Notas iniciais
Espero que gostem

— Com todo o respeito, Pierre, mas discordo de vosso pensamento. Não creio que um rei deva aceitar um tratado apenas por confiar nas palavras de outro soberano. Antes de selar qualquer acordo, é meu dever sondar suas verdadeiras intenções. Um tratado pode ser apresentado como uma promessa de paz quando, na verdade, não passa de uma armadilha cuidadosamente preparada.


Se eu aceitar sem antes compreender seus propósitos, poderei estar baixando a guarda de meu reino e permitindo que ele encontre a ocasião perfeita para atacar nossas tropas. Não desejo governar apenas acreditando em promessas, Pierre. Desejo conhecer as intenções daqueles que se sentam diante de mim.


E, dentre todas as lições que lhe eram impostas, aquela era, sem dúvida, a que mais inquietava o jovem herdeiro.


Lucian compreendia a importância dos tratados. Sabia que, para um reino, a paz poderia valer mais do que incontáveis batalhas e que um soberano deveria ser capaz de estender a mão ao inimigo quando tal gesto pudesse poupar o sangue de seu povo. Contudo, havia algo que jamais conseguia silenciar dentro de si: a dúvida.


E se aquelas palavras de paz escondessem uma intenção diferente?


E se, por trás de um tratado cuidadosamente selado, houvesse apenas uma armadilha esperando pelo momento certo para ser revelada?


Era esse conflito que fazia com que o jovem príncipe permanecesse sempre atento às palavras de Pierre. Ele queria acreditar que um rei deveria confiar, mas também começava a compreender que a confiança, quando oferecida sem cautela, poderia custar a vida de muitos.


Pierre, por sua vez, percebia cada uma dessas inquietações.


Por isso, não se limitava a ensinar ao príncipe o que estava escrito nos tratados ou como deveriam ser conduzidas as negociações entre reinos. Ele o colocava diante de situações difíceis, obrigando-o a escolher entre a paz e a guerra, entre a confiança e a desconfiança, entre salvar suas tropas ou preservar aquilo que ainda poderia ser salvo.


A cada pergunta, Pierre observava.


A cada resposta, avaliava.


Não buscava apenas um príncipe que soubesse governar, mas um rei que fosse capaz de permanecer de pé quando todas as certezas lhe fossem arrancadas.


Pois Lucian ainda não carregava uma coroa sobre a cabeça.


Mas, dia após dia, Pierre o preparava para o peso que um dia repousaria sobre ela.


E, quando esse dia chegasse, não haveria conselheiro, tratado ou espada que pudesse decidir por ele.


As escolhas seriam suas.


E, com elas, o destino de seu reino.


Porém, antes que pudesse prosseguir com suas aulas, uma batida à porta interrompeu a conversa, fazendo com que tanto Pierre quanto o jovem príncipe voltassem sua atenção para a entrada.


— Perdoai-me, Conselheiro Pierre, por interromper vossa aula. Vossas Majestades vos aguardam. Se assim desejardes, posso assumir daqui e adiantar as lições de espada com o jovem príncipe — disse um dos guardas responsáveis por seus treinamentos, mantendo-se respeitosamente à porta.


Pierre permaneceu em silêncio por alguns instantes, observando o guarda à porta. Sabia que, se Vossas Majestades o aguardavam, não seria prudente fazê-las esperar.


Por fim, assentiu com a cabeça.


— Muito bem. Se Vossas Majestades me chamam, não devo fazê-las esperar. Assumais o treinamento do príncipe e não sejais complacente com ele. Quero que mantenhais a mesma disciplina que lhe foi ensinada.


O guarda inclinou respeitosamente a cabeça.


— Assim será, Conselheiro.


Pierre então voltou seu olhar para Lucian, que permanecia sentado, acompanhando atentamente a conversa.


— Vossa Alteza, continuareis com vossos estudos na minha ausência. E espero que, quando eu retornar, não tenhais dado ao nosso instrutor motivo para reclamar de vossa conduta.


Um discreto sorriso surgiu nos lábios do jovem príncipe.


— Não darei, Conselheiro.


Pierre apenas assentiu e, após lançar um último olhar ao guarda, deixou a sala para atender ao chamado de Vossas Majestades.


A porta se fechou atrás dele, deixando o jovem herdeiro sob os cuidados de seu instrutor de espada.


Pierre caminhava pelos longos corredores do castelo e, como tantas outras vezes, não pôde deixar de admirar a grandiosidade daquele lugar.


Mesmo depois de tantos anos vivendo entre aquelas paredes, a beleza do castelo ainda lhe despertava a mesma admiração de outrora. As grandes colunas, os vitrais que deixavam a luz atravessar os salões e os detalhes cuidadosamente esculpidos nas paredes ainda lhe pareciam tão magníficos quanto no primeiro dia em que ali entrara.


Por um breve instante, Pierre se recordou de quando ainda era apenas um jovem que sonhava, um dia, tornar-se conselheiro da Coroa. Naquela época, jamais imaginara que seus passos o conduziriam tão longe, tampouco que passaria tantos anos servindo àquela família.


Um discreto sorriso surgiu em seus lábios ao lembrar-se de sua afilhada, Lúcia.


Ele havia reconhecido nela a mesma admiração que um dia carregara consigo. O modo como seus olhos percorriam cada detalhe do castelo, encantados com sua imponência, fizera Pierre recordar de sua própria juventude.


Talvez, pensou ele, algumas coisas jamais mudassem.


Assim que alcançou o salão central, Pierre encontrou os reis já à sua espera. Ambos conversavam tranquilamente, como se nada além daquele momento lhes ocupasse os pensamentos.


Ao perceberem sua aproximação, porém, interromperam a conversa e voltaram seus olhares para o conselheiro.


Pierre então se aproximou e, diante de Vossas Majestades, inclinou respeitosamente a cabeça.


— Vossas Majestades mandaram chamar-me?


— Claro, Pierre. Eu estava justamente conversando com vosso rei, meu marido, sobre aquilo que observei ontem. Tanto a postura de nosso filho quanto a maneira como temos conduzido sua formação têm ocupado meus pensamentos.


Ela fez uma breve pausa, baixando os olhos por um instante antes de prosseguir.


— Começo a acreditar que talvez estejamos exigindo demais de Lucian, sem lhe concedermos o tempo necessário para simplesmente ser um jovem e viver suas próprias experiências. Ele será rei, eu sei, e precisa estar preparado para o peso da Coroa. Mas, antes de ser soberano, ele ainda é nosso filho.


O rei permaneceu em silêncio, ouvindo atentamente as palavras da esposa, enquanto ela então voltou seu olhar para Pierre.


— E houve ainda outra coisa que me chamou profundamente a atenção. Vossa afilhada, Lúcia.


Um discreto sorriso surgiu em seus lábios.


— Fiquei verdadeiramente impressionada com cada uma das respostas que ela vos deu. Não apenas demonstrou compreender o assunto, como foi capaz de questionar aquilo que lhe era apresentado com uma segurança que eu não esperava.


A rainha deixou escapar uma pequena risada, ainda admirada com a lembrança.


— O mais impressionante foi vê-la diante de Lucian. Ele, que estuda esses assuntos todos os dias, apresentava seus argumentos com toda a convicção de um príncipe, e, ainda assim, aquela jovem encontrava uma nova pergunta para cada resposta que ele oferecia.


Então, seu semblante tornou-se mais pensativo.


— Não me pareceu que ela desejasse desafiá-lo por insolência. Pelo contrário... parecia genuinamente interessada em compreender e fazê-lo pensar além daquilo que já conhecia.


A rainha voltou os olhos para Pierre.


— Foi realmente extraordinário de observar. E devo confessar, Pierre, que aquela jovem despertou em mim uma curiosidade que há muito não sentia.


— Se me permitis dizer, Vossa Majestade, Lúcia é, de fato, uma jovem encantadora. Aos doze anos, precisou deixar os estudos para auxiliar seus pais nas despesas da casa e, desde então, tem trabalhado como uma das camareiras do castelo.


Pierre fez uma breve pausa, deixando transparecer o orgulho que sentia ao falar da afilhada.


— Ainda assim, jamais perdeu a vontade de aprender. Pelo contrário. Há nela uma curiosidade que não se deixa calar e um desejo sincero de compreender o mundo ao seu redor. E, talvez mais admirável ainda, ela possui uma preocupação genuína com aqueles que não têm voz para defender seus próprios interesses.


Um pequeno sorriso surgiu no rosto do conselheiro.


— Confesso, Vossa Majestade, que algumas vezes, ao observá-la, recordo-me de mim mesmo quando ainda era jovem. Talvez seja justamente por isso que tenha tanto apreço por ela.


A rainha o observava atentamente, e Pierre então acrescentou:


— Há, contudo, algo que torna o que aconteceu ontem ainda mais interessante. Lúcia não fazia ideia de quem estava diante dela.


O rei ergueu levemente as sobrancelhas, demonstrando surpresa.


— Dias atrás, ela chegou a esbarrar no jovem príncipe dentro do castelo e sequer sabia quem ele era. E ontem, quando Vossas Majestades estavam disfarçados no condado, ela acreditou estar apenas diante de um jovem comum.


Pierre deixou escapar uma pequena risada ao recordar a situação.


— Por isso, suas palavras foram tão naturais. Ela não estava diante de um herdeiro da Coroa, não estava preocupada em escolher as palavras certas diante de um príncipe e tampouco buscava agradá-lo. Ela simplesmente conversava com outro jovem e questionava aquilo em que acreditava.


Seu semblante tornou-se mais sério.


— Talvez tenha sido justamente por isso que suas palavras tenham causado tamanha impressão. Pela primeira vez, Lucian encontrou alguém que não o tratou como o futuro rei... mas simplesmente como Lucian.


O rei, contudo, parecia cada vez mais intrigado com a jovem de quem sua esposa e seu conselheiro falavam com tamanha consideração.


Não era apenas curiosidade. Como soberano, estava acostumado a observar as pessoas além das aparências, sobretudo aquelas capazes de surpreendê-lo. Se uma jovem camareira, sem a formação reservada aos nobres, havia conseguido questionar Lucian com tamanha segurança, talvez houvesse nela algo que merecesse ser compreendido.


O rei permaneceu pensativo por alguns instantes antes de falar.


— Quanto mais ouço sobre essa jovem, mais acredito que não devemos julgá-la apenas pelo que aparenta ser.


Pierre ergueu discretamente os olhos.


— O que pretendeis, Majestade?


— Quero conhecê-la — respondeu o rei. — Mas não desejo fazê-lo apenas por curiosidade. Quero compreender como ela pensa.


Levantou-se lentamente de seu assento e caminhou alguns passos pelo salão.


— Quero saber o que faria diante de uma ameaça ao reino. Se escolheria a guerra ou buscaria uma alternativa para evitá-la. Quero saber se compreenderia quando um tratado é uma oportunidade de paz e quando pode ser apenas uma armadilha. Quero ouvir o que pensa sobre os erros cometidos por antigos soberanos e o que faria diferente em seus lugares.


Então, voltou-se para Pierre.


— E, acima de tudo, quero descobrir se suas perguntas são apenas fruto de uma mente curiosa... ou se ela possui a capacidade de enxergar aquilo que outros deixam passar.


O silêncio tomou conta do salão por alguns instantes.


— Não quero que ela saiba que está sendo avaliada — acrescentou o rei. — Se realmente possui esse discernimento, desejo conhecê-lo sem que a presença de uma Coroa influencie suas respostas.


Pierre compreendeu imediatamente a intenção de seu rei.


Não se tratava mais de simplesmente conhecer Lúcia.


O soberano queria descobrir até onde chegava a inteligência daquela jovem quando colocada diante de questões que poderiam, um dia, decidir o destino de um reino.