Ensine-me a te amar
3 3. Quando nem tudo sai como planejado
Notas iniciais

Acordei com um certo susto. Saltei da cama tão rápido que o mundo tremeu de novo. E eu suava frio. Tinha a impressão de ter tido um pesadelo, porém não conseguia me lembrar do que era. Engoli em seco, sentindo um calafrio nada agradável percorrer meu corpo. Estava com um péssimo pressentimento, mas não sabia quando a quê.
Comecei a me acalmar quando percebi que Natsu e Happy ainda estavam ali, no mesmo estado de animação suspensa que nem parecia apenas um sono. Suspirei, um tanto aliviada. Querendo ou não, sempre me sentia mais segura quando ele estava por perto. Não por ser meu amigo, mas simplesmente por ser Natsu. Ele era o tipo de pessoa que nos passa a sensação de segurança, de despreendimento, o tipo que, antes que percebamos, nos faz sorrir por coisas das mais bobas. Acho que essa é a parte que mais gosto nele.
Bocejei, espreguiçando-me ao perceber que eram apenas oito da manhã ainda.
Acho que perdi o costume de acordar tarde Pensei, caminhando em direção à cama de Natsu para acordá-lo.
Levou uns minutos de insistência, alguns puxões de orelha e muita paciência. Mas consegui tirá-lo da cama. As palavras mágicas: café da manhã.
–Luxxy, podemos comer peixe? -murmurou um neko ainda semiconsciente, rolando nos travesseiros.
–Como se tivesse peixe a esta hora da manhã. -resmunguei de volta, revirando os olhos.
–Que fomee! Será que eles tem lareira na sala do café? -perguntou o rosado, pensando em sua dieta bem pouco convencional.
–Você bem que poderia fingir que é normal pelo menos no café. -reclamei, imaginando a expressão dos proprietários ao ver um adolescente comer o fogo da lareira deles às oito da manhã.
–Lucy é estranha. -assombrou-se Happy, olhando para Natsu que assentiu seriamente, concordando.
–Por quê?! -exclamei, indignada.
Os dois pareciam adorar esse apelido por algum motivo, mesmo que eles mesmos não sejam as pessoas mais 'normais' que eu conheço. Na verdade devem ser as mais excêntricas.
Sem se importarem em responder o Dragon Slayer foi correndo para o banheiro se trocar, o que, se tratando de comida, não me surpreende.
Aproveitei sua ausência momentânea para colocar minhas roupas também, constatando aliviada que a falta de fome e a tontura da noite anterior deviam mesmo ser cansaço. Houvera acordado bem mais disposta, e faminta também.
Quando Natsu e Happy saíram do banheiro, já plenamente vestidos, obriguei-os a deixarem suas malas parcialmente arrumadas para sairmos depois do café, o que nos ajudaria muito já que aqueles dois demorariam na mesa.
Descemos para o café em seguida, sendo muito bem recebidos pela proprietária da pousada, que parecia ser sempre a primeira a acordar e a última a dormir em seu estabelecimento.
Por ser uma estalagem modesta é claro que eles não serviam churrasco ou peixe assado no café da manhã (algum lugar sequer serve isso?) o que deixou tanto o Salamander quanto o Exceed deveras decepcionados. O que também não impediu que eles comessem tanto como sempre comiam.
Já eu mesma estava faminta. Aproveitei para recuperar todas as energias com um bom café da manhã! E estava realmente bem melhor depois de terminar, já não me sentia tão enjoada quanto na noite anterior. Ah, mal posso esperar pra chegar em casa e tomar um bom banho e voltar para o meu romance!
Depois do café dei um bom puxão de orelha em Natsu, que tentara sair antes à pé. Quem disse que ele ia fugir do resto da punição? Não mesmo! Na verdade eu deveria fazer isso mais vezes pra ver se ele parava com aquela mania de destruir tudo que vê pela frente, metade dos nossos problemas seriam poupados só com isso. A guilda tudo bem, mas as pessoas do resto do mundo não precisam ter suas casas destruídas por nada, certo?
Assim que voltamos a embarcar ele passou mal e, por ser manhã, não conseguiria dormir. Cheguei até a sentir um pouco de pena depois das duas primeiras horas. A estrada que levava à Magnólia estava tão desgastada que a carroça chegava a dar saltos sob buracos no chão, o que sinceramente não Deve ser realmente incômodo não poder subir em nada em movimento sem ficar enjoado, ou quase morrer, que era o que ele alegava.
Quando passaram-se três horas de tortura decidi dar uma pausa na viagem. Afinal eram quase duas da tarde, e o trajeto já estava quase acabando. Mais uma hora no máximo e estaríamos na guilda, ou melhor, em casa.
Pedi ao carroceiro que desse uma pausa de vinte minutos, tanto para um lanche como para dar um descanso ao rosado, que tinha parado de se mexer há uns vinte minutos. Acho que não lhe restavam forças nem para reclamar, o que era realmente preocupante.
Já Happy queria mesmo aproveitar a parada para embrulhar o peixe que ganhamos da senhoria da estalagem.
Um presente para Charlie. Pensei, sorrindo comigo mesma.
A insistência do Exceed era mesmo fofa. Mesmo que a gata branca não lhe desse qualquer atenção ou mérito, ele estava sempre se esforçando para agradá-la, do jeito dele. Era como Juvia, que fazia de tudo por Gray mesmo sabendo que provavelmente não receberia em troca nada mais do que um sorriso ou um rubor no rosto. Gray era tão frio quanto um mago do gelo podia ser, e Charlie parecia carregar mais orgulho em si do que o resto da população de Exceeds inteira. E mesmo assim parecia que nenhum dos dois estava para desistir.
O amor é uma coisa tão fofa. Suspirei, sorrindo fraco.
Natsu caiu de cara no chão quando paramos a carroça, levando poucos segundos para se recuperar.
–Estou vivo de novo! -comemorou o Dragon Slayer alegremente, jogando-se em um campo de relva próximo ao lugar onde estava nosso transporte- Podemos ir a pé daqui, né? Por favor, Luceee!
–Não.
–Que cruel! -ele me deu a língua, cruzando os braços atrás da cabeça deitado no campo gramado.
De fato, paramos numa parte bem pacata do trajeto. Campos de grama verde estendiam-se por vários metros, flores selvagens despontavam por entre os fios esverdeados, deixando a paisagem um tanto colorida. O céu estava azul ciano, poucas nuvens se sobressaíam acima de nós, e as que vinham logo eram sopradas por uma brisa calma, primaveril.
Ao longe, um pouco mais ao norte, pequenas colinas delineavam ao horizonte, de onde vinha outra pequena estrada de terra que cruzava-se com a nossa.
Sentei ao lado do rosado, aproveitando da paz momentânea que o local oferecia. Ah, a paz. Tão acolhedora e serena quanto silenciosa, o quão bom poderia ser ouvir o cântico afinado das cotovias e...
*BUUUUM!!!!*
Uma explosão ensurdecedora corta o ar, fazendo-me dar um pulo no lugar. Foi quando o som de trotes de cavalo se fez presente, alto, guinchos animalescos fizeram meu coração disparar em adrenalina por um segundo.
Um vulto azul escuro cruzou minha visão, tão rápido que mal pude distinguir o que era. Minha mente gritava perigo, fiquei em alerta e minha primeira reação foi tentar levantar. Porém meu corpo, assim que se pôs de pé, perdeu toda a sua força, e fui ao chão desajeitadamente, sentindo uma fraqueza súbita inebriar-me os sentidos.
Mas o vulto, que agora mais se parecia com uma carruagem de dois cavalos, ainda se aproximava desgovernada em alta velocidade.
–LUCE! DESVIE! -berrou Natsu em algum lugar perto de mim.
Entretanto eu não consegui, eu via o perigo, todavia meu corpo não respondia ao impulso de me afastar dele, fiquei completamente paralisada de terror, vendo o veículo mortal se aproximar mais e mais em câmera lenta. Fechei os olhos, erguendo os braços automaticamente para proteger-me do impacto.
Porém o mesmo nunca veio. Em um segundo senti um aperto de ferro envolta da minha cintura, jogando-me para o lado, para fora do alcance da carruagem desenfreada. Em compensação fui arremessada contra o chão, rolando contra a terra.
Senti o calor emanando do corpo dele para o meu, um de seus braços apertava firme meu quadril e o outro trouxera minha cabeça para junto de seu ombro, protegendo minha face do choque com a grama.
Não vou dizer que não doeu, pois senti uma pancada forte na testa quando atingimos o solo, a adrenalina só deixou-me sentir seus efeitos depois, porém naquele momento tudo o que pude pensar era que estava salva.
Quando paramos de rolar Natsu estava por cima de mim, seus joelhos encaixados à minha cintura e o corpo reclinado sobre o meu. Ele soltou-me devagar a cabeça, seus olhos pareciam um tanto aflitos e suas mãos tocaram meu rosto.
–Luce! Luce! Você está bem? -ele questionou, o polegar passando por cima do corte que se abrira em minha fronte- Oe, Luce!
–Na... tsu... -murmurei perdida, piscando algumas vezes quando sua imagem começou a perder o foco.
–Ainda bem. -ele suspirou, um pouco mais aliviado- Caramba, Luce! Eu disse pra desviar, o que deu em você?! -o rosado se virou um pouco para trás, analisando o impacto da carruagem com uma árvore próxima.
Ainda um tanto confusa, comecei a entender o que realmente tinha acontecido apenas depois de alguns segundos. Aquela carruagem perdera o controle e viera em minha direção, porém, atordoada demais para me mover, acabei sendo salva por Natsu, que se jogou por cima de mim e me arremessou para o lado segundos antes da colisão.
Minha respiração estava acelerada pelo susto, e eu devia estar pálida, muito mesmo. Entretanto, só naquele momento, percebi que o Dragon Slayer ainda estava por cima de mim. Sentia-me fraca para empurrá-lo, porém meu rosto coloriu-se de vermelho vivo. As memórias voltando à minha mente como flashes bem definidos.
“Ainda contra a parede, senti suas mãos calejadas subirem minhas coxas até enlaçarem minhas pernas ao redor de sua cintura. Sua boca separou-se da minha por um segundo pela falta de ar, descendo pela extensão do meu pescoço, provocando-me arrepios.
Estava muito frio, mas ele ainda era quente. E eu sentia minha pele formigar onde seus lábios tocavam, incendiários, causando um choque térmico na superfície molhada.
Estremeci quando seus lábios chuparam meu pescoço de leve, mordendo o lábio para conter um gemido. Apesar de entorpecida, eu sentia um pouco da dor, mas ela era a última coisa que me passava pela cabeça naquele momento.
Minhas mãos o mantinham perto de mim, perdidas em seus cabelos puxando-o para mais um beijo. Se eu estivesse mais ou menos lúcida, teria parado por ali. Talvez a ideia tenha cruzado minha mente por um ínfimo segundo, porém a descartei completamente só de pensar em não poder mais senti-lo tão próximo de mim. A noção de ficar fora de seus braços por um minuto sequer parecia um suplício impensável, como se em tão poucos segundos já houvesse me viciado na sensação de sentir seu cheiro impregnar minhas roupas, e seu calor aquecer meu corpo.
Em tão poucos segundos. E eu ansiava por me entregar a ele.
Parecia loucura. Mas era real. Uma sensação tão forte que não me detive ali.
Muito pelo contrário, incitei-o ainda mais a levar-me para sua cama, deixando que todos os pensamentos racionais me abandonassem ao toque de seu beijo.”
–NATSUU! LUCYY! -foi a voz alarmada de um certo Exceed azul que despertou-me dos mesmos malditos devaneios dessa vez.
Happy vinha em nossa direção aparentemente preocupado, mas ao ver que estávamos inteiros (ou quase isso) pareceu desacelerar um pouco o voo.
–Oe, Happy! Estamos bem! -anunciou o rosado, levantando-se de cima de mim para tranquilizar o companheiro- Aliás o que diabos foi aquilo? Uma carruagem fantasma?
–Não tem ninguém lá dentro. -contou o Exceed, olhando para os destroços do veículo- Nee, como uma carruagem fantasma perde o controle? Será que os fantasmas pularam antes de bater?
–Acho que não faria muita diferença se eles estão mortos mesmo. -idealizou o Salamander, pensativo.
–Natsu, tem certeza que a Luxy 'tá bem? -o neko azul apontou para mim- O rosto dela está mais vermelho que o cabelo da Erza.
–Hum, é verdade! -Natsu olhou para mim de cima a baixo- Será que é febre? Eu vou ver!
Ele sentou ao meu lado na grama e, antes que eu pudesse intervir, encostou a mão de leve em minha testa, medindoa temperatura.
–Ela está quente.
–Olha quem fala. -retruquei ainda rouca.
–Vamos levar ela pra Poluchka-san?
–Boa ideia, Happy!
–Ei... eu não estou doente. -murmurei, tentando me sentar na grama sem ver dobrado- Não precisa disso.
–Por que não desviou da carruagem? -perguntou Natsu, mais sério dessa vez.
Desviei os olhos para o chão, dando de ombros.
–Eu... senti uma fraqueza, só isso. Não tem com o que se preocupar.
Foi o que eu disse, mas ele não pareceu concordar.
–E você cortou a testa. Tenho certeza que a Poluchka-san não se importa em dar uma olhada em você, só pra ter certeza.
Franzi o cenho por um momento. Natsu realmente estava... preocupado comigo?
–T-Tudo bem. -concordei, ainda sem encará-lo.
–Consegue ir até a carroça?
Assenti brevemente, levantando do chão devagar. Andamos lado a lado em direção ao veículo até Happy ter de acrescentar:
–Nee, Natsu, agora a Lucy está tão gorda que nem consegue levantar do chão. Com conseguiu tirar ela do lugar?
–Aah, neko maldito! -agarrei Happy pela cauda e lhe puxei os bigodes bem puxados dessa vez- Quem é gorda?
–Naatsuuu, me salvaaa! As mulheres são cruéis! -choramingou o azulado, agarrando-se ao ombro do Dragon Slayer assim que o soltei.
Mas Natsu apenas riu, parecendo concordar com o parceiro. Ignorei os dois e cruzei os braços, resignada. Por dentro, mesmo que apenas um pouco, estava feliz por estar com aqueles dois, ainda que fossem daquele jeito idiota mesmo.
Subi na carroça tendo a certeza que enfrentaria mais duas horas de reclamações, enjoos e desmaios. Sabia que logo Happy me pediria ajuda para fazer o laço em seu pacote de peixe embrulhado e que Natsu ia acabar dormindo/desmaiando em alguma parte do trajeto. Mas mesmo assim, ainda me divirto muito nessa equipe.
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