Enrolados Pelas Mentiras
2 Nascida Para Morrer
Notas iniciais
No outrodia ao anoitecer como o combinado Otto e Helga levavam sua Lô ao encontro dos homens do rei. Esta poderia ser a última caminhada do casal ao lado de sua única filha, seu maior tesouro, seu bem mais precioso, e eles, logo eles que deveriam a proteger com a vida, estavam dando sua vida para proteger... Bens materiais!
Helga e Otto caminhavam lado a lado a menina, Helga agarrada ao braço de sua garota, enquanto Otto beijava sua outra mão. Durante o longo caminho na tortuosa estradinha de terra, o sol já havia se posto há pouco tempo, e eles sabiam que não podiam demorar, pois eles estavam andando entre o Bosque Das Sombras, e provavelmente ao anoitecer não passa de um lugar inóspito para pessoas de bem, mas sim um excelente abrigo para as temíveis criaturas da noite.
A escuridão, e o ar frio que batia na barra do humilde vestido de Lola a fazia ter calafrios na espinha, mas como coragem era sua maior virtude, pelo menos aparentemente, ela tinha que manter a compostura e se mostrar destemida á seu terrível destino. Devido a corrente de ar gelado, cada folículo de penugem loira em seu braço tão branco que quase chegava a ser transparente, se eriçava de frio.
Logo mais a diante já era possível visualizar o clarão dos lampiões da carruagem real onde o rei Leonidas e seus homens a aguardavam.
— Uau, só falta o tapete vermelho para minha chegada! É uma recebida um tanto quanto, calorosa, não acham? — diz Lola em tom de sarcasmo
— Lô! Não vejo a menor graça nisso, moçinha! — Helga murmura entre lágrimas.
Neste instante o rei Leonidas, escoltado de seus guardas obviamente se aproxima do trio
— Não pude deixar de ouvir seu gracejo minha querida, quando eu tiver em mãos o ouro produzido por você, com certeza até deitarei para que caminhe por cima de meu corpo velho. — Diz Leonidas com um tom de maldade
— Provavelmente o único caminho que eu terei, será o das pessoas passando por cima da minha cova... — Lola é interrompida com um cutucão de sua mãe
— O Que disse minha jovem? — Rei Leonidas pergunta curioso
— Eu disse que você ta com o pé na cova... Digo é uma honra ouvir isso vindo do senhor
— Assim imaginei minha flor campestre — Leonidas o Galanteador diz
— Bom é isso ai, vamos lá transformar feno em ouro — Lola diz sorridente
— Não seria palha?
— Tanto faz, o importante é virar ouro, se você quiser transformo até estru....
— Lola! Olhe seus modos — Otto a interrompe
— Acredito que não viemos para realizar um monólogo e sim levar a jovem donzela até seu destino dourado, se me permitem dizer — Leonidas o engraçado diz, fazendo com que seus guardas dêem altas gargalhadas, mas logo interrompidas por um olhar feroz diferido a eles pelo rei
Sem mais demandas, Lola se despede de seus pais entre muitas lagrimas e secreções nasais, o que foram um tanto quando inapropriadas para o momento, segundo seu ponto de vida. A jovem entra acompanhada de seu futuro sogro, (isto é, caso, ela tenha adquirido milagrosamente naquele momento o dom de transformar palha em ouro, o que era pouco provável) na carruagem real, rumo à só Deus sabe onde.
—Então minha adorável jovem, você está ciente que se este seu extraordinário dom for uma fraude seu destino será comida de larvas, correto?
—Sim, vossa majestade.
—Muito bem, e a senhorita também esta a par que se isto for verdade uma vida de riquezas, e ótimas realizações matrimoniais junto ao meu filho o príncipe Lars está a, como posso dizer? Algumas palhas de distancia?
—Correto!
— Excelente! Eu tenho fé em você, não acho que seria algo de seu caráter enganar um pobre rei, que já está em idade avançada, e sem contar todo um reino em declínio da miséria, pela falta de ouro, que seria a salvação de nossas lavouras. Seu rosto é tão angelical, tenho plena confiança que você e sua família não são camponeses mentirosos.
— Ah com toda certeza, somos muito verdadeiros, em cada palavra.
O Resto do trajeto foi silencioso e até desconfortável para Lola, que a esta altura já sentia o desespero batendo a sua porta, principalmente com o rei dizendo que acreditava nela, como ele podia acreditar em uma camponesa que ele mal conhecia e com hábitos de higiene europeus um tanto quanto duvidosos? Talvez fosse alguma tática deste velho esperto, para tirar a verdade dela, e por fim revelando sua farça. Mas como ela já estava em meio caminho andado talvez fosse um pouco tarde demais para revelar que ela não sabia transformar palha nenhuma em ouro, talvez quando o rei visse por si mesmo que a palha não havia mudado ele teria outra opinião sobre o caráter daquela moça. Só de pensar cada pelo em sua nuca se eriçava de ansiedade.
Apesar de praticamente ser um caminho para a morte, Lola devia admitir que a paisagem era agradável, o novo reino em que ela já estava adentrando era muito diferente do vilarejo sujo e miserável em que ela viveu seus primeiros dezoito anos de vida,ao contrario da imundice de suas terras, este novo reino,chamado de Heaven’s Land era realmente o paraíso, de uma forma estética pelo menos,como já era amanhecer, ela podia observar todas as arvores, com frutos deliciosos e brilhantes,folhas verdes e deslumbrantes, as colinas esculturais, e até as casas,desde as mais simplórias,aos castelos,todos tinham uma sofisticação, um requinte e um ar hospitaleiro, que a fazia sentir uma pequena tristeza por não poder usufruir de nada disso.
Por uma fração de segundos Lola fechou os olhos,apenas para desviar o olhar daquele homem com barba e cabelos longos brancos que a encarava o trajeto todo, com uma coroa reluzente e cravejada de pedras preciosas na cabeça, apenas um segundo para descansar e... Chegaram a seu destino final, O Palácio Real Da Nobre Família Vertiginoso, que pelos semblantes de seu Rei Leonidas e pelo sobrenome Mama Mia deviam ser um bando de italianos.
—Dolores! Acorde, vamos! Isto aqui não é hospedaria e você não veio a férias.
—Já chegamos alteza?
—Isto é um castelo? Então sim, vamos desça e me acompanhe, por gentileza.
Lola foi conduzida pelo rei, e por seus fiéis guardas rumo a seu ‘’aposento’’. Lola caminhava deslumbrada pelo castelo, admirando cada pintura, cada entalhe de madeira nas paredes, cada cortina de cetim, e seus enormes candelabros e lustres maravilhosos, até chegarem a uma escadaria escura, com a ajuda de tochas, chegaram a parte subterrânea do castelo, o cheiro de bolor e mofo era eminente e cinza com certeza era a única cor daquele lugar. O rei parou em frente a uma grande porta de madeira, revestida com aço, com entalhos de provavelmente algum símbolo do brasão real e disse:
—Minha estimada donzela, chegamos a seu... Quarto, se assim podemos chamá-lo, espero que você cumpra com sua promessa e —abrindo a porta o rei mostrou uma grande roda de madeira, semelhante a algum maquina de costura ou algo do gênero, e a seu lado havia uma enorme pilha de palha— como a senhorita pode notar, providenciamos todo o material necessário para tornar nosso reino afortunado novamente, e ah, já ia me esquecendo, você tem apenas três dias para transformar toda essa palha em ouro, então... Divirta-se— Leonidas disse empurrando Lola para dentro do calabouço.
Lola podia ouvir o barulho da chave trancando a enorme porta de madeira e os passos de Leonidas e seus homens se distanciando de seu aposento.
— Três dias! Sério, três míseros dias, para transformar esse monte de palha em ouro? Ótimo, espero que eu tenha a chance de me matar neste tempo. — Lola bufou
O quarto era pequeno e abafado, tinha uma pequena cama de madeira, com lençóis vermelhos e simplórios, para um castelo onde tudo deveria ser de algodão egípcio ou de seda, não havia nenhuma janela, apenas uma espécie de lamparina para iluminar o cubículo, a enorme roda de madeira, que estava depositada sobre um lindo tapete vinho, com detalhes dourados, grande coincidência ou mais uma das piadas sem graça do rei? E sim, um monte de palha, amarela, mas nem de longe lembrava o brilho de fios de ouro.
O que Lola não imaginava, é que em meio a escuridão algo maligno a espreitava, a observava e quase podia se alimentar de seu desespero e suplicio,algo traiçoeiro mas muito astuto, que apenas espera uma brecha, uma pequena oportunidade para lhe mostrar do que ele era capaz.
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