Enquanto agonizo
1 Capítulo 1
O som agudo da unha média se partindo deu para ser ouvido até mesmo através dos fones em meus ouvidos. Aquela era a terceira unha arrancada pelos meus dentes, e ao julgar o estado da mão grosseiramente desigual não foi difícil se conformar de que eu teria que refazer a francesinha no salão do hotel pela bagatela de oitenta reais. Oitenta reais para as unhas, doze para barra de toblerone e trezentos para a garrafa de uísque com o nome já bem definido do meu pai em seu rótulo.
Viajar a negócios é assim. A primeira viagem é satisfatoriamente excitante, cheia de mistérios, controle emocional sobre-humano e um curioso e fascinante regresso a época infantil quando ao sentirmos nervosos, prendíamos os joelhos ao peito num abraço fetal tolo e chorávamos todas as lágrimas sem sentido no chão. Sim, foi dessa maneira como me senti na primeira viagem a trabalho.
O tremor no meu assento, no entanto, era talvez minha vigésima quinta turbulência de negócios. Foi apenas na terceira carimbada no passaporte que finalmente aceitei a normalidade daquele serviço.
A quarta unha já estava presa nos meus dentes pronta para ser degolada, meu polegar no celular ansioso para pular a música até Björk, quando o braço do passageiro ao lado esbarrou no meu, quase derrubando o celular precariamente preso em minha mão. Ele se virou, tocou no meu cotovelo coberto pela manga de malha branca e se desculpou.
Não era difícil não notá-lo, nem mesmo o homem mais hétero desse voo ficaria impune de se preocupar com a autoimagem só de olhar para aquele espécime ao meu lado na janela. Homem alto mesmo sentado, ombros largos, corpo notoriamente malhado, maxilar digno de deus grego, lábios carnudos em uma indecência luxuriosa, cabelo e olho castanho em perfeita sintonia com a pele bronzeada. E a barba rala, é claro. Ele era no mínimo um modelo europeu. Ou uma experiência estética muito bem-sucedida. E estava chorando.
A minha história não tinha nada interessante, dramática ou excitante para saciar alheios, mas aquele cara, sim, inspirou minha mente a refazer o caso no meu e-mail. Por isso que escrevo, por ele.
O homem não estava chorando, pelo menos não ainda, mas seus olhos seguravam uma água rebelde, esperneando para descer daquelas pálpebras. Ele lia algumas cartas em seu colo e por um momento esqueci o maravilhoso trabalho de Björk na playlist e tentei inutilmente saber o conteúdo daquela tristeza toda. Meus olhos intrusos passearam rapidamente pelo papel, mas eu só tinha azar nessas coisas. Não sei disfarçar, consequentemente morria de medo em ser pega com as mãos na botija.
Não precisou de muito esforço para que meu cérebro medroso fizesse eu desistir e por fim selecionar Cocoon de Björk. Abri o livro de William Faulkner 'Enquanto agonizo' esquecido no colo, e desta vez, fui a responsável da troca de cotoveladas. Desculpei-me.
Ele se virou e sorriu, e estava finalmente chorando.
Encarei a página oitenta e dois como se tivesse uma espinha na minha nádega, de outro modo, uma coceira dentro do ouvido inalcançável, ou ao que sempre costumei alegar imunidade: empatia.
— Está tudo bem? — Indaguei com o último resquício de sem-vergonha. Puxei os fones e apertei o livro tão forte quanto o meu medo da sua resposta.
Ele respondeu fracamente que sim, seus olhos no papel, a mandíbula travada. Limpou a bochecha com as costas da mão e fungou antes de me encarar rapidamente. — Estou bem, obrigado. — Disse novamente, com a voz recuperada antes de voltar sua leitura da discórdia. Talvez tivesse pensado que ao me olhar seria convincente o suficiente para que eu deixasse pra lá e ficasse quieta. Mas até hoje eu nunca vi essa técnica dar certo com ninguém.
Estava sendo constrangedor até mesmo para mim. Eu não era acostumada a ver homens daquele porte chorando daquele jeito, ou chorando, na melhor das hipóteses. Fui criada dessa forma, homens não choram. Meu pai não chorou quando minha tia morreu, meu irmão não chorou quando o osso de seu braço pulou pra fora. Bobagem. É claro que homens choravam, mas não na minha frente.
— Se precisar de alguma coisa. — Ousei oferecer à espera de um fora, mas tudo o que recebi foi uma resposta glacial em forma de aceno, sem nem mesmo a dignidade de seu olhar. Só isso. Retomei a leitura com um suspiro preso na faringe, soltei segundos depois. — Olha, desculpe… Mas se tiver algo o incomodando e quiser… — Percebi prontamente quão tola estava sendo. Sim, algo o incomodava, não seja asna. E por favor, supliquei internamente, pare de incomodá-lo com sua inconveniência. — ...Conversar. — Finalizei, mais desconfortável do que antes.
O homem dobrou a carta já amassada ao meio com os dedos que a segurava e encostou a cabeça no assento, levando os olhos desanimados até o meu colo. — Eu já li esse livro. — Disse num tom rouco e preguiçoso. — Sabe o que mais gostei nele? A inércia.
Só agora escrevendo essa cena que me dou conta do que ele quis dizer com essa resposta naquela hora. Quão tragicamente irônico foi minha escolha de leitura para aquela viagem.
— É um livro bem escrito. Ainda estou no começo, mas estou gostando. Semana passada eu finalizei o livro 'Cut and run', mas que desperdício da minha vida! — Disse na falta do que abordar, apenas para distraí-lo. — Quando eu saí da puberdade decidi que leria clássicos, ensaios filosóficos, teses científicas, peças complexas. Fui bem-sucedida por um tempo, mas então, desde o fim da puberdade até semana passada tive recaídas de livros merdas como 'Cut and run'. Acho que faz parte da maldição de ser humana.
— Ninguém é perfeito. — Concordou num resquício de humor, apesar de muito fraco. Quase inexistente. — Que livro é esse? — Perguntou, me encarando por fim.
As mesas viraram. Gaguejei. Remexi a bunda no assento. Disse, bem… Gaguejei novamente. — Romance policial. — Revelei sucintamente, escondendo o fato de ser romance gay policial. Eu ainda era muito insegura e ciente o suficiente para revelar a pessoas desconhecidas que apesar de hétero, gostava de me emocionar com romance homossexual. Ou as partes picantes. Não mesmo.
— Gosta de livros policiais ou só foi uma má escolha com 'Cut and run'?
Antes de respondê-lo eu tive um rápido lapso de distração com sua beleza e charme. Ele estava bastante perto, seus olhos com completa atenção em mim, ele era sério. Estava atraída, estava intimidada.
— Má escolha. Nunca tive muita curiosidade com livros desse gênero. Você gosta?
— Eu preciso. — Revelou, direto e seguro. — No começo da minha faculdade era só o que eu lia, até que os abandonei para estudar casos reais, ler biografias. Estou numa viagem a negócios.
— Eu também! — Revelei sorrindo largamente, contente finalmente por algo que tínhamos em comum. Isso era definitivamente ótimo, agora poderíamos falar sobre nossos empregos.
Mas ele não disse. Acenou e voltou a olhar o conjunto emocional em seu colo e desdobrar outra carta. Já não chorava mais.
— Algo me diz que sua tristeza é por culpa delas. — Intrometi novamente. Eu vi sua língua passar pela bochecha e cogitei a possibilidade do quanto ele poderia estar irritado comigo agora. Resmungou em afirmação. E talvez, impaciência? — Está se mudando?
— Sim.
Bingo!
— Eu sou boa no que faço, mas aparentemente há pessoas melhores na matriz para que eu não corra o risco de mudar de país.
— O que você faz? — Questionou, encarando curioso pela primeira vez.
— TI.
— Direito.
— Engraçado como as coisas são. Você é sério. Tenho certeza que agora sabendo o que sei, se eu apertar sua mão você irá praticamente quebrá-la com a firmeza de seu ofício nas costas. Coisas de empresários, diretores, políticos, advogados. Uma vez, meu diretor financeiro fez eu pular e esguichar com sua mão. Fui chacota, é claro. — Disse, sorrindo. — Mas não o imaginei advogado antes.
— Imaginou o que?
Modelo. Foi o ímpeto da minha resposta, mas graças ao discernimento que ainda restava na minha cabeça oca, eu repassei primeiro a palavra '‘modelo de cueca’' antes de falá-la. Era de fato, uma péssima ideia.
— Ahn… Não sei. Engenheiro.
A mulher sentada na ponta do corredor ao meu lado bastante quieta e quase invisível até aquele momento, soltou uma risada nasalada clara à minha resposta. Eu a encarei de lado, dura e extremamente nervosa, retomando a atenção rapidamente ao rapaz, com um sorriso duro no rosto. Pouco ela pareceu ter se importado com a indelicadeza.
— Não estou flertando, gostaria que ficasse claro. Tenho namorado e sou muito fiel a ele. — E seu nome era Brad Pitt, é claro. Uma mentirinha não fazia mal a ninguém, pelo menos o deixaria à vontade com minha falta de interesse. Durante toda nossa conversa eu estava ciente que não o veria mais de qualquer forma. — Mas você é muito bonito, pensei que fosse algum modelo.
Ele não disse nada. Sustentou o olhar sério e resmungou 'uhum'. Poderia ter sido mais doloroso.
— É muito difícil se despedir, não é? Tenho certeza que as palavras de seus pais e amigos o comoveram, eu também ficaria desolada se fosse a minha partida.
— Nem dos meus pais, nem dos meus amigos. Essas cartas são só de uma pessoa.
Finalmente, esquentava. Próxima a verdade. Pela primeira vez, hesitei em continuar a interrogação, me questionando mentalmente se a desgraça dele realmente valia a pena minha curiosidade. Não valeria, eu sabia bem no fundo. Para ser sincera, a curiosidade morreu há três perguntas atrás. Eu só queria vê-lo distraído.
Olhei o livro aberto no meu colo, mas não conseguia ler as palavras poéticas e comoventes. Uma criança no fundo do avião chorou.
— É um homem. — Revelou friamente, juntando as cartas e enfiando o punhado no lixo de pano do assento a frente. — Ele ainda era meu namorado há exatamente um dia.
— Não é mais.
Não era uma pergunta.
— Quanto tempo?
Ele me encarou.
— Que estávamos juntos?
— Sim.
— Como amantes, dois anos. Como amigos, sete. Eu não deveria falar essas coisas para você. Não é da sua conta.
— Não. — Concordei, depois de um tempo. — Mas estou aqui se quiser desabafar.
— Cômico, dizer isso. — Não me olhava mais. Ele se remexeu na cadeira, limpou a garganta e suspirou pesadamente. — Até agora não conversei com nenhum amigo. Tenho uma leve impressão que deixei eles acreditarem que sou forte o suficiente para aguentar calado, sozinho. Eu achava que era. Meu olho está vermelho?
Não consegui responder, havia uma grande possibilidade daquela pergunta ser retórica.
— Mas não aguentei, não aguento. Ele me enviou essas cartas via postal, ao invés de mandar uma mensagem no bate papo do celular. Você por acaso ainda conhece alguém que mande cartas? — Ele me deu um olhar quase divertido. — Esse era ele… Era uma pessoa interessante. E não fazia isso porque era romântico. Deus, ele sabe como odeio romance! As cartas eram sobre qualquer coisa idiota, política, algum poema pessimista, algo engraçado. Ele as mandava porque sabia que eu gostava de recebê-las. E não havia motivo para essa babaquice, morávamos no mesmo bairro.
Ele pausou. Conseguia vê-lo raciocinar algo em seu cérebro que só ele entendia.
— Não sou simpático, moça, aliás sou muito difícil. Não estaria conversando com você agora se não fosse por ele. Você viu algo que nem meu melhor amigo de infância viu, se você contasse a ele que eu estava chorando provavelmente logo presenciaria o idiota no chão rolando de rir. Foda-se… — Resmungou e suspirou, inclinando-se para o lado oposto e olhando as nuvens pela pequena janela oval. Ele visivelmente enfrentava sua própria guerra interna. O homem era igual ao meu pai, desconfortável com emoções, macho-alfa da sociedade, problemas e tristezas enterradas no estômago. Ele não falaria mais por si só.
— Vocês terminaram por causa da mudança?
— Já tive um namoro à distância com uma atriz bem-sucedida uma vez. Ela se apaixonou por outro cara.
Não precisava mesmo dizer mais nada.
— Foi difícil escolher entre ele e sua carreira?
Ele se remexeu incomodado na cadeira e depois de um longo tempo me encarou. — O que você faria?
Presa na minha própria armadilha, foi assim que me senti. Eu não sei, era o que pensava naquela hora, mas ao vê-lo logo me decidi o que faria. Agora eu sabia.
Eu teria feito exatamente a mesma coisa. Ainda assim, teria assinado o contrato, feito minhas malas, perambularia de insônia pela casa, teria terminado o relacionamento e chorado durante a viagem no avião, os dias conseguintes e talvez meses depois.
Não era justo me perguntar aquilo. Me fez sentir a dor por algo que não sofria. Me mostrou que poderia eu ser ele, segurando um punhado de cartas, chorando uma perda que eu mesma larguei. Não era justo.
Por um momento, percebi a mulher do meu lado encarar-me também. Mas nenhuma resposta era dada, nenhum gemido escapulido, apenas um suspiro foi o melhor que pude fazer.
— Baseado na minha vida pessoal e profissional, eu sei que fiz a escolha certa…
— Eu te entendo mais do que imagina. — Disse, por fim. — Só lamento por você não ter o que fazer. Lamento também por eu não saber o que falar.
Enquanto escrevo isso, ainda sinto o gosto amargo da impotência daquele momento. Todas as múltiplas sensações ruins e miseráveis me consumindo lenta e sadicamente. Não se desculpa! Perdão, caro desconhecido melancólico.
— Ele também me entende. Disse que não gostaria mais de ver minha cara, mas que compreendia a decisão.
Apesar de ter passado horas com aquele belo homem cujo nome desconheço, visto nele meu pai quebrando-se pedaço por pedaço, sofrido sua dor como minha própria, o que realmente me impulsionou a relatar oficialmente isso foi o que ele disse depois, pouco antes de aterrissarmos em Glasgow e cada um seguir o seu caminho.
— Um dia encontrarei outro, ou outra. Ele não é a única pessoa nesse planeta de deus. Mas até lá, só sei de uma verdade; eu o amo. Meu corpo dói de amor, de perda, de saudades. Eu o amei como meu melhor amigo por seis anos, o amei como interesse romântico por um e o amei como amante, companheiro, família por dois. Não deixarei de amá-lo enquanto respirar, mas um dia, aprenderei a amar outra pessoa até o ponto que o que perdemos hoje será apenas uma lembrança dolorosa de um amor que fechou os olhos e foi dormir.
E depois ele não falou mais.
Inércia.
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