Enigma - Segredos e Mentiras
26 Capítulo 25
Notas iniciais
Edward entrou em seu quarto agradecendo aos céus por não ter encontrado o padrinho acordado. Sair uma semana após ter voltado sujo e ensanguentado requereu alguma persuasão mesmo que sua consideração por Carlisle estivasse abalada. Não mentira ao dizer á Bella que independente da forma que se dirigia á ele, sentia que lhe devia certa obediência. Não lhe pediu permissão afinal á muito sua guarda era apenas simbólica, mas considerou ser seu dever comunicar e partir sem discussões.
Carlisle deixou evidente seu desagrado e até seu alarme em saber que voltaria á Wells. Tentou, mas não pôde demovê-lo da decisão, então o fez prometer que não iria ao antro da semana anterior; que não bebesse nem entrasse em novas brigas. Prometer não pesou sua consciência e menos ainda dirigir diretamente a The Isle. Naquela noite não importava sua posição; era um fraco com uma evidente queda á perversão. Evitou a moça bravamente por toda a semana somente para passar o dia inteiro ansiando se vestir de cidadão comum e correr atrás de cenas reais que substituíssem as imagens que o torturou por horas á fio.
Refugiou-se no canto mais escuro e distante do palco. Pediu rum e, enquanto se deixava envolver pelo ardor em sua garganta e corpo, esperou expectante pela versão loira de Bella pedindo para que se confirmasse algum engano de sua parte. Para sua agonia não havia erro algum. Mais uma vez, Edward viu aquela que lhe roubava a razão se despir quase que completamente diante da mesma plateia animada. Á exceção do inseparável Jacob Black sentia por todos os outros o mesmo pesar que tinha por si; desgraçados excitados. Levados ao limite pela dança lasciva de uma mentirosa compulsiva.
Naquela noite não permaneceu na casa após o final da apresentação. Aproveitou a comoção masculina e deixou o local, evitando olhar o deposito das notas no cordão da calcinha. Ganhou a rua necessitado de ar. Saiu desnorteado e em sua confusão mental seguiu na direção oposta á que tinha deixado seu jipe. Percebeu apenas alguns metros á frente. Fazia o caminho de volta quando Jacob deixou o galpão obrigando-o a parar abruptamente. Sem que pudesse evitar foi tomado pela velha fúria e cegamente o seguiu.
– Fui um estúpido! – ciciou jogando as chaves do carro juntamente com sua carteira sobre a cômoda. Com o peito sendo atacado por finas pontadas, o padre se atirou sobre a cama e cobriu os olhos com os braços em cruz. Antes não tivesse ido atrás do rapaz. A lembrança de Bella exposta á todos já seria perturbadora o suficiente para ainda se obrigar á assistir a paciência passiva com que o maldito amante a esperou.
Aquela era a definição certa para o pirralho. Ele vira os carinhos trocados, mais um choro por um motivo desconhecido e novamente “ele” á consolá-la. Edward sabia ser incoerente sofrer, contudo não podia evitar. Como pensou na noite que a teve naquela mesma cama, seu coração jamais teria recuperação. E era sim um desgraçado, pois mesmo com todos os detalhes sórdidos que comprometiam o caráter da moça, ele a queria. Naquela noite mais do que todas as outras, mas não procurou por alívio. Padeceu daquela necessidade dela até que o cansaço pelo trabalho braçal do dia e o rum, desligassem sua mente agitada e o fizessem adormecer.
– Acorde Eddie! – ele ouviu a voz do padrinho alta demais. – Acorde! – então ouviu o som de sua janela sendo aberta. Abriu os olhos para ver o motivo da pressa e da gritaria somente para fechá-los fortemente e gemer com o ardor de suas pupilas.
– Feche, por favor... – sua boca tinha um gosto ruim e até mesmo seu pedido lhe soou como um grito, então novamente gemeu ao sentir um latejar em suas têmporas.
– Não vou fechar a janela. – Carlisle informou sério. – E trate de se levantar? Já passa das sete horas. Daqui á pouco os homens chegam para a pintura do interior da igreja e você está deitado. E com a mesma roupa que saiu ontem!
Edward não brigou. Ao sentar se sentiu quase tão debilitado quanto na semana anterior. Com as pálpebras semicerradas olhou na direção do padrinho que o encarava visivelmente transtornado.
– Você bebeu. – não foi uma pergunta. – Eu lhe pedi e ainda assim você bebeu.
– Pelo menos não bati em ninguém. – troçou. Sem querer ser desrespeitoso na verdade. Falara apenas como piada particular, visto que vontade não lhe faltou.
– Eu desconheço você! – Carlisle se exaltou, suas palavras em italiano repercutiam pelo quarto mínimo e se convertiam em pontadas agudas na cabeça de Edward.
– Poderia falar mais baixo, por favor? – pediu se colocando de pé.
– Não, eu não poderia!... O que posso fazer por você é lhe informar que não serei conivente com esse comportamento. Uma coisa é se sentir atraído por uma mulher outra bem diferente é sair á noite como se fosse um homem do populacho para se embriagar em lugares espúrios.
– Não vai ser conivente? – Edward perguntou sustentando-lhe o olhar mesmo que as vistas lhe doessem. – E o que pretende fazer uma vez que não sei se pretendo parar?
Subitamente a tristeza tomou lugar da raiva incontida nos olhos azuis do padrinho. Quando falou seu tom foi finalmente baixo e sentido.
– Lamento ouvir isso... E também lamento lhe dizer que por mais que me doa, se insistir em agir contra sua doutrina e os votos que proclamou, serei obrigado á denunciá-lo.
Inicialmente o jovem padre nada disse. Apenas permaneceu á encarar o padrinho. E á medida que a voz sussurrada de Esme ganhava vida em sua memória, deixou que um sorriso zombeteiro surgisse e crescesse. Antes que pudesse se conter riu abertamente para espanto do senhor á sua frente. Logo Edward gargalhava e sem forças voltou á se sentar.
– Edward! – o padrinho gritou completamente vermelho. – O que há com você?... É culpa daquela menina, não é? Está fora de si por causa dela.
– Não vou lhe mentir. – falou recuperando-se do riso frouxo. Abrindo os braços como que para exibir sua lamentável figura, prosseguiu. – Estou como estou por causa daquela diaba que me atormenta noite e dia. Satisfeito?
– Você nem sabe mais o que diz. – o tio retrucou. – Não gosto da Srta Swan, mas verdade seja dita. Ela está se mantendo longe. Veio aqui apenas duas vezes e eu sei que não conversaram, pois queira ou não eu estou vigilante. E ela não tem perturbado você.
Havia decidido não se expor, mas estava no seu limite, então sem medir a força empregada, socou a própria têmpora com violência.
– Ela está aqui! – e sem condições de negar nem mesmo para si, socou o peito. – E está aqui!... Vigie isso senhor.
– Edward não... – o padrinho começou pesaroso, contudo o afilhado se pôs de pé, cortando-o.
– Dispenso sua piedade assim como dispenso seus sermões. – também sem condições de ocultar sua decepção, acrescentou sugestivamente. – Na verdade, nem está em condições de fazê-los.
– O que disse? – Carlisle o inquiriu; confuso.
– Isso mesmo que ouviu. Que não está em condições de aplicar sermões. Ou melhor, não tem embasamento moral para aplicá-los.
– Está louco! – exclamou dando um passo atrás. – O que aquela enviada dos infernos fez com você?
– Infelizmente nada do que Esme Platt faz com o senhor. – disparou.
O tom avermelhado que Carlisle trazia na face pelo calor da discussão desapareceu de súbito, tornando-o completamente lívido às palavras do sobrinho. Após um instante em que o encarou em choque, falou num murmúrio rouco.
– Não sabe o que está dizendo... Eu e a Srta Platt não temos nada um com o outro.
– Não têm? – Edward escarneceu. – Então se “eu” denunciá-lo, como explicará a presença dela em seu quarto?
– Eu deveria ter adivinhado. – o tio disse com o que para si mesmo. – Está estranho desde aquele dia que voltou cedo para casa.
– Justamente! Se Bella tivesse me levado á Wells eu nunca descobriria sobre seu “nada” com Esme.
– Pois saiba que guardou essa desconfiança á toa. – Carlisle disse cansado. – Se tivesse me cobrado uma explicação eu lhe daria.
Edward riu escarninho.
– Agora vai tentar me convencer que eu não ouvi direito?
– Não sei o que ouviu, mas com certeza a viu saindo de meu quarto. – Carlisle falou com a cor do rosto recuperada. Depois de um assentimento mudo de seu sobrinho, prosseguiu. – Levá-la até ele foi meu único erro, mas não aconteceu o que essa sua mente deturpada imagina. Eu apenas comentei que os pontos da operação estavam prendendo em minha roupa e ela gentilmente se ofereceu para cobri-los.
– Perdoe-me se minha mente deturpada não me deixa acreditar no senhor. Eu não apenas a vi sair, como escutei o suficiente para saber que aquele encontro fortuito não foi o primeiro.
– Impossível! – exclamou sério.
– Eu acho bem possível. – Edward retrucou. – Nesses últimos dias descobri que não o conheço. Não só por seu envolvimento com Esme, mas lhe ouvi á sussurrar no telefone... Antes eu não via, mas agora sei que esconde muitos segredos.
– Não vou ficar aqui ouvindo essas bobagens. – Carlisle exclamou. – Provavelmente ainda está sob o efeito do álcool.
– Se estou errado me diga o motivo de serem discretos como Esme comentou? Conte-me com quem falava ao telefone depois de me fazer acreditar que era engano.
– Eu não tenho que lhe dizer nada, porque não há o que dizer. – o tio ergueu as mãos em sinal de derrota. – Acredite no que quiser. E fique tranquilo... Não vou mais ameaçá-lo. É um adulto agora, responsável por seus atos e somente você responderá por eles. Se não perante os homens, será perante o Senhor... De minha parte, tenho a consciência tranquila. E se quer manter essa vida dupla na qual se lança, ao menos seja discreto. Tome um banho e melhore essa cara para receber seus voluntários.
À saída intempestiva do padrinho, Edward cerrou os punhos para não aplaudi-lo cinicamente. Esteve certo ao não desejar confrontá-lo, pois este escorregaria por entre seus dedos como havia acabado de fazer. Era um bom ator, pena para ele que não tivesse convencido o afilhado com suas justificativas inconsistentes. Apenas um detalhe de seu discurso tinha valia. Caso quisesse ingressar na vida dupla, teria que ser discreto. Aquele tutorial vindo de um dissimulador nato não poderia jamais ser ignorado, então juntando as roupas que usaria para ajudar na pintura do interior da igreja, Edward tratou de seguir ao banheiro para se deixar apresentável.
O silêncio á mesa do café da manhã na casa dos Swan não era completo pelo som vindo das xícaras, copos, pratos e talheres manuseados. Bella vez ou outra arriscava olhar na direção da irmã tentando adivinhar-lhe os pensamentos. Fez o mesmo com Jasper que chegou á uma hora completamente imprópria; tarde para seus passeios com os amigos e cedo caso estivesse com Alice.
– Dia estranho. – Charlie comentou quebrando o silêncio de vez.
– Por diz isso querido? – Renée deu voz á pergunta geral.
– Todos calados... Rosie eu imagino que esteja comovida pela proximidade do casamento, mas Bella e Jasper? Nem foram á praia hoje, qual o milagre?
Ao comentário claramente maldoso, Bella se compadeceu da irmã. Não era a toa que mendigava afeto e a desprezasse. E mais do que nunca desejou que ela seguisse seu péssimo exemplo.
– Perdi a hora. – Jasper explicou. – Mas se o senhor me liberar um pouquinho antes de eu ir ajudar com a pintura da igreja, ainda tenho tempo. Eu agradeceria muito, pois só tenho essa semana para aproveitar da companhia de minha irmãzinha linda. – brincou estendendo a mão e apertando a bochecha de Bella.
A informação afugentou os pensamentos rebeldes da moça que, encobrindo sua ansiedade, perguntou diretamente ao pai.
– O senhor pretende zarpar na próxima semana?
– Se seu namorado devolver meu barco no sábado como prometeu, sim... Partimos em nove dias. Na segunda bem cedo como sempre.
A moça evitou olhar para a irmã. Agora ela sabia da farsa e caso quisesse, tinha em suas mãos uma boa arma para se vingar de todas as magoas acumuladas durante anos. Porém seu medo foi infundado; Rosalie nada disse. Apenas terminou de tomar seu café e, depois de pedir licença ao pai, se levantou e partiu despedindo-se de todos de um modo geral. Aliviada e querendo crer que aquele fosse um bom sinal, fez coro com o irmão. Se eles iriam partir em breve, ela normalmente também iria querer sua companhia.
– Se é o caso então libere Jasper para um passeio rápido.
– Ou uma possível disputa até a piscina... A maré está boa hoje.
O pai olhou de um ao outro, então liberou sério.
– Está bem! Já somos muitos de toda forma...
– Legal! – Jasper exclamou. – Hoje você perde para mim maninha.
– Veremos! – ela retrucou. Então voltou sua atenção á panqueca preparada pela mãe, com fome renovada. Não deveria estar feliz com a partida, mas não podia evitar. Finalmente teria um pouco mais de liberdade.
Com o espírito em festa, Bella terminou seu café em silêncio, domando seu coração saudoso. Queria poder avisar á Edward sobre a iminente partida e que ele se alegrasse assim como ela, contudo ainda considerava melhor se manter distante, pois não sabia o que se passava e não iria reincidir nos erros. Cedo ou tarde ele saberia e viria á ela como prometido.
– Bom, com licença – pediu deixando a mesa. — Já que vou ser derrotada é melhor eu me aprontar.
– Vou esperar lá fora. – Jasper avisou enquanto ela deixava a cozinha.
Bella apenas confirmou com o polegar em riste. Subiu a escada de dois em dois e em seu quarto vestiu shorts e camiseta rapidamente. Quando prendia seu cabelo em um rabo de cavalo, teve que expulsar uma leve tristeza ao lamentar que as corridas propostas por Edward nunca tivessem sido iniciadas. Teve coisa melhor; conseguiu seus beijos. E certa cumplicidade mesmo que essa ainda fosse frágil e falha. O interesse havia e mesmo com aquele silêncio não tinha sido oficialmente dispensada.
– Então nada de desanimo! – disse ao seu reflexo no espelho antes de se mandar um beijo, sorrir e sair. Como combinado encontrou Jasper já fora da casa, no início da trilha. – Pronto para perder?
– Não haverá corridas Bells. – o irmão falou sério, abraçando-a pelos ombros quando se puseram á andar.
– Não? – ela estranhou. O irmão pareceu tão animado á mesa.
– Acabamos de comer sua maluca. – disse sorrindo.
– É verdade. Então será só um passeio mesmo... – ela murmurou contente. Um dos últimos antes do irmão voltar ao mar.
– Será... – Jasper confirmou novamente sério. – Na verdade queria falar com você á sós para lhe pedir um favor. Já falei com Rosie antes do café e ela disse que tudo bem.
– Precisa de um favor de nós duas? – a moça se voltou para olhar o rosto do irmão. – Para quê?
– É por causa de ontem. – ele falou olhando sempre á frente. – Não esperava encontrar ninguém acordado quando cheguei. Mamãe e papai pensam que voltei de Wells agora pela manhã, acham que dormi com Alice.
Á explicação Bella parou abruptamente e se desvencilhou do abraço.
– Vai me pedir para não contar á ela? – indagou com as sobrancelhas unidas. – Onde estava? – e antes de ter sua resposta, como se sozinha tivesse chegado á ela, arregalou os olhos e exclamou incrédula. – Estava com outra garota?
– Não! – o irmão negou veemente. – Não é nada disso!
– Então o que é? – Bella perguntou cruzando os braços, encarando-o duramente. – Precisa ser muito bom. Amo você, mas Alice é minha melhor amiga e não vou deixar que a engane.
– Não estava enganando. – ele falou passando as mãos pelos cabelos. – É que eu queria conhecer um lugar e ela sempre se negou á ir comigo, então combinei com James e fomos juntos na noite passada. Essa parte eu contei para Rosie, pois ela não se importa mesmo.
Subitamente algo na mente da moça estalou. Poderia ser seu receio lhe soprando pensamentos pessimistas ao ouvido, mas á menção de conhecer um lugar que Alice se recusasse á ir a deixou em alerta. Com o corpo levemente trêmulo, ela tentou por fim á dúvida.
– Que lugar era esse? – sua voz saiu muito baixa.
– Ah, você conhece... – ele falou alheio ao seu rosto pálido. – É aquela casa noturna. A The Isle, eu nunca tive vontade de ir, mas os rapazes comentaram que agora eles têm uma atração imperdível... Quis conferir.
Bella esteve paralisada em choque até que seu irmão lhe piscasse ao final. Nesse momento todo o conteúdo de seu estômago subiu-lhe pela garganta obrigando-a a se voltar para a beirada da trilha. Sem forças, caiu de joelhos enquanto expulsava todo seu café da manhã. Os engulhos persistiram até mesmo quando já havia expelido a bili ácida e não tivesse nada mais para vomitar.
Suando frio e tremendo violentamente, ela percebeu que o irmão estava curvado ás suas costas, com um braço atravessado por seu peito e segurando-a pela testa com a mão livre. O toque a exasperou e enojou tal qual acontecia durante os assédios de Jacob. Ainda á engulhar sem nada expelir, Bella procurou por sua força e o empurrou.
– Tire suas mãos de mim! – gritou descontrolada. A simples ideia de que seu irmão estivesse na plateia sempre anônima, vendo-a nua sobre o palco a adoecia. Ao tentar se erguer, suas pernas falharam obrigando seu irmão alarmado á ampará-la. Debilmente ela tentou reagir, batendo sem força alguma nas mãos que tentavam segurá-la ou no rosto quando este estava ao seu alcance. – Já disse para me soltar.
– Pare com isso Bella! – Jasper ordenou, imobilizando-a.
Sentir o irmão completamente abraçado ás suas costas á enojou mais. Era um contato fraterno, mas graças á ela e ao seu imenso poder de estragar as boas relações, estava corrompido. Com lágrimas quentes á rolar pelo rosto, ela implorou.
– Me solta Jasper, por favor, me solta...
O irmão hesitou por um instante antes de atendê-la. Imediatamente Bella caiu sentada ao chão e sem nada explicar, cobriu o rosto para chorar sua vergonha e estupidez. Considerava-se muito esperta, mas não passava de uma garota arrogante e inconsequente. Como se um véu tivesse sido tirado de seus olhos, pôde ver boa parte dos homens de Sin Bay entre todos aqueles que ela nunca enxergara. Divirta-se agora sua imbecil!
– Bella... – o irmão chamou agachando-se á sua frente sem tocá-la. – Sabia que você amava Alice, mas não ao ponto de ter essa reação por acreditar que o que fiz foi tão nojento. – sorrindo sem humor, comentou. – Quando eu iria imaginar que eu tinha uma irmã moralista!
A moça digeriu as palavras, calando uma gargalhada mordaz pela piada que era seu grau de moralidade. Sem altivez alguma, agradeceu aquela facilidade em obter respostas daqueles que deveriam cobrar por “suas” ações. Mesmo que o irmão tivesse visto seu corpo nu, não a reconheceu e não era sua intenção se delatar, então deixaria que pensasse o que bem entendesse. De toda forma não conseguia lhe dirigir a palavra. Sua garganta estava dolorida e travada. Tudo que bravamente conseguia era olhá-lo nos olhos e chorar.
– Ajudaria se eu disse que não gostei? – ele confessou parecendo sincero. – Sou homem é claro, mas aquele não é meu ideal de afirmação. Preferia mesmo ter ficado com Alice, por isso não quero me indispor com ela. Ainda mais agora que vamos voltar para o mar.
Ao menos aquilo. Seu irmão não se excitou com suas contorções eróticas, pensou na tentativa fraca de consolar-se. Então um pensamento lhe ocorreu. Ele e James poderiam ter visto Jacob na plateia. Obrigando-se á colher mais informações, forçou sua voz á sair.
– Por que não gostou?
– Sei lá. – ele disse também se sentando. – O lugar é escuro e barulhento demais. Como não consegui que Alice me liberasse na hora que combinei, tive que arrumar um jeito de remarcar com James e com isso nos atrasamos... Nossa curiosidade era conhecer essa atração que lhe falei. Uma “Virgem” que dizem ter lá... Mas ela já tinha se apresentado.
Bella sentiu seu corpo desfalecer quando o alívio arrefeceu boa parte de sua aflição subitamente. Não merecia, mas sem dúvida alguém no céu gostava dela. Deveria tomar aquilo como um aviso divino – o cruel e mais eficaz de todos – para mudar a forma leviana que levava sua vida. Extenuada, com o estômago agora vazio á doer fortemente, ela tentou encerrar o assunto.
– Se é como me diz, pode ficar sossegado. Não direi nada á Alice... Mas me promete que nunca mais volta àquele lugar?
– Nunca mais! – Jasper prometeu com a mão erguida, como sempre faziam desde criança. – Eles que façam bom proveito das virgens e de todas as outras eu quero é paz com minha noiva.
Sorrindo mansamente, Bella nada disse, apenas tentou se erguer. Falhou completamente e caiu sentada no mesmo lugar. Preocupado, Jasper se pôs de pé e sem se importar que ela tentasse afastá-lo, puxou-a do chão e a pegou no colo.
– Se espernear eu lhe jogo no mato. – ameaçou caminhando de volta para casa.
Não havia mais motivos. Os olhos de Jasper nunca pousaram sobre seu corpo nu, ele não a desejou como mulher, tudo estava de volta ao seu lugar. Pousando o rosto contra o ombro forte do irmão, Bella considerou que aquele episódio infeliz teve o poder de esclarecer outro relacionamento. A similaridade asquerosa dos toques lhe fez enxergar a razão de não suportar que Jacob a acariciasse intimamente; o amigo era equivalente a um irmão.
Naquela sexta, Edward foi o voluntário mais aplicado entre todos os outros. Sentindo falta da ação de suas corridas ou de suas flexões, o jovem padre se lançou ao trabalho braçal com afinco até sua completa exaustão. Movimentar-se durante todo o dia ajudou não somente á concluir a pintura interna da igreja, como á ocupar sua cabeça. Como se não bastassem todas as costumeiras perturbações, havia agora a preocupação com a indisposição descrita por Jasper, tão logo ele se apresentou ao trabalho pela manhã. Estava preocupado com Bella, mas ainda não queria vê-la. Enquanto cobria as paredes lixadas com tinta branca, tentava dizer á si mesmo que Jasper não mentira ao dizer que ela estava “bem”, de certa forma.
Já á jantar com o padrinho – ambos imersos em seu próprio silêncio – Edward agradeceu pela noite que veio ligeira e pelo esgotamento físico que lhe acenava com a promessa de sono ininterrupto, quando então acordaria para o dia que teria a possibilidade de ver a caçula dos Swan sem se comprometer. Finalmente o tão comentado baile chegaria e esperava que ao pousar os olhos sobre Bella, finalmente conseguisse tomar sua decisão.
– Como está sua mão? – a voz do tio o sobressaltou.
– O que disse?
– Perguntei sobre a sua mão. Já não era hora de retirar esses pontos?
Edward olhou para sua palma instintivamente. Nem se lembrava dos benditos pontos dados pelo pai de Jacob.
– Depois eu dou um jeito de tirá-los. – falou sem se importar como faria. – Obrigado por perguntar. – então voltou sua atenção ao prato. Estava apreciando o silêncio anterior, mas parecia que seu tio não partilhava o mesmo gosto.
– Então a garota está doente? – indagou. Edward não sabia o que esperar, ainda assim respondeu sem entonação especial.
– Segundo o irmão, está sim.
Fez-se silêncio. Quando Edward desconsiderava o comentário vago, o tio voltou á falar.
– Gostaria de visitá-la?
O padre engasgou com o bocado que mastigava. Foi preciso tomar um grande gole de água para limpar sua garganta. Quando falou estava completamente rouco e incrédulo.
– Foi isso mesmo que quis perguntar?
– Não me olhe como se eu fosse uma aberração. – Carlisle pediu sério. – Não perguntei como padre. Estou fechando meus olhos e falando como seu tio. Por mais que me custe eu não posso negar o que sente por ela. Se for o que imagino, sei que deve estar preocupado.
Por um momento Edward considerou se o padrinho falava por experiência própria. Talvez fosse o caso, afinal deveria se preocupar se alguma coisa acontecesse á Esme. Ele não confirmou, mas sabia que estavam juntos e o oferecimento poderia ser uma tentativa de trégua. Fosse como fosse, ainda não estava preparado.
– Por hoje vamos deixar como está. – disse voltando á encher o garfo com a comida deixada pela senhora Williams. O padrinho seguiu-lhe o exemplo sem nada acrescentar. Quando engoliu o bocado, suspirou e disse verdadeiramente agradecido. – Obrigado por perguntar!
– Por favor – Carlisle pediu taciturno –, não me agradeça por isso.
Como não havia nada mais á ser dito, finalmente comeram em silêncio. Ao final da refeição, Edward anunciou que se recolheria mais cedo. Ainda não havia escurecido, mas ele ansiava por sua cama onde esperava ter um pouco de paz em um sono instantâneo. Não merecia, mas foi atendido prontamente.
– Quem está aí?! – Bella perguntou á irmã, sentando-se em sua cama.
O susto matinal a deixou mal durante todo o dia, fazendo-a pedir dispensa até mesmo da galeria. Somente a notícia de sua irmã teria o poder de reanimá-la.
– O senhor Cullen veio vê-la, e papai permitiu que ele viesse até aqui então me pediu para ver se estava acordada e vestida decentemente.
– Estou sim. – disse o que sua irmã já havia visto. Arrumando o cabelo com as mãos nervosas, falou. – Deixe que ele suba.
Animada com a visita de Edward, descobriu-se para sentar corretamente em seu colchão. Pensou em alisar a coberta, mas não quis ser pega durante a arrumação atabalhoada. Ele estava ali para vê-la, não para reparar em uma cama que fora usada por todo o dia. Logo ouviu os passos na escada que fizeram seu coração disparar. Acreditava que seria capaz de se jogar ao pescoço do padre tão logo ele cruzasse sua porta, quando seu visitante pediu com forte sotaque.
– Posso entrar?
Ao reconhecer a voz arrastada, toda alegria de Bella se converteu em cautela. O que Carlisle Cullen poderia querer ali?
– Tem toda. – falou voltando instintivamente para baixo das cobertas, como se estas lhe oferecessem alguma proteção contra o homem que lentamente entrava em seu quarto. Ele lhe sorria, mas ela não se deixou contagiar. Séria, cumprimentou. – Boa noite senhor!
– Boa noite. – ele disse. Indicando a cama de Rosalie, perguntou. – Posso?
– Por favor. – liberou. O italiano se acomodou e a encarou. Por alguns segundos apenas a analisou, então disse.
– Vim saber como está.
– Por quê? – ela indagou diretamente. – Sabemos que não gosta de mim.
– Você é direta. – observou com um sorriso leve, sem humor. – E não abaixa a cabeça diante dos mais velhos... Talvez seja essa empáfia que a torne atraente.
– Ah... Veio mesmo foi me insultar.
– Não é o que faço. Apenas digo o óbvio. E você tem certa razão... Não é minha pessoa preferida no momento, mas está diretamente ligada á alguém que amo então é por isso que estou aqui. – ele disse sério. A ideia era absurda, mas a moça simplesmente não pôde calá-la.
– Edward pediu que viesse me ver?
– Por quem me toma menina?! – ele ciciou bruscamente.
– Perdoe-me. – Bella pediu realmente sentida. A ideia era mesmo absurda. Encarava o rosto muito sério quando a verdade lhe ocorreu. – Veio pedir para que eu me afaste? Caso não tenha percebido já estou fazendo. – não pela vontade deles dois, mas não precisava explicar.
– Não está fazendo direito. – Carlisle disse sustentando-lhe o olhar. – E também não sei como seria certo, tudo o que sei é que você está destruindo meu sobrinho.
– Eu?!... – Bella uniu as sobrancelhas. – Como isso é possível? Não sei o que o senhor acha que acontece, mas está enganado... Eu não faço “nada” com seu sobrinho.
– Não tenho dúvidas que não mantêm relações – Carlisle falou direta e secamente. –, ainda assim você o afeta, pois meu sobrinho é uma pessoa... – ele parou á procura de uma palavra. – complexa.
– Complexa? – não era para dizer em voz alta, mas a descrição em uma única palavra a fez externar o espanto.
Não que a considerasse mal empregada, mas pela adequação do resumo. Seu visitante conhecia bem as complexidades daquele que havia desistido de entender. Edward em sua duplicidade sempre seria uma incógnita para ela. Naquele momento desejou ser no mínimo bem considerada por Carlisle. Ele com certeza traria luz aos pontos obscuros do comportamento sempre contraditório do padre que amava.
– Sim, ele é complexo... – Carlisle prosseguiu. – Edward já passou por muitas coisas nessa vida. – quando ela ameaçou interromper-lhe, ele ergueu a mão para silenciá-la. – Coisas que não lhe dizem respeito e que não valem á pena serem lembradas. O problema é que depois de conhecê-la, ele perdeu a paz que o mantinha centrado. Você desperta seu pior quando o afasta de seu caminho; o deixa descontrolado.
Por mais que sua curiosidade estivesse aflorada, a intensidade com que o velho padre lhe dizia aquelas coisas a fazia calar e duvidar se queria um dia descobrir mais sobre Edward.
– Acredite. – foi incisivo. – Edward não merece o mal que está causando á ele então espero que pare de cercá-lo, se possível evite ir ás missas e fale com ele somente quando não puder evitar. Resumindo, quero que o desestimule á querer qualquer aproximação com você caso já tenha pensado na possibilidade.
– O que me pede é impossível. – falou decidida. – Essa cidade é pequena, não tenho como evitá-lo.
– Mas vai. – Carlisle afirmou num sussurro, livre de qualquer autoridade. – Entenda que não vim lhe ordenar que faça essas coisas, pois está claro que age de acordo com sua própria vontade. Vim á procura de compreensão e humildemente pedir que tenha piedade de meu sobrinho. Não sei o que a move... Diversão, vaidade ou capricho e sinceramente não importa... Somente, por favor... Pare.
Antes tais palavras a levariam á fazer exatamente o contrário. Contudo, desde o dia anterior com Jacob – e mais efetivamente depois da conversa desesperadora com seu irmão – Bella parecia ver tudo com outros olhos. E essa nova visão lhe mostrou um homem sofrido, não mais um rival á ser vencido. Ainda assim não poderia atendê-lo. Carlisle disse ter ido atrás de compreensão, então desejou obter o mesmo. Não queria que ele a visse como uma garota voluntariosa; mesmo que nada mudasse.
– Ajudaria se lhe confessasse que amo seu sobrinho? – murmurou.
– Ajudaria. – Carlisle foi sincero, contudo antes que se animasse ele acrescentou. – Mas seu amor não basta. Se acreditasse que sim por apenas um minuto, eu mesmo seria á favor que Edward se relacionasse com alguém. Eu o aconselharia á deixar o sacerdócio para tomá-la por esposa e até abençoaria essa união.
– O senhor não tem como saber. – falou esperançosa. – Ninguém pode prever o futuro.
– Quisera poder fazê-lo – exclamou. – Contudo, se me permite uma citação, não tenho objetivos distantes demais de minhas mãos... Eu tenho certeza do que acontece “hoje”. E no momento meu sobrinho precisa de paz e proteção. Precisa ser quem é e não quem você desperta nele.
Bella cogitou insistir, mas de repente se deu conta do absurdo da situação. Ambos conversavam como se Edward fosse um homem incapaz de tomar as próprias decisões. Por solidariedade á preocupação demonstrada poderia dar sua palavra e se manter longe, mas o que faria quando ele viesse procurá-la? Iria contra seu coração?
– Escute. – começou, sem desejar prolongar um assunto que nem mesmo deveriam estar tendo em sua casa. – Como já deve ter percebido nós nem mesmo conversamos. Vou continuar quieta, por ele. Isso é tudo que posso fazer. – e não era uma promessa, pensou.
– Como também lhe disse, ainda é pouco, mas não vejo mesmo o que mais possa fazer. – ele se pôs de pé. – Então, vou confiar em você. No mais, vamos rezar para que seja o suficiente.
– Vamos sim. – murmurou, sabendo que tomaria a liberdade de rezar para que não fosse. – Obrigada pela visita!
– Obrigada por não ter tornado essa conversa difícil como eu imaginei que seria.
– Posso ter vários defeitos senhor, mas eu sou educada.
– Vou acrescentar isso á lista das coisas boas que consegui ver em você essa noite. – disse sorrindo sinceramente, confundindo-a. – Boa noite Srta Swan. Estimo suas melhoras.
Ela apenas lhe acenou com a cabeça e o viu sair. Somente quando se atirou de costas sobre seu travesseiro percebeu o quanto estava tensa. Se repassasse as palavras ditas naquele quarto, poderia crer ter conseguido algumas respostas através do velho padre. Seria por temer voltar aos dias difíceis que Edward resistia á ela? Aquela era um justificativa válida que a enternecia; e não desmotivava. Comoveu-se com o pedido de Carlisle e sabia ser errado desejar um padre, mas nada podia fazer quanto á ambos. Entre todas as coisas que decidiu consertar em sua vida, havia tantas outras que permaneceriam defeituosas.
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