Ensaio sobre a morte

1 ENSAIO SOBRE A MORTE


SERIAL KILLER: Ouço vozes. O caos vem trajando moças, elas vêm desamparadas buscando meu apoio, eu não as procuro, são elas, elas batem na minha porta as três horas da manhã, só me resta pintar os quadros com o sangue delas. No interrogatório me perguntaram qual foi a arma do crime, experientes usam facas, apressados: armas, os que não têm nada a perder, usam as mãos. Adivinha onde me enquadro? Pode até dizer a todos que estão aqui, não passo de um pedaço de papel imaculado com sangue, as vozes me disseram que eu sou uma condição fatal para esse mundo, respondi com tanta indecência: “Na verdade não, estar vivo já é uma condição fatal”. Vocês chamam de normais quem continua nas suas regras, não mudou muito a santa inquisição daquele tempo para cá, agora basta por uma coroa elétrica em mim, prender minhas mãos, e deixar o resto do show para plateia, qual o prazer de uma mãe ao ver o assassino de sua filha sendo executado? Ela chora, não ri como vocês, chora como se fosse a última alternativa, e o que vocês fazem?

(Riso histérico)

SERIAL KILLER: Senhora constituição norte americana, não é possível se vingar do mal sem se tornar ele. Sofro de hipergrafia, querem saber todos os meus gostos profanos? Querem ler as minhas perversidades? Leiam as minhas paredes, elas têm olhos, arregalados, te engolem e consomem, o meu sistema límbico me forçou a escrever, disse que me mataria por um gole de uísque. Podem rir, é só ladainha.

( Bufou, retomou o ar)

SERIAL KILLER: Esses lustres combinaram com as almas presentes aqui... Tristes, desoladas, almas quebradas... Vivem em um frigorífico, seus corpos todos cristalizados, um baque da vida e adivinha onde estão os pedaços do seu coração? Defecarei eles na minha execução, sadomasoquistas de merda.

(Encarou a Juíza)

SERIAL KILLER: Tenho certeza que estão intrigados com o meu vício, anotem ai oficiais da lei, todos os vinte e três dedos anelares estão dentro da geladeira em um pote de manteiga, devem estar pensando: “Nossa! Um assassino em série sem cuidado com seus artefatos!”, pensem melhor, um dedo a mais ou um dedo menos são apenas contas em um boleto, conforme mais pescoços se encontram com as minhas mãos, vou comprando novas manteigas, lubrifico a cavidade de veludo entre as pernas das cinderelas desbocadas e depois lavo o pote, e limpo para novas utilizações.

(Apontou para a bandeira dos Estados Unidos)

SERIAL KILLER: Sabe para que serve essa bandeira? Limpar a bunda dos patriotas, nada mais... Acenderia um grande charuto para Deus se pudesse. Sabe porque até as mulheres se apaixonam pelas outras? Seus discursos são cátaros, quando eu ouvia elas falarem, meus hormônios explodiam, por isso estou aqui, e não me arrependo, obrigado por perguntarem. Por hoje chega, deixo minhas últimas palavras a burocracia que é antes de morrer, temos que pagar o berço, e comprar o túmulo, eu pelo menos não pagarei nada.

JUÍZA: Klaqueciano de Sade, você é culpado pela morte de Teresa Faulkner, Keyla Paolor, Ju...

SERIAL KILLER: Blá, blá, blá.

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