Entre Acasos e Destinos
19 Capitulo 19
Notas iniciais
LUCIA
Naquele dia, a jovem Lúcia fora embora pensativa. Em apenas dois dias, tivera a oportunidade de falar, de expor aquilo que realmente pensava, e isso a deixara ainda mais intrigada com todo o mistério que envolvia seu padrinho.
Por isso, assim que chegara à feira, pôs-se a ajudar seus pais. Pouco a pouco, assim como os demais comerciantes, começaram a recolher suas mercadorias e a retornar para seus lares.
Como acontecia todos os dias, foram recebidos com festa pelos gêmeos, que tinham inúmeras coisas para contar sobre a escola e sobre como havia sido o dia.
Depois do jantar, quando a casa finalmente se aquietara, o pai de Lúcia a chamou para sentar-se com ele na sala.
Sobre a pequena mesa de madeira, já estava disposto o velho tabuleiro de xadrez.
Era um hábito que os dois cultivavam desde que Lúcia tinha apenas dois anos. Fora o pai quem lhe ensinara os primeiros movimentos, embora muitas das primeiras lições também tivessem vindo de seu padrinho.
Lúcia sentou-se diante dele e passou os dedos sobre uma das peças antes de escolher a sua.
O pai a observou por alguns instantes, percebendo que, naquela noite, a filha estava longe dali.
— Diga-me, minha princesa... o que tanto pensas?
Lúcia ergueu os olhos do tabuleiro.
— Nada, meu pai. É apenas impressão sua.
O homem soltou uma pequena risada, movendo uma das peças pelo tabuleiro.
— Eu te conheço, minha filha. — Seu olhar tornou-se mais atento. — O que está incomodando essa cabecinha? No mundo de Lúcia, o que saiu do lugar?
Ela sorriu de leve, mas logo voltou a encarar o tabuleiro.
Por alguns instantes, permaneceu em silêncio.
Como poderia contar ao pai que, nos últimos dois dias, estivera conversando com pessoas que jamais imaginara conhecer? E, pior ainda, como explicaria que acabara falando sobre aquilo que durante tantos anos guardara em silêncio?
Lúcia sabia que seu pai jamais tivera vergonha de sua escolha. Pelo contrário, sempre compreendera o motivo pelo qual ela abandonara os estudos tão jovem para ajudar a família.
Mas será que ele ficaria chateado ao saber que ela havia contado isso a outras pessoas?
Sua mão permaneceu sobre uma das peças, sem que ela conseguisse movê-la.
— Pai...
— Sim, minha filha?
Lúcia respirou fundo.
— Posso lhe contar uma coisa?
O homem afastou a mão do tabuleiro e voltou toda a sua atenção para ela.
— Sempre.
Aquela única palavra fez o coração de Lúcia apertar.
Talvez não houvesse motivo para temer.
Ainda assim, antes de falar, ela baixou os olhos para o tabuleiro.
— Eu... estive conversando com algumas pessoas no castelo.
O pai permaneceu em silêncio, esperando que ela continuasse.
— E acabei contando a elas por que deixei de estudar.
O olhar do pai de Lúcia carregava uma certa tristeza, quase como uma pena silenciosa. Ele sabia o quanto a filha amava os estudos e, embora tivesse sido contrário à decisão de fazê-la abandonar a escola tão jovem, conhecia bem a filha.
Lúcia herdara da mãe aquele gênio forte e determinado. Quando colocava algo em sua cabeça, dificilmente alguém conseguiria fazê-la mudar de ideia.
— E o que te preocupa? — perguntou ele, procurando transmitir confiança para que a filha pudesse finalmente expor aquilo que tanto a incomodava.
Lúcia respirou fundo.
— Eu consegui, pai... — começou, com um pequeno sorriso. — Eu consegui falar. Consegui expor aquilo que penso. E, durante os estudos com meu padrinho, consegui compreender uma coisa.
O pai ergueu levemente as sobrancelhas, atento.
— O quê?
— Que, se eu tivesse uma oportunidade... eu gostaria de ser uma conselheira.
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Uma conselheira?
Lúcia assentiu.
— Sim. Eu gostaria de poder dar voz àqueles que não podem, pai. Às famílias que vivem como nós vivemos. Àqueles que possuem problemas, mas não têm ninguém dentro do castelo que os escute.
O pai a observava com atenção. Havia orgulho em seus olhos, mas também a preocupação de um homem que sabia o tamanho do sonho que a filha acabara de confessar.
Lúcia então continuou, quase como se ainda não acreditasse no que estava prestes a dizer:
— E a última pessoa que me ouviu... foi a rainha.
O homem franziu a testa.
— A rainha?
— Sim.
Lúcia soltou uma pequena risada, ainda confusa com tudo aquilo.
— Eu também achei estranho. Mas, conforme fomos conversando, senti que havia verdade nela. Ela realmente queria me ouvir.
O pai recostou-se na cadeira, tentando assimilar as palavras da filha.
— E o que Sua Majestade lhe disse?
Lúcia sorriu.
— Ela me disse que eu nunca deixei de estudar.
O pai permaneceu calado.
— Disse que eu sempre busquei conhecimento. Apenas não da maneira convencional... não através da escola.
Aquelas palavras fizeram o homem baixar os olhos para o tabuleiro.
Por alguns segundos, não disse nada.
Então, lentamente, sorriu.
— Talvez ela tenha razão.
Lúcia o encarou, surpresa.
— O senhor acha?
— Acho que sempre soube disso.
Ele pegou uma das peças de xadrez entre os dedos e a observou antes de colocá-la novamente sobre o tabuleiro.
— Quando você era pequena, seu padrinho lhe ensinava a jogar xadrez, e você passava horas querendo entender por que uma peça podia avançar e outra não. Não se contentava em saber as regras. Queria saber o motivo de elas existirem.
Lúcia sorriu.
— Eu era curiosa.
— Ainda é.
O pai moveu uma peça.
— E talvez seja justamente essa curiosidade que te fez continuar estudando, mesmo quando deixou os livros da escola para trás.
Lúcia olhou para o tabuleiro, emocionada.
— Mas ser conselheira... é um sonho grande demais, não é?
O pai levantou os olhos para ela.
— É um sonho grande.
Ela abaixou o olhar.
— Então eu deveria esquecê-lo?
O homem sorriu.
— Eu não disse isso.
Empurrou o tabuleiro um pouco mais para o centro da mesa.
— No xadrez, minha princesa, ninguém vence olhando apenas para o primeiro movimento. É preciso enxergar os caminhos que podem surgir depois dele.
Lúcia ergueu os olhos lentamente.
— Então o senhor não acha impossível?
— Impossível? — Ele soltou uma pequena risada. — Conhecendo você, eu diria apenas que vai ser difícil.
Lúcia sorriu.
— Isso significa que acredita em mim?
O pai estendeu a mão e tocou carinhosamente o rosto da filha.
— Eu sempre acreditei em você, Lúcia. Mesmo quando você ainda não sabia no que queria acreditar.
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