Enquanto Ela Silenciava
3 Capítulo 3 - Conversas que Nunca Dormem
Em uma de suas conversas, entre emojis e risadas enviadas no silêncio da noite, Diego se pegou curioso — curioso de verdade. Não era apenas sobre os gostos ou as frases engraçadas que ela compartilhava; era sobre quem ela era.
O perfil dela no Instagram dizia pouco: algumas imagens delicadas, legendas poéticas, e um nome enigmático — “G.souza23”. Aquilo o intrigava. Seria um apelido? Um código? Um disfarce?
— “Gabi, o que significa esse ‘G.souza23’? Qual o seu nome de verdade?” — perguntou, em tom leve, como quem disfarça o interesse por trás de uma pergunta despretensiosa.
A resposta chegou em segundos:
— “Gabriela Souza 😊”
Simples. Direto. Mas, para Diego, aquele nome ganhou um brilho próprio. Ele passou a repeti-lo mentalmente como se fosse música.
Os meses passaram, e embora a confiança entre os dois ainda estivesse em construção, algo novo crescia ali — algo silencioso e bonito. As conversas eram espontâneas, descompromissadas, mas carregadas de uma naturalidade que só existe quando há afinidade de alma. Falavam sobre tudo: séries favoritas, músicas, sonhos estranhos, comidas que odiavam. E cada resposta os aproximava.
Diego, sempre curioso, perguntava o que ela gostava de fazer nas horas livres, qual sua cor preferida, se preferia praia ou montanha. E Gabriela, paciente e gentil, respondia a tudo com um sorriso que, mesmo invisível, ele conseguia sentir do outro lado da tela.
Até que, num impulso mais direto, Diego digitou:
— “Gabi, você tem namorado? Ou está ficando com alguém?”
Era a primeira vez que quebrava a superfície daquela amizade com uma pergunta que podia revelar sentimentos. Gabriela respondeu com uma mensagem que vinha acompanhada de um emoji sorrindo:
— “Não. Tô solteira. Meu último relacionamento foi bem complicado… o cara foi um idiota comigo. Depois disso, me fechei pra esse lance de amor.”
Diego entendeu. E, por um instante, quis abraçá-la — mesmo que apenas em pensamento. Respondeu com sinceridade:
— “Eu entendo. Passei por algo parecido. Saí bem machucado da última vez.”
Havia ali, naquele breve diálogo, um pacto não declarado entre dois corações partidos.
Ambos carregavam segredos. Dor antiga. Feridas que ainda não cicatrizaram. Diego ainda lutava em silêncio contra a depressão que se arrastava como sombra desde o fim com Luci. Gabriela, por sua vez, tinha os próprios fantasmas — e um deles veio à tona de forma inesperada.
Numa noite comum, ao falarem de relacionamentos, Diego percebeu uma mudança súbita no ritmo das mensagens. Gabriela ficou em silêncio por alguns segundos, e quando voltou, sua respiração estava alterada. Respostas curtas. Palavras desconectadas.
— “Tá tudo bem aí?” — ele perguntou, preocupado.
Ela demorou a responder. E quando o fez, foi com um sussurro disfarçado:
— “Tá tudo bem… foi besteira.”
Diego não sabia, mas ela sofria de crises de ansiedade severas. E naquela noite, a simples lembrança de uma mágoa antiga havia disparado algo que ela tentava conter sozinha.
A intimidade entre eles cresceu em silêncio, nas entrelinhas das conversas e nas madrugadas que se estendiam sem perceber. Riam tanto, às vezes, que os pais de Diego batiam na porta pedindo silêncio — “Já passou da hora, menino!”
Mas era nessas madrugadas que tudo acontecia. Era ali que as barreiras caíam e o mundo parecia menos frio. Em uma dessas noites, Gabriela teve outra crise — mais forte que as anteriores. Mesmo sem entender exatamente o que estava acontecendo, Diego percebeu. Havia algo diferente em suas mensagens. Algo mais urgente.
Com paciência, começou a conversar com ela, guiando-a com palavras calmas, distraindo sua mente, tentando fazê-la manter o foco em algo seguro: nele. Falou sobre bobagens, contou uma história engraçada, fez perguntas aleatórias — qualquer coisa para mantê-la ali, presente, respirando.
Funcionou. Gabriela conseguiu se acalmar.
Naquela noite, ela passou a enxergar Diego de outro modo. Não apenas como alguém com quem conversava. Mas como alguém que a acolhia. O jeito como ele cuidava dela, a delicadeza, a atenção nos detalhes… tudo isso começou a tocar um lugar que ela havia fechado há muito tempo.
E, embora ela ainda não soubesse se aquele sentimento era real, já não conseguia ignorar o que sentia quando via seu nome surgir nas notificações.
Mal sabia ela que Diego já estava apaixonado desde o momento em que a viu pela primeira vez no story do amigo. Mas, por enquanto, esse sentimento era um segredo — um silêncio doce guardado no peito de ambos.
E talvez… fosse melhor assim. Por agora.
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