Enquanto Ela Silenciava

2 Capítulo 2 - Perfis e Presságios



Em pleno 2019, era comum que jovens da idade de Diego estivessem imersos nas redes sociais — Facebook, Twitter, Instagram. Mas ele, sufocado pela baixa autoestima e pelos cacos da dor que ainda carregava no peito, havia deixado essas coisas de lado. As redes pareciam distantes, irrelevantes. Como sorrir para o mundo quando mal se reconhecia no espelho?

Foi então, num impulso quase involuntário, que decidiu reativar seu perfil no Instagram. Talvez buscando uma distração. Talvez querendo, ainda que sem admitir, recomeçar. Começou a postar algumas fotos — imagens simples, sem grandes pretensões, mas que marcavam uma tentativa tímida de se reencontrar.

Sua mãe, Glória, sempre estivera ao seu lado. Mulher forte, sensível, musicista de alma e profissão. Vendo o filho à deriva, decidiu tentar o que conhecia de melhor: a música. Matriculou Diego numa associação musical local, acreditando que, ao tocar um instrumento, ele também pudesse aprender a tocar novamente o próprio coração.

Foi ali que Diego conheceu Ruan — um velho conhecido de seu irmão e uma figura bem diferente dos amigos que costumava ter. Ruan era expansivo, popular nas redes sociais, e seguia tendências digitais com naturalidade. Uma dessas “trends” era divulgar perfis de seguidores como forma de interação com o público.

Foi por meio de uma dessas postagens que Diego a viu.

Uma garota. Não como as outras que ele havia conhecido, ou tentado esquecer. Havia algo diferente nela — algo quieto, suave, encantador. Não era o tipo de beleza moldada para likes: não tinha o corpo escultural, nem a marquinha de bronzeado tão celebrada nas redes. Era um tipo de beleza que não gritava — sussurrava.

Longos cabelos cacheados emolduravam seu rosto delicado, e seus olhos — protegidos por óculos simples — carregavam um brilho difícil de descrever. Diego ficou ali, parado diante da tela, como se contemplasse uma obra de arte. Algo o tocou profundamente. E, pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu o coração acelerar sem dor.

Pensou em comentar uma foto. Em mandar uma mensagem. Em curtir discretamente e sumir. Mas não sabia como se aproximar. A timidez o travava, mas a curiosidade foi mais forte. Escreveu algo simples — quase banal — e enviou. Em seguida, fechou o aplicativo, como quem não espera resposta e prefere evitar o constrangimento da esperança.

Mais tarde, já em casa após uma partida de futebol, ouviu o som de uma notificação. Pegou o celular com indiferença, até ler o que estava na tela.

Era ela.

A garota havia respondido.

Por um instante, tudo ao seu redor pareceu suspenso. Como assim ela respondeu? Será que foi por engano? Por educação? Ela, com aquele rosto angelical, com certeza recebia dezenas — talvez centenas — de mensagens como a dele. Mas, ainda assim, ela respondeu.

Confuso, ansioso, Diego perguntou a si mesmo: “E agora… o que eu faço?”

Respirou fundo. Mil pensamentos atravessaram sua mente. Mil frases possíveis se formaram e se desfizeram antes de serem digitadas. Por fim, decidiu apenas ser ele mesmo. Respondeu com naturalidade — e, para sua surpresa, a conversa fluiu.

Trocaram mensagens, risos, pequenas confidências. A cada palavra, Diego se sentia mais leve. Era como se, depois de tanto tempo mergulhado em sombras, conseguisse finalmente abrir uma fresta de janela e deixar entrar um pouco de sol.

Naquela noite, sozinho em seu quarto, sorriu pela primeira vez em muito tempo.

Não sabia ainda o que aquilo se tornaria. Não fazia planos. Mas, no fundo, algo dentro dele sussurrava:

“Talvez… seja o começo de algo bonito.”