Entre Acasos e Destinos
25 Capitulo 25
Notas iniciais
O tempo, entretanto, não esperava por nenhum deles.
Os dias seguintes passaram depressa, e as aulas foram temporariamente interrompidas por ordem da rainha. O castelo começava a se transformar para as festividades que se aproximavam e, entre criados correndo pelos corredores, músicos chegando ao salão principal e os preparativos para o grande baile, até mesmo os estudos precisaram ceder espaço à celebração.
Para Lucian, aquilo deveria ter sido motivo de alegria.
Deveria.
Mas bastou Pierre mencionar que, durante aqueles dias, as aulas de dança seriam intensificadas para que o príncipe descobrisse que existiam torturas capazes de rivalizar com qualquer campo de batalha.
Lúcia, naturalmente, descobrira isso antes dele.
E achava absolutamente divertido.
— Outra vez, Vossa Alteza.
A voz de Pierre ecoou pelo salão.
Lucian fechou os olhos por um instante.
— Eu fiz exatamente como ordenastes.
— Fizestes exatamente o contrário.
Do outro lado do salão, Lúcia levou a mão aos lábios, tentando conter o riso.
Não conseguiu.
Lucian lançou-lhe um olhar atravessado.
— Estais achando graça?
— De maneira alguma.
— Estais rindo.
— Talvez um pouco.
— Então vossa piedade é realmente admirável.
Ela sorriu.
— Eu poderia ajudar.
— Não preciso de vossa ajuda.
— Evidentemente.
Pierre precisou esconder um sorriso.
Aquela troca tornara-se quase parte da rotina entre os dois.
Quando Lúcia cometia algum erro durante as aulas de etiqueta, Lucian fazia questão de lembrá-la disso durante o restante do dia. Quando era ele quem recebia uma correção de Pierre, Lúcia retribuía com um sorriso que parecia dizer que, finalmente, o príncipe também podia ser vencido.
E, embora nenhum dos dois admitisse, aquelas pequenas provocações haviam transformado os dias de estudo em algo muito diferente do que eram antes.
Até que chegou a vez de Lúcia descobrir que também teria sua parcela de sofrimento.
A rainha determinara que ela deveria aprender as regras de etiqueta da corte.
Não por capricho.
Havia um propósito.
— Durante o baile — explicou a rainha, enquanto caminhava lentamente ao lado da jovem — serás apresentada a algumas pessoas.
Lúcia imediatamente ficou séria.
— A mim, Majestade?
— A ti.
— Mas eu não pertenço à corte.
A rainha voltou o olhar para ela.
— Ainda não compreendeste que não é necessário nascer dentro dela para aprender a caminhar por seus corredores?
Lúcia permaneceu em silêncio.
A rainha continuou:
— Disseste que desejas ser conselheira um dia. Se realmente desejas isso, precisarás aprender mais do que aquilo que se encontra nos livros.
A jovem assentiu.
— Precisarás saber ouvir sem demonstrar tudo o que pensas. Precisarás saber quando falar. Precisarás compreender quem está diante de ti antes mesmo que essa pessoa diga o que deseja.
Lúcia franziu levemente a testa.
— Então etiqueta não é apenas saber como se portar diante de alguém?
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios da rainha.
— Não.
Ela parou diante da jovem.
— Etiqueta é aprender a enxergar aquilo que as pessoas tentam esconder.
Lúcia ficou pensativa.
Aquilo, de alguma maneira, despertou imediatamente sua curiosidade.
Talvez porque, desde que começara a conviver com aquelas pessoas, tivesse percebido que quase todos escondiam alguma coisa.
O rei escondia suas preocupações atrás da autoridade.
Pierre escondia seus sentimentos atrás da disciplina.
Lucian escondia seu desejo de liberdade atrás da arrogância.
E ela própria...
Ainda não sabia exatamente o que escondia.
— Quero aprender — respondeu, enfim.
— Eu sei.
A rainha tocou de leve seu ombro.
— É justamente por isso que quero ver como te sairás.
Lúcia respirou fundo.
O baile ainda não havia começado.
Mas, para ela, uma nova partida já estava sendo preparada.
E, dessa vez, não haveria um tabuleiro entre ela e Lucian.
Haveria uma corte inteira.
Naquela tarde, assim que chegou em casa, Lúcia contou aos pais sobre a conversa que tivera com a rainha.
O orgulho estava estampado no rosto de ambos, embora a preocupação de sua mãe fosse impossível de esconder.
Sabiam o quanto aquela oportunidade significava para a filha. Sabiam também de sua inteligência, de sua determinação e daquela coragem que, desde pequena, fazia com que Lúcia jamais aceitasse simplesmente um “não” como resposta.
Ainda assim, aquele mundo era diferente de tudo o que conheciam.
Era o mundo dos reis, dos nobres e das alianças.
Um mundo em que uma palavra mal colocada poderia ter consequências muito maiores do que ela imaginava.
Sua mãe segurou-lhe as mãos.
— Minha princesa, só peço que tomeis cuidado. Não ofendais nenhum soberano.
Lúcia sorriu.
— Podeis ficar tranquila, mãe. O padrinho está me ensinando muito bem.
Fez uma pequena pausa.
— E, mesmo não admitindo, o jovem herdeiro também tem me auxiliado nos estudos.
O pai, que até então apenas escutava, ergueu uma sobrancelha.
— Vossa Alteza?
Lúcia percebeu imediatamente a surpresa no rosto dele.
— Sim, papai.
Sentou-se à mesa e começou a explicar:
— Nós descobrimos, através da partida de xadrez, que existe entre nós um respeito mútuo. Desde então, acabamos usando isso a nosso favor. Ele me ajuda em algumas aulas e eu o auxilio em outras.
Seu pai continuava olhando para ela, claramente tentando assimilar aquela informação.
— O príncipe Lucian vos ajuda nos estudos?
— Ajuda.
Lúcia tentou conter um sorriso.
— Embora faça questão de me provocar sempre que tem oportunidade.
A mãe riu baixinho.
— Então continua sendo um jovem como qualquer outro.
— Exatamente como diz o padrinho.
Lúcia apoiou os braços sobre a mesa.
— Às vezes discutimos, outras vezes discordamos... mas acredito que aprendemos a respeitar aquilo que o outro sabe.
O pai permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Havia algo naquela resposta que lhe chamava atenção.
Lúcia não falava do príncipe com deslumbramento.
Falava com respeito.
Como se, por trás da coroa e do título, enxergasse simplesmente um jovem que também estava aprendendo.
— E o que pensais dele? — perguntou finalmente.
Lúcia ficou alguns segundos em silêncio.
Era uma pergunta simples.
A resposta, porém, não parecia tão fácil.
— Acredito que será um bom rei.
O pai ergueu novamente as sobrancelhas.
— Tendes tanta certeza?
Lúcia assentiu.
— Ele é inteligente. Aprende rápido. É estrategista e sabe ouvir quando percebe que alguém tem algo importante a dizer.
Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
— Embora seja bastante teimoso.
O pai soltou uma breve risada.
— Isso parece uma característica que conheceis muito bem.
— Talvez.
Lúcia baixou os olhos por um instante.
— Mas acredito que nosso povo terá um bom governante.
A sala ficou silenciosa.
Seu pai observou a filha com orgulho.
Talvez ela ainda não soubesse, mas aquela resposta dizia muito mais sobre Lúcia do que sobre o príncipe.
Ela não estava aprendendo apenas a conviver com a corte.
Estava começando a compreender o peso de quem um dia governaria aquele reino.
E, sem perceber, começava também a enxergar Lucian para além do rapaz que a provocava durante as aulas.
Não apenas como príncipe.
Mas como futuro rei.
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