Ensine-me a te amar
19 19. Voltando à rotina
Notas iniciais

POV. Natsu
–Missão? -indaguei, claramente confuso.
–Sim, Natsu. Estávamos nos programando pra sair numa missão. contou Luce, olhando analiticamente dentro da mala em cima da cama, como se para ver se faltava mais alguma coisa- Happy não disse nada?
Neguei com uma aceno, cruzando os braços um tanto emburrado.
–Você é parceira deles agora...? -senti que minha voz saiu manhosa, mas não me importei.
A loira rolou os olhos, suspirando.
–Minha vida não pode parar se você for embora. Tenho que pagar o aluguel, lembra? -explicou- Aliás, preferia que eu fosse sozinha com Happy em missões perigosas para conseguir passar o mês? Se fosse antes, eu até não me importaria em dobrar a carga horária, mas... agora tinha que pensar no bebê também. -relembrou-me.
Ela sempre tem razão. Pensei, bufando Odeio ela sempre ter razão.
Terminada a preparação básica, Luce me sorriu como confirmação de nossa partida e assim fomos.
Já era o segundo dia desde que descobrira a verdade sobre sua gravidez e a ideia ia aos poucos sendo absorvida por minha mente. Tivemos de ir juntos a guilda no dia anterior para explicar a cena que ocorrera. Recebemos muitos olhares e comentários maliciosos, porém Luce fez questão de deixar claro que estávamos bêbados quando aconteceu, e que não tínhamos essa relação. Foi um longo dia, entretanto houveram muitas comemorações. Parece que o mistério sobre o pai do bebê alimentaram muitas dúvidas nesses dois meses, tanto que até vi Cana recebendo de algumas apostas que foram feitas a respeito.
Depois de algum tempo questionando, descobri por Gray que a loira não mantinha relação com ninguém mais, isso baseado em suposições e nada mais. Isso tanto me animou quanto me encorajou. Temia a relação que teríamos se ela estivesse com outro alguém.
Eu seria para sempre somente o pai do filho dela e um peso em sua vida.
Não sabia como o sujeito que estaria ao seu lado me trataria, mas eu sabia que teria me segurar muito pra não arrebentar a cara dele sempre que nos víssemos. Acho que é isso o que chamam de ciúmes. Que inconveniente esse treco.
Estávamos, naquele momento, rumando a guilda calmamente, onde nos reuniriamos com Gray, Erza, Happy e Juvia para a tal missão que andavam planejando. O silêncio, por algum motivo, irritava-me um pouco e apesar de tudo, ainda sentia que as coisas estavam mal resolvidas entre nós. Por isso, sem precisar de mais razões pra trazer o assunto a tona, decidi quebrar o silêncio.
–E como vai ser daqui pra frente? -perguntei despreocupadamente- Depois disso tudo de gravidez e desaparecimento e coisa e tal. Como vai ser?
Podia parecer uma pergunta casual, mas na verdade esse era uma dúvida que vinha me atormentando desde o dia anterior.
Luce não chegou a virar a cabeça para me mirar, entretanto percebi que seus dedos apertaram com mais força a alça da pequena mala que carregava, como se involuntariamente entregasse seu desconforto.
–Eu... na verdade... não pensei muito nisso. -confessou, um tanto incomodada- Mas acho que deve ser como sempre foi. Somos amigos e parceiros, não quero que a gravidez destrua isso. -ela mordeu o lábios inferior de leve e olhou para mim- Porém se você quer fazer parte disso, não tinha objeções quanto a acompanhar a gestação. Todo mundo já sabe, então a paternidade do bebê já não é segredo nem me preocupa mais.
–Já sei! -exclamei, estalando os dedos ao perceber que acabara de ter uma ideia genial- Você poderia morar comigo e com Happy! Assim estaria mais segura e eu poderia te ajudar com o que precisasse.
Luce fez uma careta, o rosto corando de leve.
–Morar com você? Não há necessidade. Estou muito bem sozinha no meu apartamento, fora que nem tem lugar pra mim na sua casa, é pequena demais.
Inflei as bochechas, um tanto desconcertado.
–Claro que tem espaço.
–Aonde eu iria dormir, Natsu? Na rede? -indagou num tom irônico, um sorriso discreto formando-se em seus lábios.
–Na cama comigo. -respondi sem rodeios- Aquela rede me dá enjôo e também uma bela dor nas costas. Mas a cama é grande, e Happy gosta de dormir na rede mesmo.
–Claro que não, né, Natsu! -afirmou Luce de repente, parecendo indignada- Amigos não dormem na mesma cama!
–O que tem? Você já está pensando besteira. Acha que eu ia fazer o quê? Agarrar você de noite ou alguma coisa assim? -questionei, dando de ombros.
As faces da maga estelar de repente ficaram vermelhas como pimenta e ela me deu um tapa no braço de leve.
–Eu não estava pensando besteira! Eu só... Bom, de qualquer jeito, não pretendo me mudar! Gosto do meu apartamento e ponto final! -decidiu, apressando o passo e indo na minha frente.
Apertei os lábios, franzindo o cenho ao vê-la se afastar.
A sugestão foi inocente, sim, eu sabia, todavia uma pontada de preocupação se recusava a me deixar. Senti um aperto no peito, suspirei. Devia ser coisa da minha cabeça, só uma impressão passageira.
Devo estar sendo surperprotetor. Estou apenas pensando demais.
Afinal estamos indo numa missão juntos como sempre. O que de mal poderia acontecer?
(...)
POV. Lucy
–Natsuuuuu.... Eu vou morreeerr! E a culpa é toda sua! -acusei-o, sentindo um gosto horrível na boca.
–Hahahahaha... Finalmente tenho a minha vingança e... Urgh... -ele segurou a barriga, contendo a ânsia com dificuldade.
–Mas é realmente impressionante. -comentou Erza, intrigada- Acho que deve ser algum tipo de maldição hereditária, não? -indagou para Gray, que tentava a todo custo não rir da deplorável situação que nos encontrávamos.
–Hihihi... Luxy malvada ta pagando seus pecados. -sussurrou Happy, rindo baixinho.
O que diabos estava acontecendo é uma boa pergunta. O fato é que eu meio que desenvolvi um tipo de negação a meios de transporte depois do segundo mês de gravidez, como se o bebê estivesse seguindo os passos do pai em alguns aspectos, ele realmente não gostava de estar em coisas que se moviam e eu, consequentemente, também não.
A missão seria em uma cidade chamada Winterfall, que por acaso era um bocado longe de Magnólia, o que nos fez ter de optar por um transporte mais rápido e eficiente: o trem. Mas como nem tudo são flores a viagem demoraria longas três horas de tortura, à excessão de uma ou duas paradas no caminho. Não digo que estava gostando muito da ideia.
–Viu... como é legal? -provocou Natsu, ele podia até estar sorrindo, porém seu rosto estava meio verde demais- Aposto que nunca mais vai me obrigar a andar numa daquelas carroças!
–Quieto Natsu... -grunhi, lançando-lhe um olhar mortal- A culpa é toda sua de eu estar assim, então não me irrite! -deixei o corpo pender na amurada mais um vez, meu estômago não estava gostando nada daquilo- Aaahhh, se eu morrer vou voltar pra pegar no seu pé!
Ele tentou rir, mas aparentemente não estava numa situação muito melhor que a minha, porque logo estava quase desmaiando de novo.
–É bem interessante. -afirmou Erza, pensativa- Eu bem que podia desmaiar o Natsu com um soco, mas acho que socar a barriga da Lucy não é uma boa ideia... por algum motivo...
–Eeeehh?! Nem pense! -exclamei, mortificada, chegando até a dar uns pequenos passos para me afastar da ruiva antes que ela resolvesse mesmo me nocautear.
–Juvia está tão feliz! Se a rival no amor está igual ao Natsu-san então o bebê com certeza não é do meu Gray-sama! -falou a azulada, cercada de corações- É uma ótima chance! Vamos fazer um filho, Gray-sama!
–Eeehh?! De jeito nenhum! -ele até parou de rir depois dessa, encabulado.
Como se isso fosse o suficiente pra parar a maga da água, que logo se jogou dos braços do moreno.
–Mas Gray-sama, assim nossos filhos poderão brincar juntos quando crescerem! -balbuciou Juvia, manhosa, recebendo um empurrão do moreno para que saísse de seu colo.
Em compensação sua frase, por algum motivo, pareceu causar um choque em minha mente. Olhei para Natsu, que também parecia um tanto atordoado, e engoli em seco, meus pensamentos flutuando longe.
Ah... É verdade. Pensei, surpresa Ele vai crescer algum dia.
Se já era difícil me imaginar cuidando de um bebê, como seria quando ele crescesse? Seria uma criança normal ou um Natsu da vida? Quem sabe ficasse até parecido comigo, eu não sei, são tantas possibilidades, e essa criança ainda nem nasceu.
–Parem com isso vocês dois! -repreendeu Erza, que encarava fixamente o requerimento da missão que tinha nas mãos- Ainda nem discutimos os detalhes da missão, desse jeito a gente vai acabar sem saber o que fazer quando chegar.
–O que tem pra discutir? É só bater nos caras e pronto! -replicou Natsu, entediado.
–Não é? -concordou Gray com impaciência.
Ambos acabaram levando um murro na cabeça cada um em resposta da ruiva.
–Vocês nem lembram do que é a missão, idiotas! Não tem ninguém pra bater dessa vez! -bufou a Scarlet, cruzando os braços- É uma missão de escolta. Temos de ajudar um grupo de moradores a evacuarem uma vila pelas montanhas antes que as chuvas inundem o lugar.
–Que chato. -falaram os dois ao mesmo tempo, recebendo um olhar mortal em seguida.
–É melhor se comportarem dessa vez. Bom, pelo menos não tem muito coisa que vocês possam quebrar. -Erza sorriu de lado.
–Mas se é uma missão tão fácil assim... por que estamos indo todos juntos? -indagou Natsu, aproveitando que o trem acabara de parar para conseguir falar.
–É a evacuação de uma vila inteira. -pontuei, incerta- Os moradores temem ser atacados por assaltantes e saqueadores no meio do caminho, por isso chamaram uma escolta de magos: para proteção.
–Isso mesmo. Fora que o caminho é íngreme, estreito e cercado de mata virgem, seria quase impossível acompanhar a todos em pequeno número. -prosseguiu a ruiva- Escolhemos essa justamente por não ser muito perigosa.
–Eles não me deixam fazer nada muito arriscado mais. -murmurei, manhosa- Parece que estou cercada de babás.
–É para o seu bem. -começou Gray.
–Juvia não quer que nada de mau aconteça com a rival no amor, nem com o bebê. -confirmou Juvia, inflexível.
–Fora que você também não tem se sentido em sua plena forma nesses primeiros meses. -acrescentou Erza, fechando o complô contra a minha pessoa.
Eu sabia que eles se preocupavam, mas não queria ser um peso morto. A verdade é que nos últimos tempos nenhum deles deixava que eu me envolvesse em qualquer coisa que tivesse algum risco, o que me fazia sentir como se fosse de porcelana, e pudesse quebrar ao mínimo toque. Eu era posta de fora de eventuais lutas e conflitos nas missões, até quando era pra correr alguém se encarregava de me jogar nas costas como se fosse um saco de batatas, o que era certamente um exagero.
–Eu sei, eu sei. Mas bem que podiam me deixar ajudar às vezes. -balbuciei, mais para mim mesma do que para meus amigos.
Senti uma mão em meu ombro e olhei para trás, dando de cara com Natsu. Senti um arrepio involuntário percorrer minha espinha com seu toque, foi tão automático que me repreendi mentalmente logo depois.
O rosado me fitava com uma expressão um tanto preocupada.
–Luce... é só um pouco. Eles querem cuidar de você e... eu também. Não se preocupe, são só nove meses, né? -ele abriu um largo sorriso, que me acalmou quase que de imediato.
Inflei as bochechas, contrariada, mas assenti.
–Está bem. Só até o bebê nascer! -falei, causando um breve risada nele.
É claro que, mesmo depois que nosso filho nascesse, eu ainda teria de ficar um pouco mais a margem nos primeiros meses, em função de cuidar a amamentar o pequenino, entretanto queria que Natsu também não ficasse fazendo muitas missões depois que ele nascesse. Queria que ficasse comigo, ajudase-me a administrar tudo o que estava por vir.
Ainda que inconscientemente, eu o queria perto. E me martirizava por isso.
Ah, que ótimo! Eu não queria que ele disesse que gostava de mim porque eu estou grávida e agora fico querendo que ele fique comigo como mais que um amigo. Maravilhoso, Lucy, você é uma idiota!
Meus devaneios estúpidos foram brilhantemente interrompidos pelo trem, que partia mais uma vez. Grunhi em frustração, sentindo que ia colocar pra fora o resto do café da manhã logo logo. De uma coisa eu sabia: além de puxar a magia do pai, meu bebê com certeza ia ter fobia de transporte também. Perguntei-me se era assim que se sentia a mãe de Natsu quando estava grávida dele, e me vi sem resposta. Seria Natsu antagônico a transportes antes de encontrar com Igneel? Se sim, de onde vinha esse linhagem? Quem eram, afinal, os verdadeiros pais dos Dragon Slayers?
Essas sim eram perguntas que eu nunca poderia responder. O pior era saber que, até então, não conhecia nenhum Dragon Slayer que tivesse um filho pra ter certeza de como a linhagem se seguiria. Eu, até onde sabia, era a primeira a carregar um filho de tal tipo de mago. Por algum motivo, isso me deixou apreenssiva.
Perdida em pensamentos, mal percebi o tempo passar. Erza acabou se irritando com as reclamações de Natsu e o 'desmaiou', sendo agradecida por Gray que zombou do rosado por sua fraqueza novamente.
O moreno que tanto achava engraçado não riu quando percebeu que teria de carregar o desacordado para fora em uma de suas paradas para que trocássemos de trem. Agarrou Natsu pela camisa e o jogou sem delicadeza alguma por cima do ombro, proferindo alguns xingamentos bem diversificados.
–Juvia também quer ser carregada pelo Gray-sama! -choramingou a azulada quando chegamos a estação.
–Nem ferrando. -resmungou o moreno, carrancudo, já apressando-se em saltar do vagão.
Já eu dava graças aos céus por aquele treco ter parado, estava até meio tonta depois de passar tanto tempo enjoada.
–Quer ajuda? -perguntou Erza, estendendo-me a mão para levantar do banco.
–Estou bem , eu acho. Por favor, diga-me que só vamos pegar o próximo trem daqui a muito tempo! -pedi-lhe, quase suplicando.
Ela sorriu de leve.
–Pensei que seria maçante ficar muito tempo enfurnados em trens, então... só daqui a duas horas.
Soltei um suspiro de alívio, sabendo plenamente o quanto a ruiva vinha se esforçando pelo meu bem.
–Aliás, como conseguiu uma passagem para o Natsu assim, tão em cima da hora? -indaguei, acompanhando-a até a plataforma atrás de Gray, Juvia, Happy e um Natsu desmaiado.
–Tenho meus truques. -contou, com um sorriso sinistro.
É, acho que melhor nem querer saber. Pensei, um tanto assustada.
Paramos na plataforma onde esperaríamos pelo próximo transporte, que nos levaria direto para a vila Winterfall, seu destino final.
Gray jogou Natsu um cima de um banco com impaciência, o que acabou despertando automaticamente o rosado.
–Ai, quem foi o idiota maldito que me tacou aqui?! -berrou Natsu, estupefato, esfregando a cabeça onde atingida pelo impacto com a madeira.
–Fui eu! Algum problema com isso, seu peso morto?! -provocou o moreno, irritado.
–Quer brigar, cueca de gelo?! -devolveu o rosado, erguendo o punho já envolto em chamas.
–Vocês querem parar?! -gritou Erza sinistramente- Finjam que são normais pelo menos nessa missão, senão eu mesma quebro os dois!
O efeito foi imediato.
–H-HAI! -concordaram, suando frio.
–Acho que só a Erza pra parar esses dois tão rápido. -constatei.
–Aye. -concordou Happy, com uma gota na cabeça.
–Mas o que vamos fazer aqui pelas próximas duas horas? -interviu Gray, olhando ao redor procurando alguma coisa interessante na plataforma- Eu é que não vou ficar parado olhando pra cara desse idiota esse tempo todo.
–Vamos comer! -falamos eu e Natsu, praticamente juntos.
–É uma boa ideia, afinal já é quase hora do almoço. -Erza olhou no mapa da estação.
–Yoshaa! -comemorou o rosado, partindo em disparada para o restaurante mais próximo.
Depois de três horas de tortura acabei sem nada no estômago, e estava morrendo de fome, então não me surpreendia que Dragon Slayer também o estivesse.
No fim, nem pudemos escolher o restaurante uma vez que Natsu nem nos esperou pra começar a pedir. A boa coisa de estar grávida é não precisar maneirar na alimentação, bom, além de ter de escolher coisas nutritivas pra comer. Ficamos uma hora inteira almoçando, e devo dizer que depois de um infinito de tempo trancada num vagão de trem, a comida parecia ainda mais gostosa.
Tivemos alguns contratempos na parte de churrascaria, mas o homem das carnes não reclamou tanto de ter um adolescente comendo o fogo da churrasqueira, ou ao menos não tanto quanto se esperaria que reclamasse.
–Não quero nem pensar que daqui a uma hora estaremos embarcando de novo. -reclamei, contando o dinheiro para pagar minha parte da conta.
–Seja positiva, talvez tenha algum empório que venda remédios para enjôo aqui na estação. -idealizou Erza- Afinal acho que vocês não são as únicas pessoas no mundo que tem fobia a transportes.
–Bem pensado. Acho que vou procurar um lugar desses no tempo que a gente ainda tem. -decidi, levantando da mesa e apanhando minha bolsa.
–Eu vou junto! -declarou Natsu, limpando a boca de molho de churrasco e sorrindo.
Suspirei, mas deixei que me acompanhasse.
–Voltem a tempo pro embarque! -avisou Erza antes que saíssemos.
A coisa boa foi ter um mapa extra da estação da bolsa, que indicava as lojas, deixando a procura bem menos maçante. O único problema era que a farmácia era do outro lado da plataforma, bem longe do ponto de encontro.
O nome era Farmácia Gondenbeur, a que era mais perto e, aparentemente, mais em conta ali. A atendente era uma senhorinha bem educada, que se prontificou ajudar assim que entramos.
–Ora, ora, bem-vindos. O que seria pro jovem casal? -indagou inocentemente.
Corei de leve, afastando-me um pouco do rosado.
–Nós não somos um...
–Queremos alguma coisa pra enjôo de movimento. -interrompeu-me Natsu, sorrindo de lado.
–Ah, claro. -ela foi para trás do balcão, olhando para os fracos por trás dos óculos redondos- Temos combinados de ervas que provocam sonolência, ou alguns comprimidos que anulam enjôo, mas... tem algumas contraindicações que tenham que se preocupar?
–Minha companheira está grávida, então acho que sim. -comentou ele, fazendo-me ruborecer envergonhada- Tem alguma coisa que não prejuque ela, nem o bebê?
–Isso é mais difícil. Acho que seriam essas aqui. -ela colocou um frasco vermelho sobre vidro- Não são pra enjôo, mas dão sono e não intereferem muito no organismo. Se a viagem ainda é longa sugiro que levem estes, tomados dois destes ela vai dormir rápido e não vai sentir nada. Já pra você eu diria que esse é mais útil. -a senhora apanhou um xarope tranparente de uma das prateleiras- É só pra enjôo e dura por pelo menos cinco horas, efeito quase imediato e sem muitas contraindicações.
–Ótimo. Vamos levar os dois. -olhei para o relógio, preocupada com a hora- Temos que ir logo.
Pedi a atendente que empacotasse os dois, paguei, e arrastei Natsu para fora da farmácia.
–Ei, qual é a pressa? -questionou ele, confuso.
–Esqueci que o embarque tem que ser com vinte minutos de antecedência! -respondi, começando a correr- Precisamos arrumar lugar para as malas no compartimento de bagagem!
Nem tinha percebido o quão longe era uma ponta da plataforma da outra. Mesmo correndo, chegamos em cima da hora, quase todos os passageiros já tinham entrado, à excessão do nosso grupo.
–Estão atrasados! -ralhou Happy, praticamente verbalizando o que Erza diria.
–Subam logo, vocês dois! -mandou Gray, apanhando as malas e embarcando no vagão seguido dos outros.
O apito final soou bem que hora que alcançamos as escadas, jogando as malas para dentro sem nem se preocupar com seu conteúdo.
–A partida foi adiantada. -contou Erza, quando conseguimos finalmente entrar no vagão- Houve um problemas no horário dos maquinistas e fizeram uma troca de última hora. Não ouviram o anúncio?
–Não. Deve ter sido no momento em que estávamos dentro da farmácia. -expliquei, ofegante da corrida- Pelo menos conseguimos os remédios.
Remexi na sacola que tinha em mãos, percebendo que o trem já começara a se mover.
–Aqui, esse é o seu. -estendi o frasco de xarope para Natsu e peguei o meu, tomando os assentos indicados na passagem.
Acabou que, pelo atraso, não conseguimos lugar no compartimenti de bagagens para deixar nossas malas. A sorte foi ter um assento vago ao lado de Erza onde pudemos empilhá-las. Acabou que Gray e Juvia ficaram na primeira fileira, Erza e a bagagem na segunda, e eu e Natsu na terceira. Aproveitei para pegar o assento da janela, onde mais gostava para ver a paisagem.
Um pouco duvidosa, e já meio enjoada, tomei os dois comprimidos do frasquinho, pretendendo manter o almoço no estômago por aquele dia. Natsu, ao me ver aderir ao remédio, tomou uma medida do xarope, sorrindo em seguida.
–Tem gosto de morango! -afirmou aliviado, como se esperasse alguma coisa amarga.
–Que sorte, o meu nem gosto tem. -disse-lhe, os efeitos começando a me afetar- Isso é bem eficaz... Dá um sono...
Apoiei a cabeça no vidro da janela, irritada pelo balanço do trem que a fazia bater na mesma. Minha visão ia ficando escura, estava quase adormecendo realmente quando senti uma mão quente puxando-me pelo ombro para o lado oposto. Meu corpo caiu no banco espaçoso, esorri de leve ao conseguir me escorar sem estar encolhida. Minha cabeça caiu sobre um colo aconchegante e, antes de apagar, tive a impressão de ver o sorriso de Natsu sobre mim. A verdade era que, se o sono não fosse tanto, eu teria corado e recusado o embalo, porém nunca pensara que o colo dele fosse tão macio.
Cheguei a sentir quando uma de suas mãos acariciou meus cabelos com suavidade, porém logo caí na inconsciencia de vez, envolvida num sono bem pesado.
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