Enquanto Ela Silenciava
16 Capítulo 15 - O Peso que Permanece
Ao chegar, seu pai não hesitou: agarrou Diego com urgência e o acomodou no carro como quem protege um vaso rachado prestes a se romper. Havia algo estranho — era como se o garoto estivesse ali, mas ao mesmo tempo ausente. Um corpo que respirava, sim, mas sem alma, sem luz nos olhos, sem peso no mundo.
Seu pai pisou fundo no acelerador, a mente concentrada em chegar à UPA mais próxima. Diego, encostado ao vidro da janela, observava o mundo em fragmentos. Pelo retrovisor, viu sua mãe: parada, chorando, como quem tenta alcançar o inalcançável. A voz do pai, antes firme, tornava-se ruído, cada vez mais distante — como se o mundo estivesse escorregando num mar de ecos.
Na unidade de saúde, vestiu a camisa com mãos lentas, como se o tecido pesasse demais. Calçou o chinelo ainda com os pés tomados pela areia — vestígios do mar que tentou ser seu túmulo. Entrou com o pai; a mãe ficou no carro, amarrada ao desespero.
Após responder algumas perguntas na recepção, esperaram cerca de quarenta minutos. Tempo que parecia eterno dentro da névoa que envolvia Diego. Estava desidratado, exausto, imerso em sono — não aquele de quem quer dormir, mas de quem deseja não existir.
Ao ser chamado, entrou no consultório. O médico, já ciente do ocorrido, foi direto ao ponto. Quis saber quanto veneno tinha ingerido e a que horas. Diego respondeu com a pouca lucidez que lhe restava: não lembrava ao certo, mas estimava cerca de cinquenta comprimidos, por volta das 8h40 da manhã.
O olhar do médico escureceu. Aquela quantidade deveria tê-lo matado horas atrás. O que mantinha Diego em pé? Havia perguntas demais para respostas inexistentes.
Foi encaminhado para uma sala de hidratação. Três bolsas de soro — três fios de vida gotejando para dentro de si. Duas funcionárias o acompanharam. Falavam coisas bonitas, palavras de incentivo, tentavam reacendê-lo. Mas para Diego, tudo acontecia em câmera lenta. Vozes distantes. Sorrisos borrados. Como se aquilo fosse parte de um sonho obscuro.
Quando o soro chegou ao fim, fizeram curativo e o levaram de volta ao médico. A reavaliação mostrava que o corpo resistia. Mas a mente — essa tremia, silenciosa.
O médico entregou dois papéis ao pai: uma declaração para justificar ausência no trabalho… e um encaminhamento. Para um hospital especializado em saúde mental. Era preciso cuidar da parte invisível de Diego — a parte que gritava em silêncio.
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