Khalmyr atravessou cordilheiras e planícies, charcos e florestas, abismos e ninhos de monstros. Seu objetivo estava ao final de uma labiríntica masmorra. Chamou Valkaria e no instante seguinte se viu montado num belo cavalo branco diante da torre de um castelo encantado. Na sacada estava a deusa da ambição e da aventura, sentada como uma donzela indefesa esperando seu herói. Seu cabelo rosado estava em uma trança elaborada de metros de comprimento decorado com flores exóticas.

— Meu herói prometido, vieste para salvar-me?

— Me desculpe mas não vim para brincar contigo – Khalmyr abanou a mão e o cavalo se desfez em fumaça.

A deusa suspirou desapontada e desfez a ilusão. Ela retomou sua aparência de quem está sempre pronta para uma aventura. Mas a torre continuou ali como se uma torre numa masmorra fosse a coisa mais natural do mundo.

— Tá, então o que tu queres? – ela apoiou as mãos a cintura e um pé no parapeito da sacada.

— Gostaria de saber qual a sua relação com o que está acontecendo em Arton – fez uma pausa analisando a expressão dela. – Você e Keen se aliaram? Estão tramando algo?

Valkaria ficou série e saltou para o chão.

— Não estou tramando nada! De onde tu tirasse essa ideia ridícula?

— Humanos estão se movendo para exterminar outras raças. E esses humanos usa a SUA imagem em seus brasões.

— Claro que usam – ela se aproximou lentamente –, são humanos. E ambiciosos.

— Por favor… – a postura estoica de Khalmyr não oculta seu desconforto com a conversa. – Não quero te ver nos trair novamente, irmã.

Valkaria se curvou aproximando o rosto dos dois. Em Odisseia ela tinha o tamanho que quisesse.

— Talvez não tenhas notado, “irmão”, mas também usam minha imagem do outro lado.

— … e você está de acordo com que este morticínio aconteça?

— Escuta aqui, Khalmyr – ereta novamente, apontou um dedo acusatório contra o visitante –, talvez eu não goste dos métodos e menos ainda do motivo. Mas se o que tu queres é ajuda para impedir que humanos desafiem o mundo em busca de um ideal que acreditam tu vistes falar com a deusa errada.

Khalmyr ficou em silêncio. Em sua postura imóvel e armadura brilhante poderia ser confundido como parte dos tesouros da câmara. Quando abriu a boca para falar mais uma vez foi interrompido.

— E nem sei porque tô te dando satisfações, nem nosso líder você não é mais.

Ele confirmou.

— Você tem razão, eu não devia ter vindo. Foi tolice minha esperar que você tivesse mudado.

Ele deu meia volta e tomou a direção para sair de Odisseia. Valkaria só faltou cuspir fogo de raiva mas não estava interessada em continuar a discussão. Enquanto voltava para a torre garantiu que a viagem de volta dele fosse muito mais cheia de encontros aleatórios.

A deusa voltou para a torre exasperada.

— Afinal o Khalmyr é chato por esporte ou é o hobby dele?

— Não deve ser mais que um vício – respondeu o convidado.

Keenn, o deus da guerra, não desviou os olhos da tela. O objeto de cristal exibia imagens do que estava acontecendo no plano artoniano, mais especificamente a batalha na fronteira entre Yuden e Deheon.

Valkaria pegou a bacia de pipoca que havia largado no assento e sentou no encosto da poltrona.

— E então, como está indo?

— A tropa de Deheon caiu, e a de Bielefeld está levando uma surra.

— Ah não! Justo quando eu não tava olhando? – ela jogou algumas pipocas que ele ignorou. – Tu trapaceou!

— Como se eu precisasse fazer algo assim. Mas se te deixa satisfeita os teus queridos conseguiram uma grande vantagem pegando um item estratégico.

Exclamando de excitação, Valkaria escorregou para o assento da poltrona de pernas cruzadas e com a pipoca no colo. Encarava a tela cristalina ansiosa pelo que estava por vir.

— Eu ainda vou ti provar que aventureiros são beeem melhores que soldadinhos.

— Veremos...

Notas finais
Para saber como esta história continua assista A Guilda do Macaco.
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