Entidades - Sussurros na Casa 15
1 Prólogo
O sol brilhava alto sobre Parque da Videira, uma cidade de muitos prospectos, todos desinteressantes, mas mesmo assim bastante plural. Primeiro fato é a pequena população; oito mil habitantes odiosamente entediantes e desinteressantes. A cidadela têm aqueles atrativos naturais da pequena cidade do interior, ruas com casas grandes e antigas, não muradas porque ninguém se interessa por segurança, e fria, muito fria, como a maioria das cidades gaúchas. O segundo fato é a falta do que fazer. Por estar inserida entre serras há um certo movimento turístico; no inverno, inclusive, é possível ver nevar, quando os eventos climáticos conturbados que regem os trópicos permitam que este fenômeno aconteça. No verão tudo para. Ainda é frio, sim, devido a altitude, mas não há movimento, não há sinergismo, é tudo estático e sem calor, sem vermelho, ser paixão. Os mais entusiastas dizem que os moradores são zumbis, sem sentimentos e sem se importar com isso, ironia a parte não é incomum ver alguns idosos parados na praça central papeando por horas, mas sem emoções, obviamente, porque não há motivos para isso. Uma conversa é constituída de fatos e acontecimentos, eles não precisam ser emocionados para transitar do locutor para o ouvinte; é necessário apenas exatidão nas palavras e uma certa coerência de pensamentos. E também ninguém nasce em Parque da Videira. O pequeno hospital, de arquitetura medieval diga-se de passagem, está entregue as moscas. Claro que devidamente organizado e limpo, porque falta de nascimentos não é motivo para esculhambar com o serviço público, mas é bastante comum o bosque localizado imediatamente a frente do hospital ser um ponto de encontro para a juventude, porque obviamente, nenhum paciente se desloca até ali para descansar, ou divagar sobre sua enfermidade. E isto acontece porque simplesmente ninguém adoece em Parque da Videira. As pessoas estão mais interessadas em ler, ouvir o programa de radio local, ou caminhar na pista de corrida do parque. Caminhar, porque correr é degradante, machuca os músculos e ferve o sangue, e ninguém em Parque da Videira está interessado em calor, a cidade é fria, os moradores são frios, o vegetação é gélida, e os sentimentos são reprimidos.
Mas há dois lugares que merecem um destaque, seja por sua capacidade singular de trazer a memória a existência de um mundo externo, seja pela inexorável capacidade que o capitalismo econômico tem de adentrar nas localidades mais inóspitas. O primeiro é um banco, do Brasil, o slogan amarelo fluorescente anexado sobre o parapeito do prédio não deixa mentir. Todo o dia cinco do mês ele se movimenta. Os aposentados, que são muitos, fazem filas para retirar o seu salário, porque deixar dinheiro no banco é tolice. Eles roubam! Não sabia? Cada dia que seu capital fica lá ele é passível de movimento e se tem uma coisa que os moradores do Parque da videira não gostam é de não se sentirem seguros. A geografia da cidade já diz isso: Soterrada por morros e montanhas, chegar em Parque da Videira é quase uma epopeia, se não fosse pela falta de recompensa quando se alcança os interiores da cidade: Ninguém vai dar a mínima pra você, mas manterão seus olhos bem abertos se tencionar permanecer por lá. O segundo local é um odioso Hotel de inverno luxuoso e cravado no sopé da montanha. Todo o inverno ele recebe hóspedes. Não muitos, claro, porque nem mesmo a internet tem informações suficientes sobre Parque da Videira, mas os poucos que se aventuram (todos velhos obviamente, porque não há emoção para jovens na cidade) podem sentir o aconchego do clima europeu no Brasil, como se alguém realmente se importasse para isso na cidade; aquele clima já faz parte da vida dos habitantes. Ultimamente nem mesmo os donos de tal estabelecimento se contentam com visitas, a cidade possui um clima tão adverso que até os mais entusiastas vão aos poucos perdendo o prazer da companhia. Preferem ficar a sós, com suas famílias e eventuais amigos e esperar que o cálice do tempo derrame sua ultima gota sobre suas vidas para que possam contemplar o sono eterno. Falando em sono eterno, quem é de Parque da videira não morre, as crianças são velhas, os jovens são velhos e os velhos são velhos. Todos se comportam da mesma maneira, plácidos abatidos e irritantemente vigorosos. O avô move-se como o neto, o pai compartilha de seus prazeres com os filhos, e esta singular roda da vida (ou da ausência dela) cria uma longevidade paradoxalmente não esperada. Os mais científicos diagnosticam este evento como um acúmulo de energia vital. Por simplesmente não se exporem as vicissitudes da vida e às intempéries de uma cidade grande, por exemplo, eles vivem mais. Outro aspecto é a falta de preocupação com o próprio sentido da vida e a busca por um significado no mundo. Todos ali nascem sabendo que constituirão família, provavelmente com algum vizinho, e que viverão de pequenos ensejos mercantis. Alguns são padeiros, outros trabalham para o serviço público local, tem ainda o médico e o enfermeiro. O bancário e prefeito. O advogado com seu escritório aberto para visitações, não de clientes, por razões obvias, mas de amigos de interesses comuns.
Mas há momentos de diversão em Parque da videira, claro, porque ajuda passar o tempo e melhorar as relações pessoais. Os mais observadores diriam que se os eventos anuais não existissem na cidade as famílias simplesmente não interagiriam, porque apesar de conversarem, de visitarem uns aos outros, estas interações são tão ausentes de sentimentos que o próprio significado do estar junto perde sua expressão, porque no final, as pessoas se reúnem para ficar sozinhas. Então existe o emocionante festival de tortas de inverno, aonde as matriarcas passam suas receitas milenares para suas filhas que passam para suas filhas e assim por diante. Este momento singular do ano de Parque da videira é acompanhado pela apresentação da banda cerimonial da cidade, composta pelos patriarcas da cidade. Aqueles senhores que aparentam ter sessenta anos, mas que na realidade tem oitenta, tocam com determinação os pesados instrumentos de sopro e percussão enquanto as crianças correm entre as barracas e os jovens auxiliam na decoração do parque. Sim, parque, o evento anualmente esperado se dá no parque, aonde há espaço e estranhamente há vida. Digo isso porque existem alguns cisnes, muito bonitos por sinal, que habitam a região. Há também pequenos roedores nas árvores e uma infinidade de peixes e pequenos mamíferos. A flora também é bem vívida, arvores coloridas, que infelizmente perdem suas folhas, mas que ainda transpiram vivacidade completam a cerimônia bucólica da natureza que envolve o ensejo. É um lugar muito bonito, e serve simplesmente, para os moradores, como referencia: Ainda há vida na cidade, e estamos contribuindo com o festival.
Há ainda os clubes de leitura, a sociedade do fumo e os eventuais encontros de tricô e crochê. Pequenos momentos semanais de descontração e interação intelectual. Nos clubes de leitura, muito comum entre os jovens, periodicamente um livro é selecionado e então todos os leem com dedicação. Por sinal, a educação é algo desconcertante para os menos intelectualizados em Parque da videira. Todos leem muito, e as aulas são ministradas hierarquicamente no colégio central: Um grande prédio de dois andares, de arquitetura clássica peculiar, aonde os filhos da cidade são contemplados com um ensino em excelência. Há iniciação em Latim e história clássica, aulas de habilidades manuais e de música, teatro e filosofia. É um ensino bastante peculiar e totalmente arraigado à cultura da cidade. Todos são assim, todos pensam demais e todos se orgulham do acesso holístico que possuem, à educação. A sociedade do fumo é um mistério para as mulheres, neste evento mensal, os maridos e os patriarcas se reúnem no salão da biblioteca para fumar charuto e conversar. O assunto em pauta é uma grande incógnita, não que isso gere curiosidade porque este sentimento é bem não usual. Na realidade, sentir curiosidade é algo que se arraigou no desenvolvimento humano com o passar dos séculos, mas parou em Parque da videira. Ninguém se interessa pela vida alheia, porque ninguém se interessa por nada que envolva o próximo, é tudo muito egoísta e centralizado, nem as mães precisam se preocupar com os filhos, porque eles já são direcionados, tanto na escola como em seu desenvolvimento familiar a não fazerem besteira, e pior ainda: São condicionados a viver de maneira gutural, arcaica e extremamente tradicional. Em uma sociedade deste tipo simplesmente não há espaço para a curiosidade. Os encontros mensais na biblioteca são bem pitorescos, os homens fumam, conversam e saem realizados. Falando em biblioteca, sua localização é primorosa: Bem no centro da cidade, próxima ao bosque que envolve o hospital. Seu tamanho é generoso, e seu acervo peculiar. Todos os anos uma grande leva de literatura chega à cidade, os moradores investem nesta ideia porque o conhecimento é primordial e a leitura um divertimento. Sua arquitetura é clássica, construída pelos próprios moradores, que possuem um senso de estética fascinante. Claro que esta construção está atrelada ao desenvolvimento inicial da cidade, eu digo inicial porque o índice de natalidade é nulo. Nasce menos do que morre, e só nasce porque os habitantes possuem essa consciência clara de que o tradicionalismo familiar só resiste ao tempo se ele tiver um vetor para se desenvolver, e este vetor são os filhos. Nos finais de tarde, após os afazeres domésticos, é comum as senhoras, vizinhas, se reunirem nas casas umas das outras para tricotar. As roupas são simples e bem delineadas, e são extensamente usuais entre os moradores. Como a cidade é fria o ano todo, e em especial no inverno, peças de lã são comumente confeccionadas nestes encontros, regados a chá e boas conversas. Sem animosidade claro, porque lapsos de emoção atrapalham o rendimento, e não permitem uma fluidez na conversa.
Entre os jovens as coisas são um pouco diferentes. Seus instintos sexuais são aflorados, talvez pela opressão social da tradição, que os envolve e suprime sua liberdade de expressão, mas também porque todo o jovem quer experimentar sensações que fujam da sua realidade. Eventualmente eles se tocam, se desejam, e se apaixonam. Os adultos parecem entender este envolvimento, suas mentes intelectualizadas compreendem que tentar definhar o amor é o mesmo que tentar prender a respiração até a morte. E então, aquela mesma praça que os doentes deveriam relaxar, em frente ao hospital, é tomada pela pequena horda de estudantes, que interagem entre si, obviamente, devidamente inseridos no padrão e no contexto de relacionamentos da própria cidade. Algo bem antiquado, diga-se de passagem.
Uma questão, entre a infinidade de excentricidades despojadas na cidadela, é a falta de informação sobre os aspectos que envolvem a colonização da região. Aparentemente ninguém sabe como tudo começou, ou simplesmente não quer contar. Sabe-se que é uma cidade antiga, com trezentos anos de história e construção. Outra informação amplamente aceita, e misteriosamente incoerente é a de que a cidade representou, em determinado momento do passado, um importante polo de extração, em especial de ouro. Provas disto é a grande mina incrustada na montanha, a alguns quilômetros do hotel de inverno. O fato intrigante reside justamente no não crescimento da região. A cidade simplesmente estacionou. Alguns dizem ser a própria inabilidade dos moradores da época em fazer crescer o negócio de mineração. Outros dizem que com a exaustão das reservas de ouro e outros substratos menos valiosos, a região simplesmente perdeu o seu valor. Independente dos motivos amplamente difundidos, é sabido que ninguém gosta de comentar suas origens, e que algo realmente sinistro paira sobre os alicerces da pacata cidadezinha.
Todos os aspectos mirabolantes que envolvem a pequena cidade de Parque da videira sem duvida contribuem para que esta aura, nefasta e misteriosa, perturbe os estrangeiros, que por ventura têm de passar ou se alojar em seus territórios. E uma família convencional, atraída por novas possibilidades e oportunidades, estaria prestes a descobrir tudo isto.
Notas finais
Espero que apreciem.
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