez, Lúcia começou a compreender que sua maior qualidade não era saber responder.
Era saber como responder.
Sem arrogância.
Sem medo.
E sem jamais esquecer quem estava diante dela.
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