Ensina-me a respirar
11 Capitulo 10 Aprendendo a respirar
Logo após me ajudar a voltar para a cadeira, Flora e eu continuamos nosso passeio pelo jardim durante algum tempo até que percebemos que começara a escurecer. Voltamos para casa e mais uma vez ela me ajudou com a rampa que dava ao segundo andar.
— Obrigado pela tarde linda, Sr. Agui... — ela pausou rindo e colocando seus cabelos para trás de sua orelha — Quer dizer, Daniel, obrigada pela tarde linda! — Completou.
— Eu que devo agradecer Flora, realmente eu precisava um pouco de tudo isso. — Disse acariciando o seu braço.
— Imagina, Daniel, você não faz ideia do quanto eu estou feliz. — Retrucou ela — Agora eu preciso mesmo mandar algumas coisas para Patrícia, então, se me der licença, vou ao escritório terminar aqueles relatórios.
Flora se abaixou até mim e passou a mão pelos meus cabelos de forma lenta e carinhosa, logo em seguida me deu um beijo e seguiu seu caminho me deixando sozinho.
Realmente eu estava nervoso, ela havia me dominado por completo e eu simplesmente não conseguia parar de pensar nos seus lábios junto aos meus. Queria ficar mais com ela, porém temi assustá-la, então resolvi que esperaria até que ela me procurasse novamente.
Fui até o meu quarto, passei da cadeira para a cama, não demorou muito para ouvir batidas leves na porta e ver o rosto de Júlia a espreita pela porta a me procurar.
— Daniel? – chamou me olhando rindo de canto de boca. — Posso entrar?
— Não! – respondi de forma seca. Sabia que Júlia iria me encher de perguntas e provavelmente jogar algo na minha cara como um “ Eu já sabia” .
— Para de ser pastel, eu só quero falar com você! — Disse entrando e fechando a porta devagar.
Júlia foi se aproximando e sentou na cama onde eu estava sentado com meu notebook, se inclinou para ver o que eu estava fazendo, mas eu rapidamente fechei a tampa do note.
— Não acredito que ainda está escrevendo aquela porcaria de livro? — perguntou de deboche.
— O que você quer, Júlia? — Perguntei me irritando com o comentário dela.
Fazia mais ou menos uns quatro anos que eu estava a escrever um livro sobre negócios e empreendimentos financeiros, porém Júlia sempre me dizia que não tinha talento nenhum para escrever e que estava um bosta.
— Sabe, Dan, eu realmente gosto muito de você, quero a sua felicidade acima de tudo e de alguma forma você sabe disso. Desde pequenos, nós dois percebemos que só temos um ao outro nesse mundo, mas hoje eu vejo que as coisas mudaram. — Ela sorriu e me abraçou sob a cama — Você agora tem a Flora para cuidar de você e isso me deixa um pouco feliz sabe!
—Júlia, por que está me falando essas coisas? — Perguntei enrolando meu dedo em seus cabelos.
— Não sei, acho que no fundo por mais que esteja feliz por você, estou com um pouco de ciúmes também! — Disse soltando um sorriso sem graça. — Mas ainda sim, estou muito feliz mesmo!
— Você sabe o que significa para mim e eu não vou te acompanhar nessa conversa melada, afinal, não pretendo ter diabetes! — Falei meio encabulado sem saber o que dizer.
Realmente Júlia era muito especial, julgo que a única coisa que nos separa de um relacionamento é sua sexualidade, eu realmente gostava dela, mas também devo dizer que não como um homem deve amar uma mulher e sim como irmã.
— Estou muito feliz, mas preocupado também. — resolvi falar enquanto Júlia me olhava nos olhos — Admito ter grandes sentimentos por Flora e tenho muito medo de acontecer com ela o mesmo que com Melissa. Sei que não devo comparar as duas, mas não consigo deixar de pensar que isso pode acontecer!
— Daniel, não é novidade para ninguém que Flora te ama, ela mesma deve saber muito bem disso e acredito que você não pode comparar as duas. Melissa era uma cadela e eu sempre te disse isso. — Ela bateu com a ponta dos dedos na minha testa. — Se você perder a Flora acho que poderá se considerar o homem mais idiota do mundo!
— Não sei o que fazer, Júlia! — Falei olhando para o teto — Eu admito que sou meio grosso às vezes e que tenho manias que poderá ser um problema dentro de um relacionamento.
— Daniel, seja apenas você mesmo, afinal de contas ela se apaixonou por você do jeito que você é, então não há porque querer mudar agora. Essa mudança com certeza virá com o tempo e se não mudar, paciência! — Completou rindo.
Júlia e eu ficamos conversando bastante tempo naquele dia, devo admitir que fazia muito tempo que não ficávamos juntos dessa forma para conversar sem preocupação de tempo ou cansaço.
Ela me ajudou a tomar um banho e a vestir minhas roupas. Logo em seguida descemos e encontramos Flora na mesa comendo um pedaço de pão com chocolate quente na cozinha.
Ficamos naquela mesmice durante aproximadamente por três meses. Geralmente à tarde, Flora e eu ficávamos no jardim enquanto ela cuidava de algumas plantas.
Aos poucos, ela foi me ensinando a arte do Bonsai e, por mais que eu fosse detalhista nunca conseguia uma simetria exata naquelas malditas plantas. Eu realmente não gostava de fazer aquilo, mas ela ficava feliz mesmo quando eu reclamava ou saía xingando.
Júlia, depois de alguns dias, voltou para o Rio de Janeiro por conta do seu trabalho, mas na verdade eu percebi que ela queria me deixar mais a vontade com Flora.
Era uma manhã de domingo e tínhamos acabado de voltar da fisitorapia, eu já conseguia andar sem a ajuda da cadeira mas precisava ainda de apoio das muletas, o que me deixava cada vez mais impaciente com a minha recuperação.
Flora estava no quarto junto a mim arrumando algumas coisas para sairmos.
— Olha, eu só queria saber para onde nós vamos hoje, acho que não custa ao menos me dizer o lugar, não acha? — Perguntei acendendo um cigarro.
— Dan, precisa se acalmar, sabia? — Disse rindo — Olha só, eu prometo que não irá se arrepender, tudo bem?
— Tudo bem, Flora, porém quero que me prometa uma coisa! — Disse olhando-a arrumar algumas toalhas.
— Diga, se eu puder ajudar ficarei muito feliz. — Ela olhava dentro dos armários ficando na ponta dos pés.
— Será que hoje você poderia dormir aqui comigo? — Perguntei relutante.
Flora me olhou com um sorriso como o de quem acabara de entender exatamente o que eu queria. Me analisou por um momento, retirou o cigarro de minha mão e me deu um beijo caloroso.
— Vamos fazer assim, são dez da manhã — falou vendo seu relógio de pulso — se você conseguir ficar até as vinte e duas horas sem fumar um único cigarro eu durmo com você hoje, o que acha?
— Qual o problema com o cigarro, Flora? — Perguntei revirando os olhos — Eu gosto e não pretendo parar, sabia? — Firmei a voz. — Você sempre me perturba com esse assunto!
— Dan, cigarro faz muito mal à saúde e só quero cuidar melhor de você! — Ela novamente passava a mão na minha face de forma lenta e sensível — Além disso não me agrada saber que você é um viciado em nicotina!
— Eu viciado? — Perguntei me exaltando — Não confunda as coisas, eu fumo somente porque gosto e não por vício! — Respondi com firmeza — Pois bem, para provar isso ficarei o dia inteiro sem fumar!
— Esse é o Daniel que eu conheço, — ela ria de mim – tenho certeza que vai conseguir, Dan, e eu vou te ajudar!
Logo depois de Flora ajeitar todas as coisas e colocá-las no carro, entramos e ela dirigiu até o Mirante Angra.
Era um lugar bem aberto com muito verde, dava vista para o oceano. Podíamos ver várias crianças correndo com pipas junto de seus pais, pessoas caminhando, conversando despreocupadamente e idosos se alongando em alguns aparelhos de ginásticas.
O lugar era realmente muito bonito e alegre, Flora saiu do carro e pôs as coisas em um carrinho de duas rodas, logo em seguida abriu a porta para mim e me ajudou a sair também. Andamos um pouco até que ela finalmente parou debaixo de uma árvore grande, perto de umas barreiras de pedra de onde se dava para ver a praia abaixo.
— Pronto, aqui está perfeito, — disse ela enquanto ajeitava a toalha – vou forrar o chão e ai você pode sentar e esperar eu arrumar o restante das coisas, tudo bem?
— Tudo bem! – Disse me sentando afinal minha perna ainda doía quando a forçava um pouco.
Fiquei olhando Flora arrumar as coisas e percebi que tirava algumas frutas, bolos e sucos de uma cesta artesanal. Olhei em volta mais uma vez e vi que alguns casais faziam o mesmo que nós.
Desatento, enfiei a mão em meu bolso, puxei meu porta cigarros e meu isqueiro Zippo, Flora me deu uma olhada e eu lembrei da promessa.
— Pode fumar se quiser, Dan, — disse ela calmamente — sei que é difícil parar com algo assim do nada, não estou aqui para lhe torturar!
Olhei para ela e por um momento senti em sua voz um tom de desafio, odiava aceitar que era controlado por algo mesmo que fosse o cigarro, então o atirei por cima do muro de pedras que dava para a praia e a encarei com um sorriso.
— Só tirei do bolso porque ia jogar fora — falei esperando que ela acreditasse.
Ela riu e balançou a cabeça, selou seus lábios nos meus e continuou arrumando a cesta.
— Por um momento achei que fosse fumar, mas estava errada, então me desculpe! Só que, Daniel, da próxima vez não jogue seu lixo no chão e muito menos lá embaixo na praia, por favor!
Olhei para um menino que passava na mesma hora que Flora passava.
— Eu garoto, vem aqui! — Chamei fazendo gesto com a mão.
— Sim, senhor, o que foi? — Perguntou o menino com uma cara de dúvida.
— Quer ganhar cem reais? — abri a carteira e puxei a nota. — Tudo que tem a fazer é pegar o pacote de cigarros que eu joguei lá embaixo e depositar naquela lixeira!
— Claro! — disse o menino feliz pegando o dinheiro.
— Problema resolvido!
Flora olhava todo aquele esquema com o garoto com um sorriso aberto. Assim que o menino saiu, ela me deu um leve tapa no ombro e balançou a cabeça.
— Você não tem jeito mesmo, Daniel! — Disse ainda rindo.
— Problema resolvido, agora posso tomar meu café senhorita Linda?
A tarde correu bem, comemos e conversamos bastante sobre tudo e sempre que eu falava algo sobre a empresa, ela me silenciava educadamente.
Conforme o tempo foi passando, minha ânsia por nicotina aumentava e isso estava me deixando mais irritado do que de costume. Em alguns momentos briguei com Flora por coisas pequenas como, por exemplo, o simples jeito que ela colocava meu suco e sempre perguntava sobre a procedência de tudo o que comíamos.
Pensar que aqueles alimentos não estavam higienizados de forma correta fez com que eu deixasse de comer muita coisa que ela tinha trazido, mas em nenhum momento ela reclamou.
— Dan, você poderia se deitar um pouco? — Perguntou Flora sem mais nem menos.
— Posso sim, mas qual é o intuído disso? — Questionei o pedido.
— Nada, meu bem, só quero te mostrar uma coisa.
No começo relutei, mas depois vi que não faria mal algum fazer o que ela estava me pedindo, então me pus a deitar com a cabeça em seu colo.
Flora começou a me fazer carinho nos cabelos e na face deixando-me relaxado. Sem perceber fechei meus olhos e senti meus músculos relaxando cada vez mais.
— Sabe, Dan, a vida pode ser realmente linda, tudo está de certa forma conectado, inclusive nós dois. Sinta o vento que corre, a brisa do oceano com barulho das ondas se quebrando e seus salpicos que, mesmo estando bem afastados da praia, ainda podemos sentí-los em nossos rostos. Todos os cantos desses pássaros, as vozes das crianças se divertindo, tudo isso, Dan, é a vida acontecendo e temos que aproveitá-la ao máximo.
Nunca sabemos quanto tempo temos para passar ao lado de quem realmente amamos. E é muito triste porque quando vemos já é tarde de mais, Dan! — Senti seu corpo se inclinar até seus lábios tocarem minha testa – Você também pode ser feliz, se aprender a respirar!
— Se eu não respirasse, já teria morrido! — Respondi.
Flora por um momento deu uma risadinha e passou os dedos por trás de minha orelha esquerda.
— Não sabia que conseguia fazer piadas!
Achei estranho porque não fiz piada alguma, mas resolvi não questionar para não estragar o carinho que recebia.
Respirei fundo e pensei em todas as coisas que aconteceram comigo nos últimos tempos.
A morte de meu pai e suas duras palavras dizendo que não seria capaz de manter a empresa sólida, a traição de Melissa e o fato de ter sido tão burro ao ponto de não perceber seu caráter, Júlia que estava sempre ao meu lado independente do meu jeito ou humor. Comecei a pensar também em Flora e tudo que acontecera desde que a conheci.
Tínhamos passado por muita coisa e pela primeira vez percebi o quão grosso eu fui com ela desde sua chegada, lembrei do jarro de flores que joguei no lixo sem cerimônias e de quando ela cuidou de mim, mesmo eu a mandando embora aos berros.
Todos esses momentos passaram vagarosamente por minha cabeça e, apesar de tudo, hoje eu me sentia realmente feliz.
— Dan, está quase escurecendo, que tal irmos embora? — Perguntou me tirando do transe em que eu me encontrava.
— Mas já? — Perguntei surpreso.
— Você adormeceu, seu bobo, e já se passaram duas horas desde então! — Disse ela rindo.
— Impossível, Flora, estávamos conversando agora! — Questionei olhando no relógio e percebendo que o tempo tinha voado de forma espantosa.
— Parabéns, você ficou a tarde inteira sem fumar, acha que pode aguentar até as vinte duas?
Levantei-me de seu colo esticando todo o corpo de forma preguiçosa, olhei em volta e vi que muitas pessoas já não estavam mais ali, sorri balançando positivamente a cabeça e a beijei.
—Vai ser fácil, afinal eu sou Daniel Aguilar!
— Muito bem, Sr. Aguilar, vou lhe ajudar a se levantar para irmos embora. – falou levantando e sorrindo.
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