Entre Acasos e Destinos
11 Capitulo 11
Notas iniciais
Pierre admirava sua afilhada e enxergava nela um potencial que jamais poderia ser desperdiçado. Tinha algo em mente para a jovem, mas, antes de alimentar falsas esperanças ou mencionar qualquer possibilidade que ainda não pudesse cumprir, preferiu guardar seus pensamentos para si.
Primeiro, haveria de conversar com o rei e a rainha. Somente depois, tendo a aprovação de ambos, levaria a ideia à sua irmã.
Contudo, algo lhe chamou a atenção.
Após entregar a mercadoria a Lúcia para que a organizasse sobre a bancada, Pierre afastou-se do estabelecimento. Mal havia dado alguns passos quando se deparou com uma figura que jamais esperaria encontrar ali.
A rainha.
Pelo porte de suas vestes e pela maneira como se apresentava, estava claro que aquela não era uma visita que deveria ser descoberta. Ainda assim, Pierre não se deixou levar pela surpresa. Manteve a discrição e, com todo o respeito que a presença de Sua Majestade exigia, inclinou levemente a cabeça.
— Perdoe-me o atrevimento, Vossa Majestade, mas o que faz neste condado, e ainda por cima trajando-se dessa maneira? Não é seguro que ande sem seus guardiões.
A rainha, surpreendendo até a si mesma, soltou um discreto suspiro, quase um bufar de contrariedade.
Sabia que deveria ter escutado seu herdeiro.
Lucian havia lhe advertido sobre os riscos de se aproximar, mas, em sua tentativa de ouvir mais sobre o que a jovem falava, acabara por ignorar o conselho.
E agora, diante de Pierre, percebia que não havia como esconder sua presença.
Aquele homem conhecia a família real havia anos. Poderia reconhecer a rainha mesmo sob os trajes mais simples.
Por um breve instante, ela apenas o encarou, como se procurasse uma resposta que justificasse sua presença.
— Minha ama tinha razão, Pierre. Meu jovem herdeiro tem carregado um semblante triste, e eu não poderia continuar ignorando isso. Depois de ouvir suas palavras durante as últimas aulas, tomei uma decisão. Pedi ao rei que me concedesse um único dia para estar somente com ele. Afinal, como me fizeram lembrar... antes de ser rainha, sou mãe.
A rainha fez uma breve pausa, deixando escapar um sorriso discreto.
— E, bem... depois de nosso desjejum, Lucian teve a ousadia de sugerir que tivéssemos um dia normal. O que, naturalmente, Sua Majestade não aprovou de imediato.
Ela arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Mas consegui convencê-lo a nos permitir sair.
Pierre não conseguiu conter o riso.
Conhecia aquela mulher desde os tempos em que ela ainda era uma jovem princesa. E lembrava-se muito bem de quando, movida pela mesma vontade de conhecer o mundo além dos muros do castelo, ela havia fugido certa vez em busca de uma aventura.
Uma aventura que quase terminara em tragédia.
Os tempos eram outros. Os rebeldes haviam descoberto sua presença e, não fosse pela intervenção do povo, que a protegera e conseguira levá-la em segurança de volta ao palácio, talvez aquela história tivesse tido um fim muito diferente.
A rainha percebeu o olhar de Pierre e imediatamente estreitou os olhos.
— Não me olhe dessa maneira, Pierre. Eu me lembro perfeitamente do que aconteceu naquela época.
— Percebo que se lembra, Vossa Majestade — respondeu ele, ainda contendo o sorriso.
— E desta vez tomamos todas as medidas necessárias.
A rainha ergueu o queixo, defendendo-se.
— Além disso, ver o jovem Lucian tendo a oportunidade de viver suas próprias experiências... devo confessar que me deixa deveras encantada. Ele precisa conhecer o mundo que um dia governará, não apenas ouvi-lo através das lições e dos relatos dos mestres.
Pierre assentiu respeitosamente.
— Imagino, Vossa Majestade. E não tomarei mais do vosso tempo. Não seria prudente permanecer aqui por muito tempo e acabar por arruinar vosso disfarce.
Pierre fez uma pequena reverência e começou a se afastar.
— Pierre.
Ele parou e olhou por sobre o ombro.
A expressão da rainha havia mudado. Já não havia nela o mesmo tom descontraído de instantes antes.
— Quero conversar convosco amanhã sobre sua afilhada.
Pierre voltou-se completamente para ela.
— Lúcia?
— Sim. — A rainha sustentou seu olhar. — Portanto, reserve um momento em sua agenda. Quero que tenhamos essa conversa na presença de Sua Majestade, o rei.
Pierre ficou em silêncio por um instante, intrigado com a seriedade repentina de Sua Majestade.
— Como desejar, Vossa Majestade.
Ela apenas assentiu.
Sem acrescentar qualquer explicação, a rainha virou-se e seguiu pelo caminho por onde viera, deixando Pierre para trás com mais perguntas do que respostas.
Pouco depois, ela finalmente reencontrou seu jovem herdeiro.
Contudo, para sua surpresa, Lucian não estava sozinho.
Encontrava-se envolvido em uma acalorada discussão sobre guerras e tratados — assunto que, para sua surpresa, parecia despertar grande interesse no rapaz.
E, para tornar aquela cena ainda mais curiosa, sua interlocutora era justamente a jovem Lúcia.
— Uma guerra não começa apenas quando os exércitos marcham — dizia Lucian, caminhando lentamente pelas barracas. — Muitas vezes, ela começa muito antes, quando um reino decide romper um tratado ou quando um soberano acredita que suas terras lhe dão o direito de tomar as terras de outro.
Lúcia permanecia diante dele, ouvindo atentamente.
— Então, se um rei desejar evitar uma guerra, basta oferecer um tratado?
Lucian negou com a cabeça.
— Não necessariamente. Um tratado só possui valor enquanto ambos os lados estiverem dispostos a respeitá-lo.
— Então, para que servem os tratados?
O jovem príncipe pensou por alguns instantes.
— Para estabelecer limites. Para definir compromissos. E, principalmente, para dar aos reis uma alternativa antes que seus homens tenham de morrer em batalha.
Lúcia franziu levemente o cenho.
— Mas, se dois reis assinam um tratado e um deles decide quebrá-lo, de que serviu toda aquela negociação?
Lucian sorriu de canto.
— Serviu para revelar quem realmente desejava a paz.
Lúcia pareceu refletir sobre aquilo.
— E se o outro reino souber que será atacado mesmo depois de oferecer paz?
— Então deverá estar preparado para se defender.
— Mesmo que não queira guerrear?
— Sobretudo se não quiser guerrear.
Lúcia o encarou com curiosidade.
— Parece contraditório.
Lucian parou de caminhar.
— É justamente por isso que governar é mais difícil do que empunhar uma espada. Um soldado precisa saber quando lutar. Um rei precisa saber quando não lutar.
A jovem ficou em silêncio por um instante.
— E como um rei sabe a diferença?
Lucian respirou profundamente, como se aquela pergunta fosse mais difícil do que todas as anteriores.
— Escutando seus conselheiros. Conhecendo seus inimigos. Protegendo seu povo. E, acima de tudo, não permitindo que o orgulho decida por ele.
Lúcia sorriu discretamente.
— Então, talvez um rei não devesse ter vergonha de mudar de ideia.
Lucian ergueu uma sobrancelha, surpreso com a conclusão.
— Onde aprendeste isso?
Lúcia deu de ombros, sem se deixar intimidar.
— Em lugar algum. Apenas me parece sensato.
O príncipe deixou escapar uma pequena risada.
— Você tem um ponto.
— Talvez.
Lucian permaneceu em silêncio por um instante, observando-a com uma expressão que misturava surpresa e divertimento. Não esperava que Lúcia tivesse tanta facilidade para questionar aquilo que ele aprendera durante anos.
Então, para a surpresa da jovem, um sorriso surgiu no rosto do príncipe.
— Talvez eu devesse ouvir mais vezes o que você tem a dizer.
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