Entre A Vida E A Morte
7 Imprevisão
Notas iniciais
- Olá, garoto. Hoje vamos aprender sobre os inimigos. – Liwis recebeu-me com pouca simpatia.
Apenas sentei-me na grama de frente com ele. Ele colocou os pés em cima dos joelhos e ordenou que eu fizesse também.
- Esvazie novamente sua cabeça, jovem guerreiro. Mas dessa vez esvazie mesmo. Medite – disse ele.
Fechei os olhos e pensei apenas no escuro que ficava minha mente. E, de repente, vieram movimentos, luzes, fumaça negra. Eu fiquei confuso, mas a voz de Liwis entrava em meus pensamentos, pedindo calma, e eu o fazia. Ele começou a explicar desde o início, assim como no livro, sobre o descobrimento dos poderes aprisionados nas pedras do Leviathan.
“Quando os patriarcas tiveram em mãos as grandes forças, foram possuídos. As Trevas para sua defesa, criou todos os monstros que ouvimos em histórias de terror. Bruxas, vampiros, lobisomens, e os mais sujos sentimentos. Mas o mais temido, depois de tantos séculos, quando os dois espíritos, a Luz e as Trevas, já estavam tão enfraquecidos, foi a Morte, denominada Samael pelos judeus. O mal estava tão impregnado, tão denso, que foi tudo destruído, e as pessoas, que antes eram muito felizes um dia, acabaram perdidas e dominadas pela dor e pelo medo. E a felicidade, que antes tão doce e serena, foi levada pelas Trevas. Samael convive entre os humanos, e chegará um dia até ti. E precisarás que estejas preparado para destruir tudo. Tudo mesmo.”
* * *
Duas semanas se passaram. Todos os dias eu treinava com Liwis em como usar minha mente contra invasões e como destruir os próprios invasores dentro de minha mente. Aprendi cada vez mais sobre minha história, e a dos inimigos e amigos. Era uma história complexa, cheia de casos e descasos, e entrava tudo meio confuso. Mas enfim, estava tendo mais clima de avó e netos entre eu e Luize. O porém é que eu passava os dias com dor, com dor no coração. Eu pensava demais no meu passado confortável entre os braços de Luke, de Florence e na diversão de Grace. Olhava todos os dias as fotos de meu passado. Minha única prova de que tudo foi real. Eu mal esperava o dia em que eu encontrasse Luke novamente. Já era hora de haver alguma notícia.
- Elliot! – chamou minha avó.
- O que foi? – perguntei assustado.
- Carta de Cambridge para você. – interveio Daniel.
Peguei a carta e corri os olhos ansiosos pelas poucas linhas. Era a caligrafia de Flo.
“Olá, meu querido Lio. Espero que esteja tudo bem por aí. Que ande tudo certo sua vida com seus novos companheiros. Estaremos em Dublin nos próximos 2 dias. Estamos chegando em breve. E lembre-se. Bons momentos ainda virão. Te amamos Lio,
By Flo and friends.”
A pequena lágrima escapou ao ver o bloquinho de fotos que estava preso ao papel. Tinha três. Uma de Luke sorrindo, com seus lindos olhos verdes, Grace e seus cabelos loiros e sedosos, e Florence com seu doce estilo gótico e sorridente. Eu os amava tanto e percebi que nada poderia matar o nosso amor.
* * *
Eu não era uma pessoa muito social, mas isso nunca fez com que eu sofresse bullying na escola, ou fosse mal dito. Minha família em Cambridge era rica, entao eu tinha uma boa imagem. E como não era tão social, eu ainda não tinha formado um grande vínculo familiar com minha avó e meu primo Daniel. Luize se esforçava, eu notava. Era muito carinhosa, mas eu não sentia essa proximidade. Já Daniel era super quieto, sempre estava apenas observando e aquilo dava calafrios na espinha.
- Elliot, iremos à cidade hoje. – falou ele. – É a cidade mais próxima bem pequena. Terá uma festinha, e vou levar você pra conhecer pessoas novas.
- Eu não quero conhecer pessoas novas.
- Mas você vai, e se não for, amarro suas mãos pela parte traseira do carro e vai a pé. – ameaçou.
- Seu baixo.
- São pessoas da nossa infância, Elliot. – insistiu ele.
Oh, minha infância. Como eu amava aquilo. Guerra de neve, reuniões em familia, muita comida, felicidade...
- Eu topo. – concordei e recebi os risos dos dois que expectavam minha escolha.
Ele passou por mim e bagunçou meu cabelo com um sorriso no canto da boca.
* 2 horas depois *
- Anda Elliot! A festa começa em vinte minutos! E a gente ainda tem trinta de estrada! – gritou Daniel, dentro do carro.
- Nossa, calma. Já estou aqui – entrei no passageiro.
Ele me olhou e aprovou o visual. Mas olhava não só como aprovação, mas olhava, diferente.
- Você é magro. – ele falou.
- Foi um elogio?
- Eu não sei. Depende do que voce entende sobre isso. – deu partida no carro e ligou o som, que tocava “Wish you were here”, de Pink Floyd.
Andamos por uns poucos minutos em silêncio e logo ele o quebrou.
- Lembra-se da Kate, do Leo, e do Logan?
Pensei por uns instantes buscando na memória, mas acho que lembro-me de que brincávamos nos parquinhos infantis, também que iam nas reuniões familiares, mesmo não sendo parte da família pelo sangue, mas eram muito amigos desta.
- Nossa! Lembro, eu adorava eles. Agora, já não sei se são os mesmos. Lembro-me que a Kate me chamava para brincar de boneca com ela, e eu ficava embaraçado. Mas isso passou aos 9 anos.
- O quê? – ele riu, mas parou com o soco que dei no seu braço.
- Estamos chegando. Você vai ver muita gente que fez parte daqueles tempos. Isso vai ser hilário. Sei que sua infância foi muito estranha. Digo pelo fato de você fazer coisas estranhas. Já vi você fazendo aquelas coisas para arcanjos quanto eu tinha 13. – disse ele.
- Eu me lembro. Foi algo sinistro. Eu fiquei ouvindo palmas um dia depois do lado de fora da casa, mas não tinha ninguem. E alguns meses depois... – meus pais morreram.
Ele não disse nada a respeito. Apenas alguns segundos depois ele citou outra história:
- E também que você era sonâmbulo. Acordei de madrugada e você tava bebendo água sanitária. Eca!
- Eu não me lembro!
- Claro, você tava dormindo.
Fiquei sem falar. Aquilo me deixara com vergonha.
- Se alguém começar a falar dos meus tempos estranhos mude de assunto. Caso não o faça, arranco sua lingua fora.
Ele deu aquela risada maléfica e logo entramos na área urbana. A cidade era bem pequena comparada a Cambridge e Dublin. Andamos por uns dez minutos adentro, e paramos numa área aberta, com árvores e algumas casas antigas. Era uma ruela. Estava tudo bem decorado e iluminado, com algumas faixas acolhendo-me. Pelo visto eu era a grande estrela.
- Tem balada, churrasco, comida japonesa, pescaria no lago, teatro e dança. Você pode participar se quiser.
- Tudo muito bom. Menos a pescaria. Não gosto. Mas não vou ficar criticando. Está bem bonita.
- Kate! – gritou Daniel quando descemos. – Olha quem chegou!
- Elliot! – ela correu até nós e me deu um abraço bem apertado. – Trouxe algumas bonecas. Vamos brincar?
Rimos muito, mas recusei, óbvio. Ela nos arrastou para dentro da festa, passando por pessoas que nos cumprimentavam, cumprimentavam Daniel e a mim com gesto de saudade e de quanto tempo.
- Leo, Logan! O Elliot chegou! – gritou Kate, de cabelos loiros e cacheados.
- Nossa, você tá tao diferente! – disse Leo, e sua voz era muito bonita. – Lembro que era magrinho, puro osso. Mas agora está mais encorpado.
- Você também era bem magro Leo. – respondi. – E aí, Logan. Tudo bom?
Ele deu um sorriso e um “oi”. Nunca fomos tão próximos depois que crescemos. Quando ainda éramos pequenos, ele ficava fazendo coisas comigo que era proibido para uma criança e sempre nos colocava em encrenca. Mas quando ele brincava na boa, divertíamos bastante com os outros.
Eu logo fui para a bandeja de comida japonesa, ficando maluco com a variedade. Comi de tudo. Comi e adentrei a multidão. Tocava Hotel California. Eu apenas me mexia curtindo o som da banda que tocava ali. Eram uma mulher e um homem no vocal. Eram ótimo e cantavam muito. As pessoas me cheiravam simpáticas, sorriam, cumprimentavam e por incrível que eu acreditasse, eles lembravam perfeitamente de mim.
- Elliot! – Kate me encontrou. – Ouvimos falar que você canta super bem.
Ela sorriu com intenções de eu cantar com certeza.
- O quê? Quem foi o imbecil que disse isso – fiquei muito envergonhado. – Não vou cantar, nem vem.
- Ellioooot... – ela fez beicinho.
- É muita gente, não dá.
- Você consegue.
- Kiss with a fist, Florence and the Machine.
Ela deu um gritinho e me puxou para o palco.
- Agora vamos receber um velho amigo. Ele fez parte dos velhos tempos de muita gente aqui. O nome dele é Elliot, nosso convidado especial! Ele vai cantar pra gente. – disse no microfone, a mulher que cantava antes.
Comecei a cantar e o povo lançou os gritos. A guitarra tocou em sincronia com a bateria e foi uma loucura, pois eu ainda cantei várias outras músicas. Aquela galera empolgava e eu amava as músicas que eles também amavam. E no final foi a salma de palmas e os gritos.
- Cantou muito bem, cara! – Daniel me puxou e entregou uma bebida.
Ele estava bêbado e não aceitei. Se passaram duas horas de festa, e ele estava suado berrando daquele jeito bebum.
- Passou da conta, não acha Dan?
- Agora ta me chamando pelo apelido. De repente está mais carinhoso. Deve estar se achando só por quê o povo te adorou. – ele jogou tudo na cara.
- Daniel, cala a boca antes que eu me arrependa de ter vindo. E para de beber – saí dali. Não liguei pois ele estava fora de si.
Eu odiava bebidas por isso. As pessoas falam coisas que magooam, pois a bebida é algo mal. Alguns diriam que é uma forma do Diabo acabar com grandes amizades, grandes relacionamentos. Se eu não fosse tão calmo como sou, eu já teria brigado com Daniel. Mas é isso o que a bebida quer.
- Elliot, ta tudo bem? – Kate se sentou do meu lado, perto do lago.
Ela provavelmente notou meus pensamentos vagos.
- Estou sim. Mas é que o Dan bebeu muito. Tenho medo de ele insistir em dirigir. Eu não tenho carteira e nem sei dirigir.
- Vou arranjar alguém pra ir de carro com vocês. Eu dirijo. – ela se ofereceu. – Mas você ta bem?
- Você estaria sendo muito gentil, obrigado. Não to não. Ele me ofendeu.
- Não se preocupe, logo isso é só bebida. Amanhã ele nem vai se lembrar. – ela disse dndo-me um abraço.
Ficamos por mais uns minutos na festa. Eu apenas fiquei vagando pela rua. Afastei um pouco da barulheira, onde estava mais silencioso.
- Cantou muito bem, Elliot. – a voz bonita de Leo me dispertou um sorriso.
- Obrigado. Você é locutor?
- Não – riu vermelho.
- Devia ser, voz bonita que te pertence.
- Obrigado, também. As pessoas me deixam com vergonha pois falam isso. O que te trouxe aqui, Elliot?
- Eu perdi meus pais.
- Ah... Sinto muito. Eu soube. Mas foi há muitos anos. O que realmente o induziu a vir.
- Ah sim. Eu tive alguns problemas no passado com minha avó depois da morte de meus pais. Minha responsável concordou de eu passar o semestre aqui para reatar os antigos laços com ela.
- Deve ser difícil. – lamentou. – Kate me disse sobre o Daniel. Vou com vocês para ajudar no caso perdido
Soltei uma risadinha. Ficamos em silêncio e ele tocou meu braço em forma de carinho.
- Você está muito bonito, Lio. – ele passou a acariciar meus cabelos.
- Não me toca. – tirei sua mão e segui de volta para a multidão mas ele segurou meu braço.
- Espere. Desculpe fazer isto. É que fiquei interessado em você. É tão meigo, engraçado e tem uma voz linda. Assim como a minha – ele chegou perto de mim, e eu encontrei a parede de pedra, na tentativa de escapar. – Isso deve ser estranho para você também, eu sei. Mas quero beijá-lo.
- Eu não quero – tentei me soltar mas ele segurou com força e beijou meu pescoço.
Fiquei debatendo querendo sair da situação. Só não gritei por socorro pois as pessoas iria pensar outras coisas. E que eu sou gay, não é uma coisa que eu queira deixar bem claro.
- Me solta, Leo! – falei meio alto.
- Ei! – Kate gritou. – Solta ele, Leo. Não ouviu?
Ele insistiu, então dei um soco em sua barriga. Ele se afastou e eu tentei correr mas ele puxou-me e preparou um soco mas abaixei e seu braço forte, socou a parede de pedra com um impacto barulhento e ele reclamou muito pela dor e pude finalmente correr.
- Desgraçado!
Estávamos perto do lago, onde havia mais pessoas. E ela me ajudou a sentar. Eu estava abalado com a atitude dele. Pensei que Leo fosse uma pessoa legal e não que tivesse esta atitude. Como se eu fosse um qualquer que ele pega em festinha. Conheço muito bem essas pessoas.
- O que aconteceu, Lio? – ela perguntou preocupada.
- Ele tentou me agarrar, eu acho – falei deixando óbvio.
- Eu quis dizer por quê ele fez aquilo? Ele sempre pegou garotas.
- Não o conheço mais. Você sim conhece. Ele me disse que estava interessado em mim. E que queria me beijar. Fiquei enojado, me senti uma puta. Ele não só tentando me beijar, mas quase trasando ali mesmo. Não sou assim. Por favor vamos embora.
- Mas e o que fazemos com a carona? – ela perguntou.
- Ele vem dirigindo no carro dele. Eu, você e o Dan, vamos no nosso. Depois volta com ele, assim como veio pra cá.
Assim fizemos. Foi uma luta fazer Daniel querer ir embora. Sem contar que quando quase o colocamos no carro, ele de repente saiu correndo e voltou a festejar com as pessoas. Mas depois de uns vinte minutos, com a ajuda tensa de Leo, colocamos o maldito no banco traseiro e amarramo-nos com a corda. Seguimos nossa estrada rindo da situação dele. Ele dormia todo tondo em cima da corda. Eu fiz o favor de tirar uma bela foto daquela maravilha.
Enfim chegamos em casa, descemos nós três, dessa vez tentando convencer Daniel a descer.
- Leo, vamos carregá-lo. Eu te ajudo – o clima ficou tenso, mas isso não atrapalhou no progresso do transporte.
Ele acordou e andou até seu quarto e ouvi barulho de chuveiro depois de dois minutos.
- Elliot, quero falar com você. Na verdade te pedir desculpas. Você não deve ser gay pra essas coisas.
- Isso não vem ao caso, Leo. O fato é que você me desrespeitou no modo como agiu e não por minha sexualidade. E eu não gosto nenhum pouco de ser tratado assim. E quero pedir desculpa pelo soco, e pelos ferimentos.
- Não foi nada. Aliás, você bate muito fraco comparado aos outros caras.
Rimos e cada um foi para sua casa, e aquela noite já estava bem resolvida. Bom pelo menos eu acreditava nisso, pois nunca se sabe o que as pessoas farão em seguida. Somos todos tão jovens e tão imprevisíveis.
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