Notas iniciais
Oie... o/ Como foram de feriado?... Espero que bem. O meu foi bom, a única parte chata é que não pude postar no dia que gosto, mas vou resolver isso agorinha deixando o capítulo para vcs. Bom, antes de postá-lo, preciso agradecer os reviews e as indicações. Vcs não devem fazer ideia do quanto fico feliz em vê-las participativas e atenciosas comigo e com mais essa sandice... Obrigada! Agora vamos ao padreco... Espero que gostem! BOA LEITURA!

Ainda envolvida pelo sorriso intimista que parecia iluminar o rosto anguloso, Bella desistiu de acompanhar o humor do padre. Estava convicta de que o havia entendido, então somente aceitaria o que ele estivesse disposto á dar. Edward apenas se defendia dela e estava claro que sempre se afastaria quando se sentisse ameaçado. Contudo, mesmo fugindo como um animal assustado, ele era curioso e pouco á pouco viria até ela como em todas ás vezes. Ao que parecia aquele seria o padrão até ele se rendesse. E ele tinha que se render um dia, pensou esperançosa.

Agora perscrutando o rosto de Edward disfarçadamente enquanto ele dirigia, Bella se lembrou de sua reação quando o tocou com o pé. O padre primeiro esbravejou naquela língua cantada e muitas vezes indecifrável para ela, mas no momento em que os ânimos se acalmaram ele se mostrou envolvido na conversa e até se permitiu segurá-la por todo o trajeto entre a igreja e o carro; poderia tomar a atitude como uma prévia para a rendição. Satisfeita com sua constatação e ciente de que não conseguiria reprimir um sorriso de puro contentamento, Bella se voltou para a janela fixando o olhar nas casas que podia ver pela janela.

– O que é engraçado? – Edward perguntou indicando que também a observava.

Mais um ponto á seu favor, Bella pensou agora sorrindo abertamente.

– Nada! – disse encarando-o. – Dias bonitos me deixam feliz!

– E hoje está um dia bonito. – ele comentou olhando para o céu á sua frente.

– Hoje está um dia perfeito! – ela acrescentou olhando para ele.

Quando Edward subitamente olhou em sua direção e flagrou seu olhar enlevado, Bella pigarreou e apontou á sua frente.

– Vire ali e estacione.

Atendendo-a, o padre contornou á esquina e estacionou ao lado de um grande galpão. Estavam nos arredores da vila. O espaço á sua frente indicava que as casas de Sin Bay foram construídas numa área em formato de meia lua e que agora eles estavam em uma de suas pontas. A rua não tinha saída, somente a grande construção de um lado, o vasto jardim á sua frente e uma casa isolada no canto oposto. A floresta que se seguia além dava um toque bucólico e mágico ao local. Apesar do cheiro acentuado de maresia, era perfeito.

– E então? – Bella perguntou seguindo seu olhar através do pára-brisa.

– É o lugar ideal! – ele disse antes de abrir a posta do jipe e sair.

Bella saiu logo depois dele e se pôs ao seu lado diante do veículo.

– Imaginei que gostaria... Não sei por que eu ou Rosie não pensamos nisso antes. Não será nem preciso emprestar as cadeiras e mesas da Esme. Podemos usar as da cooperativa. Estão todas aí no galpão.

– Podemos ver? – Edward perguntou encantado pelo local.

– Espere aqui. – ela pediu. – Vou pedir as chaves para Sue. A esposa de Harry Clearwater.

Dito isso ela se precipitou em direção á casa de madeira com a pintura branca descascadas em alguns pontos. Enquanto lhe seguia com o olhar, Edward tentou não se deixar abater pelo efeito que um simples balançar de cabelo lhe provocava. Sabia ser maluquice de sua mente perturbada, mas parecia que o ir e vir daquele rabo de cavalo o afrontava. Como se o desafiasse á segurá-lo como havia feito em seu sonho.

Dio mio!... – deixou escapar quando uma pontada inesperada e violenta de desejo fez o monte plácido entre suas pernas pulsar.

Recriminou-se por invocar o nome de seu Criador num momento de lascívia, mas não teve como evitar ante ao assombro de confirmar o quanto seu corpo era suscetível á Bella. Contudo, dessa vez não repudiou a sensação. Era preciso habituar-se á ela se quisesse construir um relacionamento amigável. Seria ingênuo de sua parte acreditar que de uma hora para outra deixaria de sentir ou pensar tais coisas. E se analisasse friamente sua situação, veria que manter seu “Edward estranho” satisfeito com aqueles breves agrados, teria mais chances de controlá-lo e resistir á ela.

Passados poucos minutos em que cismou sozinho, o padre a viu sair da casa na companhia de outra mulher. Lembrou-se dela da missa, mas se o perguntassem não conseguiria se lembrar do nome. O sabia agora, pois Bella o disse antes de deixá-lo então, quando as duas se acercaram dele, cumprimentou seguro.

– Bom dia Sra. Clearwater!

– O senhor se lembra! – a mulher comentou enlevada. – Bom dia para o senhor também padre. Sua benção.

Depois de abençoá-la ouviu a mulher dizer.

– Pode me chamar de Sue, como todos.

Findo os cumprimentos, Bella lhe falou.

– Já estou com as chaves, vamos?

– Vamos... – disse indicando o caminho para que as duas fossem á sua frente.

Enquanto seguia atrás delas, evitou olhar na direção de Bella, passando á observar o terreno á sua volta. Sem dúvida o piquenique seria mais bem acomodado naquele jardim de grama verde; bem cuidada, pensou. Em poucas passadas estavam ás portas do grande galpão. Depois de Bella as abrir, os três entraram no espaço mal iluminado. Sue se encarregou de acender as luzes de três grandes luminárias com lâmpadas fluorescentes que ficavam presas nas madeiras de sustentação do telhado.

Como a moça havia dito, Edward pode ver as mesas e cadeiras dispostas á um canto. Notou também as portas dos banheiros e no lado oposto o que lhe pareceu uma cozinha que podia ser vista através da abertura na parede que formava um balcão. Imediatamente a curiosidade o tomou.

– Para que vocês usam esse espaço?

– Ah... – Sue começou a explicar. – Sempre que precisamos de um lugar para grandes festas, como casamentos, bailes de formatura do colegial, essas coisas...

– E também fazemos um baile mensal. – Bella completou. – Quase toda a cidade vem... O antigo padre vinha.

Seria um convite, Edward se perguntou encarando-a. Antes que pudesse retrucar Sue exclamou nostálgica.

– É verdade!... Padre Embry era muito divertido. Você se lembra Bella?

– Mais ou menos. – respondeu sustentando o olhar interrogativo do padre atual.

Como se lhe adivinhasse o pensamento, perguntou.

– O senhor também é divertido?... Viria á um dos bailes?

– Não sei o que poderia fazer para ser considerado divertido. – retrucou. – Mas não vejo problemas em assistir á um dos bailes quando acontecerem.

– Pois então está oficialmente convidado. – disse Sue sem perceber a troca de olhares entre os dois. – Bella, você gostaria de conferir as condições das cadeiras e das mesas enquanto eu vejo se está tudo de acordo nos banheiros?

– Vou sim... – ela concordou se obrigando á desviar a atenção dos olhos azuis.

Também não saberia dizer o que o padre poderia fazer para considerá-lo divertido, pensou enquanto se afastava. Talvez se ele decidisse como a tratar e mantivesse um único humor, já ajudasse. Se bem que no momento não poderia reclamar de nada. Apesar dos breves momentos de tensão, estavam se saindo muito bem.

Edward a seguiu naturalmente, como acontecia na praia, como se fosse natural fazê-lo ao ponto de nem ao menos se dar conta que a seguia. Gostaria de ser divertido, pensou enquanto caminhava lentamente atrás da moça, ignorando o rabo de cavalo provocador. Não ter tantos questionamentos e perturbações – dois Edwards completamente diferentes dentro de si para administrar – seria perfeito. Contudo, aquele ideal de leveza e vida perfeita não era para ele. As perguntas sem respostas existiam e como se não bastassem havia suas duas versões a brigarem entre si na tentativa de conviver satisfatoriamente ao lado da moça que agora mexia nas cadeiras uma á uma, procurando por algum dano.

Tentando ignorar a proximidade e o olhar vago, porém fixo que o padre lhe dirigia, Bella começou a olhar as cadeiras rapidamente. Logo teriam que ir embora e já que estavam ali, queria ao menos conferir se estavam em bom estado. Tudo parecia estar inteiro, mas a moça não teve tempo de confirmar. Quando sentiu patas mínimas e espinhentas subirem rapidamente por sua mão, simplesmente cegou para tudo á sua volta e voou para o refugio mais próximo abanando o braço e gritando á plenos pulmões.

– Barata! Barata! Barata!

Edward demorou alguns segundos até entender como Bella havia terminado em seus braços com a cabeça apertada contra seu pescoço, implorando lamuriosamente.

– Mata! Mata! Mata!

Pego de surpresa, o padre não esboçou qualquer reação, apenas a segurou como pode enquanto a moça comprimia o corpo leve, trêmulo e quente junto ao seu.

– O que houve? – Sue perguntou alarmada vindo correndo dos banheiros.

– Uma barata Sue. – a moça respondeu agoniada.

Então, tão rápido quanto havia vindo para os braços do padre, ela saiu do seu colo e, como se ele fosse somente uma coluna sólida que lhe ofereceria proteção contra algum perigo iminente, imediatamente se colocou ás suas costas – ainda com um dos braços em seu pescoço. E assim, abraçada á ele, apontou com a mão livre e violentamente trêmula para o motivo de seu pavor e implorou chorosa.

– Mata essa coisa Sue... Por favor!

A cena seria cômica se não fosse trágica, Edward pensou completamente consciente do corpo agarrado ao seu. O braço apertado em seu pescoço começava á sufocá-lo, contudo ele somente registrava a respiração morna e entrecortada em sua nuca. Agora, como poderia controlar aquele estranho que habitava nele quando havia, não só confirmado á maciez, como também sido apresentado á quentura do corpo de Bella.

Pedia silenciosamente que a mulher matasse a maldita barata que passeava indiferente pelo espaço entre as cadeiras antes que seu corpo expusesse a excitação que sentia e que era agravada a cada vez que a moça, visivelmente fora de si tentava escalar em suas costas com as pernas nuas. Se acreditasse que conseguiria desprendê-la dele por um único segundo, esmagaria o bicho asqueroso com as próprias mãos.

– Pronto! – Sue anunciou quando finalmente conseguiu atingir o inseto ortóptero. – Já matei Bella, pode se acalmar agora...

– Tem certeza? – perguntou descrente junto ao pescoço do padre, incitando-o inconscientemente com seu hálito morno.

– Tenho. – assegurou olhando em sua direção divertida. – Pode soltar o padre Cullen agora.

Somente nesse momento Bella se deu conta de onde havia se refugiado. Imediatamente se afastou do padre como se repelida por uma descarga elétrica, com o rosto tão vermelho quanto seu vestido. Quando ele se voltou para encará-la, os olhos azuis – escurecidos como o céu anunciando tempestade – agravaram sua vergonha. Com a voz tão trêmula quanto seu corpo, ela disse.

– D-desculpe-me por isso. Estava fora de mim...

Ho capito. – ele retrucou pausada e roucamente antes de repetir. – Eu percebi.

– Imagina Bella, não precisa se desculpar por isso... – a mulher tentou acalmá-la indicando que não havia acontecido nada de mais durante o incidente, novamente alheia a intensidade com que se encaravam. – Seu pavor á baratas é conhecido.

– O senhor Cullen não o conhecia. – disse sem conseguir desviar os olhos dos dele.

– Acredite, não vou me esquecer. – ele prometeu.

– Nossa! – Sue exclamou ainda inocente sobre o clima tenso. – Precisamos dedetizar o galpão antes do piquenique... Vou pedir á Harry para cuidar disso ainda hoje.

– Faça isso. – Edward pediu finalmente desviando o olhar da moça trêmula á sua frente. – Quanto antes melhor.

– Farei... – e então, como se visse Bella pela primeira vez, Sue exclamou. – Nossa!... Você está branca como uma folha de papel menina... Incrível como uma barata tão pequena possa deixá-la nesse estado... Acho melhor irmos para minha casa... Pode tomar um copo com água.

– Não, obrigada! – ela respondeu automaticamente. – Já está tarde... E ainda preciso ir para Wells.

Ao declinar do oferecimento gentil, Bella ergueu os olhos para o padre.

– Se é o que diz... Pode ir sossegada. Quando vier cuidar da decoração não encontrará nem uma mosca aqui.

– Você fecha o galpão Sue? – perguntou testando a firmeza das pernas ao seguir até a porta.

– Fecho sim, pode ir em paz.

– Vejo-a na missa, Sue? – Edward perguntou antes de seguir a moça.

– Com certeza, senhor padre. Até domingo.

– Até domingo então... Foi um prazer revê-la.

Seguiram para o jipe em silêncio. Depois de acomodados Edward o colocou em movimento. Mesmo que segurasse o volante, suas mãos ainda tinham a impressão da curva dos joelhos da moça, assim como a da cintura fina que foram gravadas em suas palmas no breve momento em que a segurou no colo. Na verdade todo ele carregava as marcas de Bella que durante seu pânico se enroscou á ele como uma serpente tentadora.

Idiota; como podia ser tão instintiva, Bella se perguntou irritada. Tudo o que mais queria era se “atracar” com o padre e quando o fazia nem mesmo se lembrava. Não havia guardado nada além da firmeza do corpo, mas isso era pouco. Queria o cheiro, a temperatura; mil vezes idiota. Agora, para ele não passaria da histérica descontrolada. E era o que era. Inconformada com seu comportamento e inquieta com o silêncio a moça começou á explicar nervosamente.

– Escute... Realmente me desculpe por... “aquilo”. É que eu... Eu simplesmente odeio baratas... Abomino! – então como se percebesse ter dito algo errado, emendou. – Certo... Devemos amar todas as coisas, mas...

– A benevolência que prego não é extensiva aos insetos. – o padre garantiu com a voz em seu tom normal. – E não precisa se desculpar por sua fobia... Ela por si só justifica o descontrole.

– Obrigada por compreender. – ela disse num sussurro.

Sim, ele compreendia... E por isso se odiava. Por ter se descoberto fraco e incapaz de ajudá-la, permitindo-se apenas ser agarrado pela moça, excitando-se com seu contato. O padre sabia que a inércia lhe custaria caro e antevendo as perturbações que lhe afligiriam nada lhe respondeu deixando que o silêncio recaísse sobre eles até que praguejasse para si mesmo ao avistar o padrinho os esperando á entrada da casa.

Inferno!

– O que houve? – Bella perguntou olhando-o.

– Eu não deveria ter saído com você... – respondeu sucintamente.

Evidente; pensou contrafeita. Como se precisasse de mais motivos para ser afastada havia lhe dado um dos melhores ao se atirar sobre ele. Agora mesmo é que Edward se fecharia em copas definitivamente. Não poderia permitir; Bella se preparava para pedir desculpas mais uma vez, quando o jipe parou diante do muro baixo e o tio do padre passou pelo portão com cara de poucos amigos.

– Pensei que fossem conversar na sacristia. – falou antes mesmo que descessem do carro.

– Conversamos, mas precisamos sair então...

– Então poderia ter me avisado. – o tio o cortou. – Dito ao menos para onde iriam... Talvez assim eu soubesse o que responder quando a senhora Williams veio até aqui preocupada por ter visto o “padre” sair com a “filha do líder comunitário”.

– Desculpe-me. – Edward falou evitando olhar para Bella. – Acho que podemos ter essa conversa dentro de casa, depois que a senhorita Swan tiver ido embora.

– Acho que o assunto... – Carlisle tentou insistir, contudo o afilhado o cortou firmemente.

– Seu assunto comigo não interessa á ela ou á qualquer outro. Estamos na rua. – lembrou-o.

– Está bem... – o padrinho anuiu. – Então eu imagino que a jovem já esteja de partida, não?

– Eh... – Bella começou visivelmente desconcertada. – Já estava indo sim... Nos vemos depois... – disse ao padre mais novo.

Acenando um cumprimento tímido e mudo para Carlisle, ela seguiu para frente da igreja onde havia deixado a pick up, maldizendo cada velha fofoqueira que habitava aquele fim de mundo. Não era da conta da Sra. Williams se havia saído com o padre. Por causa de sua língua grande Edward receberia uma bronca do padrinho e talvez – como se não bastasse seu descontrole para assustá-lo – nunca mais ficasse á sós com ela novamente.

– Velha filha da puta e linguaruda! – Bella xingou enquanto manobrava o grande veículo.

Depois de conferir as horas, ela soube que não teria tempo de almoçar em casa. Se não quisesse chegar atrasada em Wells teria que seguir viagem imediatamente. Ótimo; pensou. Quanto antes distraísse sua mente, melhor. Não se atrevia sequer á imaginar como seria caso fosse privada dos encontros ocasionais entre ela e o italiano somente. Conhecia-o á pouco tempo, mas já havia se habituado á vê-lo em certas situações. Não lhe importava que o pároco sempre a deixasse abruptamente sem maiores explicações ou que a recebesse ou a abordasse de forma estranha movido por suas variações de humor. De uma maneira ou de outra, aquele era o padrão que ela havia percebido e aceitado. O jovem sacerdote recuava, mas sempre voltava logo á seguir. Não seria justo que depois de entendê-lo não pudesse encontrá-lo. Verdadeiramente lhe incomodava a possibilidade de Carlisle assumir o controle e enjaular o sobrinho para que nunca mais fossem vistos sozinhos e o “padre” não fosse motivo de falatórios por andar com a “filha do líder comunitário”.

– Mil vezes inferno! – ela sibilou, lembrando-se da blasfêmia proferida por Edward.



– Agora nós dois. – Carlisle anunciou em italiano fechando a porta atrás de si tão logo ele e Edward entraram na sala da casa. – Vai me dizer o que está acontecendo aqui ou terei que perguntar á senhorita Swan?

– Não está acontecendo nada aqui que Bella soubesse lhe esclarecer. – respondeu desafiadoramente.

Sentia seu peito inflamado; seu orgulho ferido por ter sido chamado á atenção diante da moça como se fosse um moleque de dez anos de idade. O padrinho não tinha o direito de rebaixá-lo daquela maneira.

– Bella?! – o tutor escarneceu. – Já está assim tão íntimo?

– Trato muitas pessoas pelo primeiro nome. – retrucou secamente.

– Ah, claro!... E é evidente que alguém com quem se encontra todas as manhãs não seria tratada com formalidade.

– O senhor mesmo viu onde ela mora... Nós nos encontramos casualmente. Não há nada de errado nisso.

– Há algo errado... – o tutor começou enfaticamente. – ... quando um começa á sentir a falta do outro. Há algo errado quando “você” propõe correrem juntos. Há algo errado quando vai se encontrar com ela na lanchonete. E há algo muito pior quando você fica nervoso diante de uma jovem e começa á falar em nossa língua.

Edward queria retrucar, mas o padrinho não lhe dava chance. Em tom mais ameno, prosseguiu.

– Eu o conheço Edward... Desde que você nasceu. Fui cego para ver, mas agora eu sei... Essa garota mexe com você e não tente negar.

– Não preciso fazê-lo, pois não tenho o que negar. – respondeu entre dentes, controlando-se, pois sentia ganas de gritar com o padrinho como nunca havia feito antes. – Se estava nervoso diante de Bella foi porque não queria que ela restaurasse as imagens e “o senhor” me contrariou. Se acredita que sinto algo por ela, porque não recusou a ajuda?

– Porque eu a quero sob minhas vistas. – Carlisle explicou em tom baixo e incisivo. – Notei que há algo entre vocês dois e eu quero saber exatamente o que é para evitar aborrecimentos futuros. De hoje em diante quero ter o conhecimento de cada movimento, cada encontro, cada saída subitamente necessária.

A promessa de invasão agravou sua irritação. Sempre respeitou o padrinho, mas não admitiria intromissões na sua vida. Não o queria especulando sobre o que sentia por Bella quando ele próprio não sabia como nomear as sensações perturbadoras que atravessavam seu corpo quando estava próximo á ela. E não se referia ao desejo carnal, pois esse era evidente; reconhecível e, mesmo que denegrisse sua posição no clero, era de fácil solução. O que o padre gostaria de entender era aquela falta que sentia dela quando estavam apartados e que o fazia desejar ouvir-lhe a voz suave, ver-lhe o rosto de anjo, sentir-lhe o cheiro de flores. A falta que agora sentiria do toque, do corpo colado ao seu como se ela fosse uma segunda pele. Como poderia permitir que alguém – mesmo a pessoa que mais amava – tentasse elucidar mistérios que ele próprio não desvendava?

Edward não se lembrava da vez que havia discutido com o padrinho e não estava gostando de fazê-lo, então, na tentativa de acalmar os ânimos e encerrar o assunto assegurou indiferentemente.

– Bella é somente uma amiga.

– “Você é padre”! – o tutor alteou a voz; seu rosto adquiriu um tom avermelhado indicando seu nervosismo. – Padres não têm amigas... Têm amantes.

– Está louco?! – foi a vez de Edward se alterar, lívido. – Não percebe o absurdo que está dizendo?... Eu jamais faltaria o respeito com ela... Eu nunca...

– Antes de ser padre, você é homem Eddie... – Carlisle retrucou aparentemente se controlando para não gritar novamente. – Você é jovem e a senhorita Swan uma moça bonita. Acredito que não faltaria ao respeito com ela, mas “eles” não o conhecem como eu.

Dito isso apontou enfaticamente em direção á porta.

– O que acha que todos nessa cidade pensarão se souberem desses encontros casuais em uma praia deserta?

– A maldade está na mente de quem a imagina. – disse. – Não estamos nos escondendo.

Edward começava á ficar cansado daquele assunto que o expunha e que o lembrava de seu questionamento quanto á sua vocação.

– A maldade está em todo lugar Eddie. – disse o padrinho alheio aos seus pensamentos. – E é nosso dever dissipá-la, não fomentá-la.

– Não acontecerá. – Edward garantiu passando as mãos pelos cabelos. – Asseguro-lhe que não está acontecendo nada entre mim e Bella. Apenas nos damos bem e é só. Corremos juntos em uma praia deserta, mas não inacessível á outras pessoas... Se qualquer um dessa cidade nos flagrar, não verá nada mais do que isso; duas pessoas correndo, caminhando ou conversando.

Impaciente demais para se sentar, caminhou até a janela e continuou á falar enquanto olhava para a rua.

– Se agora andamos juntos ou eu a procuro na lanchonete, é somente por termos um assunto em comum. O acaso quis que ela assumisse o lugar da irmã na organização do piquenique, não nenhum de nós.

Voltando sua atenção para o padrinho, sem se importar com a expressão contrariada, prosseguiu.

– Eu não queria que ela assumisse a restauração, pois não queria sobrecarregá-la, mas já que “vocês” decidiram não me ouvir, paciência!... Eu não tenho nada á ver com isso tampouco... Se a quer por perto para procurar pelo que não existe, o tempo é seu, desperdice-o como desejar.

– Edward! – Carlisle o chamou em tom repreensivo.

Ignorando-o acrescentou.

– Asseguro-lhe que não sinto nada especial por ela... Como disse apenas nos damos bem... E não vou deixar de vê-la só porque uma das senhoras da cidade veio até aqui para saber onde fomos e o senhor não soube responder. Assumo que esse foi meu único erro... Eu deveria ter avisado que estávamos indo ver o galpão da cooperativa, assim poderia ter mantido a senhora Williams bem informada.

– Pois eu acredito que seria melhor que não a procurasse novamente... – o padrinho retorquiu. – Onde você não vê nada demais, todos vêem muita coisa. Pode assegurar convincentemente que não sente nada especial por ela, mas “eu” vejo que há uma ligação entre vocês que se não for cortada o quanto antes nos trará muitos aborrecimentos.

– Tal ligação não existe. – retrucou sentindo uma súbita dor no peito ao imaginar qualquer coisa que existisse entre ele e Bella sendo cortada.

– Se nada existe, não vejo motivos para a insistência.

Quando Edward ameaçou retrucar-lhe, Carlisle levantou a mão repentinamente em um pedido mudo para que se mantivesse calado e então, ao ser atendido, apelou para o tom conciliador.

– Escute! Não quero discutir com você nem tão pouco irritá-lo então vou simplificar... – juntando as mãos em prece diante do rosto, Carlisle arriscou. – E se eu lhe implorasse Eddie?... Se lhe pedisse pelo amor que sente por mim que não a visse mais?... Pelo menos não em situações alheias aos assuntos de sua paróquia. Você me atenderia?

O padre procurou pelos olhos do padrinho tentando encontrar neles a força para dizer que sim. Por mais que lhe doesse admitir, sabia que ele estava com a razão. Mesmo que estivessem em uma grande cidade seria escandaloso um padre ser visto na companhia de uma moça vezes e vezes seguidas. Imagine o caos que não seria naquela vila?

Edward sabia desde aquela manhã – na verdade sabia desde que a viu sobre a pedra – que o certo era se manter distante. Justamente por isso, e depois de chegar ao limite com seu sonho renovado e perturbador, determinou que seu relacionamento com Bella fosse cordato e polido. E assim o seria, pois uma coisa era ele próprio administrar sua vida; decidir “se” ou “quando” estaria com Bella. Outra bem diferente – e chocantemente angustiante – era ser obrigado á não fazê-lo. Decidido respondeu com a voz rouca.

– Se o atendesse estaria assumindo uma culpa que não carrego.

E que Deus lhe perdoasse por mais uma vez faltar com a verdade, Edward pensou antes de prosseguir sem desviar os olhos um único segundo do padrinho que começava á ficar cada vez mais pálido.

– O senhor é toda minha família. A pessoa que mais amo no mundo, mas não vejo como poderia obedecê-lo sem corroborar com os pensamentos tacanhos de alguns moradores dessa cidade. Vou continuar á ver Bella sempre que for necessário. Na praia, na lanchonete, aqui ou qualquer outro lugar... Mantendo a mesma conduta de sempre para que não sobrem margens para falatórios. Logo todos nessa cidade verão que não há nada á se especular...

– Lamento ouvir isso. – Carlisle murmurou derrotado. – Só me resta desejar que saiba o que está fazendo e que se lembre de que não podemos chamar a atenção sobre nós. Apenas... Evite escândalos.

– Não acontecerá! – Edward assegurou.

Dando o assunto por encerrado, desencostou-se da janela e cruzou a sala para tomar o caminho de seu quarto.

– Se me der licença...

– Não vai almoçar? – o padrinho perguntou franzindo o cenho.

– Perdi o apetite. – declarou e sumiu no pequeno corredor.

Ao entrar em seu quarto, o padre passou á andar de um lado ao outro. Naquele momento, mais do que nunca sentia o coração irrequieto. Confirmar sua autonomia perante o padrinho não trouxe o alivio que esperava. Pelo contrário, agora, Edward sentia uma necessidade urgente de encontrar com Bella apenas para confirmar que nada havia mudado. Ter a certeza de que ao menos continuariam ligados naquele estranho relacionamento tenso onde ela avançava consciente – e inconscientemente – e ele recuava somente para retornar mais uma vez como que atraído por um imã. Aquilo era tudo que queria para acalmar seu coração, pois diante da possibilidade de ter a moça “cortada” de sua vida, percebeu que era daquele jeito que a queria e a teria. Perto do “outro” e longe do padre; mas de uma forma ou de outra... Presente.

Ainda estava valendo a aproximação prudente que manteria a reputação dela e a dele – padre – intacta. Mas agora Edward não se furtaria de cercá-la ou receber os agrados que ela quisesse dar e que satisfariam ao outro – o estranho que despertou em si. Infelizmente teria que esperar até a manhã seguinte para dar início àquela amizade beneficiária. Isso se não a tivesse espantado com seu tom indiferente ao declarar a inconveniência em ir á praia todas as manhãs; estúpido.

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Notas finais
Bom... Mais um capítulo postado... Mais um pouco do padreco. O que acharam?... Com certeza querem arrancar o couro do padrinho intrometido, mas pelo menos Edward não lhe deu ouvidos... =) Enfim, me contem... Tô aqui lokinha para saber... =D Agora vamos ao spoiler: A cada passo que dava, Edward dizia a si mesmo que era errado o que fazia. Não deveria estar seguindo o rapaz, mas simplesmente não comandava as próprias pernas. Na verdade não as comandava desde antes de sair de casa, com a desculpa que caminharia pela praça e arredores para se distrair e manter contato com mais fiéis para que não o acusassem de favoritismo quando sua amizade com Bella se tornasse pública. O padrinho apenas lhe lançou um olhar enviesado e recusou ao convite de acompanhá-lo, permanecendo recostado sobre o sofá da sala, folheando seu breviário e fingindo indiferença á sua saída. O padre agradeceu internamente pelo padrinho não aceitar, pois seu real desejo era enveredar pelas ruas á frente da praça até que chegasse á última e depois, seguisse até o sobrado no final de sua calçada. De certa forma não mentiu, pois pelo caminho cumprimentou todos que encontrou fazendo maior esforço em decorar-lhes os nomes e os rostos. Trocou algumas palavras com alguns deles mesmo que suas pernas estivessem inquietas para seguirem caminho. Quando finalmente chegou á rua da moça, foi preciso contê-las para que não o levassem até a casa dela e batesse á porta com qualquer desculpa esfarrapada para que fosse convidado á entrar. Não era aquilo que queria. Não desejava estar com ela; somente vê-la. Algo inocente que agradaria suas duas versões e o permitira dormir em paz até que pudesse encontrá-la na manhã seguinte. Como não poderia ficar parado como um cão de guarda diante da cerca de sua casa, Edward caminhou até além dele, para a mata que a margeava e procurou se ocultar nas sombras das árvores. Acreditou estar sozinho até que ouviu passos vindos da direção oposta - pela trilha que levava á praia obrigando-o á se esconder inteiramente junto ao tronco. Quando o rapaz passou ao seu lado, Edward imediatamente o reconheceu. Estava escuro, mas ele tinha certeza se tratar do delator que se antecipou á ele contando á Bella sobre sua posição no clero. Não era certo, mas o padre não gostava dele e sabia que a antipatia era mútua. Saindo lentamente de trás da árvore, Edward pode ver que o rapaz Jacob teve a mesma ideia que ele, pois também se ocultou nas sombras. Porém mais próximo á entrada da casa de Bella. A aparição serviu para distraí-lo, mas não acalmá-lo. Logo cismava tentando adivinhar qual o motivo que levava o garoto até ali. Que assuntos obscuros ele poderia ter com a moça que o levavam á esperá-la daquela forma furtiva? Não deveria se preocupar com Jacob, disse á si mesmo á certa altura. O rapaz era livre para esperá-la da forma que desejasse; ele não. Deveria estar em casa, jantando com o padrinho. Não ali no meio do mato como um cão sem dono á espera de migalhas. Que nunca viriam, pois não era sua intenção se revelar. Por alguns instantes se arrependeu de ter ido até ali, mas nunca teve forças para ir embora. E com a chegada do garoto, nem que quisesse poderia. Com a companhia incomoda, Edward esperou por mais meia hora até que a caminhonete aparecesse no começo da rua. Conforme ela avançava, seus faróis iluminavam diretamente onde estavam obrigando-os a se esconderem atrás dos troncos grossos. Apenas quando Bella subiu com o veículo na calçada é que voltaram á espiá-la. Na verdade, Edward voltou, pois Jacob foi além, saindo das sombras e a abordando. É isso meus amores... Bjus e até semana que vem!... Bom restinho de semana!