Entre A Vida E A Morte

1 Entre a Vida e a Morte


Notas iniciais
Definitivamente esse não é uma história comum. Leia e surpreenda-se.

Carlos lhe meteu outro soco, agora em sua boca. Quando Rebecca levou a mão aos lábios, não foi gloss que a sujou.

O que estava acontecendo? O seguinte: Um pouco mais cedo, um passarinho lhe contou sobre os amassos de seu namorado Carlos e a piranha da Lindsay nos corredores da escola, isso mesmo, nos corredores, não no laboratório de ciências ou no depósito meio abandonado da escola, pareciam querer que todos vissem.

Rebecca queimou de raiva, até tinha razão, mas talvez não razão o suficiente para simplesmente entrar na casa do namorado (com a cópia da chave) e ficar esperando por uma hora sentada no sofá assistindo tv a cabo.

É... E parece que ele não aceitou isso muito bem...

Carlos chegou chapado, cheirava a cerveja e fumaça.

Começou com uma discussãozinha na cozinha, mas piorou, se piorou... Rebecca o xingou de coisas que são melhores não serem escritas aqui. E o estapeou tanto que suas marcas digitais nunca sairiam de seu rosto. As coisas ainda pareciam quase normais para uma briga de casal, até Carlos revidar.

Com um empurrão, ela bateu as costas na bancada, e ficou lá choramingando, esperando por mais. Ele se aproximou e Rebecca foi atingida pelo seu bafo quente... E fedido. Com outro soco no estômago, ela ficou sem ar. O suor escorria. Seu corpo se contorcia de dor, mas se recusava a chorar. Rebecca sempre foi forte e persistente, só que não podia aguentar mais.

Desesperadamente, procurou algo que pudesse ser usado como arma.

Seus olhos se prenderam a um único objeto: uma faca.

Ela pegou a. Sem saber que se arrependeria disso por toda sua vida... E por toda a sua morte.

— Ela não atendeu de novo. — Miranda resmungou.

Gabi, Miranda e Rafael estavam saindo da escola. Eram 5h e meia da tarde de 2 de Março; o calor era de matar, por isso planejaram ir para o Paraíso Gelado, uma sorveteria nova a uma quadra da escola.

—Onde essa garota se meteu? —Gabi se perguntou enquanto limpava o suor do rosto.

Ela falava sobre Rebecca. Os quatro amigos faziam tudo juntos, era estranho ficar sem a loirinha, como Rafael a chamava. Becca havia faltado à aula, até aí tudo bem, mas ela também não atendia o celular, o que era estranho.

Gabi tinha as bochechas rosadas, a pele dourada, resultado de alguns dias na praia. Ela estava com o cabelo curto preso, alguns fios morenos escapavam e grudavam no seu rosto suado. Sua boca pequena sorria, sempre fazendo Miranda sorrir junto a ela. Seu uniforme sempre estava sujo de tinta, Gabi era um artista, humilhava todos quando se tratava de pintar ou desenhar.

Rafael, mesmo suado, não cheirava a meia suja como os outros garotos. Ele tinha cabelos pretos rebeldes que desconheciam um pente, mas isso só fazia parte do seu charme. Os olhos grandes e azuis tentavam não demonstrar preocupação quanto ao desaparecimento de Becca. Os lábios finos puxados pra cima formavam covinhas que Mi nunca admitiria o quanto as achava fofas.

Eles estavam a alguns passos da sorveteria, do paraíso com ar-condicionado e 50 sabores de sorvete, quando seu celular tocou.

—Aleluia! Deve ser a Becca.

Miranda pegou o telefone na mochila e atendeu animada e irritada ao mesmo tempo, esperando que ela explicasse o porquê de sua falta.

—Alô!

—Alô! É ? — a voz que respondeu não era de Rebecca.

—É.

—Aqui é o policial George, você pode vir...

—O que esta acontecendo? Por que você tá usando o celular dela? —Miranda o interrompeu.

—Tudo vai ser explicado se você vier a delegacia, na rua...

—Sei onde fica. Obrigada. — respondeu dura.

Um policial no celular dela?! Que diabos Rebecca fez dessa vez?! Por que será que eles me querem lá? Miranda não conseguiria, ou melhor, não queria enfrentar isso sozinha. Ela ligou para um taxi, e mandou um sms para sua mãe dizendo que se atrasaria.

—Vocês podem ir à delegacia comigo? Por favor? —ela fez sua melhor carinha de cachorrinho abandonado.

—Delegacia?! —eles gritaram em uníssono.

O taxi chegou rapidinho. O taxista ficou irritado por eles tomarem seus milk-shakes, que compraram enquanto esperavam, dentro de seu carro; A situação ficou ainda pior quando Gabi derrubou seu copo, sujando todo banco de trás. Miranda estava ansiosa e curiosa, seu coração parecia querer saltar do peito.

Quando eles chegaram, Miranda foi imediatamente abordada por um policial gordo, de bigode e uniforme azul. Ele mandou os amigos dela esperarem no sofá, e a levou para uma sala apertada com uma mesa e duas cadeiras, igual àquelas salas dos filmes de mistérios onde o detetive questiona o suspeito.

—Senta aí, minha filha.

Ela se sentou, cruzou os braços e ficou calada.

—Eu te chamei porque você foi a ultima pessoa que falou com Rebecca pelo telefone depois dela sair de casa.

—Última pessoa? Como assim?

Mirando tentou afastar alguns pensamentos sombrios, mas percebeu que eles estavam corretos quando George respondeu:

—Você ainda não sabe? Rebecca morreu.

Ele respondeu como se isso fosse normal, algo do tipo: seu peixinho morreu! Tadinho! Vamos ao pet shop comprar outro!

Ela não conseguia pensar. Mal conseguia se mexer. Miranda via pessoas mortas todo dia, com facas e até espadas no coração, cordas no pescoço, feridas abertas e muito mais, também já tinha tido uma experiência quase morte, mas nunca, nunca tinha perdido um ente querido ou um amigo. Um turbilhão de sentimentos novos a invadiu.

Ela já sentia saudades. Saudades de quando Becca reclamava das roupas de Miranda, de quando ela ria das piadas bobas de Rafael, de quando ela dançava loucamente ouvindo seu Ipod. Sentia saudades de tudo, não porque elas não se viam há muito tempo (tinham se encontrado na escola no dia anterior), mas porque ela sabia que nunca mais a veria de novo.

Lágrimas teimosas lhe escaparam. O policial George ofereceu-lhe um lenço.

—Então... Sobre o que vocês falaram ao telefone? —o choro de Miranda o deixou constrangido.

—Eu... Eu a chamei pra ver um filme... Mas... Mas ela disse... Que estava indo para a casa do Carlos, o namorado dela. —respondeu demoradamente, entre soluços.

—E como ela estava? Nervosa? —ele questionou.

—Aham... Ela estava meio... Diferente, sei lá. —falou pensativa.

—Você viu Carlos naquele dia?

—Não. Eu só o vi umas duas vezes, faz tempo.

Carlos já estava na faculdade. Miranda e Gabi nunca tinham aprovado o namoro, o cara era velho demais e vivia bebendo e se metendo em confusões. Mas Rebecca parecia gostar dele, pelo menos até o segundo mês de namoro, depois disso as brigas começaram.

—Como ela morreu? O que ele tem a ver com isso?

—Ainda estamos investigando. Os dois corpos foram encontrados na cozinha da casa de seu namorado, eles foram esfaqueados.

—Foram... Esfaqueados?

—Na verdade, só foram encontradas as marcas digitais da garota na faca usada. —respondeu o policial com a cabeça baixa

—O que quer dizer só da garota?

—Quer dizer que ela assassinou o namorado, depois cometeu suicídio, ou talvez outra pessoa entrou na casa, usou outra faca e ela foi tentar se defender. Ainda estamos investigando.

—Ela nunca faria isso. Nunca... Ai meus deus! Não! Não! Não da pra acreditar...

E as lágrimas voltaram. O policial a ajudou a se levantar, levou-a para sala com seus amigos e foi conversar com outra pessoa.

Pelo jeito eles já sabiam. Gabi chorava no ombro de Rafael molhando seu uniforme. Ele tinha os olhos vermelhos, com uma expressão de muita tristeza, Miranda nunca achou que ele pudesse ficar assim. Quando Gabriela a viu, se afastou dele e abriu os braços num convidativo pedido de abraço. Miranda correu até eles, os abraçou com vontade, tentando assim, recuperar suas forças.

Miranda foi dormir chorando. Teve que virar o travesseiro, o outro lado estava encharcado de lágrimas. Nenhuma posição em sua cama parecia confortável. Não é horrível estar cansado e não conseguir dormir?

Já era 3h e 20min. Ela fechou os olhos mesmo sem sono. Ficou assim até ouvir algo. Era um ping! Ping! Como uma torneira mal fechada que deixava algumas gotas escaparem.

Ela abriu os olhos e assim descobriu o motivo daquele barulhinho.

Uma garota estava em pé perto da sua janela. Seus longos cabelos de um loiro claro a cobriam como um manto, sua pele era branca, entretanto a luz da lua lhe dava um brilho azulado. Seus olhos arregalados tinham um azul tão claro, mas tão claro, que de longe se confundia com branco. Os lábios ressecados esboçavam um sorriso neurótico. Ela vestia uma blusa branca com uma jaqueta de couro preta por cima, e uma calca jeans com uma bota de salto alto.

Entretanto, o que realmente assustou Miranda, foram os ferimentos. Sua bochecha direita estava roxa, havia sangue seco em sua boca e muitos hematomas.

E também havia uma faca. Sim, uma faca. Enfiada bem no meio de sua barriga. Sangue escorria... Ping! Ping! No entanto, o líquido vinho desaparecia antes de completar sua queda.

—Rebecca? — O sussurro de Miranda foi quase inaudível.

O fantasma assentiu lentamente, e foi nesse momento que ela começou a gritar.

Miranda não dormiu aquela noite. Foi só um pesadelo, foi o que Gabi disse quando se encontraram de manhã na escola. Ela tentava se convencer de que a amiga estava certa, mas, no fundo do coração, ela sabia o que tinha visto.

Miranda vasculhava seu armário procurando algo preto para vestir no enterro. Amarrotado nas gavetas, ela achou um vestido simples, todo preto, de alcinhas. Nem ao menos sobrou tempo para uma maquiagem, mas de qualquer jeito Miranda não se maquiaria: as lágrimas borrariam tudo e o rímel a prova da água acabou. Ela havia prometido que não choraria, só não estava certa se conseguiria.

Ela e os pais estavam atrasados. Seu pai ia ao limite da velocidade. Pela janela do carro se via o céu nublado e um tanto escuro, uma chuva de verão logo viria. Parecia que tudo estava contra ela, até mesmo a mãe natureza.

Já eram seis da tarde. Depois da aula, Miranda ficará o tempo inteiro comendo sorvete e pipoca em frente à TV tentando distrair a cabeça.

O padre já estava na metade de seu discurso quando eles chegaram.

Ela foi para perto de Rafael, que usava uma camisa preta e calças jeans, e Gabi que vestia um curto vestido preto com um casaquinho cinza quase transparente. Não disseram nada, não foi preciso, os olhares esclareciam o que não podia ser dito em palavras. Juntos, eles se aproximaram do caixão. Lá dentro, Rebecca parecia dormir tranquilamente. Quando Miranda a viu, teve mais certeza de que aquele fantasma não tinha aparecido realmente. Ao contrário da aparição, Becca tinha os cabelos dourados bem penteados, não havia sangue algum, ela vestia um vestido branco rendado e tinha uma leve maquiagem no rosto. Havia muitas rosas vermelhas em cima do caixão. Rafael jogou mais uma.

Miranda não queria mais olhar para ela, não queria ouvir as palavras de consolo do padre, queria ficar sozinha.

—Já volto. —disse aos amigos.

Ela andou pelo cemitério. Túmulos com flores murchas, o céu escuro, pessoas chorando, tudo tão deprimente.

—Miii... — chamou uma voz inconfundível.

Seus olhos acompanharam o estridente gritinho. Miranda contornou alguns túmulos rachados e imundos, ela acabará de entrar na parte mais antiga do cemitério.

—Miii... —a voz continuou.

E da onde ela vinha? Avançou mais um pouco, cada passo seu fazia a grama seca estralar. Miranda tropeçou num baixo túmulo acinzentado e teve de se segurar numa estátua de anjo ao lado. O anjo era amarelado, não tinha a parte direita do rosto, vestia uma túnica com musgos nas dobras do tecido. Já seu sorriso sereno não combinava com o olhar duro de pedra.

O vento soprou e ela jurou ter visto algo mexer na velha estátua.

E de novo... Algo branco flutuando junto ao vento ali atrás. O que era?

Miranda não esperaria a resposta. Virou e marchou decidida até...

—Eu sempre quis ver meu próprio enterro. Tem muita gente chorando, isso é bom... Sentem minha falta, fui boa.

...Até isso. Rebecca. A pele transparente, a íris prata, o sorriso neurótico: como na noite anterior.

A aparição saiu de trás da estátua e pôs-se a frente da assustada garota. Não, não estava como antes: A faca havia sido retirada, a roupa trocada, os hematomas sumidos. Mas se você reparasse melhor veria o vestido branco esvoaçante tendo o forro tingindo de vermelho na altura do umbigo, que os machucados permaneciam ali e uma camada espessa de base fora jogada em seu rosto tentando desaparecer com o roxo, veria que além das mãos, as sapatilhas brancas e a barra do vestido estavam avermelhadas e cheias de terra.

—Como? —sussurrou Miranda pasma.

—Como o que?

—Rebecca?

—Não, não, sua vó. —definitivamente essa era Becca.

Rebecca sorriu docemente.

—Preciso de sua ajuda, Mi. — deu outro passo e seu nariz ficou a milímetros do dela. —Eu fiz uma coisa ruim, e por causa disso eu não posso descansar, entende? —continuou com a voz manhosa.

Ela não respondeu, continuava em choque, boquiaberta.

—Você precisa fazer uma absorção, precisa me absorver. Caramba, Mi! Para de babar! A hora de ficar assustada acabou.

Miranda estendeu a mão, levou os dedos ao rosto da velha amiga, delicadamente foi acariciar sua bochecha, mas não tocou nada além de ar, como se ela não estivesse ali.

—Não da. Você me vê, me ouve, nada mais. —Explicou cabisbaixa.

—Só... Só eu? Porque? — Miranda ficou surpresa ao ver que conseguiu emitir alguma voz.

—Não sei, ainda não entendi direito essas coisas, acho que só os mais próximos conseguem... NÃO IMPORTA! Você me ouviu antes? Uma absorção! Sabe o que é?

Algo dentro dela explodiu; era coisa demais pra sua cabeça. As palavras do policial invadiram sua mente “só foram encontradas as marcas digitais da garota na faca usada”.

—O que é isso? Como? O que você fez? Becca... Você não faria isso! Faria!? —NÃO É DA SUA CONTA! —ela gritou, deixou de lado a doçura e forçada simpatia e jogou-se em cima de Miranda, sendo um fantasma, seu “corpo” atravessou o dela, provocando um arrepio gelado.

Miranda teve de se conter para não gritar e chamar atenção.

Ao ver o tamanho do susto, Rebecca mudou completamente de expressão, e sentou-se novamente, de pernas cruzadas, no túmulo cinzento.

—Oh! Desculpe-me, Mi! É horrível estar morta! Sinto-me tão só! Pesquise no google como fazer a absorção, ou pergunte a sua avó, ela gosta dessas coisas, né? — falou voltando ao tom de voz doce—Agora volte para lá e diga para eles colocarem tulipas vermelhas no meu túmulo, não rosas vermelhas. Ok, querida?

Rebecca acenou mandando-a embora. Miranda andou lentamente até o enterro, seu olhar focava o nada e as engrenagens de sua mente pareciam enferrujadas.

—Você parece pálida, Miranda. Ta tudo bem? —Rafael perguntou.

—Eu to ót...

Mas ela não conseguiu terminar a frase, sua visão ficou turva, a cabeça latejava... Desmaiou.

A casa da vó Elena ficava a três quadras de seu apartamento. A avó tinha poderes paranormais, às vezes ouvia vozes de amigos e familiares mortos. Miranda tinha dó de sua vó, as pessoas a evitavam com medo de suas habilidades. Seu avô falecido já havia se comunicado com ela por Elena. A senhora trabalhava como médium na sua própria casa.

Sua casa se destacava no bairro. Era pequena, quadradinha, com dois andares, as paredes amarelas e o telhado roxo. Elena não se protegia com um muro, mas com ervas. Ela cultivava lavanda na frente da casa, o cheiro era agradável e as flores deixavam tudo mais bonito e alegre. No fundo havia um pequeno quintal onde ela plantava alecrim, erva doce, outras plantas e ervas usadas em rituais. Havia um bulbo de alho pendurado na porta no qual quase bateu sua cabeça. Estranho...

Miranda bateu na porta e logo foi atendida por uma senhora com um sorrisinho simpático estampado na minúscula boca, cabelos brancos presos com pauzinhos, e um vestido florido que ia até seus pés.

—Oi, vó! Preciso falar com a senhora.

—Oh! Querida! Cruz credo, sinto energias ruins, o que aconteceu?

Depois de se sentarem no sofá da colorida sala de estar, Miranda contou tudo nos mínimos detalhes a avó.

—Isso é ruim. —respondeu com toda calma do mundo. — Uma absorção é pegar, absorver todos os pecados mortais do fantasma para si, e assim libertá-lo de seu castigo. —falou com os olhos transbordando preocupação.

—E o que isso tem de ruim? —Miranda perguntou relutante.

—Se você absorver os pecados dela, eles vão ser seus, você vai pagar por eles. Ira ser castigada eternamente por algo que não fez. Você não quer isso, quer?

—Claro que não.

—Tome cuidado para não irritá-la, você não vai querer um fantasma te assombrando. Espera aí, vou pegar uma coisa.

Elena saiu da sala e após dez minutos voltou com um travesseiro branco em uma das mãos e uma sacola na outra, ela o entregou para Miranda.

—Por que esta me dando um travesseiro?

—É feito com anis, proporciona um sono tranquilo e sem pesadelos. E nessa sacola está o que você precisa para um ritual de banimento, também anotei as instruções. Mas só o faça se for extremamente preciso. Só se for caso de vida ou morte. Agora eu tenho uma cliente, não quero ser mal educada, mas eu preciso trabalhar, então vai embora.

Miranda pegou a sacola, pode sentir o cheiro das várias plantas, folhas ou ervas que vovó tinha colocado ali.

—Mas pra onde ela vai se eu fizer esse tal de banimento? E por que ela consegue falar comigo e os outros fantasmas não? —perguntou depois de se levantar.

—Não sei, só sei que ela ira para bem longe de você. Vocês conseguem se comunicar porque eram próximos: amigos e parentes tem uma ligação profunda que persiste até depois da morte.

Miranda assentiu. Enquanto saía trombou com uma mulher cheia de piercings que estava entrando, devia ser a tal cliente.

Por um segundo, ela sentiu pena de Becca. Ela foi sua melhor amiga, mas mesmo assim, Miranda não se sacrificaria por causa de algo que ela fez. Não é justo. Nada é justo.

Finalmente era sábado, ela não aguentava mais a escola, sua cabeça sempre viajava para lugares sombrios da sua mente quando o professor começava a falar. Ela não conseguia parar de pensar nela.

Para distrair sua cabeça da morte de Rebecca, Miranda chamou Gabi para passar a noite em sua casa. Elas locaram um filme, porém mal olharam para a TV, ela ficou contando sobre o que aconteceu no cemitério e sobre o que sua avó disse, depois falou para Gabriela que não queria mais tocar nesse assunto.

Depois do filme, as garotas desceram a cozinha, prepararam sanduiches de mortadela e os levaram para o quarto de Miranda para comer enquanto faziam a unha.

—Pão com mortadela, o preferido da Rebecca. —Gabi disse enquanto lixava a unha.

—Na verdade, eu prefiro pão com peito de peru. Mais light.

Merda. Era ela.

— Olá, Miranda! Já ta arrumando tudo pra absorção, querida, né? Você é inteligente o bastante pra não ouvir a velha caduca. Ei, sabia que se eu me focar em minhas mãos, com um pouco de esforço eu posso segurar algo. — ela falou alegre, e depois pegou um vidro de esmalte vermelho.

Rebecca estava sentada no meio de Gabi e Miranda. Seus olhos (quase) brancos pareciam contentes, mas era só prestar um pouco mais de atenção e podia se perceber insanidade dentro deles, ela estava neurótica, maluca. Seus dedos finos e brancos acariciavam o ferimento no umbigo. O sangue vermelho escuro se destaca em sua pele pálida e já havia manchado todo o braço vestido. Ping! Ping! O contínuo barulho do sangue caindo deixava Miranda louca.

—Ai. Meu. Deus. Esse esmalte esta... Flutuando? —falou Gabi que não podia ver o fantasma.

Miranda a ignorou, ela não conseguia parar de encarar Rebecca.

—Mi, minha grande amiga, você não acredita no que sua vovó babaca disse. Você ainda vai fazer a absorção. —Rebecca disse. E não foi uma pergunta.

—Não vou. Não vou ser castigada por sei lá o que, que você fez. —Miranda tentou parecer firme.

—Tenho certeza que você vai mudar de ideia. Não estou muito afim de esperar... Tem 24 horas para fazer o ritual de absorção, se não você morre. Eu posso segurar coisas bem menos inofensivas que um vidro de esmalte, fui clara?

Rebecca soltou o vidrinho do alto e ele se espatifou em milhares de pedaços. Ela deu seu último sorriso neurótico, e desapareceu.

—O que foi isso? — Gabi perguntou, ela estava pálida.

—Rebecca. —respondeu.

—Sérios problemas?

—Sérios problemas.

Ela pegou um pano de chão e limpou o esmalte vermelho do chão enquanto Gabi varria os pedaços de vidro.

O que será que ela vai fazer? Miranda não conseguia tirar isso da cabeça.

Ela achava que não poderia ficar pior, até a luz acabar. Não se podia enxergar nada, estava um breu. Seus pais estavam dormindo, bom para eles, não precisariam se preocupar.

Miranda sentiu que alguém segurava sua mão com força, tadinha da Gabi, devia estar tremendo de medo. Ela apertou com força a mão da amiga.

—Vamos a cozinha pegar umas velas. —Miranda falou.

—Segura minha mão. —Gabi pediu.

—Já estou segurando. —Ela respondeu, sem entender.

—Não esta não.

Quando se deram conta do que estava acontecendo, as garotas soltaram um grito agudo de medo. Miranda nunca tinha ficado tão apavorada.

Ela tentou se soltar, mas não teve forças. A outra mão a soltou e logo então a agarrou pelo pulso. Suas compridas causavam arranhões a Miranda. Ela sentiu um líquido quente escorrendo pelo seu braço. As unhas perfuraram sua carne. Mais sangue escorreu. Ela sentiu sua garganta seca de tanto gritar.

—Você se arrependerá amargamente de ter negado meu descaço eterno, eu juro. — Miranda pode sentir o bafo quente de Rebecca ao dizer isso.

As luzes acenderam. Ela não estava mais lá. Os gritos cessaram.

—Miranda, olha isso. — Gabi disse.

Ela apontava para um cartaz pregado na parede do quarto, com uma grande foto de Rafael, Rebecca, Miranda e Gabi, juntos numa viagem da escola. Contudo, ele estava estragado agora, um risco de sangue atravessava o cartaz e pingava no chão. Ela não precisava de mais nenhuma prova para saber que Rebecca não era mais sua amiguinha. A guerra foi declarada.

Quando Rebecca disse que ela teria 24 horas para fazer o ritual ou morreria, Miranda não levou a sério. No entanto, depois de seu repentino ataque, ela soube que a “ex-amiga” seria capaz de tudo para ter o que queria... Até mesmo matar sua querida Mi.

Na noite passada, seus pais acordaram com os gritos. Ao ver os cortes em seu punho insistiram levar Miranda a um hospital.

Agora ela estava deitada em sua cama encarando o teto. O sol estava tão forte que quem olhasse para ele diretamente ficaria cego, no céu não havia uma nuvem sequer. Não parecia um dia para morrer.

Miranda havia tirado o cartaz. O quarto parecia vazio, assim como ela, sem o quarteto estampado na parede.

Um bolo tinha se formado em sua garganta, sua barriga doía, seus olhos não se fechavam.

Ela parecia uma frágil gazela sendo perseguida por um leão, ou melhor, uma leoa.

Miranda precisa arrumar um jeito de se defender. Mas como? Fantasmas não podem ser atingidos, é impossível tocá-los. E ela nunca faria a tal da absorção. Só restava uma opção: Bani-la.

Foi correndo buscar a sacola que sua vó a deu, quase que tropeça na escada (os quartos ficam no segundo andar).

Sentou-se no sofá de couro marrom, e com os pés na mesa, leu as instruções que Elena havia anotado. A letra era quase inteligível. Ela colocou todos os ingredientes na mesa para conferir: meio litro de água e 10g de alecrim para a infusão de alecrim; O incendo de arruda que sua avó a deu; Fósforo; Velas; Um papel com o feitiço que ela deveria recitar escrito; Uma faca; Óleo de jasmim (Elena também o deu) e uma foto de Rebecca. Ainda faltava um fio de cabelo dela

Felizmente, Miranda tinha no armário de seu banheiro, uma escova que Rebecca tinha esquecido lá semana passada. Finalmente algo de bom, pensou.

Ela guardou tudo e levou para o seu quarto. Escondeu a sacola em seu armário, pois não queria que sua mãe soubesse do ritual, não queria preocupá-la. Pegou a escova de cabelos rosa shock, retirou os alguns fios loiros e os deixou junto com os outros ingredientes.

—Miranda, lava a louça pra mim que estou indo! — Isabel, sua mãe, gritou da cozinha.

—To indo!

Ela ajeitou os cabelos e tentou parecer normal. Miranda desceu as escadas e encontrou a mãe colocando o casaco e chamando o pai para irem à casa da Tia Camila.

Miranda não seria capaz de realizar o ritual sozinha. Ela tentava ficar firme, mas seus joelhos oscilavam. Suas mãos tremiam quando pegou seu celular. Miranda ligou para Rafael, contou tudo e nem precisou pedir para que ele viesse a sua casa.

Ela subiu para seu quarto e colocou toda mobília no canto de modo que houvesse espaço no centro. Ouvir o soar da campainha e gritou:

—A porta ta aberta!

Ele chegou vestido com um jeans, camisa xadrez e um all star surrado.

—Oi! Você pode me ajudar a colocar essas velas em um círculo? Ah, e as perfume com o óleo de jasmim que esta na sacola.

—Ok. Miranda você esta bem?

Vish! Ele disse “Miranda” e não “Mi”, quer dizer que a coisa esta feia.

—Claro, porque não estaria? — ela respondeu dando de ombros, tentando fazer parecer verdade.

—Sei lá, talvez porque o fantasma de sua melhor amiga quer te matar. — disse com sarcasmo.

Miranda foi ao seu banheiro e lavou as mãos na infusão de alecrim, “para se purificar antes do ritual”, era o que as instruções diziam.

Quando voltou, Rafael ainda arrumava as velas. Ela se sentia agradecida por te alguém a apoiando naquele momento. Há alguns anos, Miranda teve uma queda por ele, mas suas esperanças acabaram quando ela descobriu que Rafael sempre gostou mais de Rebecca. Isso já estava esquecido, estava enterrado bem lá no fundo. No entanto, ficar sozinha com ele, vê-lo a luz de velas, era como se ela começasse a cavar e desenterrar esses sentimentos.

Ao se dar conta do que estava pensando, Miranda ficou envergonhada. Esse encontro estava muito longe de ter um fim romântico.

Ela acendeu o incenso de arruda e o colocou em sua escrivaninha, era para afastar maus espíritos.

—E agora? — Rafael perguntou, ele havia acabado de acender as velas.

—Agora vou começar. Afaste-se do círculo.

Ele sentou na cama de Miranda.

Seguindo os passos descritos no papel, ela apagou a luz. O quarto era iluminado somente pelas dez velas aromatizadas. O cheiro doce de jasmim parecia diminuir a pressão. Ela ajoelhou-se no meio do círculo de velas que em meio da escrivaninha e a cama. O vento gélido batia em seu rosto, o que era bom, pois ela estava quase suando de nervosismo.

Os próximos passos eram recitar o encantamento enquanto pingava o próprio sangue nos fios de cabelo dourados de Rebecca.

O problema era que se ela errasse uma palavra sequer do feitiço, teria que refazer tudinho na outra noite, e então, seria tarde demais. Outra coisa era que o encantamento ali escrito no papel que estava nas mãos trêmulas de Miranda, não era português, mas de uma língua que ela não sabia que existia até hoje, as letras pareciam estar numa ordem aleatória, como se alguém tivesse batido a cara no teclado e acabasse dando nisso.

Ela começou. No segundo parágrafo do feitiço estava escrito: “pingue três gotas de seu sangue nos fios do morto” e Miranda quase leu isso ao invés de fazê-lo. Ela ficou ainda mais nervosa.

Miranda pegou a grande faca. A lâmina reluzia ao luar, refletia o seu rosto pálido e assustado.

Fez um curto, porém profundo e doloroso corte. Ela gemeu de dor. Colocou o pulso a cima dos fios de cabelo. Uma, duas, três gotas cor de vinho caíram.

Miranda estava tão concentrada que nem ao menos ouviu o barulho da janela abrindo, do vento uivando e do ping! Ping! Que o acompanhava.

Uma vela caiu. Em circunstâncias normais, a culpa seria do vento, mas nessa noite, nada era realmente normal.

Ela continuou recitando o feitiço enquanto Rafael tentou levantá-la, entretanto, foi tarde demais: o que antes era uma pequena chama avançou até a cama. Ele pulou para o chão antes que o fogo contagiasse os lençóis.

Rafael correu para o banheiro, com sorte conseguiu encontrar um balde lá, enche-o de água e jogou nos lençóis em chama. O fogo diminuiu após três baldes. Um cheiro de queimado preencheu o ar.

Miranda não havia parado de recitar, era um longo feitiço, bem longo.

Rafael enchia o quarto balde quando um vento destrutivamente forte entrou no quarto fazendo papeis voarem, bagunçando cabelos, trazendo folhas...

As velas foram derrubadas. Suas pequenas chamas rastejaram como uma serpente para alguma roupa ou móvel, e assim se explodindo em poder.

Miranda se levantou ainda lendo. Ela sentiu tonta, se apoiou na cama, na parte que não pegava fogo. O quarto parecia girar. As chamas dançavam, destruindo tudo que encontravam e ela era a próxima.

Dedos frios acariciaram seu tornozelo.

Miranda tentou se afastar, mas foi tarde demais. Os dedos agora eram mãos, agarraram com toda sua forca seu pé.

Ela não queria olhar, entretanto, a curiosidade venceu. Debaixo de sua cama ela pode ver um corpo iluminado pelo fogo. O corpo se retorcia de um jeito nada humano. As chamas lambiam suas finas pernas, só que ela não parecia se importar com isso.

Miranda tentou chutá-la, mas ela estava tonta e fraca, seu pé atravessou o fantasma e ela perdeu o equilíbrio. A fumaça havia subido e ela tossia violentamente. Seus olhos lacrimejavam e sua visão ficava mais turva a cada momento.

Rafael a segurou, evitando que ela caísse quando seu tornozelo se libertou. Miranda ainda estava com o papel com feitiço na mão, se deu conta que eles só se salvariam se ela continuasse a ler. Prosseguiu com dificuldades.

Rebecca saiu de debaixo da cama. Entre risinhos ela disse como se estivesse conversando com um bebê burro:

—Pobre, Mi... Agora você vê? Devia ter me obedecido, querida, esse não é o ritual certo.

Rebecca abaixou-se e pegou a faca que Miranda havia usado. Ela lambeu a lâmina ensanguentada.

Eles foram até o corredor desviando das chamas. Ela não precisa dizer uma palavra, Rafael sabia muito bem que estava acontecendo, Miranda via nos seus olhos o medo que ele tentava esconder. Cambaleando, chegaram até o fim do corredor. Ele tentou abrir a maçaneta da porta ao lado, mas estava trancada, lá era a mini biblioteca particular do papai, ele não deixava ninguém entrar.

Rebecca saiu do quarto, em um segundo, eles estavam frente a frente.

Miranda ouvia seus rápidos batimentos, sua respiração ofegante, as chamas crepitando e o sangue gotejando.

Rafael apertou sua mão com mais força quando Rebecca exibiu a faca com orgulho. Ele não podia vê-la, porém, parecia entender tudo. Ela continuou a ler gaguejando.

Estava na última palavra, quase lá, só mais um segundo e tudo daria certo. Miranda nunca faria ideia que um segundo poderia fazer toda a diferença.

Na sílaba final, Rebecca se aproximou e enfiou a faca na barriga que devia ser de Miranda, mas um pouco antes, Rafael se jogou a sua frente, como se fosse um escudo, ele foi atingido.

Miranda gritou a última letra do feitiço. O fantasma soltou a faca. Boquiaberta, ela percebeu o seu erro, entretanto era tarde demais para uma segunda tentativa, seu corpo foi ficando cada vez mais pálido, até transparente, Rebecca encarava a palma de sua mão assustada. De pouco em pouco, ela sumiu totalmente.

Só então, Miranda viu Rafael caído no chão. Ela o acomodou em seus braços. Tentou retirar a faca, mas isso só o fez gritar mais alto. Uma poça de sangue se formou no chão.

Ela chorava desesperadamente. O amigo, abriu os olhos bem devagar, então, levantou a fraca mão e com um dedo secou uma das milhares lágrimas de Miranda. Por um momento ela pensou que tudo ficaria bem. Mas percebeu que estava errada quando voltou a olhar os olhos azuis profundos de Rafael, ela quase pode vê-los perdendo a cor, perdendo o brilho de felicidade que ela sempre encontrava lá, perdendo a vida.

Sua reserva de forças se esgotou.

Ela não sabia o que fazer, não sabia o que dizer nem o que pensar.

Deitou-se no chão molhado e o acomodou ao seu lado. Colocou a mão em seu peito com uma pequena chama de esperança acesa. A chama se apagou quando ela não sentiu o mínimo movimento debaixo de seus dedos.

A fumaça aumentou e Miranda estava quase vomitando de tanto tossir, mas isso não importava para ela.

Ela não sabia se algum dia teria coragem e força o suficiente para se levantar.

—Mi, não chore. Você fica feia quando chora.

A voz que ela ouviu, fez seu coração pular de alegria, as lágrimas que escorriam, agora eram de esperança, alegria e ansiedade, tudo misturado.

Seu coração se aquietou, e suas lágrimas voltaram a ser de pura tristeza quando Miranda viu que Rafael continuava totalmente imóvel.

A sua frente estava um fantasma. Não, não era um fantasma, era uma alma. Fantasmas são maus, resultados de uma vida de pecados. O que estava a sua frente era uma alma totalmente pura que ainda não havia subido.

Havia uma grande diferença entre o Rafael que ela segurava com o Rafael que estava parado a sua frente.

Eles usavam a mesma roupa. No entanto, a roupa de sua alma estava totalmente limpa, enquanto a vestimenta de seu corpo estava encharcada de sangue. Seus cabelos negros estavam bagunçados de um jeito até bonito. Em sua pele não havia ferimentos. Ele tentou sorrir, mas Miranda sabia que era um sorriso muito falso.

—Vou sentir sua falta. — ele disse com a voz carregada de sofrimento. —Espero que esteja me ouvindo.— continuou.

—Também vou. —ela respondeu.

Seus olhos se iluminaram a ver que Miranda o ouvia.

—É tudo culpa minha. Tudo culpa minha... —ela resmungava.

—Não se culpe. Essa é a melhor forma de morrer... Morrer por alguém, é algo bem bonito, não acha? — disse com a voz brincalhona.

—É sim... Rafael, nunca vou te ver de novo? —perguntou mesmo sabendo a resposta.

—Não enquanto estiver viva, eu acho. Você que é a sobrenatural sabe-tudo-sobre-a-morte.

Miranda ria e chorava ao mesmo tempo.

Ele chegou mais perto e tentou tocar suas bochechas, mas seus dedos atravessaram o rosto dela.

—Não consigo. Como que a loirinha conseguia?

A referência a Rebecca deixou Miranda ainda pior, mal havia espaço para raiva naquele pobre coração.

—Tenho que ir. —ele disse.

—Não! Mas por quê? E pra onde? —respondeu.

—Para lá. — Rafael falou apontando para cima.

Miranda compreendia, mesmo que isso lhe partisse o coração.

—Então adeus.

—Adeus, não. “Adeus” é triste e dramático demais. —ele disse.

—E que tal “até mais!”? — propôs com a voz chorosa.

—Assim esta melhor. Até mais.

Miranda esfregou os olhos e os abriu. Estava numa sala pequena, branca, com uma televisão e um armário. A cama na qual estava deitada tinha lençóis verde-água e um colchão um tanto duro. Não fazia ideia da hora, pois a janela estava fechada com persianas.

Remexeu-se inquieta tentando se lembrar de como havia parado ali. Sua cabeça doía um pouco e seus olhos estavam irritados.

Uma mulher gordinha com um macacão verde-água, cabelo preso e com uma prancheta na mão entrou no quarto. Mais de perto, Miranda leu o crachá que dizia enfermeira Penélope.

Estou num quarto de hospital? Perguntou-se.

—O que aconteceu? —Miranda disse com a voz fraca.

—Você inalou muita fumaça. Ainda bem que não sofreu nenhuma queimadura.

Fumaça, queimadura... Fogo. Cenas distintas voltaram a sua mente: Ela sentada recitando um feitiço, um demônio segurando seu tornozelo, as chamas aumentando, e por último, uma conversa com Rafael. Miranda não se lembrava totalmente, porém, algo lhe dizia que aquela conversa era de extrema importância.

—Rafael... Ele estava lá também. Como ele esta?

A enfermeira ficou desconfortável com a pergunta. Ela abriu a boca para responder, entretanto, nesse exato momento, dois policiais entraram no quarto.

Um deles segurava um bloquinho e uma caneta. Era baixinho e gordinho. O outro que parecia ser seu ajudante era tão magro que o uniforme quase caia de tão largo.

—Finalmente acordou. — o gordo disse para o outro.

—Mas... — a enfermeira começou a falar, mas foi interrompida.

—Ás 22h e 15min havia mais alguém com você em sua casa além de Rafael Rodrigues? — perguntou, ou melhor, interrogou, o policial baixinho.

—hã? — foi a resposta genial de Miranda.

O quarto parecia girar. Sua garganta estava seca e ela não fazia ideia do porquê que aqueles dois caras estavam ali, a interrogando. Miranda tentou lembrar-se de todas as besteiras que já fez na vida, mas nada era tão grave a ponto de ir presa.

—Poderia me explicar o motivo da senhorita ter acendido as velas das quais começaram o incêndio? Pode me explicar como uma faca foi parar bem...

—NÃO! Ela não pode. Quem deu permissão para os senhores entrarem? Esta pobre garota não esta em condições de respondê-los. — a enfermeira o interrompeu. Ela parecia firme, mas com um pouco de atenção, percebia-se que suas mãos tremiam.

Os policiais ficaram constrangidos por serem detidos por uma enfermeirazinha. Eles saíram do quarto tentando manter a postura.

—Obrigada. — Miranda sussurrou.

O gordinho havia mencionado uma faca. Alguém fora esfaqueado? Um fio de suor escorreu pelo seu rosto. Ela não aguentava mais o suspense.

—O que aconteceu?

Penélope a explicou o ocorrido da noite passada. Depois da história, Miranda lembrou-se dos outros detalhes. A versão da policia, era que velas começaram um incêndio, e alguém entrou na casa e assassinou Rafael sem nenhum motivo aparente. A enfermeira lhe disse que já tinham tirado as impressões digitais da faca usada e elas não correspondiam com as dela, disse que Miranda já havia sido inocentada enquanto dormia. Disse que logo achariam o assassino. Miranda quase deu uma risada histérica ao ouvir isso. Nunca resolveriam esse crime. Nunca. Também disse que ela podia ficar tranquila.

Mas como ficar tranquila sabendo que seu melhor amigo estava morto? Eu não devia ter o chamado, não devia... Isso era só o que ela conseguia pensar. A culpa a consumia.

Não se culpe. Essa é a melhor forma de morrer... Morrer por alguém, é algo bem bonito, não acha? Essas palavras de Rafael eram seu único consolo, a única coisa na qual ela podia se segurar.

Os dois iam voltar, e com muitas perguntas. Miranda não podia dizer: ah, foi minha amiguinha fantasma que tentou me matar, mas o acertou sem querer, a propósito, eu vejo fantasma e blá, blá, blá... Ninguém nunca acreditaria.

Penélope a mandou dormir até que os policiais voltassem, porém ela ficou o tempo todo pensando no que diria.

Quando eles voltaram, Miranda se sentia um pouco melhor, talvez até um pouco mais confiante. Ela disse que acendeu as velas porque a energia falhou (ela tinha medo que descobrissem que a luz nunca tinha acabado, mas porque eles investigariam isso?). Depois disse que eles foram para a cozinha, e quando voltaram o incêndio já havia começado. Já que Miranda não conseguiu pensar no por que Rafael foi assassinado, simplesmente afirmou que desmaiou antes do assassino entrar.

No final da tarde, ela foi liberada do hospital.

Em casa, passou a noite em branco. Virava de um lado, depois para o outro, incomodada.

Metade dela se sentia aliviada: nunca mais ouviria o horrível Ping! Ping! Rebecca agora estava em algum lugar bem longe dali, Miranda tinha certeza que lá não era um lugar muito agradável. Mas ela não conseguia localizar um pingo de misericórdia em seu coração. Até culpava-se por bem no fundo desejar que Becca ardesse nos confins do inferno.

O travesseiro se encharcou com lágrimas de raiva.

Era fim da tarde de sábado. O sol se retirava a descansar, o céu se tingia de tons do vermelho ao amarelo e o vento soprava trazendo o aroma da grama molhada pela chuvinha um pouco mais cedo.

Se fosse um dia comum, Miranda estaria sentada no quintal da casa, debaixo da macieira, rabiscando alguma coisa em seu caderno.

Quem me dera ter uma vida comum... Pensou enquanto passava pelos portões do cemitério.

Durante o enterro, nada precisou ser dito, pois não a jeito algum de descrever a dor. Nem ao menos um milhão de palavras conseguem transmitir metade desse sentimento.

Talvez vazio seja o que mais descrevia o coração de Miranda naquela hora.

Todos dizem que o tempo cura a ferida. Mas ele não cura completamente. Ele, no máximo, transforma uma ferida aberta numa fina cicatriz. Uma cicatriz que te acompanhara pelo resto de sua vida.

Com o tempo, o sentimento de culpa diminuiu, quase desapareceu, aliás, não fui eu que enfiei a faca. Era o que sempre dizia a ela mesma.

Com o tempo, as lembranças passaram de sombrias, a alegres recordações do passado.

Com o tempo, o medo diminuiu. Ela continuou vendo fantasmas, mas passou a ignora-los, desse jeito, ele nem percebiam que Miranda podia enxerga-los e não a perseguiam mais.

Infelizmente, não posso escrever aqui: E eles viveram felizes para sempre. Primeiro porque não existia mais “eles”, agora estava sozinha, tinha Gabi, porém não era a mesma coisa. Segundo porque ela continuou tendo problemas, mesmo sendo coisas banais como notas baixas ou briguinhas, e continuou sofrendo pela morte do amigo. E por último, nada é eterno, todo mundo morre, não existe para sempre.

Então, deixando de lado o clichê dos contos de fadas, termino dizendo: E ela viveu parcialmente feliz por algum tempo.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Comentem!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!