Enquanto É Cedo

1 Capítulo 1 - Cores


Notas iniciais
Finalmente, após anos sem escrever, voltei com uma nova fic. Tô muito inspirada nela e espero que consiga fazer com que se envolvam com os personagens, pois realmente tô os amando. Qualquer errinho, podem avisar. Obrigada e boa leitura! Promise - Ben Howard (https://www.youtube.com/watch?v=CVUOTzoVeZA)

18, Julho, 2010

Antes das férias de verão, May teve a ideia de enterrarmos objetos pessoais na areia da praia para que, em um momento do futuro, pudéssemos voltar e desenterrá-los juntos. Seria uma forma de termos a certeza de que nunca nos separaríamos. Pedaços de nós, afinal, estariam sempre ali, unidos, mesmo que algum dia estivéssemos fisicamente distantes uns dos outros.

A praia estava calma e magnificamente coberta pela cor alaranjada do céu. As ondas, o vento e as gaivotas eram as únicas coisas que podíamos ouvir, senão pelos veículos que vez ou outra passavam naquela rua estreita, envolta por palmeiras. Jennette e eu já estávamos sentados na areia, ao fim da tarde, quando Marilyn Hendenson, a garota franzina e pequena, vinha correndo em nossa direção, as mãos cheias, quase insuficientes para o conteúdo que ela carregava. Por fim, ela se ajoelhou à nossa frente, com aquele sorriso delicado e a respiração ofegante.

— Trouxe umas presilhas... meu lápis preferido... um DVD... o Craig... e a cabeça... da Bay... — seu fôlego se perdia entre a frase. Craig era um chaveiro de sapo e Bay, uma boneca.

Podia ver com clareza a cor avermelhada de suas maçãs do rosto, acendendo sua pele pálida com o contraste dos cabelos escuros.

— Se é seu lápis preferido, por que vai deixar aqui? — a menina loira ao meu lado indagou, curiosa, e ficou de joelhos também.

— Foi com ele... que fiz meus melhores desenhos. É importante! — Deixou uma mecha de cabelo atrás da orelha, retomando o ar. — Vamos fazer isso logo, tá ficando tarde.

Alcancei a pequena pá de jardinagem que havia levado e comecei a fazer o buraco na areia. No início era fácil, pois ela estava mais solta, porém, aos poucos, o movimento ia me exigindo mais força, então logo as duas passaram a me ajudar, com as próprias mãos.

— Não consegui muita coisa, mas vou enterrar algumas fotos nossas e a cartinha que recebi do Brian. — Jennette sorriu enquanto nos revelava e, por poucos segundos, achei que tivesse a visto corar. — E você, Ethan?

— Minha miniatura de tigre, este livro e o desenho que a May fez da gente — citei meus pertences e joguei um olhar para a garota, mas não recebi um de volta. Ela parecia concentrada no que estava fazendo, como sempre.

No desenho, havia nós três abraçados, sorrindo, e nossa futura casa ao fundo, com diversos cães e gatos espalhados. Naquela época, tínhamos o sonho de morarmos juntos na Holanda, ao menos enquanto não tivéssemos nossas próprias famílias formadas. Não parecia ser um devaneio tão inalcançável, e se dependesse do nosso vínculo e da vontade, realmente não seria.

— Já não está bom? — Jen franzia a testa, tentando aumentar a cavação a todo custo, até se inclinar para trás e suspirar. — Acho que não vai mais que isso.

— Vai, sim, só... — De repente, a cabeça de May pendeu para o lado. — Tem alguma coisa aqui, atrapalhando.

— Pode ser uma pedra — afirmei, me vergando e apertando os olhos a fim de dar uma olhada. Eu precisava mesmo ter levado os óculos.

Peguei a pá novamente e a finquei na lateral do obstáculo, forçando-o para cima, quando percebi que não, não era uma rocha. Os desenhos em cima indicavam ser bem mais que isso.

— Uau. — A loira ergueu as sobrancelhas, assim como May e eu. — Eu acho que essa coisa não deveria estar aí.

Quando finalmente o retirei do buraco e o pousei sobre a areia, vimos o que era: Um pequeno baú feito de madeira, com alguns detalhes em padrões formados através da raspagem, aparentemente. Estava totalmente sujo e arranhado, porém aberto. A tranca minúscula à sua frente já não mais funcionava.

— Parece feito para a gente — a morena considerou, o tomando nas mãos e abrindo-o. Seus olhos brilharam como pequenas esmeraldas assim que descansaram no conteúdo, e isso nos deixou ainda mais curiosos. — Gente, olha...

A caixinha enfim foi virada para nós e, dentro, havia três anéis, cintilantes como estrelas, dourados e bem finos. Cada um possuía uma pedra discreta em seu topo, de uma cor diferente, com uma pigmentação tão forte que parecia até... fantástico.

— E eu estou duvidando que não seja — Jen argumentou, seguindo o objeto com o olhar, atenta e confusa. — São três desses, nesse mesmo lugar.

— É ou não é mágico? — perguntou a outra, e parecia já saber a resposta.

Trocamos modestos sorrisos entre nós, concordando em silêncio, antes que as garotas apanhassem seus anéis. Sem pestanejar, peguei o da pedra vermelha. May acabou escolhendo o da azul, deslizando o dedo por entre a argola, enquanto Jen, o da verde. Nós sabíamos o que aquilo significava; nunca mais os tiraríamos. Em seguida, depositamos nossos pequenos bens em uma caixa maior, também de madeira, tal qual Jennette havia levado, e a deixamos no local onde o baú costumava ficar.

07:52 AM. 09, Novembro, 2018

Morar sozinho era bom, sim, mas tinha seus pontos negativos, e um deles era, por exemplo, acordar atrasado mesmo quando o despertador insistia em azucrinar o meu sono a cada cinco minutos, sem ter a minha mãe para fazê-lo. A justificativa que eu tinha, contudo, era que a festa da noite anterior me fizera pensar que o dia seguinte já seria sábado. Mero engano, e lá estava eu, ainda de bermuda de moletom, bocejando e me espreguiçando à beira da cama.

Tateei o criado-mudo à procura dos óculos e do celular. A hipermetropia já era horrível, e se tornava pior se somada ao sono, já não bastasse a minha visão igual a um vidro de estufa. Além disso, a pouca luz solar que passava pela cortina iluminava apenas o centro do quarto, cujas paredes também eram escuras, em um tom de cinza com verde-água. No entanto, consegui os achar e os coloquei, voltando a atenção às notificações, ainda sonolento.

De repente, literalmente em um piscar de olhos, levantei e corri para o armário a fim de vestir alguma roupa depressa. Vi uma, duas, três chamadas perdidas da May e lembrei: Além de estar atrasado para a aula, tinha me esquecido da minha melhor amiga, que ultimamente pegava carona comigo.

— Merda, merda — praguejei enquanto ligava para ela, deixando o celular entre o ombro e o ouvido, bem como tirava a bermuda e vestia as calças jeans. Os óculos quase escorregavam do meu rosto e, embora não os utilizasse fora de casa, naquele dia teria que abrir uma exceção.

— Ethan, onde você está? Tá tudo bem? — foram as primeiras coisas que May disse ao atender, aparentemente preocupada. Me senti um inútil. — Não está de ressaca, não, né? Pois eu mato você. Teremos prova daqui a pouco.

— Ahn... Não, eu não bebi tanto. Ainda estou em casa, mas logo chego aí. Não vou demorar, eu juro. — Abotoei os jeans e fechei o zíper, puxando uma camisa qualquer, preta, dentre todas as outras.

— Tudo bem, vou continuar contando os segundos até finalmente poder te bater. — Pude ouvir o riso fraco, por pouco audível.

— Tem esse direito — brinquei. — Até.

Assim que encerrei a chamada e guardei o aparelho no bolso, passei a camisa pelo tronco e encarei meu reflexo no espelho. Ainda que não tivesse bebido tanto, minha feição aparentava o contrário; estava cansado e corado, com os cabelos castanhos todos desgrenhados. Por isso, apenas me dirigi ao banheiro e tratei de penteá-los, após usar o desodorante e o perfume.

Além de escovar os dentes, lavar o rosto e fazer xixi, calcei as meias e os tênis em menos de dois minutos, sentando-me na beirada da privada. Era um ninja. As lentes de contato estavam sobre a pia, mas não tinha tempo de coloca-las. Se me atrasasse ainda mais, poderia perder a prova, e pior que isso, May também não a faria. Eu nunca iria me perdoar.

E, então, era o que faltava. Para que a manhã ficasse ainda melhor, subitamente senti o bolso dos jeans esvaziar e ouvi a queda na água do vaso sanitário.

— Ah, fala sério... Não, não, porra, tá de brincadeira?! — perguntava a mim mesmo, indignado, ao mesmo tempo em que me erguia e retirava o celular ensopado de lá de dentro. — Você é um retardado, Ethan Cohen, é isso que você é.

Com pressa, peguei a toalha de rosto e comecei a enxuga-lo, caminhando para a sala de estar, onde estavam as últimas etapas até poder partir. Apesar da sorte de que ele era à prova d’água, aquilo só me fazia perder mais tempo. Portanto, logo que passei a mochila por um dos braços e apanhei a chave do carro, saí do apartamento, a toalha e o objeto em mãos.

Eu morava no segundo andar, por isso só precisava descer uma escada, o que era favorável nessas situações. Não tinha o costume de me atrasar para as aulas, mas, depois de certo tempo, minha vontade de frequentá-las ia reduzindo gradativamente. Os únicos motivos de eu continuar matriculado naquela universidade eram May e Jen.

Ao decorrer dos anos, afora ter me mudado para outro bairro, eu havia adquirido uma vida social mais agitada, ao passo que May focara mais nos estudos e Jen, na fotografia e na dança. Nossos compromissos, em consequência, muitas vezes eram incompatíveis e acabávamos tendo como última opção de encontro o campus universitário.

Eu simplesmente joguei a toalha no banco traseiro e guardei o celular assim que destranquei e adentrei o carro, posteriormente partindo. Nas outras vezes, a May ia para a aula com o carro da mãe, que agora arranjara um emprego no turno matutino, e desde então eu me disponibilizei a leva-la. Viver a mais de quilômetros dela e da Jen era outro ponto negativo de morar sozinho.

Uma música e meia depois, avistei a garota baixa e magra se aproximar da calçada, segurando a bolsa com ambas as mãos à frente do corpo. Parei o carro e ela deu um passo, somente se esgueirando para dentro do veículo quando o abriu.

— De óculos? — questionou, o sorriso brincalhão se formando.

— Decidi assumir ao mundo o nerd que eu sou, o que acha? — Apoiei o braço na janela ao me virar ao lado oposto, para May.

— Bem, eu acho... — se afastou um pouco do carro e retirou um pacote da bolsa, mostrando-o para mim. Era um sanduíche natural — que você deve comer isso aqui enquanto me deixa dirigir.

Suspirei, expressando rebeldia e chateação, mesmo que o que eu sentisse fosse bem o contrário.

Notas finais
Capítulo mais light, para esclarecer algumas coisas. Espero que tenham gostado. E aguardo os reviews com as opiniões. ♥ Muito obrigada.