Entendendo - Guto e Benê
1 Começando a entender...
Notas iniciais
Se era difícil entender o que estava sentido? É claro que era! Nunca sentirá antes. Eu poderia até tentar entender, mas agora estava tudo bem misturado. Eu poderia ter pensado nisso antes, nas possibilidades, mas reconheço agora que fui egoísta, e não tentei entender nem a mim, nem a ela. E agora estou aqui, tentando organizar a bagunça que se transformou meus sentimentos para tentar entender o que de fato estava sentindo.
Mas tava difícil pensar enquanto olhava aquela cena. O único sentimento que eu conseguia identificar naquele momento era irritação, talvez também desconforto, mas sobretudo a irritação. Por que ela tinha que rir daquele jeito com ele? Tudo bem que o Juca era um imbecil, mas Benê não era muito de rir de imbecilidades, especialmente rir daquele jeito. Odiei mortalmente o quanto ela parecia à vontade com ele.
— Será que você pode parar com isso? — Ouvi a voz de Clara ao mesmo tempo que a senti segurar meu punho que só então percebi está cerrado.
— O que? — fiz de desentendido, olhei pra ela tentando disfarçar minha irritação.
Ela revirou os olhos, fechando o rosto, emburrada. Se afastou de mim por dez segundos, nem tempo suficiente para eu senti alivio, ela voltou a se agarrar no braço.
Louca, pensei.
Até ver que as meninas — amigas de Benê — se aproximaram da nossa mesa. Ao mesmo tempo em que Samantha grudou do meu — outro — lado.
— Queria saber qual é o papo! — ela comentou indicando a mesa onde Benê e Juca estavam. Estranhei muito não ver o sorriso zombeteiro dela, parecia realmente curiosa.
— Que interesse você tem nisso?
— Nenhum — ela respondeu rápido. — Só que deve ser o papo mais surreal que meus preciosos ouvidos poderiam escutar na vida... já imaginou?! — ela alçou as sobrancelhas e só aí deu o tal sorriso.
— E por que seus "preciosos ouvidos" teriam interesse nesse papo? — perguntei irritadiço!
— Aì, nada! — ela pareceu se espantar e entrar na defensiva. Mas percebi que era pra chamar atenção pra mim e desviar dela. — Ultimamente tá difícil falar com você!
Respirei fundo tentando aplacar a irritação que só crescia.
— Então por que tenta?
Samantha me olhou meio abismada e um silêncio caiu sobre a mesa. O peso dos olhos sobre mim estava insuportável, especialmente das amigas dela. Parece que elas sabiam... O que? Nem sei!
A gargalhada dela me alcançou, senti um tremor involuntário!
Mas que droga!
Me desvencilhei de Clara e me levantei, precisava sair dali. Pensassem o que quisessem, a gargalhada de Benê não ia me torturar. Fui direto para o galpão, chutei uma almofada no chão, imaginando no lugar dela a horrenda cabeça do Juca... Tudo bem, isso já estava ficando ridículo!
Suspirei fundo e pesado. Algo no meu peito estava com um aperto doloroso, e ao olhar o piano... Droga!
Caminhei até lá, lembrando da imagem que sempre via quando meu olhar direcionava a ele: sempre ela ali sentada, às vezes compenetrada nas suas teclas, às vezes ansiosa olhando para entrada do galpão me esperando, mas sempre ela, ali!
Agora não mais...
A sonoridade afinada de sua gargalhada ainda ecoando em minha mente. Meus olhos encheram d'água...
O que estava acontecendo comigo?
Sentei e comecei a dedilhar o piano. Música sempre me acalma, em todos os momentos, desde sempre, agora não seria diferente. Apesar de agora ela ser um elo entre nós, a música ainda tinha efeito sobre mim, aplacava qualquer que seja o sentimento que estivesse em furor por dentro. No momento eu só queria aplacar aquela angustia. Eu estava me acalmando, mas ainda doía, parecia ainda mais doloroso, fechei os olhos para evitar que as lágrimas caissem, não podiam acreditar que eu queria chorar.
— Sabe que eu amo essa música! — ouvi a voz dela. Meu Deus, ela estava ali?! Não quis olhar continuei de olhos fechados.
— Você não gostava no principio. Achava... como você disse mesmo?... Fácil demais! — respondi depois de um tempo, conversando, na minha mente, com minha "miragem", era mais fácil ‘encarar’ dessa forma.
— Sim, e continuo achando. Porém não quer dizer que ela não seja uma das minhas músicas favoritas de tocar. — sua voz se aproximava cada vez mais. — Aprendi que as coisas não precisam ser difíceis para ser bom e prazeroso, às vezes os desafios são dolorosos demais e coisas simples acabam sendo mais atrativos. — por algum motivo senti o aperto no peito apertar um pouco mais. — Além disso, foi essa música que cantamos na Balada Cultural, e com ela começamos a aprender a ser corajosos, me trás lembranças boas, por isso gosto dela.
— Já entendi, Benê!
— Mas por que você está bravo? — conhecia bem aquele tom doce e inquisitivo, de quem almeja uma resposta e que não ira desistir dela.
— Quem disse que estou bravo?
— O som do piano. — ela respondeu simplesmente e eu não pude deixar de sorrir. Ela estava certa. — Você mesmo me ensinou a decifrar.
— Se você diz...
— Digo! E por que não está olhando pra mim?
— E por que você está fazendo tantas perguntas?
— Porque você não está respondendo nenhuma delas.
Afundei os dedos bruscamente nas teclas graves do piano, parei de tocar e finalmente a encarei, não devia ter feito. A olhando de cima do palco, ela parecia tão minúscula — mais do que já é — segurava as próprias mãos a frente do corpo, os lábios comprimidos em sinal de curiosidade, os olhos altivos mesmo que meio escondidos por trás dos óculos me mostrava sua obsticidade.
— Está bravo? — a voz dela num tintilar melodioso, e um tanto inseguro e entristecido, quase me fez esquecer que sim, eu estava bravo.
— Por que você está aqui, Benê? — perguntei com impaciência tentando a todo custo me livrar dela, ou daquela imagem dela, que só me dava gana de correr até lá e abraçá-la.
— Se eu responder sua pergunta, promete que responderá pelo menos uma das minhas?
Sorri, novamente sem conseguir me conter.
— Prometo! — fui obrigado a falar.
— Bem — ela se aproximou um pouco mais do palco. — Vi você saindo da lanchonete e que todos na mesa olharam pra onde você ia. Achei estranho você vir pro galpão e também achei que só viria pra cá se fosse pra tocar o piano, e como gosto de ouvir você tocar... bem, vim até aqui.
— Gosta de me ouvir tocar?
— Você sabe que sim — ela se aproximou um pouco mais.
— Pois eu acho que você está começando a tocar melhor do que eu. — falei com sinceridade
— Isso não é verdade! — ela foi categórica. — Você toca com emoção. Assim que entrei percebi que estava bravo... eu ainda não sei tocar assim.
— Vem cá! — fui vencido, a chamei e afastei-me um pouco pra dá lugar a ela no banco, ela atendeu prontamente e agradeci por isso. — Só o fato de você ter percebido mostra que tem uma sensibilidade incrível, a maioria das pessoas não conseguem di...
— Mas, isso porque é você. — ela me interrompeu e eu senti o coração descompassar por aquelas palavras. — Conheço o seu toque, conheço o seu tom.
— Benê, você fez o estudo das emoções não fez? — Ela concordou com a cabeça. — Você e só você identificou cada uma delas e mais, catalogou. E tem mais, muito mais, a cada dia que passa você toca com cada vez mais emoção, e emociona, emociona qualquer um que te ouvi tocar. Você me falou que tocava pro Tonico e ele se acalmava, certo? — novamente ela assentiu. — Quer alguém melhor e mais sensível em captar emoções que um bebê? — ela me olhou com os olhos crescendo de entusiasmo. — Geralmente o aluno supera o mestre!
Ela então respirou fundo, e depois baixou os olhos.
— Mas eu não quero. — a voz dela quase não ouvi. — Jamais serei melhor que você.
— Isso não é verdade!
— Para de dizer isso! — ela se alarmou, alteando um pouco a voz e eu fiquei extremamente confuso.
— Por que? Sei que você quer ser boa, a melhor. Então por que...?
— Não quero que deixe de me dar aulas. — Aquilo atingiu em cheio o meu peito. — Foi horrível quando você parou da outra vez. Não quero, eu...
— Benê — ela não me olhava, olhava pra um ponto qualquer em seu joelho. — Eu... — o que eu podia dizer diante daquela frase, diante daquele quase pedido tão sem sentido e ao mesmo tempo que fazia todo sentido do mundo? Eu sabia que ela me superaria, simplesmente porque ela tinha uma determinação que eu jamais nem sonhei em ter. Sabia que era só uma questão de tempo. Mas por mais que eu quisesse dizer isso a ela, pelo visto isso não a alegraria, e eu não queria mais, de nenhuma maneira ser responsável pela tristeza dela. E não pude deixar de me sentir presunçoso. Porque ela me queria perto dela, mais do que queria se superar, e eu percebi que pra Benê se superar era extremamente importante.
— Você o que? — ela finalmente me olhou, percebi que tinha me perdido em pensamento deixando inacabada uma frase, e Benê sendo Benê ia querer uma resposta.
— Eu... Eu acho que nunca vou deixar você, Benê! — vi os olhos dela brilharem e ela sorri, e me odiei pelo que estavas prestes a dizer. — Mas, as coisas mudam! — como eu previra uma ruga de interrogação se formou em sua testa.
— Isso é obvio, mas...
— Mas, uma hora é você que não precisará mais de mim!
— Pessoas não precisam só estar juntas quando precisam uma da outra. Podem está juntas simplesmente porque querem ficar. As amizades são assim, não são? E você mesmo disse que somos amigos, disse que tinha certeza da sua amizade por mim.
— É, eu disse — engoli seco.
— Então...
Ela sempre me deixava sem respostas, sem palavras, sem argumentos. Eu odiava isso.
— Então que às vezes não tem espaço pra tantos amigos. — a imagem do nerd infeliz tomando meu lugar voltou a me inquietar.
Novamente a confusão se instalou eu sua face.
— Amizade sincera nunca é demais. Sempre tem de haver espaço!
— Em certos casos, não! — disse e me voltei ao piano.
— Em que casos?
— Benê, para com esse interrogatório! — dedilhava rapidamente tentando fugir dela e dos meus pensamentos.
— Você está bravo de novo! — ela olhava as teclas do piano como se elas que estivessem lhe dizendo aquilo. — Sou eu que estou te deixando bravo?
Suspirei fundo. E a ignorei aumentava o tom para o grave e dedilhava a música que só então percebi ser 'Tale as old as time', apressadamente, tirando o ritmo melodioso, harmônico e sentimental que ela tinha — como sempre a música me entendia, descrevia, sem nem ao menos perceber. O toque era agonizante, e Benê pareceu pensar o mesmo.
— Para! — ela pediu, com as mãos nos ouvidos.
Não parei, não queria ouvi-la! Até que me assustei, ao mesmo tempo que tudo em mim se aqueceu, quando senti as mãos tremulas dela tocar as minhas, sobre as teclas, parei por um segundo e deixei que ela me guiasse ao verdadeiro ritmo da melodia, calma, compassada, acolhedora. As mãos dela tremiam de leve por dentro, imaginei o esforço que estava fazendo com aquele toque, mas ela foi firme. Me lembrei de como ela se assustou quando fiz esse mesmo gesto com ela há um tempo atrás. Como eu disse, Benê gostava de se superar e eu não cansava de ver como era lindo quando ela fazia.
— Me diz por que você está bravo? — ele pediu docemente depois de um tempo, enquanto ainda se concentrava em minhas mãos sobre as teclas. — Por que não podemos mais ser amigos? — os olhos dela se arregalaram e ela me olhou rapidamente — É por isso que está bravo? Porque acha que não podemos mais ser amigos? Guto, o que está acontecendo? — ela finalmente parou o piano, e soltou minhas mãos, a resposta era mais importante pra ela. Não era pra mim, nunca senti tanta falta de algo em minha vida!
Como eu ia falar aquilo? Como?
Descobri no segundo seguinte.
— Benê! — era a voz dele a chamando da entrada do porão. — Eu vou indo, vim devolver suas partituras. — ele trazia as folhas na mão e um sorriso alegre no rosto. — Acho que estão ficando ótimas, demais até, eu diria!
— Tá bem, Juca! Obrigada! — ela disse e eu agradeci intimamente por ela não ter se levantado e ido até ele. Mas a irritação voltara com força. — Depois continuamos.
— Podem continuar agora! — disse levantando! — Não se prenda por mim!
— Não. — eu não sei dizer o que perpassou por meu corpo quando senti a pequena mão dela segurando meu pulso, me prendendo instantaneamente ao seu lado; Por que, por Deus, com que forças eu ia sair dali agora?! — A gente ainda não terminou a conversa!
— Acho que não tem mais conversa. — a presença dele naquele momento me tirava do sério.
— Por que você está fazendo isso? — ela me perguntou ficando de frente pra mim, a voz e os olhos suplicantes, e o pior, ela ainda me segurava. — Por que ta se afastando de mim?
— Eu? Eu estou me afastando, Benê?
— Sim está! — ela alteou o tom, categórica e eu quase não suportei ver os olhos dela se encher de lágrimas. — Disse que um dia não seremos mais amigos. Está evitando falar o que sente. O que você sente, Guto?
— O que eu sinto? — eu estava ficando extremamente nervoso. — O que eu sinto? — sorri irônico. — Eu não sei o que eu sinto, Benê! — ficamos nos encarando por um tempo. — Ou melhor, eu acho que sei, mas... não sei se quero sentir.
— Por que? — ela me puxou delicadamente para sentar novamente, posso está sendo presunçoso, mas vi o gesto como reflexo do medo que eu a deixasse ali, sem sua preciosa resposta.
— Por que você não vai com ele, terminar suas preciosas partituras e me deixa quieto aqui? – desviei da pergunta, sem me dá conta que Juca já havia nos deixado há algum tempo.
Eu até poderia está sendo cruel aos olhos de alguns, mas eu só estava querendo me libertar, ou provar que eu ainda era livre. Benê e aquele seu jeito, Benê e aquele novo estagio que era o toque delicado e inseguro dela estava me cativando de um jeito que jamais pensei que poderia existir na vida, e talvez eu não quisesse aquilo, talvez eu não quisesse aquele poder sobre mim.
— Porque eu quero ficar. — ela respondeu simplesmente. — Eu quero entender.
— Entender o que?
— Você! — ela me encarou por um tempo, talvez esperando que eu dissesse algo, mas eu não tinha nada pra dizer, não naquele momento em que ela estava derramando uma fina lágrima de seu olho. — Entender o que acontece com você. Entender porque você vem sendo sempre tão controverso. Diz que gosta de mim, mas me afasta. Diz que eu preciso dominar meu medo do publico, mas se irrita quando eu tento fazer novas amizades.
— Se você está se referindo a seu amigo Juca, saiba que ele quer algo mais que amizade. — disse irônico e arredio. — Talvez você ainda não tenha captado essa informação.
— E isso te incomoda? — ela perguntou cautelosa.
— Sim, me incomoda! — nem acredito que consegui confessar. Talvez tenha sido impressão, por causa do meu furor, mas posso ter visto um soslaio de sorriso.
— Por que te incomoda tanto?
— Parece que você já sabe a resposta!
— Eu acho que sei — ela disse humilde. — Acho que já sei há algum tempo, mas você nega. Não sei se por não saber, ou por não perceber, ou se simplesmente porque você não quer ... Você só ainda não me convenceu de que realmente não quer, porque, o que você faz sempre diz o contrário e eu sou muito perspicaz pra perceber isso. Às vezes eu fico confusa, muito até. — ela fez uma pausa pra respirar, mas estava agitada. — Eu estou confusa agora, por achar que não sei. Porque você me deixa confusa quando nega, mas no fundo eu sei, eu sei o que você sente porque eu também sinto.
Eu sorri involuntariamente, qualquer um que ouvisse aquela conversa pensaria que se tratava de um lunático. Pensei em Samantha e seus "preciosos ouvidos". Mas, por mais confusas que pudesse parecer às palavras de Benê, eu a entendi perfeitamente..
Ela me olhou temerosa!
— Você está com ciúmes, não é? — a pergunta foi como um soco no estomago. — Uma angustia uma irritação, um desconforto no estomago, uma sensação de que algo não está no lugar, é isso?
Assenti derrotado.
— Eu sei como é!
Dessa vez foi lento, eu acompanhei seu movimento, acompanhei sua mão escorregar do meu pulso entrelaçando- a com a minha. Como um aperto de mão podia chegar ao coração? Sim, porque foi nele que senti o aconchego. E eu realmente não acreditei que ela estava fazendo aquilo. Quem era aquela garota? O que era esse ser tão precioso? Que estava me apoiando enquanto eu a estava machucando. Eram a ela que chamavam de limitada? Limitada? Pelo amor de Deus, era o ser mais complexo que eu já havia conhecido. Do seu jeito lindo, mais uma vez me mostrou que gostava de mim, e mais que isso me mostrou que eu a amava. Meu Deus, eu a amava! Tive total certeza olhando nos olhos intensos e curiosos dela. Acho que algo em mim se ascendeu e acho que deixei transparecer isso, porque ela sorriu timidamente.
— Eu sei como é! — repetiu. E como se eu tivesse vendo uma miragem,vi Benê lentamente baixar a cabeça em direção ao meu ombro, ela se aconchegou ali. Se superando mais uma vez.
Pensei no quanto aquilo era surreal. Então era essa a sensação de está apaixonado. Eram essas as borboletas no estômago que as pessoas descreviam, porque eu realmente as sentia vivaz dançando dentro de mim. E o coração batia forte, mesmo que nunca tivesse tido tanta paz. E eu queria mais daquilo, queria sempre aquilo. Agora entendo o que os grandes compositores queriam dizer... encontrara a maior fonte de inspiração, e eu a queria ali... para sempre.
— Vou dá um jeito nisso. — eu disse, depois de minutos, talvez horas, dias de silencio! — Prometo. — e agora me sentindo um pouco mais digno dela, beijei o topo de sua cabeça. — Vamos ficar bem!
...
Fale com o autor