Ensinamentos de um Cafajeste
34 Rachel - Epílogo
Notas iniciais
Cinco anos depois
Eu não estava nada bem.
Terminei de encaixar meu pé em meu sapato de boneca e me levantei, dando de cara com uma ruiva no espelho. Seus olhos estavam vermelhos pelo choro e ainda úmidos, as sardas quase inexistentes haviam sido quase totalmente cobertas pela maquiagem, os lábios estavam vermelhos naturalmente por conta do frio que fazia lá fora, os cabelos cacheados como vinham sendo há algum tempo, não havia mais franja ou coisa do gênero. Nos últimos anos a mulher do espelho ganhara ainda mais corpo do que antes, agora o vestido preto simples parecia até mesmo provocativo apesar de ter mangas compridas e não haver decote algum, e mesmo se não fosse necessário aquela mulher vestiria aquele longo sobretudo preto, mas era necessário pois nevara na noite passada, quando ela... Eu recebi a fatídica notícia. Ametist Balzer havia sido vencida pelo câncer, mesmo superando as expectativas de todo o mundo, ela conseguiu sobreviver por mais cinco anos antes de ser enfim levada.
Inspirei fundo e dei um sorriso triste para meu reflexo. Eu mudara tanto nos últimos anos, céus! Quando conheci Ametist eu tinha dezessete anos, uma adolescente boba apaixonada por seu professor...
Estremeci e balancei a cabeça irritada comigo mesma, então enfiei minha touca preta sobre os cabelos, coloquei meu celular no bolso do sobretudo e saí de meu apartamento.
Preferi deixar meu carro na garagem, já que não via motivo para usá-lo apenas para andar duas quadras, portanto fui caminhando sem me importar com a neve chata que caía sobre mim. Ametist se fora... Era tão difícil aceitar aquilo, nós sempre dizemos que quando uma pessoa está com uma doença terminal é mais fácil para se preparar para sua partida, mas não é fácil, nunca é fácil, ainda mais com uma pessoa como Ametist.
Mesmo depois que eu e Aaron nos separamos, há quatro anos, ela continuou me adorando, me recebendo em sua casa e Nicole era grudada em mim, aparentemente até mesmo Kyle Balzer, o mais novo integrante da família – o caçula de George- gostava de mim já que a criança vivia de braços estendidos para mim e rindo quando me via.
Sorri tristonha de novo para o chão com a lembrança do pequeno Kyle das bochechas rosadas e olhos azuis como o pai. George e Ruth não pensavam duas vezes antes de deixar os pequenos passando os fins de semana, pelo o que eu sabia eles passavam mais tempo comigo do que com seu tio...
Aaron... Por onde será que ele andava? Digo, a ultima vez que o vim tem cerca de três anos? Talvez mais...
Meus pensamentos se tornam uma confusão quando avisto o cemitério e meu coração dói. Não fui no funeral, não mesmo, era dolorido demais para mim olhar para a mulher que me tratara como sua filha por tanto tempo e não a ver sorrindo ou falando mal da vida de seu filho mais novo e das mulheres vulgares que ele levara para ela conhecer nos últimos quatro anos. Doía saber que eu não rira mais com Ametist, nem que faríamos bolo, ou que eu não acordaria repentinamente na casa dos Balzer com chantilly no rosto porque era sempre ela que fazia essas brincadeiras comigo e com qualquer outro que dormisse enquanto ela estava acordada. Ametist era a alma e o coração daquela família, o que seriam todos sem ela? O que eu seria sem ela?
Quando minhas amigas se afastaram por conta de universidades diferentes e relacionamentos novos, ela me mandou fazer o máximo possível para tentar manter o contato com todos os que eram importantes para mim. Onde estaria minha motivação sem ela para me mandar correr atrás das coisas que eu queria com aquele sotaque quase imperceptível?
Senti as lágrimas vindo novamente enquanto adentrava o cemitério, indo até um grupo não muito grande de pessoas onde avistei Nicole, chateada e meio afastada dos outros.
– Oi Nike – murmurei beijando sua testa e ela abraçou minha cintura com força. Nicole estava quase do meu tamanho, e tinha um gênio bem difícil, era teimosa, mandona, difícil de lidar, acho que é por isso que nos dávamos tão bem, éramos bem parecidas.
– Agora parece que tudo é mais real tia Rach – ela choramingou e eu a apertei com mais força em meus braços.
– Eu sei querida, mas sua avó odiaria te ver chorando assim. Você é a menina forte dela, Nike, eu sei que dói, porque pode acreditar eu estou tão quebrada quanto você, mas Ametist nos daria um tapa na orelha se nos visse chorando.
Ela riu limpando o rosto.
– Daria mesmo, então ia apontar para a gente e mandar que parássemos de agir como duas fracotes porque ela não gosta de fracotes – disse ela rindo e eu ri junto.
– Realmente ela não gostava de fracotes... Onde estão seus pais?
Ela apontou para os dois, liderando o grupo junto com o Sr. Balzer e algumas mulheres mais velhas, que lembro ter visto vez ou outra na casa de Ametist, suas amigas se bem me lembro. Não vi o irmão Balzer mais novo e nem Kyle.
– E seu irmão, Nik? – perguntei puxando-a para o grupo.
– Ele não veio, meus pais não queriam que a gente viesse, mas eu sou bem teimosa e disse que viria de qualquer jeito, aí eles me trouxeram.
– Eu sei bem que você é teimosa – baguncei seus cabelos e ela sorriu, me abraçando de lado de novo quando nos unimos ao resto do grupo.
O senhor Balzer fez questão de que eu ficasse em frente ao grupo, com os familiares durante o enterro, e depois que ela foi enterrada a nevasca começou a piorar e as pessoas foram procurar abrigo, restando apenas a família e eu, a agregada.
– Ela vai fazer falta, quem é que vai me dizer agora que minhas namoradas são todas vadias? – uma voz rouca me pegou desprevenida e dei um pulo com o susto. Aaron veio ao meu lado e sorriu calmamente.
Ele mudara bastante desde a ultima vez que o vi, agora seus cabelos estavam maiores a ponto de enrolarem na nuca, no rosto havia uma barba espessa, mas seu sorriso branquíssimo continuava intacto e fazendo meu coração ter uma leve arritmia. Esqueci que Aaron Balzer provavelmente apareceria para o enterro da própria mãe, isso aí, me julgue.
– Ela te daria um tapa por deixar a barba crescer tanto, falaria que você está parecendo um sem teto – concordei e ele riu balançando a cabeça.
As vezes parecíamos completos estranhos, o mais longe possível um do outro, as vezes era como se nada tivesse mudado, as mesmas piadas funcionavam, os mesmos truques de quando namorávamos, mas as coisas tinham esfriado bastante entre nós, éramos agora mais conhecidos do que qualquer outra coisa.
– Oi Rachel – falou por fim, sem jeito e eu abaixei a cabeça, me sentindo de novo com dezessete anos e não com vinte e dois, minha real idade.
– Oi Balzer.
– Crianças! – gritou George e nós olhamos para ele a tempo para ver Ruth lhe dar um tapa e um olhar de repreensão, ri baixinho e George fez uma careta de dor – Para com isso Ruth! Sim, vocês são minhas crianças, e é vocês mesmos que eu estou convidando a ir embora, fugir dessa nevasca porque está piorando, daqui a pouco vamos ficar soterrados aqui.
– Estamos indo, George – disse Aaron e eu acenei com a cabeça, indo para a saída e ouvindo seus passos em meu encalço. George e sua família já estavam mais a frente, quase na saída do cemitério.
A saída se aproximava e eu já não sabia como me despedir de Aaron, era sempre estranho para nós, o que fazer? Um aperto de mão? Um abraço? Um “boa viagem e boa sorte”? Ele morava na Europa agora, eu não sabia quanto tempo pretendia ficar nem se o veria de novo, o que era certo fazer?
Argh, ex-namorados sempre me confundem, mas não sofri dessa mesma coisa com Tyler nem com Ryan, os dois que sucederam Aaron, porque meu término com eles foi mais dramático, teve aquela coisa de “não olhe mais na minha cara!” e coisas do gênero, não foi um quase contrato formal como foi com Aaron, onde prometemos tentar manter a boa convivência já que sua mãe quase entrou em depressão quando soube que tínhamos terminado.
– Hã... Tchau? – falei indecisa a ele, quando chegamos no portão do cemitério. Minha casa era para um lado, e a família dele o esperava na direção oposta. Eu havia sido convidada para o jantar, então não havia motivo para me despedir deles também.
– Na verdade eu ia perguntar se você topa me acompanhar num café, ou chocolate quente se preferir – ele sorriu de canto e eu repeti o gesto forçadamente.
– Claro, vamos lá – acenei com a cabeça na direção que eu seguiria de qualquer forma e Aaron acenou para os familiares, mostrando que iria comigo.
Ruth tentou disfarçar, mas deu para ver de longe o tamanho do sorriso que se formou em seu rosto. “Halzer” como ela preferia chamar, era seu shipp preferido, literalmente ela e Ametist apostavam sobre reações minhas e de Aaron quando criavam suas pequenas armadilhas para nos por juntos num lugar, sempre tentando que voltássemos. Amy com certeza gritaria algo do tipo “usem camisinha crianças!” se nos visse agora.
– E então... Como tem sido sua vida? – perguntei para puxar assunto enquanto encarávamos a nevasca para ir até a Cafeteria perto da minha casa.
– Ótima na verdade, estou em turnê na Europa com minha banda – esqueci de mencionar que ele havia virado cantor? Sim? Bem, ele virou atualmente morava em Liverpool -, Ed e Riley morrem de saudades suas.
Sorri nostálgica. Eu não os via há cerca de um ano, ambos trabalhavam com Aaron desde que ele ingressara sério na carreira musical, Ed virou seu agente e Riley becking vocal.
– Faz tempo que não os vejo, fiquei meio presa ao trabalho esse ano.
– Ainda trabalhando na biblioteca?
– Ah não, faz uns dois anos que consegui enfim um emprego como designer de interiores, a faculdade que eu cursei e tudo o mais – sorri orgulhosa.
– Minha mãe deve ter pirado – ele riu e eu assenti.
– Na verdade ela deu uma festa quando soube que eu tinha conseguido o emprego, foi uma festa quase tão grande quanto aquela que ela fez quando você apareceu pela primeira vez na TV.
Ele riu.
– Minha mãe te amava.
– Eu também a amo – dei de ombros tristonha.
Entramos no ambiente quentinho da cafeteria e eu tirei meu sobretudo e a touca, entregando ambos para um rapaz que trabalhava no pequeno guarda volumes do local, Aaron também entregou seu pesado casaco para o rapaz e fomos nos sentar, numa mesa mais reservada.
– Toda vez que ela me ligava ela falava de você – ele riu.
– Desculpe por isso – fiz careta -, deve ter sido um saco.
– Na verdade eu até que gostava de saber da sua vida – ele deu de ombros e eu ergui uma sobrancelha. Oi?
A garçonete se aproximou e nós pedimos.
– O sonho dela era que nós voltássemos – ele retomou o assunto quando a garçonete se afastou.
– Sei disso – garanti rindo -, ela reprovou todos os meus namorados que conheceu.
– Bem, você deve saber melhor do que eu o quanto ela aprovou cada uma das garotas que eu trouxe – falou sarcástico e eu gargalhei.
– Ela estaria ali fora nos assistindo e vibrando agora mesmo se ainda estivesse aqui.
– Ali fora? Ela ia sentar no meio de nós dois para ouvir cada palavra.
Gargalhamos e a garçonete retornou com nossos pedidos.
– Acho agora que ela tinha razão – ele falou casualmente enquanto bebericava seu café e eu meu chocolate quente.
– O que quer dizer?
– Acho que ela esteve certa o tempo todo sabe? – ele deu de ombros como se não importasse, mas ainda era fácil ler Aaron, eu poderia ver de longe que ele estava completamente atento a tudo naquele lugar, inclusive a mim – Talvez ela estivesse certa sobre nós dois, talvez déssemos certo se tentássemos de novo, dessa vez poderia dar certo já que somos, você sabe... Mais velhos e tal.
Afastei minha xícara da boca e sorri de canto.
– Talvez desse, mas nunca saberemos.
– Porque não? – ele franziu o cenho, decepcionado.
– Porque já magoamos muito um ao outro para voltarmos agora e tudo ir bem, Aaron.
– Então podemos esquecer tudo – ele sugeriu -, recomeçar.
– Se não deu certo antes, porque daria agora?
– Somos mais velhos Rachel, não somos mais tão ingênuos, sabemos como o mundo funciona agora.
– Eu não...
– Me escuta – falou sério e eu me calei -, só faça o que eu pedir ok? Feche seus olhos – ele fechou os próprios e eu também – permaneça assim até eu dizer para abrir. Um... Dois... Três... Abra.
Abri os olhos confusa. Onde ele queria chegar com aquilo?
Aaron estava com o maior sorriso do mundo no rosto e a mão estendida, em cumprimento.
– Oi, que tão esquecermos todo o passado e recomeçar agora? Sou a primeira pessoa que você viu, e aliás, meu nome é Aaron, prazer em conhecê-la.
Avaliei sua mão estendida, seu rosto contente.
Eu devia recomeçar aquilo? Dar mais uma chance ao “nós”? Quem me garantia que daria certo agora? Que não cometeríamos os mesmos erros? Ninguém. Ninguém podia me garantir absolutamente nada.
Sorri e apertei sua mão.
– Prazer, sou Rachel Heart, mas nada de trocadilhos, e antes que comece, eu não sou nada doce.
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