Notas iniciais
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Estava acontecendo tudo novamente.

Nem saberia dizer se tinha a ver com traição, até porque, nunca firmamos um compromisso. Mas eu estava me apaixonando, queria algo sério depois de tantos anos me privando de relacionamentos sérios. No final, não passou de um amor de pica.

Isso aconteceu antes de Fred conhecer Luana, tão antes de Laís ter reencontrado Guido. Minha história começou há mais de dez anos e agora, há meses atrás.

Vi Elis sair do bar junto com meu primo Fred e a minha ficha caiu. Ela não queria nada comigo que não fosse chegar até o meu primo. Há duas semanas, ela parecia interessada demais nos meus primos e quando a chamei para me encontrar no bar, onde eles estariam, não deveria me surpreender que ela fingiu nem me conhecer.

Não tínhamos nada oficial.

Quando diziam que a história se repetia, não sabia que aconteceria com a mesma pessoa. Desde adolescente eu era traumatizado com garotas que não querem oficializar nada, ou arranjavam uma desculpa para não falar de sentimentos.

Gabrielle era seu nome. Quando tinha doze anos, por um mês ficamos, inocente, na saída da escola. Ela dizia que seus pais não poderiam saber sobre nós, ambos menores de idade. Faria tudo por ela, inclusive mentir para os meus primos que desde cedo não tinham interesse de se apegar.

Estava pronto para assumir nosso relacionamento, enfrentaria a família dela e tinha certeza que a minha a acolheria, mas... ela sumiu por uma semana, fugia de mim no recreio, até que não pôde mais e apareceu de mãos dadas com um garoto do último ano, mais velho que nós.

Ela nunca que me quis de verdade. Elis nunca me quis de verdade. Um ciclo vicioso que eu clamava por vingança. Por anos, quem usava era eu. Por muito tempo, fiz questão de pegar e descartar, como me sentia, até que senti algo diferente por essa loira que tinha sido largada pelo namorado.

Elis contou sobre o pé na bunda que tinha levado do namorado e a rejeição que sentia. Por algum motivo, me identifiquei. Ela tinha medo de se relacionar novamente e compreensivo, aceitei suas migalhas. Se eu estava mudando meus conceitos sobre confiar em outra pessoa, ela também mudaria, ou faria com que isso acontecesse.

Minha vida pessoal era uma piada, pela segunda vez, fui usado como trampolim.

Ninguém sabia disso. Não iria brigar com meu primo Fred por ter pegado a mulher que estava começando a gostar. Ela fez sua escolha e eu, a minha. Aproveitei que Márcia pica-pau estava na área e me comia com os olhos, finalmente me entreguei a mulher que não conseguia segurar suas mãos e tocava todos os homens que estavam por perto.

Foi ótimo ao mesmo tempo que péssimo. Só pensei em Gabrielle, Elis e no quanto parecia um garoto abandonado. Não dava para bobear novamente, a vida de solteiro deveria se manter até o fim dos meus dias.

Exagerado? Depois que o raio caiu no mesmo lugar, comecei a pensar que a vida de casado não era para mim.

Para ajudar a pisar no meu ego ferido, reencontrei Elis e suas amigas no bar Mercearia. Guido parecia querer nos dizer algo ou estava apenas fugindo de alguém, que era a mulher que ele escolheu para casar. Laís e Guido pareciam iniciar um romance impossível, ainda mais quando as crises de ciúmes do meu primo estavam na equação.

Era um bom ator, ainda mais quando fiz questão de me enroscar com a melhor amiga de Elis enquanto ela tentava se esfregar em Guido. Porra, ela preferia todos os outros primos, menos a mim.

Tudo bem, eu sabia jogar esse jogo e mais do que nunca, sozinho na balada, mergulhava em um mundo que nunca se encaixou comigo, que era foder sem amar.

Acreditava que a culpa era do que via em casa. Meus pais se distanciaram afetivamente e sempre vi isso como algo que não queria para a minha vida. Minha mãe, criada para ser esposa e dona de casa, amava cuidar do lar, trabalhar com artesanato e se dedicar a toda a família.

Quando alguém precisava de algo, era dona Alice que assumia tudo, para desgosto do meu pai, que a queria afastada de todos e dedicada, exclusivamente, a ele.

Nunca me intrometi na vida deles, mas sentia. Ambos estavam infelizes, cada um com suas razões e por isso, acabavam me deixando livre demais para viver. A forma deles amarem era me dando espaço, todavia, a cada dia eu precisava de menos distância entre quem realmente me amava. Como um barco em alto mar, me sentia sem motor e à deriva.

Fred estava formando sua família e aos poucos nos deixando para segundo plano. Completamente compreensivo, se eu tivesse alguém como Luana, mais que depressa mandaria os meus primos para a terceira opção. Guido estava entrando na mesma onda, sobrando apenas um companheiro, meu primo Leo, que de mal humor e chateação, ele tinha de sobra por cinco gerações. Era boa companhia quando bêbado, que não pensava de forma racional, mas com sua lesão na tíbia e tomando remédios, ele estava ao natural.

Insuportável.

Foi com todos esses pensamentos na minha mente que escutei o meu celular despertar. Acordava antes do sol nascer, um hábito criado quando decidi abrir minha própria academia, ser independente e ter alguma coisa que não fizesse o mesmo papel das pessoas, de enganar.

Tudo bem que hoje eu era adulto e racional, ninguém me enganou, porque não houve promessas ou declarações de amor, mas o sentimento estava lá, de não ser o suficiente para ninguém, de preferirem me trocar ao invés de tentar me conhecer mais.

Morava em um apartamento modesto a algumas quadras da minha academia, por isso troquei de roupa, peguei minha mochila e desci as escadas em direção ao meu trabalho. Iniciaria o dia com minha rotina de exercícios até meus funcionários chegarem e minha vida entrasse nos eixos.

No meio de aparelhos e pessoas desconhecidas era onde me sentia acolhido ao mesmo tempo que um zero à esquerda. Se ser incompleto seria minha sina, se a incerteza sempre dominasse meu mundo, eu malharia o suficiente para suportar o peso de não ser especial para ninguém.

Não me importava em parecer sensível demais, uma vez que ninguém sabia o que realmente se passava comigo. Por fora, eu estava bem, sorrindo e fazendo piadas. Por dentro... meu mundo estava ruindo...

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