Entrando no inferno
1 De volta ao lar.
É engraçado como os ônibus em geral são desconfortáveis, e este não era exceção.Natsu tentava sem sucesso acomodar-se em sua poltrona no meio do ônibus; ao seu lado, uma horrível mulher dormia de boca aberta,provocando um infindável repertório de sons assustadores.Nunca tivera muita sorte com ônibus,mas isso fazia parte da vida,da sua vida.
- Jesus! — exclamou,virando-se para o lado do corredor.
Tentava não pensar em nada,mas era inevitável.Após uma separação dolorosa em que praticamente Lisanna o abandonara,não teve dúvidas sobre o que fazer : tirou as merecidas férias,estas as quais havia adiado por longos treze anos.A maldita firma de contabilidade Marcos e Filhos, poderia sobreviver sem ele;afinal,não passava de um dos anônimos empregados daquela droga!
Era difícil acreditar que depois de quinze anos,estava voltando á sua cidade natal.Afinal de contas,era como dizia o ditado : "só há um lugar para ir quando não se tem mais pra onde ir:pra casa " . Como é mesmo que chamavam-na? Ah sim : "A Cidade da desgraça!" , não,não! Era : " A Cidade dos Desgraçados!"
-Preciso fumar um cigarro! — disse para ninguém.
Natsu não pretendia incomodar ninguém.Seguiu então para a cabine do motorista,onde poderia fumar em paz e, ao mesmo tempo,livrar-se de sua incômoda vizinha de poltrona.Bateu na porta de vidro acortinado, e logo em seguida ouviu-a ser destrancada.
-Pois não moço?-indagou mecanicamente o motorista,sem sequer tirar os olhos da estrada.
-Gostaria de fumar um cigarro,se for possível é claro! — falou o Dragneel, sentando-se no corrimão da escada.
-Claro que sim.Também fumaria um se você dirigisse para mim.
Era evidente que o motorista estava chateado,parece que ele também estava sujeito ás tais leis contra o fumo.Natsu acendeu um Hollywood e ficou observando a estrada que abria-se sob os faróis do grande ônibus.Tragava e expelia calmamente.As baforadas embaçavam uma pequena parte do vidro.Finalmente estava relaxado.
-Está indo para onde? — perguntou o motorista.
-Pra Magnólia. — respondeu Natsu.
Neste momento o motorista desviou os olhos para Natsu, e depois novamente para a estrada.
-Magnólia é? — disse sorrindo e balançando sua enorme cabeça careca. — então você é um desgraçado?
- É... sou um dos desgraçados. — concluiu
Isso espantaria qualquer um,se não fosse tão e simplesmente a pura verdade. Acontece que há uns dez anos, a cidade foi vítima de um grande incêndio que destruiu quase toda sua avenida principal.Muitas pessoas morreram e a cidade aos poucos foi reconstruída.Os jornais da época,chamaram-na de "A Cidade dos desgraçados'' — e como Natsu tinha acabado de descobrir — o sinistro apelido ainda vingava.
Durante sua infância e parte da adolescência, havia sido engraçado o fato de ser um desgraçado.
Natsu tinha até uma banda de rock com o nome " os desgraçados" , e continuaria sendo divertido a vida toda se não fosse o número de mortos envolvidos. Em sua adolescência, Natsu passou a encarar profundo remorso as brincadeiras de crianças .
O motorista seguia falando alguma coisa,mas Natsu não ouvia sequer uma palavra. Apagou o cigarro no cinzeiro do painel, agradeceu ao motorista e voltou para tentar dormir.
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