Notas iniciais
Saga decide enfim começar uma vida dupla, porém encontra vários obstáculos para isso. +++++ PS: leiam as notas finais

#Saga’s POV#

Ok, eu sabia que tinha que levar alguns quitutes para a festa de sexta... Mas como fazer isso sem que o Grande Mestre suspeitasse?

–Preciso pensar... E pensar muito!

Sentei em minha cama, abracei um travesseiro e fiquei ali, imóvel com a ponta do polegar esquerdo na boca. Quando dei por mim, Kanon estava em pé na porta, segurando duas cervejas e se acabando de rir:

–Qual o motivo da graça, irmãozinho?

–Essa sua cara de goiaba aí! – disse, me lançando uma das latinhas de cerveja – Não vai me falar qualé o plá?

–Qualé o plá nada... Qualé o grilo, isso sim! – respondi, enquanto abria a latinha – Bicho, eu tô ferrado...

–Então... Desembucha! Quem sabe eu não possa te ajudar...

Kanon sentou-se em minha cama e estendeu sua latinha propondo um brinde, coisa de irmão mais novo. Bati minha latinha na dele e dei um gole curto, afinal ainda havia muito Whisky percorrendo meu corpo, e fiquei em silêncio:

–E então? Não vai me contar qual o grilo, chapa? – insistiu meu irmão, curioso igual uma criança. – Juro que não vou ser teu alcaguete!

–Hm... Sei não... Você é mais fofoqueiro que um colunista de revista feminina... Mas te darei esse voto de confiança... E, caso você o traia, juro que te prendo no Cabo Sunion com uma armadura de bifes suculentos para atrair tubarões.

–Credo, Saga! Depois dessa prometo em nome de todo o panteão olimpiano não falar nada... Mas com quem você aprendeu a ameaçar assim?

–Calma que vou te contar tudo desde o começo... Aí você entenderá.

Detalhadamente, contei a Kanon tudo que aconteceu, desde a missão dada pelo Grande Mestre até a hora que Fedra me deixou nas colinas. Também contei da mentirinha contada ao patriarca e da festa de sexta... O resultado? Mais uma gargalhada estridente:

–HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA... – parou, respirou, deu seu último gole na cerveja e voltou a si – Bicho... tá em um filme, irmãozinho! E olha que sempre foi o certinho, bonitinho, queridinho... Em resumo: o Quadradão do Santuário. HAHAHAHAHA... Bom, mas eu tenho a solução para você levar os petiscos para a festa...

–Ah é? Qual solução?

–Carlo!

–Mas... O Carlo?

Carlo era um informante do Santuário que tinha uma cantina nos limites de Athenas com a Terra Santa. Há alguns anos ele terminou o treinamento de cavaleiro, porém não obteve êxito na batalha por uma armadura de bronze. Como era muito astuto, fora escolhido pelo Grande Mestre para ser uma espécie de vigia externo. Qualquer movimento estranho era imediatamente comunicado a um mensageiro, que mais que depressa o informava ao Mestre:

–Certo, Kanon... Mas como irei pedir a um informante do Grande Mestre que me ajude em uma missão?

–Se tem uma coisa que aquele italiano goiaba gosta mais que servir o Santuário é faturar! Com bons 100 euros você o compra.

–Quantas vezes você já comprou o Carlo, irmãozinho?

–Ah, Saga... Digamos que eu sou um mestre nessa arte... Hehehe...

–Muito bem... Então amanhã de manhã iremos ver o Carlo.

–Cê nem se tocou que tem outro problema.

–Qual?

–Teu xaveco disse que te queria de smoking na festa... E que eu saiba você não tem nenhum smoking...

–MERDA!

–Relaxa irmãozinho, relaxa! Nessa parte eu realmente tenho a solução em meu quarto...

–E desde quando você tem um smoking?

–Você acha que só Aiolos e Shura têm uma vida dupla nesse Santuário? Oras... Vivo botando banca em baile de máscaras do pessoal da alta.

–Ah Kanon... E você acha bonito essa vida de chinfra?

–E você, aprendiz de mestre cuca em um restaurante de Athenas... Quem é o chinfra aqui?

–Tá certo! Estamos no mesmo barco... Mas e aí, vai me emprestar o smoking?

–Emprestar? Hm...

–Vai Kanon! Quebra essa para mim...

–Como você é meu irmão... Eu te alugo só por 20 euros.

–ALUGAR? BICHO! ASSIM QUE DIZ SER MEU IRMÃO DE FÉ?

–Sim, sou teu irmão de fé e camarada... Mas tenho que conseguir dinheiro de alguma forma.

–Falando em dinheiro... Como você conseguiu comprar um smoking?

–Digamos que foi uma troca de favores com o Carlo... Eu tenho presença e ele dinheiro. Eu o ajudo de vez em quando na cantina, em troca das gorjetas... Aí um dia apareceu uma gringa ricassa e me deu uma gorjeta mais que gorda. Então o Carlo percebeu que poderia me usar como divulgador.

–Explique isso direito... No momento só entendo que você é um michê.

–Cala boca! Ele me comprou um smoking pra eu dar uma de bacana e arrumou convites de festas de gente importante. Um exemplo... Sábado passado estive em uma festa na mansão da família Solo, tradicionalíssima no comercio marítimo. Nessas festas costumam ter mesas de jogos, aonde os convidados apostam dinheiro... Carlo me dá algumas notas e aposto...

–E desde quando você é bom jogador?

–Não sou bom jogador, mas graças a minha agilidade e astúcia de cavaleiro, consigo perceber a ordem que as cartas foram embaralhadas e assim, consegui me tornar um mestre em 21. Ah... E, há alguns dias, andei praticando minha “poker face” para me aprimorar no jogo...

–E aonde entra divulgação da cantina? Até agora só ouvi que você, além de michê, é viciado é jogos de azar.

–Quer calar a boca, Quadradão? A minha aparência chama atenção, ainda mais quando venço seguidamente nas mesas de jogo. As dondocas ficam gamadas na sua duplicata aqui. Quando vamos meter um blá, sempre rola a pergunta: “E então, o que você faz?” Então respondo que sou sócio de uma cantina italiana em Athenas... Dias depois, mulheres belas e ricas fazem fila para entrar na “Il Palazzo” (O Palácio).

–E o que você faz quando elas te veem trabalhando como garçom?

–Simples: se me chamam de Kanon eu digo com um leve sotaque italiano: “perdoem-me, ragazzas, mas io não sou Kanon, io sou Saga, o irmão mais velho de Kanon”.

–Ah seu filho da mãe!

Levantei, com a intenção de estrangulá-lo, mas fui bloqueado:

–Se me agredir, sem smoking! E aí, 20 euros ou nada...?

–ARGH! Tá bem! Tá bem! Você ganhou! Mas o quero lavado, entendeu?

–Pagamento adiantado!

–Grrrr – bufei – Só não te mando visitar o Barqueiro do Inferno porque você é meu irmão e preciso do seu smoking.

Abri a gaveta do meu criado mudo e retirei seu fundo falso, tirando dali o dinheiro solicitado pelo faturador do meu irmão e o dei em suas mãos. Ele lançou a nota contra a luz de uma tocha para ver se era verdadeira, sendo atingido por uma sandália arremessada por mim em seguida:

–Ai ai, ow! – resmungou, com a mão na parte atingida – Só fiz isso para te irritar, boboca! Vou pedir pra uma das servas da casa lavar o smoking e amanhã de manhã iremos ao Carlo para que você negocie com ele.

–Poxa, valeu mesmo, irmãozinho!

–E você aí, achando que não poderia contar comigo...

Kanon saiu do quarto balançando a lata de cerveja vazia, mas rapidamente colocou a cabeça de volta na porta e perguntou com um sorriso maroto:
Mano! Tem como você descolar uma entradinha pro seu irmãozinho nesse bordejo não?
Nem respondi, apenas joguei minha outra sandália, que atingiu em cheio o rosto do meu irmão, que imediatamente começou a me amaldiçoar e saiu logo do meu campo de vista. Assim pude me deitar, relaxar e também tentar processar tudo o que tinha acontecido naquela tarde.

#Fedra’s POV#


Já me aproximava de casa, quando me lembrei da possível baderna que ela estaria. Tinha certeza de que aqueles quatro haviam destruído-a inteira. Por um instante passou por minha cabeça que, se fossemos somente Saga e eu talvez a baderna fosse maior e, automaticamente, senti um arrepio percorrendo meu corpo e minhas bochechas ficando vermelhas. Imediatamente ouvi um latido de reprovação de Anúbis.

Entrei com o carro na garagem. Passei pela área da piscina, que estava uma zona, obviamente. Desci do carro e gritei da porta de acesso da sala:

– ACABOU A FESTA, BANDO DE BICHOS GRILOS! FIQUEM DECENTES!

Com a ajuda de Anúbis, que pegava as latinhas espalhadas pelo jardim e empilhava em um canto, comecei a organizar a bagunça. Quando já estava mais ou menos na metade do trabalho, ouvi a voz animada de Aiolos se aproximando:
–E ai tetéia? Quer ajuda na arrumação?
Ô Aiá! Adoraria, mas não tá cansado de trabalhar não? – Disse tranquilamente, e vi o garoto de cabelos dourados ruborizar, levando-me a engatar uma longa risada – Se for ajudar vem logo! Coloca em um saco de lixo essas latinhas que o Anúbis tá juntando!

–Positivo, Fedrinha! Pode deixar que eu ainda tenho muito fôlego!

Juntos, conseguimos organizar tudo rapidamente. Terminei de lavar os copos e, enquanto Aiolos levava o lixo pra fora, decidi olhar os demais cômodos para avaliar o estrago, mas aparentemente nada tinha sido quebrado daquela vez – pelo menos no andar de baixo. Quando comecei a subir as escadas, gritei:
–OLHA AÍ SEUS NATURISTAS! NÃO TÔ A FIM DE VER NINGUÉM PELADO NÃO, HEIN!
–SÓ O QUADRADÃO NE FEDRINHA? HAHAHAHAHAHAHA – gritou Shura, de dentro de um dos quartos, logo surgindo na porta. Agradeci aos deuses por ele estar vestindo, ao menos, a bermuda.
–PRA MERDA CARA!

–Fica quieto, Shu! Deixa a pobre da Fedra! – disse Agnes, empurrando o mesmo do quarto e rindo.
Aiolos aparece no pé da escada e chama Shura desesperado, não tinha percebido o tanto que à hora tinha passado:
BICHOOO! VAMO EMBORA DAQUI, QUE SE A GENTE NÃO CHEGAR EM CASA O MESTRE VAI TIRAR O NOSSO COURO!
Shura arregalou os olhos, deu um beijo em Agnes e saiu correndo com a camisa na mão, sendo seguido por Aiolos. A velocidade com a qual corriam era anormal. Apesar do pouco nível etílico em meu sangue, achei ser coisa da cachaça mesmo. Passei pelo quarto das meninas, dei um alô e segui até a minha suíte, na qual bati a porta e fui jogando as roupas pelo caminho até o banheiro. Chegando lá, liguei a torneira da banheira, joguei alguns sais e entrei lá dentro. Fiquei pensando em tudo que tinha acontecido naquele dia.

Como alguém em menos de 24 horas virou a minha cabeça? – suspirei, afundando-me mais na água – Fedra, Fedra, o que tá acontecendo contigo?
Passei mais ou menos meia hora no banho, liguei para meu pai, que estava na Itália, e capotei na cama. Amanhã seria um dia cheio.

#Saga's POV#

No dia seguinte, acordei cedo e fiz toda a minha rotina matinal: escovei os dentes, tomei um banho rápido, me exercitei e, antes que Kanon pudesse acordar para fazermos nosso desjejum, fui tentar uma audiência com o Grande Mestre, a fim de pedir uma autorização para ir até a “Il Palazzio” junto a meu irmão. Subi pelo tradicional caminho das Doze Casas, sendo xingado por alguns dos cavaleiros dourados, que haviam acabado de acordar ou sequer haviam feito isso... Obvio que falo de Aiolos e Shura, que retornaram ao Santuário perto da meia-noite, mas com eles me virava depois. Finalmente cheguei ao meu destino. O patriarca fazia seu desjejum na área externa. Geralmente, não gostava de ser visto nesses momentos, tampouco quando estava sem o elmo dourado que lhe ocultava parte da face, porém me convidou a entrar:

–Muito obrigado por receber-me tão cedo, Grande Mestre – saudei-o, prestando a devida reverencia.

–Um exemplo de disciplina como você deve ser sempre recebido, Saga. Levante-se e sente-se para me acompanhar no desjejum...

–Mas, Grande Mestre...

–Não hesite! Vamos... Sente-se que as servas irão te servir.

Obedeci e me sentei de frente para ele. Era a primeira vez que o via sem o elmo. A face com algumas rugas, as marcas na testa... Sabia que ele era um sobrevivente da última Guerra Santa e que fora ele que treinou o cavaleiro de Áries, mas não imaginava que era mais um Lemuriano, a raça abençoada por Athena com a longevidade. As servas logo vieram, trazendo-me iogurte, mel, tiropita (torta de queijo) e milopita (torta doce), suco de frutas, giros (fatias de carne de frango ou pernil temperadas e sobrepostas em uma grelha vertical), além de pão sírio e salada. Lógico que aproveitei, afinal na Casa de Gêmeos era luxo quando tínhamos iogurte e mel. Percebendo minha cara de prazer ao degustar aquele "banquete dos deuses", o patriarca sorriu e me dirigiu a palavra:

–E então... A que devo sua presença tão cedo?

–Bem... Queria lhe pedir autorização para ir até a cantina do Carlo hoje com o Kanon.

–Ao Carlo? Por qual razão?

–Bem... O senhor sabe que nós, cavaleiros, não temos uma forma de receber dinheiro... Não podemos ter um emprego decente, então... O que nos resta é fazer alguns bicos... E o único lugar que nos aceita esporadicamente e de onde podemos sair correndo caso algo estranho aconteça é na “Il Palazzo”...

–Hm... Compreendo. Bem, Kanon como é um substituto de cavaleiro sempre fica por lá, tem autorização para isso... De fato, não me atenho muito a um assunto tão importante como dinheiro... Em minha época de Cavaleiro nós não tínhamos problemas com isso, usávamos ouro ou prata como moeda de troca, mas hoje são poucos os comércios que os aceitam... Limita-se a alguns em Rodório e somente porque é um vilarejo que fica aos arredores do Santuário... E com essa missão, você precisa de dinheiro.

–E então?

–Bom, enquanto você estiver nessa missão, Saga... Eu te dou um passe livre. Pode entrar e sair do Santuário quando e a hora quiser. Vou fazer uma carta de autorização e já peço a um soldado que leve até Gêmeos. – ele levou o copo cheio de suco de uva à boca, tomando parte de seu conteúdo. Depois o repousou sobre a mesa e voltou o olhar para mim – Apreciou o desjejum?

–Estava maravilhoso, Grande Mestre... Muito obrigada por ter me dado tamanha atenção e confiança.

–Você a conquistou com suas atitudes e lealdade.

Confesso que meu coração quase se partiu em mil pedaços após essa frase. Por um instante, passou pela minha cabeça contar toda a verdade, mas o sorriso faceiro e o olhar matador de Fedra vieram em minha mente, provando que a série de mentiras valia à pena:

–Bom... – disse, me levantando e prestando a reverencia – Agradeço mais uma vez pelo maravilhoso desjejum, Grande Mestre, mas agora irei voltar a Gêmeos.

–Pode se levantar e partir, Saga. Daqui a pelo menos, uma hora, envio-lhe a ordem de saída.

–Muito obrigado.

Quando estava prestes a deixar o local, uma garotinha de cabelos lilases chegava de mãos dadas como uma serva. Ao me ver, a serva ficou meio desesperada:

–Me desculpe Grande Mestre... Eu não sabia que-...

–Não tem problema... – ele respondeu, se aproximando e pegando a mão da garotinha – Este é Saga de Gêmeos, o cavaleiro mais leal de toda a confraria. Saga... Esta garotinha é Athena.

A menina olhou para mim e sorriu ao mesmo tempo em que eu engoli seco. O patriarca exagerava na confiança sobre mim. Deuses! Isso era uma crucificação... Mas pela Fedra valia:

–Bom dia! – saudei-a em sorriso, ajoelhando-me não como uma reverência, mas para ficar na mesma altura de seus olhos – Sua alteza dormiu bem?

–Sim... – respondeu tímida, escondendo-se atrás da perna do Grande Mestre.

Fiz um carinho em sua cabeça e me levantei:

–Agora estou realmente indo... Com vossa licença.

Deixei o salão do Grande Mestre me sentindo um monstro. Certo que tudo que eu fazia valia à pena, mas era justo eu trair a confiança que ele depositava em mim? Ótimo! Mais uma vez preso em um dilema. Peguei a rota alternativa dessa vez. Cheguei a Gêmeos rapidamente, ainda pensativo:

–Ah! Larga disso, Saga! – falava para mim mesmo – Você sabia onde estava se metendo quando resolveu usar a missão para continuar vendo a Fedra, então deixa de ser bunda mole. É hora de botar para quebrar! É... É a coisa certa a fazer. Agora – fui até a cozinha, mas ela estava vazia – Eu não acredito que o Kanon ainda não acordou!

Invadi o quarto do meu irmão e lá estava ele, jogado na cama apenas de samba canção com várias latinhas de cerveja e revistas de mulheres nuas espalhadas pelo chão:

–Pft! E esse Fedapê ainda diz que é Cavaleiro de Atena – ri, enquanto tomava impulso. Queria acordá-lo com estilo... Pulando em cima dele – BAAAAAAAAAAAAANZAI! – gritei, dando um salto preciso, caindo em cima dele – Buongiorno (bom dia), maninho! Sorria, é um novo dia!

–AH, SEU MOCORONGO FILHO DA PUTA! – gritou, me jogando no chão – TEM MEDO DE MORRER NÃO É?

–Como se você me assustasse... Vai, levanta, se arruma que já tenho autorização para irmos ao Carlo.

–Eu não preciso de autorização... Já tenho uma por escrito! É tu que não tem...

–Não tinha! Já fui até o Grande Mestre, a obtive, tracei um rango maneiro e ainda conheci nossa deusa.

–COMO ASSIM VOCÊ TOMOU CAFÉ COM O MESTRE E AINDA CONHECEU ATHENA?

–O Grande Mestre me chamou para tomar café e acabei trombando com Athena quando estava de saída.

–VOCÊ É UM SORTUDO FILHO DA MÃE, SAGA! – disse finalmente se levantando – bom, vou aqui fazer a higiene e já venho...

–Sem pressa... Ah, já mandou uma serva preparar o Smoking?

Putz grila... Sabia que tava esquecendo algo. Vou resolver isso agora.

–Deixa comigo... Preciso pedir a uma das servas que lave a roupa que eu estava usando ontem... O Anúbis a encheu de pelos.

–Anúbis?! Bicho, você tá baratinado logo cedo?
–Não, seu animal! Anúbis é o nome do cachorro da Fedra... Diga-se de passagem, é melhor do que muita gente que eu conheço... PRINCIPALMENTE VOCÊ!
Kanon me atirou uma sandália, mas desviei. Quando ia retribuir o golpe, ele correu para o banheiro. Ainda podia ouvi-lo me xingando, quando pedia a uma das servas da terceira morada zodiacal que lavassem a roupa e arrumassem o quarto imundo do meu caçula. Após isso, voltei ao meu quarto, retirei o uniforme do Santuário e, apenas de cueca, buscava uma roupa para ir até cantina, quando a imagem da minha morena retornou a minha mente. Sua beleza, seu sorriso, seu corpo... Certas coisas em mim começaram a se animar, levando-me a gargalhar sozinho.

–HIHIHEHEHAHAHAHAHA...

Ao longe, escutei gritos de Kanon, que apareceu de toalha na porta do meu quarto:

–CÊ TÁ POSSUÍDO É? BICHO! SE INDIREITA!!! – gritou, enquanto buscava algo para atirar em mim, mas percebeu que não tinha nada nas mãos – Toma jeito que você pode ser o futuro Grande Mestre.

–O que você tá falando cara?!

–Ouvi as servas comentando... A história de você ter feito o desjejum com o patriarca e ter conhecido a criança Athena chegou até elas... E já rolava esse blábláblá muito antes disso. Parece que a dúvida era o Aiolos ou você... Mas como o Sagitário é meio pancada, sem noção e totalmente porra louca... Dizem que o velho prefere você.

–Então é melhor VOCÊ tomar um jeito, irmãozinho...

–Tá pirando, chapa? Se tu que vai ser o Grande Mestre, porque eu devo me endireitar?

–Porque se isso for realmente verdade, você se tornará Cavaleiro de Gêmeos, animal.

–Ah é...

–“Ah é...”? Vai ficar aí parado com cara de goiaba? Vai se vestir, bicho!!

–Opa... Tô indo!

O imprestável saiu correndo. Eu continuava rindo e finalmente havia achado uma roupa perfeita: calça jeans de boca larga, camisa branca e um colete preto. Quando saí do quarto, Kanon já estava pronto, usando calça azul, camisa amarela com três botões aberto – fazia questão de exibir o físico – e um colete aberto, da mesma cor da calça:

–E aí? Estou elegante? – disse dando uma volta.

–Está parecendo uma ave exótica brasileira hahaha... Mas está legal.

–Então agora que estamos prontos... Vamos?

–Algum soldado veio trazer minha autorização?

–Não...

–Então... Vai lá... Sem essa autorização, não posso deixar o Santuário. Aproveita e vai adiantando o assunto com o Carlo.

–Uma vez Quadradão, sempre Quadradão... Falou então... Tô te esperando lá no Carlo.

Kanon saiu correndo, pois sabia que eu mais uma vez atiraria uma sandália em sua cabeça:

–NA PRÓXIMA TE JOGO AS DUAS, SUA AMEBA ZODIACAL! – gritei, vendo-o se afastar.

Segundo o Grande Mestre, a autorização seria entregue no máximo uma hora após minha saída de lá, porém já fazia uma hora e meia que estava em minha morada e nada de algum soldado aparecer em Gêmeos com carta alguma. O jeito foi pegar um livro e aguardar. Quase três horas depois, me surge o soldado com a carta na mão:

–O Grande Mestre pediu desculpa pela demora. – disse, ajoelhando e me estendendo a carta – Ele teve que-...

–O Grande Mestre não me deve desculpas soldado e nem você deve se ajoelhar perante a mim. Dê-me isso e azule! – disse, pegando o envelope de suas mãos – Vá! Tenho pressa!

–Ce-certo, senhor!

O soldado partiu com a mesma pressa que eu saí correndo em direção a cantina do Carlo. Na saída do Santuário, mostrei a carta rapidamente aos vigilantes, que logo me deram passagem:

Agora eu dou as “sandaliadas” que devo ao Kanon! – pensava, enquanto corria.

#Fedra’s POV#

Acordei com uma bigorna de meia tonelada na cabeça. Já passava das 10 da manhã. Arrastei-me de camisola até o quarto das meninas. As duas já estavam acordadas no quarto de Agnes, na mesma situação que eu:
Bicho! Que cana desgraçada de ontem, hein!
–Nem tão desgraçada, né amiga?! Como foi com você e com o Saga, hein? Conta tudo! Ficaram de onda? – Perguntou Sofia, super animada.
–É... Vendo por esse lado – Disse, meio sem graça, com aquele tradicional arzinho de apaixonada.
–POR TODOS OS DEUSES OLIMPIANOS! OLHA COMO ISSO TÁ! – Saiu Agnes do banheiro, usando uma camisola toda colorida. – A FERA QUE NINGUÉM DOMINOU TÁ DOMINADAAAAA

–Vocês parem! A gente ficou sim! AFF! E dominada uma ova, que eu não me entrego assim tão fácil!
Hmm... Sei! Tá bom então, conta mais amiga!! – indagou Sofia feliz. Sabia que eu era muito solitária, principalmente nos últimos tempos. De alguma forma, Saga iria me fazer bem.
–Bem... A gente foi lá pro parque do píer... – Comecei a contar a história sentindo meu estômago roncar...
–AH PAROU! – A louca da Agnes gritou de novo, assustando Sofia e a mim. – To morrendo de fome. Desculpa o susto chuchus, mas historinha de amor só de barriga cheia!
–É... Infelizmente eu concordo! –Disse Sofia, se rendendo. – Vamos comer aonde? To desejando uma comida deliciosa!
–Então se arrumem que nos vamos à melhor cantina italiana de Athenas!

–Cantina italiana? – Resmungou Agnes. – Eu ainda tô de ressaca e você querendo me enfiar vinho no café da manhã?

–A ressaca se evita mantendo-se bêbado... E, pelo amor! Já são mais de 10 horas... Até ficarmos prontas e sairmos é hora do almoço, capito? (entendeu?)

–Ela tem razão, Agui. Vamos nos arrumar!

–Então... Até já, garotas!

Me levantei da cama e saí do quarto correndo, rumo ao meu banho. Dessa vez usei o chuveiro, queria ser rápida, afinal Sofia era conhecida por todos como “a noivinha de Athenas”, devido às longas demoras para se arrumar. Saí do banheiro de roupão azul e com uma toalha branca enrolada na cabeça. Anúbis estava em cima de minha cama, segurando a guia com a boca. Quando me viu, soltou-a, deixando-a entre as patas dianteiras e latiu:

–Bom dia para você também, meu lindo!

Ele uivou baixo e depois ficou mexendo na guia, uma forma de chamar a minha atenção para ela:

–Calma, bebê... A mamãe vai te levar para passear também. – sorri, enquanto secava os cabelos – Hm... Eu estou tão feliz, Anúbis... Acho que é a primeira vez que me empolgo assim em anos.

Ele gemeu e enfiou a cabeça entre as patas. Sinal claro de ciúmes e desaprovação. E ainda tem gente que fala que cachorro não pensa:

–Que foi, meu príncipe? Ciúmes do Saga?! Deixa disso! Você sabe que é meu primeiro e único amor, né?

Cheguei perto dele e o abracei, dando um beijo no topo de sua cabeça. Aparentemente, ele se acalmou. Sorri e me levantei:

–Hey! Que tal você me ajudar a escolher uma roupa, hm?

Mais um latido foi escutado. Em seguida, ele pulou da cama em direção ao meu closet, retornando em menos de um minuto com um short saia azul, deixando-o em cima da cama. Saiu correndo de novo, e voltou rápido com uma mini-blusa branca com listas pretas de mangas longas. Depois se sentou em minha frente, aguardando eu me vestir:

–Ora, Anúbis! Se você fosse humano, seria um excelente personal stylist... – sorri, enquanto me olhava no espelho. – Mas, pensando melhor... Se você fosse humano não seria uma criatura tão adorável. Vou por os acessórios, me ajuda?

Me seguiu enquanto caminhava para o closet. A sorte é que sou bem decidida no que escolher: algumas pulseiras de corrente douradas, um colar geométrico preto e branco, chapéu coco e um xale preto. Nos pés, calcei um All Star azul, afinal era o mais confortável para dirigir. Peguei minha bolsa, a guia de Anúbis e retornei ao quarto daquelas duas pancadas. Como imaginei, Sofia ainda estava se arrumando:

Ternurinhas! Tô pronta!

–Uhu! Toda dendeca!!! – disse Agnes, surgindo com um vestido curto de manga longa, todo colorido, uma faixa nos cabelos, enormes argolas prateadas nas orelhas e botas de salto brancas – A Sofia está quase terminando de se vestir.

–Na verdade, já terminei, tetéias!

Sofia saiu do closet com um short florido, regata branca, uma blusa de linha bege e um sapato da mesma cor da blusa. Nos acessórios, pulseiras de bolinhas brancas, um enorme colar dourado e óculos escuros:

–Ah! Agora que estamos prontas... Vamos logo, pois a fome é muita! – indagou a loira de Shura, já cruzando a porta.

–Sem pressa, pois nenhuma de vocês dirige tampouco sabe aonde é a cantina, giusto? (certo)

Entrei em meu carro, acendi um cigarro e dei a partida. Agnes se deu ao trabalho de abrir o portão. Em seguida, rumei com o carro para a “Il Palazzo”, a cantina mais deliciosa de Athenas.

#Kanon’s POV#

–FAAAAAAAAAAAAAAALA CARLO, MEU CHAPA!!! – Cumprimentei-o ao chegar à cantina.

–Kanon, mio caro amico (meu querido amigo)! – saudou-me, de braços abertos e com seu forte sotaque italiano – Que faz aqui tão cedo? Veio me ajudar com o almoço?

–Sim e não... Também vou te ajudar, mas o Saga está com um grilo e precisamos da sua ajuda.

–Mas... O Quadradão? O que ele precisa?

–Bem, vou te contar...

Contei a Carlo todo o filme de Saga. Ao final, o italiano riu e concordou em ajudar, mediante ao preço por ele estipulado:

Ecco (É isso)... Quando ele chegar, eu dou meu preço a ele, capito? All’ora (por hora), como veio me ajudar... Vá limpando o salão, ragazzo (garoto)... Que logo iremos abrir!

–Tá certo, Carlo!

–Mas você vai sujar sua roupa! Vá lá atrás e ponha um avental enquanto fazemos a limpeza... Depois você se arruma. Cammina (ande)!

Fui até os fundos, retirei a camisa e o colete, ficando somente de avental. Prendi os cabelos e fiquei um bom tempo esfregando o chão. Depois, limpei as mesas. O trabalho era cansativo, mas extremamente prazeroso:

Acho que se não fosse cavaleiro... – pensava – Espera: eu não sou cavaleiro! Sou um substituto... Mas também sou muito preguiçoso para ser dono de um restaurante. Então esse pensamento não faz nenhum sentido...

Quando estava finalizando a limpeza das mesas da frente, um carango parou na porta da cantina. Minha visão periférica permitiu-me ver três mulheres e um cachorro descendo dele. Sem erguer totalmente a visão falei:

Mi dispiace, ragazzas (me desculpe, moças)... – forcei um sotaque italiano, afinal naquele carrão só poderia ser uma das granfinas que paquerava nas festas. – Ainda não abrimos.

–Não acredito, Fedra! – disse uma delas – Vamos a outro lugar!

–O CACETE! – respondeu a tal Fedra, uma moça muita boca suja, diga-se de passagem – Eu estou com vontade de comer aqui – ouvi um barulho de isqueiro, senti sua presença se aproximar e ouvi o cachorro rosnar – Escuta garçom... Vai demorar muito para abrir?

Ergui meu olhar. Foi então que a ficha caiu: Fedra, cabelos castanhos, olhos verdes, extremamente bonita, com um labrador caramelo ao seu lado e acompanhada de duas loiras... Era a garota de Saga! Meus olhos se arregalaram e, antes que eu pudesse responder, fui surpreendido:

–PELOS DEUSES DO OLIMPO! SAGA! – gritou, atirando longe o cigarro que tragava quase acertando uma das amigas loiras, que desviou em reflexo – EU JAMAIS IMAGINEI QUE ESSE ERA O RESTAURANTE QUE VOCÊ TRABALHAVA!

–M-mas eu não-...

Antes que pudesse completar a frase, fui brutalmente agarrado e beijado. Danou-se! Não bastasse a confusão, fui agarrado na frente do meu “chefe” e para completar a novela...:

–QUE PUTARIA É ESSA AQUI?

#Saga’s POV#

Já me aproximava da cantina do Carlo quando reparei em um carro preto parado na porta. Ainda era cedo. Poderia até estar aberta, mas já com clientes?

Deve ser algum fornecedor... Ou a máfia... Vai lá saber se não é Don Vito Corleone – pensei, rindo.

Aproximando-me mais, percebi que o tal carro era um Mustang, como o de Fedra, mas achava pouco provável. Numa hora dessas, ela e as garotas deveriam estar desmaiadas em suas camas, cheias de ressaca. Hm... Pensar em Fedra jogada na cama me deu outro ânimo, mas resolvi parar de pensar nisso e me apressar. Quando cheguei mais perto, o espanto: era realmente o carro da morena e ela estava dentro da cantina... AGARRADA EM MEU IRMÃO CAÇULA:

–QUE PUTARIA É ESSA? – gritei. Foi minha única reação. Anúbis, que estava ao lado da dona, saiu correndo para meu lado e pulou em mim.

–Hã?! – fez-se de desentendida a morena, largando Kanon.

–Mano... Eu tentei falar, mas fui agarrado antes.

–Mano?! Espera... Você não é o Saga? – ela questionou, olhando-o nos olhos.

–Não... Sou Kanon, irmão gêmeo do Quadradão. Muito praz-....

–ATREVIDO! – ela gritou, interrompendo-o e acertando-lhe um tapa certeiro na face esquerda. Depois, virou-se para mim – Perdão, Saga... Eu não sabia que você tinha um irmão gêmeo.

Ma che confusione! (Mas que bagunça!) – gritou Carlo, saindo detrás do balcão – Kanon! O que está acontecendo aqu-... Ah! Per la mia dea Minerva! (por minha deusa Minerva!) Fedra! Como está, bella mia?

–Muito bem, Carlo... Não sabia que o Saga trabalhava para você. Sempre venho aqui, mas nunca o vi...

–Ah! Saga é ajudante de cozinha. Não fica aqui no salão... Aqui só ficam Kanon, Shura e Aiolos.

–Mesmo assim... Não me lembro deles trabalhando com você.

–São novatos, ragazza!

–E onde estão o Shura e o Aiolos? – perguntou Agnes, puxando uma cadeira, sentando e acendendo um cigarro.

–Mortos de ressaca! – respondeu Kanon, limpando outra mesa.

–Ninguém te chamou na conversa, seu chinfra maldito! – ofendeu-o Fedra, olhando feio para meu irmão.

–Tá me chamando de chinfra por quê?

–Fica aí, se passando por seu irmão.

–Mas eu não me passei pelo Saga em momento algum... Foi a senhorita que chegou me beijando.

–E o sotaque italiano?

–Isso é exigência minha ragazza. – intrometeu-se Carlo, voltando para trás do balcão – Saga... Já que chegou, venha mexer o molho de tomate! Abriremos em 30 minutos, Fedra.

Va bene! – indagou a morena, acendendo um cigarro – Vamos dar uma volta e já retornamos.

A morena entrou no carro acompanhado das amigas e partiu. Kanon apenas se sentou e caiu na risada, mas logo parou, pois foi atingido por meus sapatos:

–AI AI, SEU FEDAPÊ! PORQUE FEZ ISSO?

–Te devia duas pela hora que deixou o Santuário... E agora te devo mais uma por você ter beijado a Fedra, irmãozinho!

–MAS NÃO FOI MINHA CULPA! ELA QUE ME AGARROU!

ORA ARRIVA (agora chega)! – se intrometeu de novo nosso “patrão” – Depois vocês se matam! Agora só temos 30 minutos para bolarmos um plano.

–É... Tem razão, Carlo – eu concordei, enquanto amarrava o avental – Sei que o Kanon te contou tudo... E aí, me ajuda?

–Mas é claro, ragazzo! Mas como você sabe... Io tenho um preço.

–Lógico que sei... Manda aí.

–Você terá que me ajudar aqui... Lógico que as gorjetas são suas. Ainda mais agora que sei que a tal Fedra que fez o Piazza del Santuario se ouriçar é a senhorita Bataglia.

–E você conhece a Fedra, Carlo?

–Mas é claro... A ragazza sempre vinha aqui depois da faculdade.

–FACULDADE?! Mas... Espera... Ela tem quantos anos?

–Isso io não sei... Io só sei que já faz dois anos que ela terminou o curso.

Isso sim me pegou de surpresa. Dependendo do curso feito, seriam quatro anos... Se ela terminou os estudos com 18, significa que hoje ela tem 24 anos! Não que diferença idade seja um problema para mim, mas pode ser que para ela seja. A expressão que fiz enquanto pensava levou Carlo e meu irmão a uma gargalhada dupla, que logicamente culminou em dois sapatos lançados. O italiano desviou a tempo, mas Kanon foi acertado em cheio:

–AH SEU MOCORONGO FEDAPÊ!!!! DEIXA EU TE PEGAR!

–QUE VERGOOOONHA!!!! O CARLO NEM É CAVALEIRO E CONSEGUIU DESVIAR DE UM SAPATO E VOCÊ NÃO?! NA SUA CARA, IRMÃOZINHO! NA-SUA-CARA!

BENE! BENE! – cortou-nos o cantineiro – A bagunça tá boa, mas vamos trabalhar, capito?!

Capitado, chefinho! – respondeu Kanon – Vou lá por minha camisa e já volto!

Giusto, Kanon! E você, Saga... Já mexer o molho.

–Claro... – já ia para a cozinha, quando voltei. – Hey Carlo... O que significa “Piazza”?

–Ah, bello... É a palavra italiana que mais combina com você.

–Elegante?

–Não, ragazzo... QUADRADO – e saiu correndo, antes que eu pudesse pegar o sapato e atirar nele. Trabalhar nessa cantina seria bem divertido.

Quarenta minutos depois, Fedra chegou com as amigas. Era meio embaraçoso ir servir a sua mesa e levar uma cantada. Pior ainda foi quando ela fez Kanon e eu ficarmos lado a lado e tentar achar alguma diferença. Tudo em vão. Quando finalmente foram embora, risadas correram soltas, enquanto eu lavava os pratos. Cada vez mais eu ficava seduzido pela vida fora do Santuário, apesar de meu cosmo arder pela minha verdadeira vocação. No fim do dia, decidimos qual o cardápio que levaria a festa: focaccia, cornettos, alguns salgados, tiramisú e, claro, pizza.

Depois do árduo trabalho, retornei ao Santuário cansado, porém feliz. Apesar de todas as brigas, sapatadas e sandaliadas que dava em Kanon, nos dávamos bem. Jantávamos tranquilamente, quando um soldado veio me chamar:

–Algum problema? – perguntei, enquanto via-o me reverenciar – Já disse que não deve se ajoelhar perante a mim.

–Desculpe-me por interromper a refeição, senhores... – falou, se levantando – Mas o Grande Mestre deseja ver o senhor Saga imediatamente.

–Imediatamente? – meu sangue gelou. Será que o velho havia descoberto que estava lhe passando a perna? – Certo... Vamos soldado.

Acompanhei-o até o Salão do Mestre. O Patriarca estava sentado em seu trono e, estranhamente, se levantou quando meu viu:

–Não há necessidade de reverências de sua parte, Saga... Acompanhe-me.

–Mas... Acompanhar-te aonde, Grande Mestre?

–Até o aposento de Athena.

–HÃ?!

–No caminho te explico... Acompanhe-me.

–C-certo.

Enquanto percorríamos os corredores iluminados apenas por tochas, o Grande Mestre falava:

–Saga... Eu confio muito em você. E é por conta dessa confiança que tenho um pedido a te fazer.

–Pode falar senhor...

–Eu tenho uma urgência para resolver em Jamiel. Ficarei uma semana fora e preciso que você tome conta de Athena e atue como subcomandante do Santuário...

–Subcomandante? Mas... E o senhor Arles?

–Arles também está fora do Santuário... Foi até os Cinco Picos de Rozan ter uma audiência com o Mestre Ancião, porém ele regressa na terça-feira, aí você poderá voltar à missão que lhe foi incumbida.

Engoli seco. Iria perder a festa com Fedra? Poxa... Eu tinha tantas expectativas para ela, mas não poderia decepcionar o Grande Mestre, afinal... Eu era o possível escolhido para ocupar seu lugar:

–Tudo bem, senhor... Fico honrado por tal confiança. – falei, sem conseguir disfarçar a tristeza – Agora, se me permite... Preciso regressar a Gêmeos e terminar meu jantar.

–Interrompi seu jantar? Perdoe-me... Só preciso levá-lo a presença de Athena, para que ela lhe aprove.

–T-tudo bem.

Chegamos a frente de uma porta de madeira talhada. O Grande Mestre a empurrou e nos deparamos com a garotinha sentada no chão brincando com alguns blocos de montar. Aquela serva que havia visto mais cedo também estava no local:

–Senhorita? – ele disse, retirando o elmo e ajoelhando.

–Ah! Shion! – ela respondeu sorridente, se levantando e caminhando na direção do patriarca – Veio brincar comigo?

–Não senhorita... Lembra-se do Saga?

–Hm... Aquele de hoje né?

–Sim... Ele virá brincar com você por uns dias, tudo bem?

–Mas por que, Shion?

–Terei que me ausentar... Mas logo volto.

–Ah... Mas pode deixar ele aqui... Gostei dele...

Sorri com a declaração da menina. Após a despedida, retornei a Gêmeos atordoado. Kanon, claro, percebeu:

–O velho desconfiou de algo?

–Não, chapa! Pior! Muito pior!

–ELE DESCOBRIU?!

–Antes fosse... Ele vai se ausentar por uma semana... Arles também está fora até terça.

–UHU! FESTA NAS COLINAS SANTAS!!

–ME ESCUTA! ELE QUER ME DEIXAR NO COMANDO DURANTE ESSE PERÍODO!

PELAS BARBAS DO PROFETA, IRMÃOZINHO!!! Por um lado você está ganhando uma confiança tremenda do velho, mas pelo outro vai perder o embalo supimpa.

–Ah! Nem me fale, Kanon... Nem me fale...

–Hm... Espere! Eu tenho uma solução!

–E qual seria?

–Eu te substituir.

Kanon se encolheu todo. Provavelmente achou que eu iria acertá-lo com outra sandaliada, mas foi surpreendido pela minha expressão pensativa:

–É mesmo... A única pessoa capaz de nos reconhecer é o Grande Mestre. Sem ele aqui... Você pode facilmente se passar por mim. AH! IRMÃOZINHO, VOCÊ É UM GÊNIO!!!

–Espera aí! Eu estava falando de te substituir na festa... Mas a ideia de comandar essa porra toda é mais divertida!

–Sabe irmão... Você é bem forte e inteligente. Dará um bom Cavaleiro de Gêmeos caso eu realmente me torne Grande Mestre.

–Jura? É um grande elogio vindo de sua parte...

–Obrigada... Por isso, eu vou te ensinar uma técnica secreta.

–E você tem alguma que eu ainda não domine?

–Sim... E se chama “Fatal left sandal

–Fatal left sandal? E no que se baseia isso?

–NA MINHA SANDÁLIA ESQUERDA NO MEIO DA SUA CARA, SEU FEDAPÊ!

E assim, se encerrou mais um dia na Casa de Gêmeos, com mais um problema eliminado. Dormi na contagem regressiva para a festa. Faltavam somente algumas horas.

#Kanon’s POV#

Acordei cedo na manhã seguinte. Era o dia da tão ansiosa festa de Saga, por isso o quadrado do meu irmão continuava a dormir. Apesar da imensa vontade de querer me vingar pelo pulo com o qual ele me acordou no dia anterior, achei melhor deixar passar, afinal não era sempre que Saga burlava as regras... E não era sempre que eu teria o Santuário todinho para governar:

–SERVIÇAL – gritei de meu quarto, não estava muito a fim de levantar da cama.

–Sim, senhor Kanon – indagou uma das servas, surgindo na porta do quarto e virando o rosto. Acho que minha nudez a incomodou.

–Prepare-me um banho com sais e rosas. Hoje terei um dia puxado.

–Si-sim senhor.

Com as maçãs do rosto levemente vermelhas, ela se dirigiu ao meu banheiro:

–OW... Antes de você entrar aí, me responda algo.

–O que, senhor?

–O Grande Mestre está na sala dele?

–Hm... Pelo que estão comentando, ele partiu em uma viagem. Um soldado até veio deixar um comunicado.

–Ah sim... – me levantei da cama, ficando de frente para ela – Bom, agora vá. Prepare meu banho e, depois arrume essa zona.

–Sim...

Ela rumou à sala de banhos completamente ruborizada. E sim, eu havia feito de propósito, afinal... Qual a melhor forma de começar o meu reinado do que deixar servas com vergonha e, ao mesmo tempo, com vontade do meu corpinho? Acho que nenhuma. Tomei o senhor banho e ainda tive a cara de pau de chamá-la para esfregar minhas costas. Quando saí do banho, Saga estava de pé em meu quarto com suas sandálias na mão. Mais do que depressa, armei-me com as minhas:

–Sai daqui com essas sandálias do mal! Eu não fiz nada!

–Você chama de nada fazer um “peniscóptero” para uma de nossas servas? Mantenha o respeito, seu porra louca! Sem contar que você faz muito barulho! Eu queria dormir, pelo menos, até as 12hrs!

–Serva rima com perva, irmãozinho e são todas assim! Oh yeah! – respondi enquanto dançava, consequentemente a minha toalha caiu e, por um acaso maldito do destino, uma serva entrou novamente em meu aposento – Oh that's way. Aha Aha I like it... Aha Aha that’s way. Aha aha I like it...

–Com licença... AI! – ela cobriu o rosto com a carta que trazia.

BICHO! NÃO TÔ CRENDO!!! KANON SE ENFIE NAQUELE BANHEIRO E SÓ SAIA DE LÁ QUANDO EU TE DER UMA TÚNICA!

–Você não é-

–SE VOCÊ FALAR QUE NÃO SOU SEU PAI, EU ESQUEÇO A CALMA QUE ESTOU TENDO E TE ENCHO DE SANDALIADAS, SEU GOIABA!

Corri para o banheiro, deixando apenas a cabeça para fora. Meu irmão se desculpou com a serva, pegou a carta e a leu. Não estranhei, afinal, esse deveria ser o tal comunicado que o Grande Mestre havia deixado, porém eu me espantei com uma coisa:

–HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA – ele gargalhou incansavelmente. Ainda gargalhando, me atirou a túnica. – HAHAHAHA... Anda... HAHAHA... Sai daí seu Mané que você tem que... HAHAHAHA... Ler isso.

Qualé o pó, Quadradão? – perguntei, saindo do banheiro já vestido com aquela túnica branca ridícula, sentindo minhas coisas balançando graças à ausência de cueca – assinou alguma revista de piadas?

–Nenhuma revista de piadas é tão divertida quanto essa carta. Se liga – ele pigarreou e começou a ler – “Querido Kanon, espero que esteja tudo bem com você e o Saga. Estou escrevendo, pois necessito de sua ajuda. Eu gostaria de pedi-la ao Saga, mas como sei que ele é muito ocupado e você passa o dia coçando nesse Santuário, sou obrigada a apelar para um irresponsável como você. Marie está incontrolável. Só fala em batalhas, defender a Terra, armaduras e máscaras. Eu parti para evitar isso, mas o sangue falou mais alto... Então, estou enviando-a para você junto com essa carta para que você possa treiná-la. Fique tranquilo, pois já li a nossa constelação protetora e sei que o destino dela é realmente servir ao Santuário. Com amor, sua irmã Salomé.”

–TREINAR A MARIE? A SALOMÉ PIROU???!

Salomé era a nossa irmã mais velha, que abdicou o Santuário para seguir seu sonho de ser arqueóloga depois que perdeu o marido, um cavaleiro de prata, em batalha. Quando partiu, há treze anos, estava grávida e jurou nunca mais botar os pés na Terra Santa. E cumpriu a promessa, nos enviando apenas cartas para falar sobre nossa sobrinha Marie:

–Não diria que pirou... Marie tem sangue de cavaleiro correndo nas veias. Nada mais natural que queira se tornar amazona...

–Pois é... Mais um grilo na tua lista, irmãozinho.

–NA MINHA LISTA UMA OVA!!! A CARTA FOI ENDEREÇADA A VOCÊ!

–É... Mas já se esqueceu que eu vou estar me passando por você?! Como vou me ocupar com a pirralha?!

–Pirralha é o teu passado, tio Kanon! – Indagou uma jovem, que acabara de entrar em meu quarto. Arrastava uma mala quase do tamanho dela. A pele branca, os longos cabelos negros e olhos avermelhados não deixavam negar o sangue geminiano. O corpo era bem definido para uma garota de 13 anos, então já pensava no trabalho que iria ter com a cavaleirada. – Só quero saber em qual quarto irei ficar!

–Tão impertinente quanto à mãe – bufei – Relaxa aí que uma serva vai te instalar...

–Mas antes disso – Saga interrompeu – Precisamos da sua ajuda.

Ela bufou para cima, fazendo a franja se mexer. Depois, sentou-se em minha cama, abriu a bolsa que trazia e retirou um maço de cigarros. Até me assustei, de primeiro instante, e me preparava para dar-lhe uma bronca... Até ela retirar um da caixinha e eu perceber que se tratavam de rolinhos de chocolates:

–Então já cheguei botando a banca? Ah, sou mesmo demais!

–Por Athena! É a Salomé escrita – ri. – Então sobrinha... O seu tio Saga foi escalado para substituir o Grande Mestre hoje.

–E? Que eu saiba o meu Mestre será um ser cafona que atende pelo nome de KANON!

–EU VOU DAR NA TUA CARA!

–Quieto, Kanon! – segurou-me Saga – Acontece que eu já tinha uma missão a cumprir e não posso deixá-la de lado... Então seu tio Kanon iria me substituir na função, já que ninguém além do velho percebe a nossa diferença. O que nós precisamos é que você não fale nada a ninguém.

–Hm... E o que ganharia com isso?

–O carinho eterno dos seus tios... – falei

–Muito pouco... Marie Georgiopoulos não é tão barata assim de se comprar...

–Ah! Ela não é TÃÃÃÃO Salomé assim... Também tem um pouco de Kanon nessa garota – Debochou Saga, sendo atingido por minha sandália em seguida – MALDITO!

–VINGANÇA!

–Te odeio...

–Hey! Vocês não querem saber o meu preço? – a garota interrompeu a discussão, enquanto “tragava” um dos rolinhos de chocolate.

–Opa! – voltei a atenção para minha sobrinha – Desembucha logo, vai...

–Durante o período que o tio Kanon brincar de mandar nesse antiquário vocês dois me darão duas barras do melhor chocolate de Athenas a cada 3 horas. E não quero atrasos.

–Como quer ser Amazona comendo tanto chocolate? – questionei.

–Eu tenho um excelente metabolismo... E aí? É pegar ou largar, Quadradões!

–Fazer o que, né? – disse meu irmão, torcendo a boca. – Acordo fechado. Mas uma coisa fique clara, Marie: o único Quadradão aqui é seu tio Saga!

–Kanon... – ele me chamou com calma.

–Que foi?

–Corre ou te mando passear em Outra Dimensão.

–Ow! Ow! Com calma... Sou muito mais fã de suas sandaliadas.

–Então tá.

Novamente, ele me atirou a sandália na cara. Isso já estava se tornando chato. Pedi a uma serva que instalasse Marie em um dos quartos da casa e a um soldado que fosse comprar os chocolates em Athenas. A essa altura do campeonato, toda a confraria já sabia que Saga substituiria o Grande Mestre durante a ausência do senhor Arles, o que aumentou o burburinho sobre ele ser o próximo comandante e também culminou em uma visita de Aiolos e Shura a Terceira Morada Zodiacal, pois eles acharam que meu irmão não iria mais ao tal embalo na casa da Fedra:

–E vocês acham que não pensei em tudo, chapas?

Saga contou-lhes o plano, comemorado com risadas e cerveja. Horas mais tarde, subimos os dois, levando Marie junto, ao salão do Grande Mestre. Todas as servas do velho estavam à posta para servi-lo. Prepararam um aposento especial a ele, deram-lhe as instruções deixadas pelo velho e também as vestes que deveria trajar enquanto estivesse no local: uma toga branca semelhante à usada por Arles, mas sem as ombreiras e com bordados vermelhos em todas as extremidades. Ele também deveria usar um elmo vermelho, o símbolo de que era ele que estava no comando:

–Muito obrigada, garotas. Agora podem se retirar... Daqui a pouco irei para o Salão. Só preciso falar algo com meu irmão.

–Certo senhor Saga... – respondeu uma por todas, se curvando – Qualquer coisa chame-nos.

–Não precisam se curvar diante de mim.

As servas deixaram o local. Mais do que rápido, Marie virou de costas enquanto Saga e eu trocávamos de roupa:

–Pronto – ele falou, ajustando a roupa – Lembre-se: se as servas perguntarem, Kanon tem uma autorização do Grande Mestre para trabalhar na cantina do Carlo e é onde ele está! – depois, virou-se para nossa sobrinha, entregando-lhe quatro barras de chocolate – O Kanon dará o resto durante minha ausência. Se perguntarem algo a você...

–Sim! O meu mestre KANON está trabalhando em uma cantina aí... Como não posso ficar sozinha em Gêmeos, ficarei aqui com o tio Saga.

–Boa garota! – antes de sairmos da sala, ele virou de novo seu olhar para mim – Ah sim... Mano, pelo amor de Athena: não destrua a minha integridade no Santuário com a sua porralouquisse, ok?

–Relaxa, maninho! Serei o perfeito Quadrado – ri, enquanto pensava – Só porque você quer que não irei me divertir.

Saímos do aposento. Havia duas servas no Salão principal. O teatro começou. Saga, se passando por mim, vestido com uma calça branca e uma camisa preta entreaberta e carregando o smoking dentro de uma capa, começou:

–Então, falou irmãozinho! – disse, tentando imitar a minha forma de falar – Tô azulando lá pro Carlo. Cuida aí da pirralha que, assim que possível, eu dou um corre aqui.

–Juízo, Kanon. – falei.

–Até mais, Mestre – completou Marie, com uma barra de chocolate nas mãos.

Saga partiu. Quando eu tive plena certeza que ele estava bem longe, peguei um pedaço do chocolate de minha sobrinha e, enfiando-o todo na boca, comemorei:

–AGORA EU QUE MANDO NESSA PORRA!!!

–Tio?

–O que foi, Marie?

–Mas...

–Ah! Você achou mesmo que eu ia ficar comportadinho? Isso aqui é uma chatisse normalmente. Agora que eu tenho a oportunidade de fazer as coisas ficarem muito mais divertidas não vou aproveitar? Até parece!

–Ai tio... Sinto que iremos tomar sandaliadas até ficarmos roxos!

–Vai me falar que você não gosta de uma boa festa?

–Sendo sincera... Eu já estava emburrada com tamanha quadradísse do tio Saga.

–ENTÃO VAMOS ABALAR ISSO AQUI!

OH YEAH!!

Marie e eu nos pusemos a cantar. Vira e mexe, um soldado ou serva vinha ver o que estava acontecendo e se espantavam com a cena.. Ouvia-os cochichar, mas não me importava, só queria me divertir:

–Autorizações dadas, comida boa, tour de vistoria pelos campos de treinamento... – falava, enquanto estava totalmente largado no trono do Mestre – A vida de Grande Mestre é muito mansa.

–Pelo que minha mãe falava do Santuário, achei que era mais crítico – indagou Marie, comendo chocolate com o meu elmo na cabeça – Hey, Tio... O que você acha que uma música?

–Qual você quer cantar?

–Eu tenho uma péssima voz... Trouxe o meu toca-fitas a pilha. Ficou lá no quarto...

–Então vai lá buscar.

Quando a garota ia se levantando, uma serva entrou no recinto:

–Senhor Saga – se curvou diante de mim – Athena está lhe chamando.

–Não se curve diante de mim, gatinha... – respondi, me levantando e tirando o elmo da cabeça de Marie – Você que me guiará até a clausura da deusa?

–Acho que o Grande Mestre lhe mostrou onde é ontem a noite, não?

–Sim... Mas eu estava com sono... Nem lembro direito.

–Tudo bem... Vou guiar o senhor, mas... Essa criança irá junto?

–Marie é minha sobrinha e discípula de meu irmão Kanon... Como ele não está ela fica sobre minha responsabilidade. Não posso deixá-la em Gêmeos sozinha ou com alguma serva. Depois eu me resolvo com o Grande Mestre.

–Bom, o senhor é quem sabe. Siga-me.

A serva me guiou pelos corredores, até uma porta de madeira talhada. A empurrou e lá estava uma garotinha de cabelos lilases brincando com uma boneca de pano. Ao me ver entrar, sorriu, se levantou e veio me abraçar:

–Saga! Você veio brincar comigo!!

–Sim, senhorita... E lhe trouxe uma companheira. Esta é minha sobrinha Marie.

–Oi, Marie!! – ela sorriu, depois voltou o olhar para mim – E então, Saga? Já que o Shion não está... O que vamos fazer?

–Hm... Não sei. O que vocês costumam fazer.

–Eu passo a maior parte do tempo nessa sala. Às vezes ele me leva naquele salão nos fundos, aonde tem uma grande estátua que ele diz ser eu... Aquela que, sempre que eu olho sinto meu corpo quente... Uma vez ele me levou para ver o mar, mas foi só aquela vez...

–Hey! – Marie tomou a palavra – Esse tal Shion não te chama por nenhum outro nome?

–Só de senhorita... Mas, por umas duas vezes, ele me chamou de Athena.

–E como você prefere ser chamada?

–Ah... Inventa um nome para mim...

–Bem, pela cor do seu cabelo... Vou te chamar de Violeta, pode?

–“Violeta”? Hm... Gostei!!!

As duas pareciam estar se dando bem. Ótimo! Achei que a presença de Marie iria me atrapalhar, mas não... Ela veio a calhar, pois assim eu não precisaria me ocupar em cuidar de Athena. Até que:

–Saga...

–Pois não, senhorita?

–Vamos brincar de cavalinho?!

–CAVALINHO?!

–É! Você me carrega nos ombros como se fosse um cavalo.

–O Shion que te ensinou isso? – nem sabia quem era esse cara, mas se descobrisse... Juro que o mataria sem dó!

–Não... Foi a Marie!

–MA-MARIE?!

–Há! Acha que não percebi que estava me usando? – riu, enquanto abria outro chocolate. – Não que não tenha gostado de brincar com a Violeta... Mas estava na hora de comer meu chocolate.

–Argh! Está bem! Mas iremos lá fora, tudo bem?

–Mas me leva nos ombros!

–Sim...

YUUUUPI!!!!

Coloquei-a sentada em meus ombros e fomos para a região do templo de Athena. Quando chegamos próximos a estátua, o cosmo da criança reagiu, quase que queimando meus ombros. A coloquei no chão e a vi se aproximar da estátua. Quando a tocou, uma explosão de cosmo tomou conta do lugar. Aquilo me deu uma certa paz. Após um tempo, ela retornou para meu lado:

–EI, Saga... Já que essa estátua sou eu... Que tal se nós a pintássemos de roxo e rosa? Não quero ser uma estátua tão apagada!

–AI MEU ZEUS! – exclamei, colocando a mão no rosto – Senhorita... Essa estátua não pode ser pintada. Está aqui desde tempos mitológico...

–Ah... – ela esmoreceu e fez que ia chorar.

–Mas... Que tal se nós esculpíssemos uma para você pintar?

–Faria isso por mim, Saga?

–Tudo!

–YUUUUPI!!!

–Marie... Peça para as servas um pouco da argila que elas usam para fazer os jarros. Depois pegue aquele seu rádio de pilha e volte ao quarto.

–Certo tio! – ela disse, saindo.

–Saga... O Shion é legal, mas você é mais divertido.

–É? Então vamos nos divertir muito hoje!

–EBAAAA!

Retornamos para o quarto dela. Marie já estava lá com a peça de argila, esculpindo uma miniatura da estátua de Athena e ouvindo uma música do Queen:

–AH NÃO MARIE! – disse a garotinha – EU QUERO UMA DO MEU TAMANHO!

–Mas aí eu não consigo esculpir, Violeta...

–Deixa comigo então! – falei

Enquanto modelava o barro, cantava junto com minha sobrinha:

–I see a little silhouette of a man (Eu vejo a pequena silhueta de um homem) – Marie começou.

Scaramouch! Scaramouch! Will you do the fandango? (Palhaço! Palhaço! Você fará o fandango?) – completei.

Thunderbolt and lightning, very, very frightening me (Raios e trovões me assustam muito e muito).

–Galileo...

–Galileo...

–Galileo...

–Galileo...

–Galileo! Figaro...

–MAGNIFICOOOOO!!! – finalizamos juntos, rachando o bico depois.

A pequena deusa ria sem parar. Acho que ela nunca havia escutado música dessa forma antes. A noite caiu e Marie lhe contava a tradução das músicas que cantamos, enquanto eu tentava deixar a estátua em um canto para secar. Sabia que isso não aconteceria de uma hora para outra e que não havia um forno para fazê-lo, então achei melhor conversar com ela:

–Pequena... – peguei-a no colo. – A estátua só secará amanhã... Tudo bem?

–Sim!! – ela bocejou e coçou os olhos – Estou cansada... Foi muito divertido brincar com vocês, mas agora quero dormir. Me põe na cama?

–Claro...

A coloquei na pequena cama e a cobri. Ela virou para o lado, abraçou a bonequinha e sussurrou:

–Boa noite.

Dei-lhe um beijo na testa e murmurei:

–Durma bem.

Saímos do quarto devagar. Era difícil crer que aquela criança tão enérgica era a nossa deusa. Marie sentou-se no chão, do lado do meu trono, com seu tradicional chocolate nas mãos. O tédio voltou a pairar, porém eu não iria deixar isso acontecer:

–HEY MARIE! – gritei, ficando de pé em no trono – LEVANTA E DANÇA JUNTO COMIGO! EU FAÇO A PRINCIPAL E VOCÊ OS BACKING VOCALS! – puxei a capa do trono e comecei a cantar e dançar — Oh baby give me one more chance (oh baby, e dê mais uma chance)

Show you that I love you. (mostro que te amo) – ela continuou, fazendo o chocolate de microfone.

–Won't you please let me. (Você voltaria por favor para mim)

–back to your heart (de volta para o seu coração)

–Oh darlin' I was blind to let you go (Oh querida eu estava cego para deixar você ir embora)

–let you go baby (deixar você ir bebê)

–But now since I see you in his arms (Mas agora desde que eu te vi nos braços dele)

–I want you back (eu te quero de volta)

–Yes I do now (Sim, eu quero)

–I want you back (Eu te quero de volta)

–Ooh ooh baby

–I want you back (Eu te quero de volta)

–Ya ya ya ya

–I want you back (Eu te quero de volta)

–Na na na na

De repente, uma serva entrou no recinto, pigarreou e nos tirou do momento “Jackson Five”:

–Perdoe-me a interrupção, mas o jantar está servido.

–Ah! Falou, ternurinha! Vou lavar as mãos e já vou.

–Senhorita Marie, poderia vir aqui um instante?

–Eu juro que não fui eu! – virou-se para mim – Posso, tio?

–Vai lá.

#Marie’s POV#

A forma com a qual a serva me chamou, levou-me a crer que houve desconfiança de algo. Embrulhei meu chocolate e fiquei segurando-o entre as mãos enquanto a seguia. Finalmente ela parou. Estávamos em uma área externa, de onde podíamos ver o Coliseu ao longe. Fiquei um tempo admirando a vista, até ela se pronunciar:

–Desculpe se estou sendo impertinente, mas tem algo estranho aqui.

–Qual a fofoca?

–Acho que você como sobrinha saberá me responder: O que há com o senhor Saga? Ele sempre foi discreto... Mas hoje está tão... Enérgico!

–Ah? É isso... Bom... É minha culpa. Eu dei muito chocolate para ele... Quem não está acostumado a comer isso como eu... Acaba com excesso de energia no corpo. Dizem até que é o mesmo que estar baratinado.

–E porque fez isso, garota?

–Ah... O tio Saga é MUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUITO CHATO!

–Bem... Não de pode negar quem muita educação irrita, né? Vamos logo, ou ele vai estranhar.

–Hey... Antes de voltarmos, poderia me responder uma coisa?

–Sim?

–A criança Athena falava sem parar de um tal Shion... Quem é ele?

–Dizem por aí que é o verdadeiro nome do Grande Mestre, mas eu não sei.

–Ah...

Retornamos ao salão principal. Tio Kanon já estava lá, com cara de quem estava com fome:

–O jantar será servido aqui mesmo? – perguntou.

–Não... Irei conduzi-los a sala de refeições. – ela disse, se curvando – Podem passar.

–Não precisa se curvar, já disse. – indagou meu tio, puxando o corpo da garota para cima – E as dendecas vão na frente, por favor!

–Ce-certo, senhor – respondeu de olhos arregalados, mas querendo rir, já que tinha acreditado na minha história.

A serva nos levou a outro salão coberto de cortinas vermelhas e iluminado por diversos castiçais. Alguém avisa para esse povo que estamos no século XX e que existe eletricidade? Só hoje foram meia dúzia de pilhas no meu rádio. As servas nos prepararam um banquete esplendido, com todas aquelas iguarias gregas que eu nunca havia provado, mas morria de vontade. Quando havíamos terminado a refeição, aquela mesma serva que nos guiou veio perguntar se estávamos satisfeitos:

–Eu não quero mais nada... E você, Marie?

–Mais do que satisfeita. Obrigada pela comida.

–Bem, gatinha... O jantar estava delicioso. Valeu!

Ao dizer isso, meu tio meteu um tapa tão forte no bumbum da moça que ecoou por todo o salão. Deuses... Pensar que teria que aguentar isso até o tio Saga voltar:

Só espero que ele não se empolgue na festa e esqueça seu dever de cavaleiro... – Pensava, enquanto via a serva discutir loucamente com meu tio. Seria um longa noite.

Notas finais
***Dicionário de Gírias*** Goiaba = Bobo; Desembucha = fale logo; Alcaguete = Dedo duro; Faturar/faturador = ganhar dinheiro; Botando banca = parecendo importante; Alta = alta sociedade Chinfra = se passar pelo que não é; Dar uma de bacana = presunção de importância; Dondocas = mulheres da alta sociedade; gamadas = apaixonadas; Meter o blá = conversar; Bunda Mole = Covarde; Botar para quebrar = Tomar uma forte decisão; Fedapê = Filho da Puta; Morocongo = homem sem atitude; Baratinado = drogado; blábláblá = burburinho; porra louca = irresponsável; Azule = desapareça; Ternurinhas = lindas; Dendeca = mulher bonita; granfinas = mulheres ricas; Pelas barbas do profeta = expressão de espanto; Supimpa = legal; Qualé o Pó? = Qual é o problema? Cafona = brega; mal vestido; A essa altura do campeonato = agora; Porralouquisse = irresponsabilidade; **As músicas cantadas por Kanon foram, respectivamente:**That's Way - KC and the sunshine band; Bohemian Rhapsody - Queen; I want you Back - The Jackson Perdoem pela bíblia, mas queríamos destacar os problemas do Saga. Esperamos reviews nesse capítulo, ou nada de continuação E DESSA VEZ É SÉRIO!! Dulces Besos de Chocolate