Enigma - Segredos e Mentiras
14 Capítulo 13
Notas iniciais
Por mais que não quisesse admitir Edward esperava expectante pelo reaparecimento da caçula dos Swan e do grandalhão loiro. Nem que ela surgisse com as roupas amassadas ou carregando algumas folhas que denunciassem sua traição á Jacob num encontro amoroso com o “amigo”. Nem que essa prova de sua fornicação viesse para agravar a dor persistente que sentia ou se juntar á imagem dela com os olhos vendados para perturbá-lo ainda mais. Queria-a sob suas vistas.
Não gostava do garoto moreno, mas até mesmo ele seria bem vindo se aparecesse e saísse á caça de sua namorada para trazê-la de volta. Suas intromissões não poderiam ocorrer somente com ele, Edward. Poderiam também dar fim àquele passeio suspeito pela orla da mata. Para seu infortúnio, o mecânico eventual não pareceu. Os minutos passavam por ele cortando-o como pequenos punhais; arranhando seu peito, esperando-lhe a cabeça. Não era de sua conta, pensava, mas cada vez mais estava difícil de ouvir-se.
Ás cinco horas em ponto Renée subiu ao palco montado por Jacob no meio do jardim. Estava na hora de começar o bendito leilão inventado por Bella e ela ainda não havia voltado. A primeira á subir ao palco foi Angela. A menina tímida de óculos havia oferecido seus dotes culinários e garantiu cozinhar durante um dia inteiro para quem desse o maior lance.
– Bem, meus amigos... – começou Renée. – Vamos começar com o lance mínimo de vinte dólares. Alguém se interessaria em ter uma cozinheira de um dia inteiro por essa bagatela?
– Eu ofereço os vinte dólares. – alguém gritou da platéia.
– Tenho vinte dólares... Alguém oferece mais? – ela perguntou para todos.
– Dou vinte e cinco dólares... – outra pessoa cobriu.
– Vinte e cinco dólares. – a mãe de Bella repetiu.
Edward assistia ao leilão com os braços cruzados. Àquela altura já havia desistido de flagrar o momento que Bella regressasse, pois estava claro que o tal “amigo” não a devolveria ao evento. Ordenando-se que a deixasse de lado, pois “realmente nunca seria da sua conta”, o padre concentrou-se na brincadeira á sua frente.
Em dado momento passou a achar certa graça, pois o namorado de Angela começou a disputá-la com a mãe da mesma. Cada um cobria o lance do outro até que, depois de uma piscadela entre mãe e filha, Ben ficou com o último lance e arrematou os dotes culinários de sua namorada. Se o rapaz tinha outras intenções para a jovem, elas caíram por terra, pois quando ele se aproximou sorridente de Angela para acertarem o recebimento do prêmio, a senhora Weber gritou para ambos.
– Angela, não se esqueça de avisar que as refeições serão servidas em nossa casa.
Todos riram da expressão consternada de Ben e passaram a fazer piadas para perturbá-lo. Em minutos o rapaz acompanhava-lhes o riso abraçado á namorada. Edward olhou para o casal com bons olhos á princípio. Logo, porém começou a sentir a nova comichão em seu peito. Ele próprio nunca teria momentos como aquele; de atenção e carinho mútuo. Como Bella deveria ter todas as noites com Jacob; como deveria estar tendo naquele exato momento com Emmett. Traidora!
“Pare Agora”, ordenou-se e voltou á atenção ao palco. Agora era Alice, noiva de Jasper, que oferecia suporte contábil á quem a arremata.
– Vamos começar também com o lance mínimo de vinte dólares. Nem adianta olhar feio para mim mocinha... – advertiu a futura sogra. – Todos os lances iniciais terão o mesmo valor, nada que querer valorizar-se.
Alice bufou demonstrando sua inconformidade fazendo com que rissem de sua expressão.
– Ofereço quarenta dólares para ela costurar minhas meias. – Jasper gritou do meio de todos, fazendo com que rissem ainda mais.
– Não é esse o combinado. Então use seu dinheiro para comprar meias novas seu desleixado. – Alice retrucou contendo o riso.
– Se fizer isso não contribuo para as obras da igreja, oras... – ele arrematou como se explicasse o óbvio.
Depois de outra leva de risos – com os quais Edward se deixou contagiar – os lances se seguiram fáceis. Dessa vez o namorado não levou a melhor. Ele mesmo teria que costurar as meias, Edward pensou levemente divertido. Depois de Alice, arremataram a limpeza no jardim que Rosalie oferecia. As cinco aulas de piano de Jessica – que Edward duvidava que surtissem efeito. Mais seis garotas que o padre ainda não estava familiarizado com os nomes passaram pelo palco.
A descontração de todos teve o poder de distraí-lo até que, quando Renée aceitava a última oferta feita por Carlisle pelo piquenique particular de Esme, Bella chegou afogueada junto ao palco desviando-lhe a atenção do arremate inusitado do padrinho. As roupas não estavam amassadas ou sujas, mas seu rosto corado e suado era o retrato do pecado.
Com o espírito revoltado, Edward olhou em volta á procura daquele que a havia deixado naquele estado. Logo o avistou atrás das pessoas que assistiam ao leilão. O padre prendeu a respiração ao vê-lo também suado com o rosto em chamas. O rapaz era alto, sua cabeça se sobreponha ás demais permitindo uma boa visão de onde Edward se encontrava. O loiro não desprendia os olhos de Bella. Impossível não reparar que eles brilhavam.
Não era certo. Decididamente não era de sua conta. Mas ainda assim Edward sentia seu sangue correr nas veias, tamanha era a raiva que sentia. Obrigando-se a desviar os olhos do grandalhão, voltou sua atenção á moça. Viu-a conversar brevemente com a mãe; provavelmente pedindo desculpas pelo atraso ou pela aparição acalorada. O padre esperava que a mãe não a desculpasse e a trancasse em casa não permitindo sequer que fosse ao tal passeio citado por Alice mais cedo.
“Você está sendo infantil”, sua porção sacerdotal disse ao leigo indócil que sofria pela falta da moça. “Entenda de uma vez por todas que o que a garota faz ou deixa de fazer não lhe diz respeito. Supere.”
Entoando essas palavras repetidamente como um hino em sua mente, Edward assistiu a moça subir ao palco sorridente. Seu coração falhou ao capturar o olhar furtivo dela em sua direção. O contato durou menos que um segundo e ainda assim teve o poder de inflamá-lo sob as vestes. Deixando-se aquecer por aquele breve olhar, disse á si mesmo.
“Você apenas se preocupa com ela por ser o padre da cidade; seu amigo. Nada mais que isso, nada mais que isso. Não a quer perto de qualquer um não porque ainda sinta ciúmes, mas porque deseja o melhor para ela; nada mais do que isso. E aquele grandalhão tinha todo o jeito de ser um aproveitador, mesmo que a família dela dissesse o contrário”.
– Bom... – a voz de Renée chamou sua atenção. – Eu deveria deixar minha filha de fora, já que não estava aqui desde o início. Mas, como ela desculpou-se e nós não podemos abrir mão de nenhuma contribuição para a as obras da igreja, vou leiloar seus préstimos.
Edward viu Bella sorrir para a mãe e depois para alguém na multidão. Ele não precisava olhar para saber quem tinha sua atenção agora. Antes que cismasse até mesmo com isso, Renée prosseguiu.
– Ela mudou seus serviços... Antes daria cinco aulas de desenho, mas agora resolveu oferecer um dia de limpeza na casa de quem a arrematar.
O coração de Edward protestou ao ouvir as palavras e ver que o sorriso de Bella se alargava na direção do rapaz loiro. Eram cúmplices, ele pensou contrafeito. O que os dois estariam tramando?... Definitivamente boa coisa não era; disso tinha certeza. Certeza essa que foi confirmada depois do primeiro lance de Emmett.
– Ofereço cinquenta dólares. – ele gritou detrás das pessoas.
Para sua surpresa, Renée sorriu com todos os seus dentes. Imediatamente Edward procurou Charlie com olhar. Com certeza o pai faria algo á respeito, afinal estava clara a má intenção do rapaz. Porém tudo que viu foi o líder comunitário sinalizar em sua direção com o polegar para cima. Franzindo o cenho, o padre os ignorou e se concentrou no leilão.
– Ofereço sessenta dólares. – disse outra voz.
– Temos sessenta dólares. – Renée repetiu procurando por quem havia feito o lance.
Edward imitou-a e seguiu a direção apontada pelas cabeças voltadas e viu que o lance havia sido feito por Jacob. Mesmo sendo o namorado secreto que se deitava com ela nas noites de quinta, e ter desejado que ele aparecesse para tomar conta de Bella, Edward não o considerava uma boa escolha para ela.
– Setenta dólares. – gritou Emmett.
– Tenho setenta. – ela voltou a lhe sorrir encorajando-o.
– Oitenta... – cobriu o moreno.
– Oitenta. – Renée repetiu sem empolgação.
– Noventa. – a voz de Emmett não trazia mais nenhuma nota de divertimento.
– Agora tenho noventa dólares! – ela ainda tentava animá-lo com um sorriso.
– Cem dólares... – disse Jacob sem se abalar.
– Cem?! – Renée inquiriu. – Tem certeza Jacob?
– Porque não teria? – o moreno inquiriu altivamente.
Dando de ombros Renée repetiu.
– Tenho cem dólares.
Bella assistia á disputa visivelmente aborrecida pela intromissão e insistência do amante. Depois da pergunta indiscreta e vexatória da senhora Swan, e do olhar fulminante da traidora, Edward sentiu certa compaixão por ele. Ainda assim não queria que Bella ficasse um dia inteiro em sua casa, onde arrumação seria a última coisa que faria.
– Cento e vinte dólares! – Emmett ofereceu sério, encarando Jacob com as mãos na cintura, desafiador. As pessoas em volta riam e gritavam frases de incentivo ora para um, ora para o outro. Á Edward pouco importava que brigassem entre si, depois lhes chamaria a atenção. Na qualidade de líder religioso da pequena cidade eles lhe respeitariam. O que lhe incomodava; na verdade enraivecia, era vê-los disputar por Bella. Ainda se dizia que não era de sua conta com quem ela ficasse quando se ouviu dizer em alto e bom som.
– Ofereço duzentos dólares de minha reserva pessoal para que a senhorita Swan limpe a igreja e a casa paroquial.
Após instantes de silêncio absoluto, nos quais Edward pôde ouvir seu próprio coração alarmado por sua ação, todos explodiram em riso, assobios e aplausos. Bella olhava em sua direção visivelmente incrédula. Para sua salvação, os pais dela pareciam ter aprovado sua iniciativa. Bom, Renée aprovava e lhe sorria enlevada. Charlie, mesmo acompanhando os aplausos, apresentava um olhar indulgente. A leiloeira sequer deu a chance de Emmett cobrir-lhe a oferta.
– Pois ela limpará senhor... – garantiu sorridente. Depois se voltou para todos e anunciou. – Os serviços de minha filha foram comprados por nosso estimado padre que, além de se comprometer á comprar a tinta para a pintura da igreja com suas reservas, agora fez essa oferta generosa.
Á nova ovação, Edward lhes sorriu desconsertado. Onde estava com a cabeça para fazer tal coisa?... Ao olhar em volta soube que seu padrinho partilhava da mesma dúvida, pois lhe encarava com o cenho franzido. Antes que pudesse decifrar sua expressão, várias pessoas o cercaram para parabenizá-lo. O padre apertou tantas mãos e recebeu tantos tapas amistosos nas costas que havia perdido a conta.
Não se lembrava das pessoas que havia cumprimentado, parecia que somente recobrava á consciência quando seus olhos recaiam em Bella que, mesmo ao lado do grandalhão, o olhava fixadamente sempre que tinha a chance, assim como o loiro ao seu lado. A moça era expressiva. O padre sabia por seu olhar que ela não aprovava sua interferência.
“Paciência. Era para seu próprio bem”. Edward sentenciou.
– Nossa... – exclamou Renée, vindo para o seu lado. – Á princípio não gostei dessa ideia de leilão, mas devo admitir que foi divertido.
– Veramente... – o padre concordou em sua própria língua, distraído.
– Estou exausta – ela continuou. –, mas está valendo á pena. Ainda não sabemos quanto o senhor arrecadou, mas acho que conseguiu o que precisava para a reforma dos bancos e o conserto do telhado. E ainda não acabou... Pelo jeito as pessoas ficarão por mais algumas horas ainda.
– Parece que sim. – ele lhe respondeu automaticamente, preso ao olhar da moça que se aproximava sem virar-lhe o rosto como havia feito toda a tarde. Seus olhos estiveram ligados um ao outro até que ela chegasse á sua frente. Quando acreditou que finalmente lhe falaria, Bella, numa atitude indiferente, voltou o rosto para a mãe e perguntou.
– A senhora se importaria de ficar até o final para ajudar o senhor Cullen no que for preciso?
– Por que pergunta? – a mãe estranhou. – Pretende ir embora?
– Gostaria. – a moça respondeu como se ele não estivesse ao seu lado. – Já tinha combinado de sair com Alice e Jasper. Não pensei que esse evento fosse me tomar tanto tempo. Se não se importar gostaria de manter o compromisso... Agora que Emmett está aqui, combinamos de ir juntos.
A mãe olhou na direção do rapaz. Edward desejou intimamente que Renée não permitisse e obrigasse a filha a cumprir sua função até o fim, contudo, depois de sorrir-lhe, pediu.
– Veja se sua irmã e James desejam acompanhá-los e pode ir sossegada. Sei que seu pai não vai se opor... Só não voltem tarde.
– Obrigada mamãe... Não se preocupe. – olhando rapidamente para Edward, falou. – Senhor, depois veja quando quer que eu limpe sua igreja. Prometo que no dia farei o possível para não atrapalhar suas funções. Boa noite.
– Ciao. – foi tudo que ele conseguiu dizer. Sua garganta estava obstruída. O padre nem mesmo atinava como ainda respirava. Vê-la partir definitivamente na companhia dos irmãos e seus respectivos pares, com o loiro apoiando o braço possessivamente em seus ombros o cegou e ensurdeceu para todos á sua volta. “Nunca passaria; jamais superaria”, constatou.
– Linda, não é mesmo?
Edward nem precisou olhar para saber quem lhe dirigiu a pergunta capciosa. Apenas se perguntou quando exatamente Renée havia se retirado, dando lugar á Jacob.
– Sim... Está uma linda festa! – respondeu voltando-se para o rapaz moreno.
– Ah, sem dúvida que está. – ele disse com um sorrisinho de canto de boca. – Mas me referia á Bella. Ela é linda, não?
– Todas as criaturas feitas pelo criador são lindas e perfeitas. – o padre disse sem abalar-se com as palavras; naquele dia, nada mais o abalaria além da frieza e distanciamento da moça citada.
– E o senhor como um servo do criador enxerga muito mais beleza em suas criações, não é mesmo?
– Evidente que sim. – Edward respondeu ainda inabalável. – Vejo beleza até em sua atitude estranhamente hostil. Ela demonstra que é um rapaz de fibra, mesmo que faça observações pueris e inoportunas.
– Não use essas palavras bonitas e esse tom de missa comigo. – Jacob pediu contrafeito. – Eu vejo como olha para ela e te digo que não é como um padre.
– Cuidado com o que diz rapaz. – Edward o advertiu duramente, porém sentido raiva de si mesmo por deixar transparecer seus pensamentos nada ortodoxos. – Não sei o que se passa em sua cabeça fantasiosa, mas não vou aceitar que diga o que lhe vem á mente. Exijo que me tenha respeito.
O padre não gostava de usar aquele tom com ninguém, pois ele também o inquietava, porém foi inevitável. Como sempre acontecia, a firmeza em suas palavras associada ao timbre baixo e ameaçador surtiu efeito. Jacob recuou um passo e desarmou a expressão desafiadora. Edward aproveitou a guarda baixa para concluir.
– Isabella é mesmo uma jovem bonita... Assim como todas as outras, mas não confunda minha interferência no embate entre você e aquele rapaz com suas próprias intenções.
– Boa noite! – cumprimentou Carlisle aproximando-se, olhando de um ao outro. – Algum problema aqui?
– Não senhor. – Jacob respondeu. Então se voltando para Edward, pediu. – Me desculpe o mau jeito. É que eu queria aproveitar o dia com Bella para tentar me desculpar de uma coisa que fiz...
– Vamos nos esquecer desse episódio. – Edward pediu voltando ao seu tom normal, pouco interessado nas brigas amorosas dos dois. – Se era somente isso tente conversar com ela outro dia. Agora se me der licença... Ainda preciso dar atenção á todos.
– Sim senhor. – Jacob afastou-se dizendo sem convicção. – Boa noite, desculpe mesmo meu mau jeito.
– Agora nós dois. – o padrinho anunciou, pondo-se á sua frente e o encarando com o cenho franzido. – O que pensa que está fazendo?
– Por favor, agora não! – o afilhado pediu em voz baixa. – Em casa conversamos.
– Em casa coisa nenhuma! – o tutor murmurou em italiano. – Que loucura foi essa de arrematar a garota com seu próprio dinheiro?
– Era para usar o das doações? – Edward retrucou irritado.
– Não seja malcriado comigo. – o padrinho vociferou. – O que pretende?
Impaciente e com o peito ainda á protestar, Edward perguntou no mesmo tom.
– O que o “senhor” pretende ao comprar um dia inteiro com a Srta. Platt?
– Por quem me toma?... É evidente que não vou passar o dia com ela. Para seu governo já a liberei do passeio e disse que ela poderia tirar esse dia de folga, pois trabalha todos os dias na lanchonete. Fui apenas cavalheiro. Ela é apenas uma boa amiga.
Edward reprimiu o desejo de lembrar-lhe que padres não tinham amigas; tinham amantes, mas se conteve á tempo. Algumas pessoas próximas começavam á demonstrar certo interesse pela conversa baixa e tensa em uma língua que não podiam entender. Respirando profundamente, tentou argumentar.
– E eu apenas quis evitar uma briga... Estava claro que os dois rapazes levariam a disputa para o lado pessoal. Foi somente isso.
Seguindo-lhe o olhar, o padrinho mudou a postura e aumentou a voz, voltando á falar em inglês.
– Tem razão... É melhor conversarmos quando estivermos em casa. – e então se afastou.
Ao ficar sozinho, Edward se sentiu exatamente como estava; sozinho. Muitas pessoas ainda conversavam ao seu redor, já não comiam ou bebiam, pois tudo que foi oferecido já havia sido consumido, ainda assim... Com todos sem dar indicação de que voltariam para suas casas, Edward se sentia só. Subitamente o ambiente aberto o sufocou. Não suportava mais ficar naquele jardim. Alegando um súbito mal-estar, procurou por Renée e Sue para se despedir. .
– Já vai tão cedo? – perguntou a dona da casa.
– Preciso Sue... Acho que algo que comi não me fez bem... Meu estômago e minha cabeça doem... Preciso descansar.
– Deseja que lhe prepare um chá? – ela ofereceu prestativa.
– Não é preciso... Um pouco de repouso e ficarei bem... – então, lhe sorrindo para indicar que ficaria verdadeiramente bem, falou. – Muito obrigado pela tarde maravilhosa!
– Agradeça á Bella. – a mulher falou sorridente. – Foi ela quem organizou tudo.
– Agradecerei.
A despedida dos pais da moça foi breve. Como já havia assumido a responsabilidade que caberia á filha, Renée o desobrigou de ficar até o final. Após tranquilizá-lo, liberou-o para que fosse descansar em paz. Ele precisava se recuperar para a missa da manhã seguinte. O padre havia se esquecido completamente de sua obrigação matinal. Não era preciso mais indicações de que aquela seria uma longa noite que antecederia um péssimo dia.
– E então? – Emmett sussurrou ao ouvido de Bella. – Acha que está funcionando?
– O quê? – ela perguntou em tom normal; surpresa com o murmúrio.
Imediatamente vários “shhs” e pedidos de silêncio foram ouvidos. Somente então ela se deu conta de que estava numa sala de cinema iluminada somente pela imensa tela á sua frente, sentada ao lado do amigo, com ele abraçando seu ombro e ela segurando sua mão. Estava bem no meio de sua farsa e tudo o que fazia era pensar no padre. “Será possível que ele nunca vai sair de minha cabeça?”, perguntou-se inconformada.
– Como “o quê”? – Emmett novamente sussurrou. – Rosie... Acha que ela mordeu nossa isca?
– Ainda é cedo para saber, mas acho que sim.
Ao falar a moça procurou a irmã com o olhar. Ela estava sentada á três poltronas da sua, com James e Emmett entre elas; rígida á olhar as cenas de ação, sem tocar no noivo de forma alguma. Este parecia não se importar, e prestava total atenção ao filme. Ás suas costas, pelos sons melados que ouvia, sabia que a vontade de Alice em ver Sherlock Holmes era pura balela. Ela queria era um lugar público para se esfregar ao noivo, a moça pensou maliciosamente.
Na verdade sentia inveja. Quisera ela poder estar da mesma forma com alguém que fosse apaixonada; não apenas fingindo. Entristecida, olhou para o perfil satisfeito de Emmett que voltou sua atenção ao filme. Bella o analisou por um tempo. Pensou com seus botões que seria interessante se a brincadeira se transformasse em realidade, afinal, Emmett era um bom amigo. Ficavam meses sem se encontrar ou trocar ligações, mas sempre que estavam juntos a química era a mesma. Tratavam-se como se tivessem se visto no dia anterior e seus toques casuais, típico entre amigos de longa data, não a exasperavam como os de Jacob.
Descendo os olhos para a boca bem desenhada, ela se lembrou que havia beijado o rapaz moreno. Bem, não se lembrava, mas agora sabia que havia feito e não duvidava da palavra dele. Era bem a cara dela se embebedar e ver Edward em todos os lugares. Ou talvez não tenha visto; apenas tentado esquecê-lo como deveria realmente fazer. Dizer o nome durante o beijo provavelmente tenha sido um ato falho afinal, mesmo sendo errado, estava apaixonada pelo padre. Ainda olhando para a boca de Emmett, lhe ocorreu que talvez devesse tentar novamente; lúcida.
Amava Rosalie, mas muito mais á si mesma. Se Emmett conseguisse despertar nela um terço do que Edward lhe despertava somente por estar perto, transformaria a brincadeira em realidade. Nem que fosse para namorá-lo á moda antiga até que tirasse Edward de sua cabeça; sabia que podia. O amigo se exasperava com a covardia da irmã, com certeza se renderia á alguém decidida como ela. O realismo seria benéfico para todos. E assim, munida com a necessidade de esquecer o padre bipolar, ela se moveu na cadeira e sem que Emmett esperasse, cobriu-lhe a boca com a sua.
O beijo roubado não passou de um espremer de lábios. Quando Emmett tentou introduzir a língua em sua boca – como todo homem que se presa e não dispensa o que lhe é oferecido – Bella já havia visto o suficiente. Assim como nenhum outro, o amigo não lhe despertaria nem um décimo do todo que tinha com o quase nada oferecido por Edward. Ao afastar-se dele, notou que a irmã os olhava; chocada. Assim como Emmett.
– O que foi isso Bella? – ele perguntou aturdido num sussurro.
Voltando a se sentar corretamente na poltrona, ela olhou para a cena do filme e respondeu calmamente.
– Agora minha irmã mordeu nossa isca e sabe que estamos juntos.
“E eu confirmei que estou perdida, pois nunca existirá ninguém que substitua Edward Cullen!”
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SPOILER...
Ao final do filme Bella já estava completamente arrependida de sua intempestividade. Depois de seu beijo infeliz, o amigo pareceu se empolgar com a veracidade que ela trouxe ao acordo e passou á fazer carinhos circulares em sua nuca. O toque não a incomodava, mas os considerava exagerados e inúteis, pois Rosalie não podia vê-los.
– Ela não pode nos ver Emm... – disse á certa altura.
– Mas talvez Jasper ou Alice possam. – ele lhe retrucou cúmplice.
Á ela coube permanecer quieta sem reclamar, afinal era a culpada. Sua irmã mal lhe dirigiu a palavra quando propôs irem á uma lanchonete preferida de todos, antes de voltarem para Sin Bay.
– James, estou com um pouco de dor de cabeça, poderia me levar para casa.
Depois de se despedirem de todos, o casal se foi.
– Eu topo. – anunciou Alice encarando Bella com um sorriso que não disfarçava a forma séria que a encarava.
– Então vamos.
Os dois casais seguiram á pé até a lanchonete, comentando as cenas do filme animadamente. Emmett em nenhum momento soltou a mão da moça. Jasper, vez ou outra lhes lançava olhares inquiridores, mas logo voltava sua atenção á noiva, como se fato novo não fosse de todo uma surpresa. Quando chegaram ao seu destino, escolheram uma mesa reservada.
Tão logo ficaram sozinhas, depois dos rapazes as deixarem para buscar os lanches que haviam escolhido, a amiga pendeu a mão de Bella que estava disposta sobre a mesa e perguntou.
– O que é isso?
– Isso o quê? – perguntou se fazendo de desentendida.
– Pensei que estivesse interessada no padre, tudo bem que não me contou o que aconteceu, mas entendi que deseja esquecê-lo, mas daí á sair agarrando seu melhor amigo não me parece muito inteligente.
– Medidas desesperadas, requerem atitudes desesperadas... – Bella se justificou.
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