Ela deu mais uma tragada no cigarro e soltou a fumaça com uma calma que me surpreendeu. Ela estava vazia.

—Não acho que seja tão ruim assim. –disse e a observei em silêncio.

—Porque você ainda sente. –ela me lançou um sorriso de canto, meio sem graça.

Balancei a cabeça tentando compreender suas palavras.

—Eu gostaria de não sentir. –disse e traguei meu cigarro já no fim. –Nesse momento sinto meu peito aberto, como se o tivessem perfurado e jogado álcool para doer ainda mais. Não é uma das minhas melhores metáforas, mas dê um desconto, estou um pouco tonta. -disse após largar a fumaça.

—Você não quer isso. –ela riu e disse.

Calei-me para não alongar a discussão, mesmo desejando fazer tal coisa.

Os passos cada vez mais lentos em direção à casa de Alice foram acompanhados por um desconforto, causado pelo último assunto não resolvido. Notando tal coisa a bibliotecária ofereceu um novo assunto.

—O namoro terminou por quê? –perguntou olhando para mim.

—Eu... –joguei o restante do cigarro fora. –Não achei que valia a pena continuar.

—Por quê?

—Sabe quando está em um relacionamento e sente que ele não tem futuro, que não vai evoluir, e que talvez seja sua culpa?

—Não...

—Nem eu. Mas ele sabia. Foi o que ele disse. -sorri sem jeito, olhei para o chão.

-Sinto muito. –Alice disse e jogou o toco de cigarro fora.

—Obrigada. –balancei a cabeça. –Mas estou bem. Não é como se tivesse perdido o “amor da minha vida”. Sempre soube que não era ele.

—Como assim? –perguntou Alice curiosa sobre minha constatação incomum.

—Bem, sabe quando um casal idoso, aqueles que estão juntos há mais de quarenta anos, contam como se conheceram e sempre é algo romântico e meigo? Eu conheci o Fernando, meu ex-namorado, em um bar de estrada depois de beber umas há mais, na verdade eu estava seminua. –ri. –Como iria contar isso para nossos filhos?

—Você pensou em ter filhos com ele? –perguntou achando graça.

—Não, eu só... Dei um exemplo. –respondi em negação.

—Ah, entendi. –concordou Alice ainda sem compreender a ingenuidade corrompida.

—Eu não sou tão jovem. –disse em defesa ao olhar que ela me lançou. Um olhar que dizia “Você é tão nova, ainda tem tanto para viver”.

—Eu não disse isso. –ela rebateu.

—Mas quis dizer. Eu posso ser jovem para você, mas sou intensa no que sinto. Jogo-me e sempre quebro a cara. –disse em desabafo.

—Eu compreendo. –ela disse em solidariedade a essa bêbada que vos fala.

—Você é casada. –afirmei.

A aliança em seu dedo era brilhante. Mas apenas naquele momento eu a avistei, estava atenta aos seus dedos. Sua mão branca e visivelmente macia, unhas curtas, um esmalte claro. Perdi-me e ignorei o anel que transmitia um aviso: já encontrei o amor.

—Sim. –ela disse e ficou em silêncio.

—Você o ama? –perguntei. A bebida tem um poder enorme sobre mim, minha curiosidade fica exposta, falo sem pensar.

Ela riu e não respondeu.

Dobramos a esquina da casa dela, apenas uma luz ao longe era avistada. Os postes estavam todos apagados.

—Me desculpe, por essas besteiras que falei. Álcool e eu não nos damos bem juntos. –disse eu tentando amenizar a conversa.

—Tudo bem.

Caminhamos no escuro, até que chegamos em frente a casa de Alice. A luz da varanda não iluminava quase nada a rua, mas era o bastante para que eu pudesse ver seu rosto. Seus olhos, uma mistura de azul com cinza, seus lábios, que pensei serem tão saborosos quanto belos.

—Hora da despedida. –disse olhando para ela, tentando não revelar meu nervosismo e meu encanto.

—Obrigada pela companhia. –ela disse ao colocar a mão sobre o portão.

—Disponha. –disse eu sorrindo e comecei minha caminhada para casa.

—Ei, Mariana. –ela chamou-me e eu parei de andar. –Eu já o amei. –terminou a frase e caminhou para sua casa, sem aguardar uma resposta minha.

Permaneci parada, com um sorriso nos lábios, e coração acelerado. Mas que merda estava acontecendo comigo? Preciso parar de beber.

Notas finais
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