Enquanto for poesia
1 Um solo em dueto
Notas iniciais
Um synthpop soava ao fundo enquanto a banda da vez ajustava seus instrumentos no pequeno palco do Alice. Dominique entrou pelas portas duplas do pub e atravessou o salão com calma, observando as pessoas e suas conversas animadas, até reconhecer seus amigos numa mesa próxima ao palco.
— Achei que não viria mais — Helena reclamou ao vê-lo se aproximar, e os presentes na pequena mesa de metal viraram em sua direção —, sabe que horas são?
— Desculpa! Fiquei preso com minha mãe — justificou enquanto puxava uma cadeira para juntar-se a eles.
— Pelo menos não vai perder a segunda banda — Lucas cochichou aproximando-se, e apontou com a cabeça pro palco —, olha aquele guitarrista.
Dominique olhou pro grupo e encontrou um moreno baixinho com uma LTD vermelha nas mãos, até bonito, e riu do amigo que mordia os lábios numa expressão erótica pro músico.
— É bom cair em cima antes que alguém o faça — Dominique avisou.
— Eu não tenho chance.
— Não tem mesmo — Helena concordou.
O som das cordas da guitarra dele soou antes que uma voz rouca trouxesse Killed by love, e todo o bar acompanhou a letra. Calmamente, seus dedos deslizavam e trotavam entre as notas, de olhos fechados e expressão calma, até que sorriu durante o refrão. Seus dentes pequenos se mostraram por trás dos lábios bem desenhados.
Dominique se pegou acompanhando os movimentos dele enquanto a música calma cedia lugar ao velho glam rock, hipnotizado pela mudança de cor do seu rosto sob os holofotes coloridos, seus sorrisos contidos ao representar um solo e os momentos em que fechava os olhos para apreciar somente a música que tirava daquela guitarra. Até que seus olhos encontraram os olhos escuros dele. Não durou mais que alguns segundos, mas foi o suficiente para deixar sua cabeça em chamas.
— Cerveja? — Lucas perguntou e o serviu sem esperar uma resposta. A cerveja gelada espumou no copo e o único momento em que Dominique tirou os olhos do rapaz sobre o palco foi para virar a bebida na boca.
Antes da quarta música, já estava imaginando que armação inventaria para encontrá-lo fora do palco, e o que diria quando se esbarrassem, o que inventaria para descobrir seu nome e convidá-lo para uma dose. Sua pele parecia gelar sob a ansiosa perspectiva de se aproximar.
Quando acabassem a apresentação e ele estivesse guardando seu instrumento, provavelmente Dominique tropeçaria nos fios e pediria desculpas, uma deixa para elogiar a performance da banda. Diria seu nome e descobriria o dele. ''Victor'' inventou e o imaginou dizendo, ''é um prazer''.
— Você bebe? — Dominique perguntaria, e ele responderia que sim. Beberiam algumas juntos, e no fim da noite, um convite para a casa dele, que Dominique aceitaria.
Depois de ruas escuras e um elevador, chegariam ao apartamento apertado cheirando a cigarros que Victor provavelmente não gosta de arrumar. Ao tirar peça por peça, de pé na frente do convidado, sorriria e o incitaria a se aproximar. Dominique não resistiria, enclausurado no seu sorriso de dentes pequenos e lábios finos. Deitariam na mesma cama e dividiriam as peles, entre risos e carinhos, até de manhã. Acordariam com os cheiros trocados, que permaneceria vivo pelo resto do dia, até a primeira ligação.
Não levaria nem sete dias para que Dominique estivesse de volta àquele apartamento, nem trinta para que começasse a passar seus dias lá. E estaria preso num mar de diferenças — aquele amontoado de novidades pelas quais você se apaixona —, desde os cigarros mentolados ao calibre das cordas da guitarra vermelha. Fumaria até estar com o cheiro de menta impregnado nos cabelos e esfolaria a ponta dos dedos na LTD tentando entender o sentimento que trazia à tona os pequenos dentes de Victor durante os solos.
Dominique o apresentaria a seus livros para que passassem as noites misturando Depeche Mode e Victor Hugo, dividindo o mesmo copo de café e trocando os chinelos. Um fecharia as cortinas quando deitassem para que o outro as abrisse pela manhã.
Haveria pizza à noite, quando chegassem cansados do trabalho, e cerveja quando Victor fosse tocar em algum bar. Haveria beijo de bom dia, ovos e nó na gravata. Criariam uma música chamada Dominique, que o faria brilhar como nunca ninguém fez. E, quando o dinheiro não desse, viveriam ao avesso até dar. Os dias flutuariam calmos e fartos enquanto a poesia durasse.
E de bom dia em bom dia, o boa noite não viria. O cansaço do trabalho abriria metros de distância na cama, sem que seus corpos ansiassem um pelo outro, e o riso de dentes pequenos custaria caro demais para os bolsos pequenos de Dominique. Nem o perfume preferido chamaria sua atenção, nem o cheiro de menta, nem Killed by love, e o dia perderia metade de suas horas.
Os dedos de Dominique batucariam sobre a mesa, ansiosos e consternados, quando Victor se atrasasse, e nenhum esclarecimento seria consolo. A cama pareceria king size quando passassem a dormir de costas um pro outro, assim seria inverno o ano inteiro. Seria inverno até que não fosse mais — até que não houvesse acorde nem espuma no copo, os refletores se apagassem e todo mundo deixasse o bar.
De amores pré-pagos Dominique decidiu que não precisava.
Quando os aplausos discretos anunciaram o fim da apresentação, um sorriso aflito emoldurou seus lábios. Tomou o último copo e decidiu que não tropeçaria em fio nenhum, e assim evitaria qualquer desconsolo. Observou-o enrolando os cabos da guitarra vermelha e deixando o palco em direção ao bar, os dentes pequenos espalhando cumprimentos em sorrisos.
Levantou da mesa, ignorando os questionamentos de seus amigos, desviou do olhar curioso do guitarrista e saiu pela porta do Alice para as ruas escuras que atravessaria sozinho até chegar em casa, imaginando o cheiro de menta.
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