Enough Water
1 Will There Be Enough Water?
Notas iniciais
A música começava a surgir. Alison postava-se sentada num palanque, de olhos fechados, aguardando sua entrada. A batida começava a intensificar-se, gradualmente. Abriu os olhos, olhou em volta. Por um segundo, se sentiu absorvida pela aquela batida incessante, que teimava em entrar em sua mente, persuadindo-a a crer que seus segredos mais obscuros seriam possíveis de serem realizados.
Era a última música da noite. Will there be enough water. Sempre, a última música. A razão? Ela era envolvente, capaz de acalmar os ânimos. Simultaneamente, os atiçava. Ao mesmo tempo em que se tinha vontade de fechar os olhos e delirar, ela inspirava luxúria. Ao fechar os olhos, Alison era capaz de imaginar loucuras. Suas loucuras. As quais seriam satisfeitas apenas por Jack White, integrante também do supergrupo.
Arrastou-se até o microfone, onde White a esperava, tocando sua guitarra. Melodia apaixonante.
Will there be enough water,
A voz saíra sussurrada, sensual. Uma voz mais aguda vinda da garota, uma voz mais grossa e distorcida de Jack.Dividiam o mesmo microfone, mantendo uma distância mínima de seus rostos.
When my ship comes in?
Ela o encarava com a maior voracidade possível. Queria devorá-lo, queria maculá-lo. Jogar sua guitarra longe, e o implorar que a toque. Que a dedilhe com o mesmo carinho e violência que ele utilizava em sua guitarra, ora em sua bateria. Seus olhos ardiam, desejosos.
‘Enough water
When my ship comes in?
Novos sussurros. O ritmo completo começava. Quando apenas os instrumentos eram tocados, Jack se distanciava, tocando sua guitarra. A Mosshart o encarava o tempo todo, como se esse tempo desperdiçado longe dele fosse imprescindível.
And when I set sail,
Olhos novamente ardentes. Ela ansiava por uma resposta da parte dele, porém o máximo por ele feito era um milésimo de um olhar, voltando a concentrar-se. A pobre garota nem sabia mais o que cantava. Se acertava a letra, era por sorte. Pouco importava no momento.
Will there be enough wind?
A última frase soou como um lamúrio, uma voz tremida. Jack White começava a olhá-la com mais freqüência, mas por não entender a reação da outra a ele.
Cool water
And the cool wind...
Uma parte lenta, suas testas suadas se tocaram levemente, o cabelo de Jack desgrenhando-se. Ambos olharam para o outro, meio assustados. Como uma reação, Alison distanciou-se do microfone, fazendo a última palavra sair distante; o mesmo fez o outro.
Just because you caught me,
Does that make it a sin?
Próximos novamente, olho no olho, a frase soou significativa para ambos. Sim, ele a percebera. E sim, ela se delatara. Porém, isso era algo a ser delatado? Era considerado um pecado, não poderia ser realizado? Nenhum dos dois saberia responder; apenas a melodia os conduzia naquele momento.
Cool water
And the cool wind...
Just because you caught me,
Does that make it a sin?
Agressiva. Alison pegara o microfone, gritando as duas últimas frases, como um ultimato. Qual seria a reação de Jack após o concerto? Ela não sabia. Mas ele sabia o que o esperava se a aceitasse. Algo inesquecível, quente, pura volúpia, intenso. Isso era uma definição perfeita de Alison para ele, pois ela emanava uma aura perigosa, algo que o atiçava até o último fio de cabelo.
O baterista, o tecladista e o guitarrista trabalhavam na melodia. Alison balançava no louco ritmo, agarrando o microfone com a haste, delirando na sua imaginação. Ora abria os olhos, encarando Jack, ora os fechava, pensando na roubada em que estava.
Cool water
And the cool wind...
A batida diminuía, acalmava todos que assistiam ao enorme show. As duas últimas frases soaram como sussurros, talvez até inaudíveis a quem estivesse mais ao fundo.
Ela necessitava daquela presença. Mordeu os lábios, insegura. O instante seguinte era desconhecido para ela. Mas essa incerteza a excitava.
O final da música veio como um nirvana para ela.
Olhou-o uma última vez e saiu do palco, na sua postura de sempre. Naquela postura que, aos poucos, encantava Jack White.
Cool water
And the cool wind...
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