Enquanto É Cedo
2 Capítulo 2 - Resquícios
Notas iniciais
09, Julho, 2017
Nós costumávamos ir ao Ben’s, uma cafeteria do bairro — muito aconchegante, por sinal —, quase todos os dias. Ela era bem pequena, mas seu estilo rústico, de mogno, sugeria prazerosamente uma casa no inverno, ainda que o calor nos fizesse lembrar que a estação estava distante. Sempre sentávamos à mesa perto da porta, também privilegiados pela vista da janela. Dava para ver tudo o que acontecia de lá, dado que o estabelecimento se localizava na esquina.
— Marilyn — ouvimos, de repente. Jen, May e eu viramos a cabeça e erguemos o olhar ao sujeito em pé, próximo à nossa mesa.
Era Josh Hatman, um dos meus colegas de turma e de time de basquete do último ano. Eu não sei o que tanto viam nele, se eram os cabelos loiros, os olhos claros, a popularidade ou o tal estilo badboy. Talvez fossem os quatro, que, juntos, faziam até Jennette deixar dois litros de baba escorrendo. E ela era lésbica.
May entendeu como um chamado e, então, a fim de segui-lo até o grupo de amigos, se levantou da cadeira, não sem antes lançar um olhar perverso para nós dois. Pude ver a loira à minha frente revirar os olhos e rir, apoiando a cabeça no vidro da janela. Quanto mais a May se afastava da mesa, mais consciente eu ficava da minha expressão facial naquele momento.
— Você deveria tê-la convidado para o baile de formatura — Jen disse enquanto cortava o waffle coberto de chocolate derretido.
— O quê? Não — contrariei, dando uma risada, mais de constrangimento do que de graça. — Se eu pudesse, levaria vocês duas.
Com um pedaço da comida espetado pelo garfo, ela pairou o objeto no ar, me olhando como se eu fosse um imbecil. Seus olhos castanhos chegavam a perfurar a minha alma.
— Que gracinha. Olha, você gostaria de levar nós duas porque somos suas melhores amigas. — E o colocou na boca, até continuar a fala enquanto mastigava, deixando a mão livre em frente aos lábios. — Mash nósh doish shabemosh que, como um par, quer leva-la. E é melhor que convide logo. — Ela apontou o garfo em direção aos outros dois.
— Não, não — insisti. — Já tenho algumas garotas em mente, e a May... ela aparentemente já está sendo convidada. — Encarei a morena com o grupo emitente de feromônios e cheiro de maquiagem.
— Tá com ciúmes. — Ela engoliu outro pedaço, então descansou o garfo no prato, em um gesto indisposto, o que me chamou a atenção. — Escuta, se você não for com ela, o Josh vai. E no quesito de iniciativa, ele é bem melhor que você, para falar a verdade.
De certo modo, me senti ofendido com aquilo. Só eu sabia os motivos de querer preservar a nossa amizade. Jen já tinha notado que eu gostava da May, apesar de eu nunca ter confessado a ela, mas isso não a dava o direito de julgar minhas ações.
— Não quero saber, tá bom? Não me importo. Se eu quisesse fazer algo, já teria feito. — Franzi a testa, me recostando na cadeira almofadada. — Dá para eu escolher uma dentre diversas garotas gostosas que querem que eu vá com elas. Eu tô bem legal.
Jen inesperadamente deu de ombros e, quieta, continuou a comer. Parecia não querer mais insistir no assunto e tampouco eu. O clima tenso persistiu na nossa mesa até May reaparecer, sorridente, e se sentar na cadeira de frente para a janela.
— Quem foi que conseguiu o par mais sarado de Bournemouth? — A garota mordeu o lábio inferior, alternando o olhar entre mim e Jennette com um ar de expectativa.
Em conclusão disso, Jen e eu fomos juntos ao baile. Ela e Loren, sua namorada na época, tinham tido uma discussão horrível há alguns dias da festa, e eu acabei a convidando. Na noite de formatura, assim que parei à sua porta, ela estava deslumbrante, os cabelos loiros presos em um coque enfeitado e o vestido vermelho reluzindo à luz dos postes, que logo se tornaram as da pista de dança. Nunca a tinha visto tão gata.
Não consigo me recordar de muita coisa, pelo fato de ter enchido a cara com a Jen e outros amigos após o evento, mas a cena de May dançando conosco à música eletrônica, feliz e linda, eu jamais poderia esquecer. Ela realmente parecia uma princesa, de vestido azul, aberto nas costas, e cabelos soltos, em um penteado com tranças que já estava se desfazendo. De vez em quando me olhava e tentávamos conversar em meio ao barulho.
Foi o dia em que ela e o Josh começaram a sair.
08:17 AM. 09, Novembro, 2018
— Tenho medo de que tenha laxante, ou algo do tipo. Você é muito vingativa — reclamei, mas enfim trocamos de lugar, me arrastando para o banco do passageiro. — Mas não te subestimo, May. Tenho certeza que arranjaria uma forma mais original de me punir.
— É isso aí. — Ela riu, e aí me entregou o sanduíche, antes de dar a volta na Nissan prateada, se sentar e colocar o cinto. A fim de checar algo em seu rosto, May esticou levemente o pescoço em direção ao retrovisor e, em seguida, deu a partida.
— Ah. — Levei a mão à frente da boca depois de desembrulhar o pão e dar uma mordida. Esperei alguns segundos, mastigando e engolindo, até prosseguir. — Obrigado pelo café da manhã. E me desculpe pelo atraso, de verdade. Dormi como uma pedra.
— Até parece que vou aceitar algo tão vazio. — Sorria irônica, prestando atenção à rua, agora. — Porém, se me pagar um sorvete de goiaba, daqueles bem decorados, quem sabe?
Eu ri e joguei as costas contra o banco, engolindo outro pedaço.
— Pode deixar. Às oito, na sorveteria próxima ao Ben’s. — Balancei a cabeça. — Oportunista.
— Você é que tem que aprender a aproveitar as chances que a vida oferece. — May ergueu a cabeça discretamente, parecendo certa daquilo que disse. Seus lábios rosados se fecharam, pondo um fim no que ela queria falar. De alguma forma, eu não encarei aquilo como uma simples brincadeira, e me senti um tanto afetado.
Me peguei estudando seu perfil por alguns instantes. Sua beleza era tão envolvente que eu poderia ficar naquele estado para sempre, e melhor ainda, adorava vê-la perdida nos próprios pensamentos, séria. Era estranho pensar que nos conhecíamos há tanto tempo e eu nunca tivera a mínima coragem de abrir o jogo, o que me sufocava cada vez mais. Engolir aqueles sentimentos todos os dias era angustiante. Mas, agora, eu não tinha esse direito. Não enquanto namorasse a Jane.
— Patrick me chamou para sair, acredita? — May quebrou o silêncio. — Ele tem sido muito fofo, mas a Jen acha que ele só quer transar comigo.
Não tinha como não acreditar.
— Típico. Mas e aí? — Continuei a olhando fixamente, com uma esperança ridícula de inocente.
— Não é como se ele não fosse transável, mas... — Soltou o ar dos pulmões. — Ela e eu concordamos que você deveria dar sua opinião também.
— Minha opinião? Uau. — Não pareceu, mas por pouco não me engasguei com o pequeno pedaço do sanduíche. Isto nunca tinha acontecido antes. — No que ela vai influenciar?
— Só quero saber o que você acha. — No entanto, ela permanecia com os olhos fixos à estrada. — Se devo investir, se ele é galinha, se estou sendo precipitada... Não sou tão experiente nisso e não quero acabar... Bem, você sabe.
Magoada, ela quis dizer. Josh babaca.
— Ah... — Comecei a escolher as palavras e a organizar meus pensamentos. A verdade era que ela seguiria qualquer conselho meu, e não poderia ser egoísta a ponto de impedi-la de ser feliz com alguém, uma vez que Patrick era realmente apto ao cargo. — Vai fundo. Quer dizer, ele te trata bem, é divertido, vocês têm gostos em comum...
Era a mesma coisa que comprar luvas de boxe para o cara e me oferecer como saco de pancadas.
May me fitou pelo canto dos olhos.
— Mesmo?
Não.
— Sim.
— Hm... Tá bem, então. — Mudou de marcha, sorrindo levemente, e seguimos em silêncio. Não que eu não quisesse conversar, porém nós dois tínhamos coisas demais passando por nossas cabeças para começarmos algum assunto.
Não demorou até May estacionar o carro e sairmos dele. O campus era enorme, cercado pelos blocos espelhados dos diversos cursos, e havia árvores por toda parte, sobretudo em seu centro, onde nós e nossos amigos costumávamos nos juntar nos intervalos. Após anos, nossos círculos de amizade tinham crescido consideravelmente e não éramos mais só nós três.
— Eu não sei o que está mais amassada; sua cara ou sua camisa — May opinou ao parar a alguns centímetros de mim, me observando, e sorriu enquanto pegava minha mão e deixava a chave do carro na palma.
— De nada pela carona.
Lado a lado, começamos a caminhar em direção ao segundo bloco à direita, onde seria realizada a prova de leitura e produção de textos.
— Sabe que sou grata por estar fazendo isso. — Me olhou por alguns segundos, então seus olhos se arregalaram, avistando algo sobre meus ombros, e ela abriu um sorriso maior. — Oi, gata.
Jen correu até nós, surgindo do meu lado, e passou o braço pelo meu tronco, apertando-me. Eu fiz o mesmo, mas com as duas garotas, e seus braços envolveram minhas costas. Senti o calor de seus corpos, tão próximos, me contagiar e, inclusive, uma nostalgia. May gemeu baixo, de repente, e a loira, então, inclinou a cabeça para frente, a fim de enxerga-la.
— Minha aula começa daqui a vinte minutos, mas vocês, chegando a essa hora? O que deu? — perguntou.
— Me atrasei. — Eu suspirei, jogando um olhar para a morena. — Mas está tudo bem, eu acho. Ela me cobrou um sorvete como desculpas e, às oito, vamos àquela sorveteria perto da rua de vocês.
— É, veio a calhar. Estava morrendo de vontade de tomar um sorvete — May complementou e, em seguida, riu. — Quer ir com a gente?
— Ahn, não dá, vou ter ensaio do grupo, hoje. — Estalou a língua e, por fim, se afastou, o que nos incitou a desfazer o abraço. — E depois... tenho um encontro! Eu nem lembro mais de como se beija. Faz tanto tempo...
— Que bom, Jen. Somos duas. Amanhã será a minha vez. — May balançou as sobrancelhas e cruzou os braços, antes de mordiscar os lábios, aquela mania tão espontânea.
— Sério? — A loira olhou para mim por alguns milésimos de segundos. Estava na cara seu desapontamento comigo. — Ah... Pois se peguem muito, até você esquecer a existência de qualquer outro cara.
Essa doeu. Como se não fosse o suficiente, ela até me deu uma batida com o cotovelo, bem nas costelas.
Um riso fraco saiu por entre os lábios da May, que olhava ao redor do campus. Agora eu tinha certeza que Jen me achava um completo idiota, e talvez ela tivesse mesmo razão. A garota pela qual eu era apaixonado estava tão perto, mas, ao mesmo tempo, se encontrava inalcançável, e provavelmente por minha culpa. Eu queria enterrar minha cabeça no chão e gritar.
May prensou os braços contra si, despreocupada, e, quando o fez, marcas arroxeadas no seu antebraço subitamente se manifestaram ao serem descobertas pela manga da sua blusa. Minha testa se franziu na mesma hora e eu engoli em seco, preocupado. Memórias terríveis acenderam na minha mente a respeito daquele indício.
— Divide uma comigo, seu egoísta — uma voz, seguida de um riso, me dispersou. Patrick, o cara de sotaque irlandês e cabelos tão claros que refletiam a luz solar, se aproximou e ajeitou a alça da mochila, pondo-se entre mim e a May.
— Eu passo, obrigada. — Jennette ergueu uma das sobrancelhas e preencheu os bolsos do short com as mãos.
— A Marilyn, então? — Ele deu uma risada e, de repente, seu rosto ficou um tanto avermelhado, logo virando-se para a garota ao seu lado, começando a puxar qualquer assunto.
Eu expressei um sorriso amarelo, em resposta, encolhendo os ombros. Se havia um jeito da situação se tornar mais desconfortável, eu não sabia como. Ademais, as imagens que eu vira há poucos segundos já começavam a me atormentar.
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