Ensinamentos de um Cafajeste
24 Aaron - Almoço
Notas iniciais
Nervoso era o mínimo para me descrever. Eu nunca, nun-ca, n-u-n-c-a havia levado uma garota para meus pais conhecerem, apenas George tinha conhecido uma ou outra garota que eu peguei ao longo dos anos, mas nunca os meus pais. A casa de minha família era como solo sagrado, só pisavam lá as mulheres que eram de fato importantes – como mamãe, Nicole e a esposa do meu irmão -, e algo me dizia que Rachel era importante.
Não sei realmente o porquê a convidei, sério, acho que foi pelo modo como ela falou comigo sobre o assunto “doença da minha mãe”, ou talvez porque eu soubesse que não seria nada fácil resistir a tudo depois daquele encontro com a minha mãe. Eu certamente cairia se não tivesse alguém para me apoiar, e a única pessoa que minha vinha à mente como muleta para me apoiar caso eu fraquejasse, era Rachel.
Ela é sua aluna, Aaron.
Sei disso, e também sei que já cansei de me importar com aquilo. Francamente? Cheguei a considerar a hipótese de me demitir dali, ou de pedir transferência para qualquer outra escola para não ter que me afastar dela toda vez que surge alguém.
De todo modo, naquele domingo eu já tinha me olhado do espelho um milhão de vezes, vendo se estava tudo certo. Parecia até que era a situação inversa, que eu conheceria seus pais e não o contrário, mas acho que o que me deixava mais nervoso não era apresentá-la aos meus pais, e sim saber que por umas horas eu poderia agir com ela como ajo com qualquer outra mulher que me atraía. A diferença é que nenhuma delas parecia ter me atraído por mais de uma semana.
Era nove horas quando saí de casa, encontrei no celular de Rachel – que ficara comigo desde o dia em que eu havia tomado-o na aula- o número de sua casa e liguei para lá, pouco me importando com quem atenderia. Por sorte foi era que o fez.
– Alô?
– Rachel? – indaguei para ter certeza.
– Quem é?
– Aaron.
– Como arranjou o número da minha casa Balzer? – ela perguntou irritada.
– Ainda estou com seu celular. Aliás, estou saindo de casa agora. Esteja pronta em dez minutos.
– Mas não é muito cedo para um almoço? – resmungou irritada.
– Meus pais não moram aqui, sweetheart.
– Quando chegar buzine- ela suspirou e desligou. Sorri um pouco, afinal ela ainda não tinha desistido da ideia, o que já era ótimo.
No caminho para a cada dela, vi que milagrosamente uma loja de brinquedos estava aberta, o que era ótimo já que eu – como sempre- havia esquecido o presente da minha sobrinha.
Comprei um panda vermelho de pelúcia não muito grande para Nicole e mandei embalarem no maior saco de presentes que tivesse na loja, então enfim fui até a casa de Rachel e ao chegar lá, nem precisei buzinar já que ela estava espiando pela janela e me viu estacionando, então gritou algo para alguém dentro da casa e saiu correndo até meu carro.
– Oi – cumprimentei quando ela se sentou no banco do carona.
– Olá, podemos ir?
– Ansiosa – falei e ela bufou enquanto eu acelerava.
. . .
– Vamos? – chamei-a enquanto saía do carro e vi a ruiva puxar o ar com força antes de sair e me acompanhar até a porta de casa.
Dei duas batidas e entrei, levando Rachel comigo pela mão.
Todos estavam na sala, meus pais, George, Ruth e Nick, e todos agora voltavam-se a mim e Rach. Eu havia avisado meus pais de que levaria uma amiga, o que levantou alguns questionamentos, mas eu me desfiz rapidamente de todas as perguntas, contudo eu sabia que agora as perguntas voltariam com o dobro de curiosidade.
– Tio A! – gritou Nicole correndo de onde estava, cercada por bonecas e correu até minhas pernas.
Soltei da mão de Rachel para pegar minha sobrinha no colo, que me abraçou pelo pescoço assim que seus braços alcançaram-me.
– Hey! – beijei seu rosto e ela deu um sorriso enorme. Então me virei ao resto do pessoal – Hm, gente essa é Rachel minha... — Aluna? Peguete? O que diabos éramos afinal?- Amiga.
Todos se aproximaram dela, e a cumprimentavam se apresentando enquanto eu tentava tirar as mãos de Nicole do meu cabelo e ao mesmo tempo bagunçar os cabelos dela que se contorcia em meus braços, me fazendo rir.
– Cadê meu presente? – ela perguntou por fim, apertando os olhinhos.
– Vish seu presente... – fiz cara de assustado e ela fez bico imediatamente – Estou brincando, eu não esqueci, tá no carro.
– Oba! Eu quero.
– Depois, o que acha?
– Não – choramingou e eu a coloquei no chão.
– Depois você pega o presente meu amor – disse Ruth puxando-a pela mão e me cumprimentou-, agora vamos almoçar.
– Mas eu quero agora! – disse a menina fazendo birra e se afastando com a mãe, então fui cumprimentar meu irmão e papai, que estavam mais próximos.
Minha mãe estava em sua cadeira de rodas, segurando uma mão de Rachel e dizendo algo baixinho a ela. Cheguei até as duas e a conversa imediatamente cessou. Hm, suspeito.
– Oi mãe – eu me inclinei para beijar seu rosto e ela se esticou um pouquinho.
Ela visivelmente não estava bem, parecia mais magra e pálida do que da ultima vez ainda, e até mesmo mais fraca, mas seus olhos tinham um brilho diferente agora.
– Oi, que bom que não se esqueceu dessa vez- disse a mulher semicerrando os olhos para mim e eu bufei e passei os braços ao redor dos ombros de Rachel, que não se afastou.
– Vamos almoçar querida? – perguntou meu pai, paciente e mamãe deu de ombros.
Ele empurrou a cadeira de rodas dela para a cozinha e eu colei meus lábios ao ouvido de Rachel assim que eles nos deram as costas.
– O que minha mãe te disse?
– Nada demais, pequeno Ron – disse ela dando um sorriso brincalhão e eu ergui uma sobrancelha, enquanto puxava-a para a sala.
Pequeno Ron era um dos meus apelidos de criança, geralmente as pessoas me chamavam apenas de Ron, mas mamãe sempre me chamou de Pequeno Ron, essa era meio que a versão exclusiva dela para esse apelido broxante.
A mesa fora posta com mais um lugar, ao lado do qual eu sempre me sentava, então puxei minha acompanhante para sentar-se ao meu lado, e entre ela e Ruth, sentou-se Nicole que falava incessantemente sobre algo que não compreendi.
O almoço se iniciou bem, sem conversas constrangedoras ou coisas do gênero, mas isso só durou até:
– Então Rachel – disse mamãe certo momento e eu ergui os olhos alerta -, como foi que você e Aaron começaram a namorar?
Olhei interessado para Rachel, que parecia ter dificuldade de engolir agora.
– Não estamos namorando mãe – falei tentando aliviar o lado de Rach.
– Porque está enrolando a menina Ron? Não te criei pra isso! – ralhou ela e eu meneei a cabeça.
– Não estou enrolando ninguém mãe.
– Ele está falando a verdade, senhora Balzer, nós não estamos namorando...
– E porque não? – disse meu pai confuso.
– Porque... – comecei a falar mar me calei. Eu sinceramente não sabia responder.
– Porque você sabe como o Aaron é, se você falar “compromisso” ele foge – disse Rachel divertida, fazendo os outros rirem.
– Eu gostei de você garota! – disse mamãe e eu suspirei aliviado. Afinal, porque eu estava tão nervoso com aquele encontro? Era óbvio que elas se dariam bem.
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