Ensina-me a Viver
7 Mapa
Notas iniciais

My love, leave yourself behind
Beat inside me
Leave you blind
My love you have found peace
You were so searching
For release
***
Thea Queen adentrou no hospital correndo, com lágrimas correndo livremente por seu belo rosto. Sentia uma pressão em seu peito, como se a qualquer instante o mesmo pudesse encerrar suas batidas frenéticas. O desespero percorria cada parte de seu corpo, suas mãos estavam trêmulas e ela sentia que se parasse de correr, iria cair de joelhos no chão.
Ele vai ficar bem. Ele vai ficar bem. Ele vai ficar bem. Repetia, como se fosse seu mantra, sua tábua de salvação, mas ainda assim, aquele desespero frio e cruel ainda a assombrava, espreitava-se ao seu redor. Tentou respirar, mas falhou. Foi até a recepção e disse, com a voz trêmula:
— Eu sou parente de Oliver Queen — a atendente a encarou, piscou e abriu seu computador sem que outra precisasse dizer qualquer outra coisa. — Como ele está?
— O senhor Queen está em cirurgia — a mulher ruiva murmurou a encarando, os belos olhos castanhos piedosos. Thea encarou, esperando por mais informações e a ruiva suspirou: — Sinto muito, mas tenho apenas essas informações por enquanto — parou: — Um médico virá falar com a senhorita a qualquer instante — prometeu.
A morena respirou fundo, tentando manter a compostura e apoiou a mão sobre seu peito, que subia e descia freneticamente. Assentiu e afastou-se, cambaleando. Precisava sentar. Sentou no banco e permitiu-se chorar, deixou que aquele desespero engendrasse em seu corpo, apoiou as mãos no joelho e quis gritar. Ele era sua única família, era a única pessoa que ainda lhe restava, se o perdesse... Não sabia o que faria.
Instantes depois uma bela morena adentrou correndo pelo hospital e perguntou por Felicity Smoak, Thea conhecia aquele nome, sabia que aquela era a jovem com quem Oliver dançara na festa de confraternização da Queen's Industries na noite passada, ficou atenta a resposta.
— A senhorita Smoak está estável, ela teve apenas algumas escoriações e uma costela quebrada, ficará bem... Se quiser, pode visitá-la — a ruiva sorriu docemente para a bela morena que assentiu sorrindo. Thea apoiou seu corpo na parede gélida do hospital e orou para que seu irmão ficasse bem.
Por favor, por favor. Pediu, para um Deus no qual sequer acreditava. Ele precisa ficar bem. Ele precisa ficar bem. Por favor. Soluçou, sentindo aquela sensação fria arrastar-se por seu peito, tomando conta, pouco a pouco, de cada parte de sua alma. Era demais para suportar sozinha, tudo aquilo era simplesmente demais. Quando seus pais faleceram, ela acreditou que não conseguiria superar, mas estava enganada. As cicatrizes, claramente, ainda estavam lá, ardendo em seu peito, como um lembrete do que a morte pode fazer com sua alma; mas perder Oliver seria demais, aquelas feridas ela tinha quase certeza de não iriam se curar, independentemente do tempo.
Lembrou-se do que sua mãe sempre dissera: Nossas vidas, minha cara, são feitas das dores que carregamos em nossos corações, elas nos ensinam a ser mais fortes, mais sensatos, nos ensinam que podemos ser remendados e curados. Não são uma fragilidade, são o lembrete de que por mais difíceis que as coisas sejam, nós podemos encontrar a felicidade nos pequenos momentos. Mas só o amor realmente pode curar as feridas que a vida nos deixa, pode parecer piegas, mas é a verdade minha princesa... Apenas o amor pode nos curar.
Thea havia visto aquilo em primeira mão, havia percebido o quão correta sua mãe estava em sua afirmação. Depois da morte de seus pais, Oliver afogou-se em um mar de sofrimento, um sofrimento oculto, que ele não se permitia compartilhar com ninguém, mas que todos sabiam estar lá, o consumindo. Quando conheceu Sara, contudo, tudo mudou. Ele parecia ter ganho toda aquela vida de volta, ela jamais o vira tão feliz quanto naquela época, ele havia sido curado. Contudo, a morte voltou a assombrar a vida deles, arrancando de Oliver Queen aquilo que lhe era mais precioso, a razão de sua cura. Após a morte de Sara, as feridas reabriram-se, mais profundas, sangravam, doíam e ela não sabia se um dia, alguém seria capaz de as curar...
...
Felicity encarou suas próprias mãos suspirando. Sua palma direita estava envolta em esparadrapo, e ainda sangrava um pouco. Podia sentir os cortes em seu rosto e seu pescoço e sabia que aquilo iria demorar para cicatrizar. Flashs rápidos do acidente passaram por sua mente e estremeceu, tentando tirar aquelas imagens de sua cabeça.
Os gritos. Eram deles que mais se lembrava. Lembrou dos estilhaços cortando-lhe a pele, recordou, com perfeição, do sangue escorrendo por seu rosto, manchando seu vestido. Sentiu-se ofegante, seu coração acelerado enquanto várias imagens díspares formavam-se sua mente. Respirou fundo, tentando controlar suas emoções e então lembrou-se dos olhos de Oliver. No meio de todo aquele caos, do desespero que percorria cada veia de seu corpo, lembrou-se de olhar para aqueles olhos e sentir-se absurda e estranhamente segura, como se nada demais estivesse ocorrendo.
— Lissy! — Ouviu um grito emocionado e sorriu ao ver sua melhor amiga correndo em sua direção. Caitlin a abraçou com uma força desnecessária e disse: — Você quase me matou do coração, amiga! — Sentiu seu rosto molhar e percebeu que sua melhor amiga chorava: — Nunca mais faça isso comigo! —Pediu, seus belos olhos castanhos pareciam conter uma dor real. Pensou em como se sentiria se ela se machucasse e balançou a cabeça, expulsando o pensamento desagradável — Eu fiquei tão preocupada!
— Eu estou bem Cai — murmurou, tentando acalmá-la. — Foi só um susto — voltou a garantir. — Você sabe alguma coisa sobre o Oliver? — Perguntou, preocupada. — E sobre os outros?
— Não — a morena suspirou. — Eu conheço um médico que trabalha aqui, irei sondar e ver o que consigo descobrir, qual o nome das outras pessoas envolvidas?
— Laurel e o noivo dela, Tommy Merlyn — Caitlin arregalou os olhos ao lembrar de quando encontrou-o na festa e depois, no elevador. Engoliu em seco e disse:
— Ah! Barry não pôde vir pois ficou preso em Starling City — comentou. — Estou indo atrás de meu amigo — levantou-se e mandou uma mensagem para Jay Garrick.
...
Tommy abriu os olhos e não conseguiu enxergar. Sua cabeça latejava, podia sentir um gosto amargo em sua boca e tentou focalizar a vista. Talvez seja a anestesia. Pensou.
— Boa noite, senhor Merlyn — ouviu uma voz e novamente não conseguia ver nada, ao seu redor, apenas uma escuridão assustadora, confusa. — Meu nome é Jason Garrick, você pode me chamar de Jay — a voz era máscula, forte. — Como se sente?
— Minha cabeça dói — murmurou, fungando. — Não consigo ver, isso é efeito da anestesia? — Questionou, confuso.
Ouviu um suspiro e de repente, temeu a resposta.
— O senhor se lembra do que aconteceu?
— Um acidente de carro — lembrou-se de Laurel e sentiu seu coração acelerar ainda mais. Precisava vê-la, saber que ela estava bem. — Não lembro de mais nada — foi sincero.
— Que dia é hoje?
— 10 de Janeiro, você pode responder a minha pergunta por favor? — Pediu, irritado. Ainda não conseguia ver nada e aquilo estava começando a assustá-lo.
— Senhor Merlyn — ele murmurou. — O senhor bateu a cabeça com muita força, lesionando uma região do cérebro que é responsável por receber informações visuais — ele parou. Tommy franziu o cenho, sem entender o que aquilo significava.
— O que você está tentando me dizer? — Perguntou, sentindo algo crescer em sua consciência. Era medo.
— Estou querendo dizer que você está cego senhor Merlyn — as palavras foram como um açoite.
Tommy piscou, sem entender. Sua cabeça latejava perto da nuca, tateou, as cegas, e sentiu uma sutura um pouco acima de seu pescoço, na região de trás de seu crânio. Tateou e tentou entender como fora lesionado naquela região.
— Seu corpo foi arremessado para o lado, quando bateu a cabeça a força do impacto causou uma lesão severa — explicou o médico, quase como se lesse os pensamentos dele. — Você teve sorte de não ter lesionado a medula — foi sincero.
Sorte? Quis rir. Estava cego, merda! Seu mundo, outrora tão colorido e repleto de vida agora era negro, como a noite. Não podia ver nada, absolutamente nada. Seu mundo agora resumia-se a uma noite eterna... Sem fim.
Como iria viver? Como iria continuar sem nunca mais poder enxergar Laurel? A amava tanto... Tanto. De repente, temeu. Ninguém havia o dito nada sobre o estado de sua noiva. Ninguém o dissera como ela estava. Precisava desesperadamente senti-la, tocá-la e assegurar-se de que ela estava bem, viva.
— Laurel Lance, você tem notícias dela? E de Oliver Queen? — Perguntou ao lembrar que Oliver estava no carro com ele.
— Os dois estão em cirurgia, assim que souber algo sobre ela te aviso — prometeu.
...
Caitlin encontrou Jay na lanchonete do hospital. Ele usava um jaleco branco e estava bem mais bonito do que ela se lembrava. Ele a lançou um sorriso cansado e sentou-se.
— Boa noite, Caitlin — murmurou.
— Boa noite Jay — ela respondeu. — Eu preciso de notícias sobre um paciente.
— Caitlin... É contra as regras, eu posso perder minha licença — a lançou um olhar reprovador que não pareceu ter a intimidado pois ela disse:
— Por favor... Minha amiga é uma amiga dele e precisa saber como ele está, eu nunca te pedi nada — era verdade. Suspirou e deu-se por vencido.
— Qual é o nome do paciente?
— Oliver Queen, Tommy Merlyn e uma tal de Laurel — ela disse.
— Já tenho notícias sobre um deles — murmurou, abaixando o olhar. — Eu operei Thomas Merlyn — murmurou. Havia algo de estranho no olhar dele. Caitlin esperou, ansiosamente. — Você é bióloga então irá entender — brincou, parecendo desconfortável, com o guardanapo. — Ele sofreu uma lesão na área primária visual do cérebro que é irreversível, o carro capotou com uma grande força e a batida causou um dano extenso. Ele está permanentemente cego. Sobre Laurel Lance só o que sei é que o estado dela é grave, assim como o de Oliver Queen.
Caitlin sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Pobre Tommy! Pensou. Sequer o conhecia, mas sentiu-se péssima por ele. Sabia que seria difícil passar por aquilo. Estar acostumado a ver e então não ter mais as cores ao seu redor devia ser no mínimo assustador.
A morena assentiu e respirou fundo, tentando absorver aquelas informações. Oliver e Laurel estão em estado grave. Não sabia como iria dar essa notícia a Felicity.
— Muito obrigada, Jay! Se tiver notícias sobre os dois me avise por favor! Você pode me informar assim que souber alguma coisa sobre os dois, por favor? — Pediu, delicadamente.
— Claro!
— Muito obrigada! — Ela sorriu e foi andando em direção ao quarto da melhor amiga.
...
— Oi! — Felicity disse ao ver a melhor amiga entrando em seu quarto.
— Oi — sentou-se. — Eu falei com meu amigo.
— E ai?
— Lissy — murmurou, cuidadosamente. — Oliver está em estado grave — observou a amiga atentamente.
Felicity processou as palavras, sentindo o efeito delas. Okay, isso não é bom. Mas podia ser pior. Era incrível, nem conhecia Oliver mas já tinha uma enorme consideração por ele. Talvez por que você esteja apaixonada. Sua consciência murmurou sarcástica. Revirou os olhos para si mesma e mordeu o lábio inferior.
Rezou mentalmente para que ele ficasse bem. Oliver tinha tanto a viver, tanto para aprender. Não conseguia imaginar a vida dele sendo ceifada daquela forma, arrancada tão prematuramente do mundo. Ele tinha apenas vinte e nove anos, não podia morrer ainda, não quando ele não havia tido a chance de ser verdadeiramente feliz. Seria injusto! Pensou, cruzando os braços.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de alguém batendo na porta do quarto. Caitlin e Felicity se entreolharam e a morena levantou-se e abriu a porta. Do outro lado, um homem de cerca de cinquenta anos estava parado, os olhos castanhos eram severos e intensos, seus cabelos estavam raspados e ele aparentava estar cansado.
— Boa noite, eu sou o Detetive Lucas Stilles, você é Felicity Smoak?
— Sim, o senhor deseja alguma coisa? — Questionou, educadamente.
— Sim, posso entrar?
— Claro — Caitlin e ela disseram em uníssono.
Ele adentrou e ficou parado diante delas com um sorriso forçado no rosto.
— Eu não fui muito bem recebido pelo senhor Merlyn, ele está passando por um momento difícil e achei melhor tentar falar com a senhorita — a loira assentiu, concordando. — A senhorita se lembra de alguma coisa?
— Eu lembro de sentir um solavanco no carro e notar que o mesmo estava rápido demais, depois disso Laurel disse que o freio não estava funcionando e puxou o freio de mão — murmurou, falando de tudo que se lembrava.
Novamente, os flashs a assombraram e ela respirou fundo.
— Por que o senhor está investigando isso? — Caitlin perguntou voltando-se para o homem com uma clara expressão de confusão.
— A perícia fez uma análise no carro da senhorita Lance — murmurou, os olhos sérios não mostravam nada. — E eles descobriram que o freio foi adulterado, alguém cortou a mangueira.
Felicity arregalou os olhos ao ouvir tais palavras. Quem faria algo assim? Imediatamente, um nome surgiu em sua mente.
— Vocês já investigaram Slade Wilson?
— Sim — ele respondeu prontamente. — O senhor Wilson encontra-se preso em uma cadeia de segurança máxima, está inacessível, sem celulares ou qualquer coisa parecida, mas ele é um homem inteligente, não podemos o tirar da lista de suspeitos — respondeu, parecendo frustrado: — Eu só tenho certeza de uma coisa, Felicity... Alguém está fazendo um grande esforço para destruir Oliver Queen.
...
Thea estava encolhida. Sentia frio. Balançava seu corpo para frente e para trás em um movimento frenético, suas mãos tremiam sobre seus joelhos enquanto ela lutava para não chorar. Sua garganta estava seca, seus olhos estavam vermelhos e inchados, mas ela não se importava.
As horas pareciam se arrastar, cada minuto demorando milênios para passar. Podia ouvir as pessoas conversando, podia sentir o odor do álcool, mas seu cérebro recusava-se a sair de seu mantra infinito. Agarrou-se ao pingente que ele a dera e respirou fundo.
— Thea Queen? — Ouviu uma voz masculina questionar. Levantou-se e cruzou os braços, tentando expulsar o frio que congelava sua alma. — Sou Ewan Thompson, eu realizei a cirurgia em seu irmão.
— Como ele está? — Seus lábios estavam secos, seu coração parecia incontrolável.
— A pressão intracraniana dele está elevada — ele murmurou, cuidadosamente. — Nós conseguimos conter o sangramento porém ele... — o médico respirou fundo: — O senhor Queen está em coma.
...
Jay adentrou no quarto de Tommy e respirou fundo.
— Senhor Merlyn, sou eu, seu médico — disse, sentindo-se péssimo pelo outro, que ainda olhava em um ponto fixo. Seus olhos azuis possuíam uma miríade de sentimentos que ele não sabia identificar.
— Você tem notícias sobre Laurel? — Tommy perguntou, sem paciência para rodeios.
Apenas queria saber como ela estava, no momento, apenas aquilo realmente o importava.
O médico ficou em silêncio por alguns instantes. Por tempo demais.
— A senhorita Lance sofreu lesões graves — ele murmurou, sentindo um nó formar-se em sua garganta. — O quadro dela é de alto risco — respondeu, sincero.
— Eu quero... Quero ir até lá — sentiu como se tivesse tomado um soco no estômago ao perceber que não poderia vê-la. O médico assentiu e aproximou-se dele, ajudando-o a levantar e o guiando até a CTI. Ao entrar no quarto, pôde sentir com perfeição o odor do perfume dela. Tateou o ambiente e sentou, com dificuldade, na cama. Procurou pela mão dela, encontrando-a e segurando com força. As lágrimas caíram de seu rosto livres, suas mãos tremiam e ele sentiu todo o mundo colidir ao seu redor.
Os soluços escaparam por seus lábios, ele tremia e sentia que podia perder a cabeça a qualquer instante. Subitamente, tudo o que vivera com ela, cada momento, cada resquício de memória o invadiu a mente e ele sentiu-se tonto. Procurou pelo rosto dela e o afagou, sentindo os cortes no rosto dela. Redecorou cada traço, cada parte daquele rosto que tanto amava. Podia não vê-la, mas conhecia cada centímetro daquele corpo, cada perfeição e imperfeição.
As lágrimas quentes corriam por seu rosto, enquanto sua mão tateava o pescoço dele, seus lábios beijando-lhe a derme quente, sentiu o gosto salgado de seu próprio choro enquanto seus dedos tocavam cada parte que ele podia alcançar. Seus braços, sua cintura. Seus cabelos macios que cheiravam a morango, desceu suas mãos pala clavícula, sentindo a textura de sua pele macia, o seu cheiro de rosas. Em sua mente, fez, em detalhes, um quadro, aquele que seria seu mapa de Laurel Lance.
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