Enigma - Segredos e Mentiras
2 Capítulo 1
Notas iniciais
NÃO JULGUEIS PARA NÃO SERDES JULGADOS.
AQUELE QUE ESTIVER SEM PECADO QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA... (Mt 7, 1-2)
Capítulo Um
O teto surgiu diante dos olhos despertos de Edward Cullen e se tornou cada vez mais nítido enquanto a luz de mais um dia entrava através da janela aberta de sua cela. Não mais um dia; “o dia”.
– Fiat lux!
Faça-se a luz, murmurou em latim para o vazio. Sim, faça-se a luz no dia em que começaria a caminhada na vida que escolhera. Ele precisava mais do que nunca de luz e paz. Obediência e servidão. Retidão e acima de tudo, penitência. As dores ou a ardência que sentia não eram suficientes para lhe redimir a alma pelos pecados cometidos por seu corpo naquela noite. Se não se sentisse sujo naquele instante, cairia de joelhos e faria uma oração; um ato de contrição. Melhor seria deixar para depois do banho – depois de verdadeiramente se arrepender – então faria um pequeno ato. Teria tempo antes de sua partida, disse a si mesmo.
– Eddie... Eddie... – ouviu a voz nervosa, em sua língua natal, do outro lado da porta; que o tirou de seus pensamentos. – Não está se sentindo bem? Quer que eu lhe traga alguma coisa?
Não, não se sentia bem, pensou após um suspiro cansado. Contudo não padecia de mal que seu padrinho italiano pudesse curar com remédios. Ficaria bem tão logo se livrasse dos sonhos e não reincidisse no erro. Edward sabia que conseguiria. Era uma questão de tempo, afinal as imagens demoraram á voltar dessa vez. Haviam se passado meses desde o último sonho.
As costas doíam, contudo ainda não era o suficiente. Parecia que nada seria suficiente para livrá-lo de seus pensamentos impuros.
– Responda. – o padrinho ordenou. – Ou quebro essa porta.
Com um suspiro resignado, Edward se levantou fazendo uma careta de dor ao se mover. Meio curvado seguiu até a porta. Quando chegou á ela já andava normalmente. Com o semblante impassível atendeu a única figura masculina que havia sobrado em sua vida. O irmão de seu pai; Carlisle.
– Estou bem senhor. – disse recostando-se ao batente.
O padrinho o avaliou de alto abaixo, então perguntou sério.
– Se está bem porque não desceu para o café? Sabe que horas são?
– Seis e meia? – arriscou o palpite.
– Isso foi há uma hora. Aqui não é um hotel. Você perdeu o desjejum.
– Não estou com fome. – anunciou.
Na verdade cogitava jejuar.
– Está ansioso, não é?
– Sim, mas acredito que seja normal.
– Evidente que sim. – Carlisle disse animador. – Mas você tirará de letra. Está preparado.
– Diga-me mais uma vez como fui escolhido para essa cidade de nome peculiar. – Edward perguntou dando-lhe as costas para se vestir.
– Conto. – começou com a voz subitamente endurecida. – Assim que me explicar porque há sangue em sua roupa.
Edward fechou os olhos e reprimiu um suspiro derrotado.
– Sabe o porquê.
– Certo. Então me diga “para quê”?
– Disciplina.
– Através da autoflagelação?... Tais práticas são inadmissíveis nos dias de hoje, não aprovadas sequer pelo Vaticano. Por acaso agora é simpatizante de alguma prelazia?
– Não.
Edward respondeu sem coragem de encarar o padrinho. Logo sentiu a mão em seu ombro.
– Teve aquele sonho novamente não foi?
– Sim... – confirmou se afastando. – Mas não quero falar sobre isso.
– Sou seu confessor. Pode conversar o que quiser comigo. Livre-se da carga, Eddie.
– Agradeço. – ele disse finalmente se voltando. – Mas como bem lembrou, já é tarde. Preciso tomar banho, fazer minhas orações e terminar de arrumar minhas coisas.
Gostaria de ter acrescentado á lista uma última corrida pelos jardins, mas não teria tempo; e as costas realmente incomodavam. Deveria ter se lembrado que dirigiria por mais de dez horas até o Maine.
– Está certo. Também preciso arrumar minha mala. Mas antes de qualquer coisa, vou esperar que venha de seu banho. Querendo ou não, vou ver como está suas costas.
Edward sabia que, quanto àquele assunto, não adiantava argumentar com o padrinho. Então o melhor era obedecer. Juntando suas coisas saiu para o corredor da abadia que os abrigava há dois anos, desde a transferência de Carlisle. Seguiu para o banheiro comum localizado no andar que ocupava. Seu banho foi breve; a água, assim como os atos de retirar ou vestir a roupa, causou-lhe desconforto.
De volta ao quarto se preparou para a aplicação do anti-séptico providenciado pelo padrinho. Para sua surpresa foi informado que havia somente dois cortes distintos, no mais, sua pele apresentava leves arranhões e vergões que logo não passariam de cicatrizes como todas as outras. Depois de encerrar o “sermão” e o cuidado de suas costas, Carlisle o deixou, ameaçando confiscar seu chicote tão logo o visse.
Com um suspiro resignado, Edward se pôs de pé, quando o tutor fechou a porta atrás de si. Precisava recolocar suas roupas para começar suas atividades. Como partiria em poucas horas, usaria suas roupas de rua, pois não seria prático dirigir vestido em uma batina. Porém não poderia dispensar o amito. Depois de vestir a calça preta e uma camiseta branca, colocou o pano da mesma cor em seu pescoço fazendo a oração silenciosa que lhe concerne. “Revesti-me,Senhor, da força do Alto”. Então vestiu uma camisa de manga longa, também preta.
Quando estava devidamente arrumado, calçado e penteado, saiu para o corredor. Cumprimentou todos que encontrou pelo caminho ao descer as escadas e até chegar á pequena capela. Após acomodar-se em um dos bancos mais próximos ao altar, ajoelhou-se no genuflexório e recolheu-se em oração. Por vezes seu estomago protestou á falta de comida, contudo Edward lhe deu pouca importância. Estava decidido á jejuar como forma de penitência pelos atos cometidos na madrugada anterior. Perdeu-se no tempo até que sentiu uma mão pousar em seu ombro.
– Está quase na hora de partirmos. – disse Carlisle gentilmente.
Edward apenas lhe assentiu com a cabeça então finalizou suas orações, indo, logo após se juntar ao padrinho que o esperava á saída da capela.
– Pensei que quisesse sair antes do meio dia.
– Ainda quero.
Da capital do país que o acolheu até o Maine tinha aproximadamente novecentos e setenta quilômetros. Saindo por volta das dez horas, poderiam parar para dormir algumas e chegar á “baía do pecado” pela manhã do dia seguinte.
– Apenas me distraí nas horas. Mas já tenho tudo praticamente arrumado. Só preciso organizar umas últimas coisas. Agradecer ao reitor pela acolhida, terminar de me despedir de todos e então seguimos viagem.
Como previu o restante das despedidas foram breves. Os padres e a maior parte dos seus amigos seminaristas já haviam desejado-lhe boa sorte ao longo da manhã, durante as breves caminhadas pelos corredores da abadia que morou pelos últimos dois anos. O último que encontrou foi o reitor Ramiro que conversava com seu padrinho á portas fechadas. Depois de autorizá-lo á entrar, o senhor sexagenário com postura patriarcal lembrou-o da responsabilidade que assumiria; sua dedicação ao seu Deus e ao próximo. Depois de também expressar seus votos de sabedoria, retidão e sorte, se colocou á sua disposição caso precisasse de qualquer ajuda. Edward o agradeceu com uma leve ansiedade em partir enquanto ignorava uma leve indisposição estomacal.
Além da fome, o jovem padre sentia-se receoso com o futuro que lhe aguardava, contudo queria enfrentá-lo de uma vez. Esteve se preparando para aquele momento pelos últimos oito anos de sua vida. Inicialmente em Tivoli, sua cidade natal na querida Itália e depois ali mesmo, em Washington. No primeiro ano – durante o Propedêutico – foram avaliadas suas qualidades como, saúde física e mental, inteligência. Assim como suas qualidades morais; integridade, perseverança e coragem. Nos anos seguintes estudou filosofia e frequentou a faculdade de Teologia.
As disciplinas aplicadas na faculdade atingiam as bases da fé dando-lhe fundamentalmente um enfoque sistemático e moral. Edward estudou as Escrituras Sagradas; a estruturação da igreja. Aprendeu hebraico, grego e latim; assim como á falar em público. As aulas que mais lhe agradavam eram as de psicologia humana que o prepararam para o sacramento da confissão e para o aconselhamento daqueles que fossem á ele quando se encontrassem em dificuldade ou sem rumo na vida; seu padrinho tinha razão, ele estava preparado.
“Então”, o jovem padre se perguntou enquanto manobrava seu jipe pelo calçamento frontal da abadia, por que ainda se sentia deslocado? Por que não sentia o mesmo entusiasmo de seus colegas, superiores e de seu padrinho? Enquanto guiava com o tutor ao seu lado, ele dizia á si mesmo que estar bem preparado bastaria. Todo o resto viria com o tempo; apesar de suas falhas evidenciadas nos sonhos, ele não era uma fraude.
– Quer que eu vá olhando o mapa? – Carlisle perguntou prestativo, tão logo o afilhado acessou a auto-estrada.
– Por favor. – o padre disse simplesmente.
Não diria ao padrinho que – teoricamente – conhecia o caminho para o Maine de cor. Edward já havia perdido as contas de quantas vezes estudou aquele mapa. Desde que o tutor o comunicou que havia sido indicado para assumir a paróquia em uma cidade pequena; na verdade uma vila auto-suficiente, mas que ainda fazia parte da cidade de Wells. Pelo o que lhe foi dito, o povoado ganhou vida própria e assumiu ares de cidade, contudo ainda não possuía unidades básicas como um posto médico ou policial. Este último, ao que parecia não era necessário, pois a criminalidade do lugar era praticamente nula. Assim, descrita, a cidade parecia ser agradável. Apenas o nome do lugar instigava a curiosidade o jovem padre; Sin Bay.
– Por que a cidade foi batizada de “baía do pecado”? – Edward perguntou para distrair sua mente.
– Não sei. – o padrinho respondeu em tom de desculpas. – Não me ocorreu perguntar.
– É um nome bem estranho até mesmo para uma vila. – comentou sem desviar os olhos da estrada.
– Também acho... Mas, independente do nome, o que importa é que o lugar parece ser aprazível e tranquilo. Perfeito para sua iniciação. Acho que teve muita sorte.
– Sorte. – o jovem repetiu. – Por que mesmo fui escolhido para essa paróquia?... Somente sorte?
– Bem, não acho que tenha sido somente sorte. Acho que sua dedicação aos estudos religiosos, sua participação nas obras da abadia contaram á seu favor.
– Acho que sim. – ele comentou distraído. – Sorte mesmo foi deixá-lo seguir comigo. Achei que dessa vez nos separaríamos.
– Teria gostado disso? – o padrinho perguntou em tom incerto. – De ser separado de mim?
O jovem padre riu levemente da pergunta.
– Sabe que não. – respondeu sinceramente. – Nem consigo me imaginar longe do senhor. Eu ficaria completamente perdido, mas acreditei que agora acontecesse. Sempre ficarmos juntos é que pode ser considerado sorte.
– Nesse caso não houve sorte alguma, apenas uma gentileza do reitor que permitiu que eu o acompanhasse. Ele é um homem ligado á família e aprecia nosso parentesco. Esqueceu que antes de ser seu padrinho e tutor escolhido por seus pais, eu sou seu tio?
“Como esqueceria?”
Carlisle era seu único parente vivo. Ele, Edward, era filho único de um casal já falecido – assim como seus avós. Como seu tio abraçou a vida sacerdotal, não possuía nem mesmo primos carnais. Bom, aquela era a informação que tinha de sua árvore genealogia. Informação; não lembrança. Toda e qualquer recordação que ultrapassassem seus nove anos de idade lhe foi roubada em um acidente automobilístico. Tudo o que viveu depois; tempos de escola, doenças, festas de aniversário, natais, passeios em família, puberdade, tudo, absolutamente tudo foi deixado nos escombros do carro de seu pai.
Seu pai; Charles Cullen, irmão mais novo de Carlisle. Essa era a única exceção nas poucas lembranças que tinha. Edward simplesmente não se lembrava dele. Soube por seu tio que eles eram descendentes de ingleses que foram tentar a sorte na Itália, por isso o nome Cullen. De sua mãe o padre se lembrava, era uma mulher bonita, com uma expressão levemente sofrida, mas que sempre lhe dedicou muito amor. Era americana, natural de La Harpe, Illinois. Ainda segundo Carlisle, Edward soube que Elizabeth se mudou para Tivoli depois que se apaixonou por Charles durante suas férias de verão. Casaram-se e desse amor ele nasceu.
Edward considerava uma lástima que sua família perfeita tivesse sido ceifada por um motorista embriagado na Dei Parchi. Se pudesse considerar tal fatalidade uma benção, seus pais ao menos haviam morrido instantaneamente. Ele por sua vez, permaneceu preso ás ferragens até que fosse resgatado com os sinais vitais alarmantemente baixos; quase sem vida. Edward permaneceu ainda vinte e cinco dias em coma e ao despertar, descobriu que uma fratura na coluna dorsal roubou-lhe os movimentos das pernas temporariamente assim como o trauma cerebral levou anos de sua vida indefinidamente.
Sua mente havia se tornado um livro desfalcado; ou antes, um caderno com páginas novinhas em folha onde seu padrinho, pacientemente, reescreveu sua história nos anos de sua recuperação. Edward esteve internado por quase um ano. Ficava sozinho na maioria das vezes, pois Carlisle tinha suas obrigações a cumprir em outra cidade e não podia estar com ele todos os dias. Durante essas visitas, seu tutor começou á saciar sua curiosidade á medida que suas dúvidas iam surgindo.
Apenas quando pôde ser transferido para o Hospital Central de Anagni – município que abrigava a paróquia de seu tio – Edward passou á contar com sua presença todas as noites. Antes que adormecessem se perdiam em longas conversas sobre sua vida esquecida. Por elas soube que dominava o inglês, pois sua mãe – dona de casa dedicada – fazia questão que conversassem em sua língua natal sempre que estavam sós. Soube ainda que o pai – piloto da Alitalia – nunca havia sido uma figura constante em sua vida por estar sempre encarregado de vôos internacionais. Isso explicava a falta de recordações paternas.
Talvez a falta das mesmas, associado á presença constante de seu padrinho durante os meses de fisioterapia, tenha facilitado e alimentado o afeto que lhe tinha. Ele esteve ao seu lado até que recebesse alta e o abrigou em sua casa. Tratou-o até sua pronta recuperação, zeloso como talvez nenhum pai o fosse. Edward não conseguia imaginar-se sem Carlisle. Poderia dizer sem medo de exageros que lhe devia a vida, então, como ele poderia cogitar que gostaria de ser separado dele?... Jamais aconteceria!
– Não, não esqueci. – disse ternamente em voz alta. – Sabe bem o quanto é importante para mim.
– Sim, eu sei. – ele anuiu; então, depois de um minuto de silêncio constrangido ele perguntou. – Como estão suas costas?
– Doendo menos do que deveria. – Edward disse simplesmente.
– Não deveria falar assim. – Carlisle ralhou. – Como também deveria parar de se machucar. Sabe muito bem isso não o leva á nada. Seus sonhos não vão sumir de uma hora para outra só porque de flagela.
– Eu preciso ao menos tentar. – o padre se justificou. – E os sonhos demoraram á virem dessa vez. Há meses não o tinha.
– Então deveria ter entendido que dessa vez tenha sonhado movido pela ansiedade. Está preparado, mas tudo lhe é novo e desconhecido. Não pode castigar-se por isso.
Talvez fosse mesmo a ansiedade, não saberia dizer. Contudo, era capaz de o padrinho estar certo. Ele mesmo andou estranho nos últimos dias. Mudanças sempre eram incômodas, por isso Edward não as apreciava. Com um suspiro resignado, falou.
– Eu sei, mas...
Antes que concluísse, sentiu sua cabeça rodar subitamente e a visão ficar turva fazendo com que perdesse o controle do jipe momentaneamente.
– O que foi isso? – o padrinho perguntou alarmado.
– Eu fiquei tonto por um segundo. – Edward respondeu indo estacionar no acostamento até que suas mãos parassem de tremer.
– Não se alimentou, não foi? – o tutor inquiriu acusadoramente.
– Não. – ele respondeu sinceramente.
– Eu sabia!... – exclamou repreensivo. – Por acaso não inventou de jejuar logo hoje, não é?
– Era esse meu plano. – Edward não via motivos para mentir.
– Não!... Acho que seu plano era nos matar, só pode!... Como acha que enfrentaria praticamente mais de dez horas de viagem estando com o estomago vazio?
O padre não poderia retrucar; o tutor estava com a razão. Ele foi no mínimo irresponsável arriscando não só a sua vida e a do padrinho como a de algum outro inocente que viesse á atingir pelo caminho. Exatamente como havia acontecido com seus pais.
– Perdoe-me. – ele pediu arrependido por seu egoísmo. – Assim que avistar um posto eu paro para me alimentar.
– Acho muito bom! – Carlisle replicou ainda carrancudo.
Acreditando estar em condições de dirigir, Edward voltou para a estrada. Alguns metros a frente, ele olhou para o padrinho de soslaio. Não tinha o direito de arriscar sua vida; ele era toda sua família. O homem forte e decidido ainda trazia as feições joviais e um corpo saudável e esguio. Apenas alguns fios prateados espalhados ao longo dos cabelos castanhos denunciavam seus cinquenta e cinco anos. Os traços de ambos eram semelhantes sem serem óbvios, contudo, um observador mais atento notaria o parentesco entre eles. Amava-o como á um pai e era seu dever zelar por sua segurança como ele havia feito todos aqueles anos.
Ciente desse fato e extremamente culpado por seu descuido, Edward guiou um pouco mais devagar até chegar á um posto. Estacionou em frente á loja de conveniência, mas se dirigiu á pequena lanchonete ao lado. Como estava há muitas horas sem colocar nada no estomago, escolheu um lanche leve entre as opções oferecidas. Um hambúrguer simples sem maionese e uma garrafa de água mineral. Alegando não estar com fome e sentir a necessidade de movimentar as pernas, seu padrinho deixou-o comer em paz e foi passear na loja de conveniência. Quando voltou trazia uma sacola grande. Antes que o padre questionasse do que se tratava, ele disse.
– Sei que esse lanche não era suficiente, mas não vou obrigá-lo á comer mais nada agora, pois passaria mal novamente. Então comprei alguns biscoitos, sucos prontos e água. Para o caso de sentir fome ou sede antes de pararmos novamente.
– Bem pensado. – Edward falou agradecido.
Tão logo terminou sua parca refeição e ambos utilizaram o fétido banheiro masculino do posto, voltaram á estrada. Seguiram em silêncio; por vezes Edward flagrava o padrinho á cochilar com a cabeça recostada ao encosto do assento. Nesses momentos Edward sorria levemente divertido imaginando que bom co-piloto havia arranjado. Se dependesse dele para olhar o mapa estariam perdidos. Por sorte estrada era bem sinalizada não sendo necessário sequer que o padre se lembrasse da rota que estudou anteriormente. A viagem seguiu tranquila, sem novos imprevistos. Se o padre não estivesse apreciando o som do vento, teria ligado o radio.
A única parte relativamente incômoda era o fato de suas costas arderem, mas não se queixaria por isso. A irritação era necessária para mantê-lo desperto e consciente de seus erros e não anulava a sensação de liberdade que experimentava ao guiar pela auto-estrada; tudo corria como o esperado. As conversas com seu tutor foram leves e divertidas; nenhum dos dois tocou em assuntos inquietantes novamente.
Pararam somente ao cair da noite em um ponto de apoio á caminhoneiros. O lugar estava lotado por diversos tipos de homens da estrada, todos mais preocupados em saciar sua fome do que dar atenção á dois padres desconhecidos. Poucos levantaram as cabeças á sua passagem e menos ainda lhes pediram a benção. Quando se acomodaram foram atendidos por uma moça falante de cabelos negros que usava um uniforme cor-de-rosa. Assim como na lanchonete do primeiro posto, o cardápio não oferecia muitas opções então escolheram o prato do dia e para acompanhar, duas garrafas de água mineral.
Enquanto esperavam Edward não pôde deixar de notar os olharem que todas as garçonetes lançavam em sua direção. Estava habituado á ele, mas ainda assim era incômodo. Quando todos perceberiam que padres não nasciam com quarenta anos; em algum momento em suas vidas haviam sido jovens. Empertigando-se em sua cadeira, ele passou á ignorá-las. Mal dirigiu um segundo olhar para a moça que trouxe seu pedido. Tão logo ela se retirou Edward devotou toda sua atenção ao prato fumegante.
Bastou que o cheiro do guisado lhe invadisse as narinas para descobrir o quanto se encontrava faminto. Talvez fosse a falta de alimento que apurasse seu paladar, pois aquela mistura de legumes e carne bovina fortemente condimentada lhe pareceu a melhor das refeições. Se não fosse heresia comeria rezando e se não fosse cometer no pecado da gula, teria repetido; para quem cogitou jejuar, comeu como um glutão. Edward agradeceu que seu padrinho não tivesse tecido nenhum comentário á respeito deixando claro que para ele, o assunto estava momentaneamente esquecido.
Ao terminarem, Edward pagou a despesa, indiferente ao olhar indagador e insistente da garçonete. Seguia rumo á porta quando ouviu seu comentário lamurioso e sussurrado.
– Que desperdício!
O padre cogitou voltar-se e repreendê-la, mas achou por bem continuar a ignorá-la afinal, ela já havia formado sua opinião e ele não precisava alardear sua vocação para uma leiga e completa estranha. Era seu dever amar e compreender á todos, mas se reservava o direito de guardar algum desafeto. E decididamente aquele flerte nem sempre velado o afrontava. Antes que qualquer outra coisa era um padre e queria ser respeitado como tal. Irritado, caminhou altivamente até deixar o salão do restaurante.
– Não deveria dar tanta importância á isso. – Carlisle falou enquanto se encaminhavam ao jipe. – Você é jovem e isso causa estranheza.
– Estranharem não é o problema e sim a falta de respeito. – ele retrucou secamente, ainda irritado pelo comentário que considerava ofensivo.
– Apenas revele. – Carlisle insistiu. – Daqui á alguns anos estará livre desse problema.
– Acho pouco provável. Algumas delas também olham da mesma forma desrespeitosa para o senhor. O que acontece com essas mulheres afinal?
O tutor riu brandamente.
– Como eu disse, releve. Você é jovem Eddie... E saiba que possui alguma beleza.
Edward queria retrucar-lhe, mas como havia um caminhoneiro próximo ao seu jipe, deixou o comentário passar por ora e se dirigiu ao homem.
– Boa noite senhor.
– Boa... – cumprimentou displicentemente, ao se voltar e ver quem o abordava engasgou e mudou sua postura. – Boa noite seu padre!... Posso ajudar?
– Por favor... Estamos indo para o Maine e como não quero dirigir á noite, gostaria de saber se conhece algum lugar onde possamos pernoitar.
– Conheço sim senhor... A uns sessenta quilômetros daqui tem o motel da Molly... É simples, mas...
O homem deixou a frase no ar indicando que talvez a simplicidade não bastasse para dois padres. Sorrindo-lhe condescendente, ele assegurou.
– Simples é o suficiente para nós... Precisamos apenas de descanso. Obrigado!
– Então os senhores vão gostar. – ele falou satisfeito. – Antes de ir o senhor poderia me dar sua benção?
– Deus o abençoe e acompanhe!... Tenha uma boa viagem!
– Amém! – o caminhoneiro exclamou fazendo o sinal da cruz.
Ao deixá-lo, voltaram ao jipe e, depois de Edward abastecer o tanque de gasolina, tutor e tutelado seguiram viagem. Quando a parada já havia ficado para trás, o padre mais novo voltou ao assunto que o aborrecia.
– Prometo tentar relevar os olhares ofensivos que recebo, mas acredite, será difícil. E não me venha com aquela conversa de beleza novamente.
– Tudo bem. – Carlisle falou calmamente. – Não repetirei, mas é verdade então considere natural que algumas moças criem certas... fantasias. Não temos como comandar a mente alheia, apenas á nossa. O importante é nunca se envaidecer e jamais lhes dar atenção demasiada para que não confundam. As moças de hoje em dia são diferentes das do meu tempo. Precisa habituar-se á isso afinal agora comandará uma paróquia, estará mais exposto. Espero estar errado, mas esse tipo de assédio acontecerá.
– Aconteceu com o senhor? – Edward perguntou para tirar o foco de si.
– Como disse as coisas eram diferentes no meu tempo. Estamos falando de trinta e um anos atrás. As moças não eram tão atiradas, mas sim... Algumas aventuravam um olhar mais demorado e sugestivo ou se demoravam ao beijar minha mão.
– E era fácil relevar?
Edward não pôde deixar de notar o pigarrear nervoso antes que o padrinho respondesse sinceramente.
– Não todas as vezes...
– E o que fez nas vezes que não conseguiu ser magnânimo. – perguntou sem conseguir conter o leve sarcasmo.
– Ameacei proibi-las de irem á igreja. Seria complicado para elas explicarem tal proibição aos pais ou... aos maridos. E em um caso mais extremo ameacei excomungar uma jovem casada.
Sem que pudesse evitar Edward irrompeu em uma sonora gargalhada.
– Não é engraçado Eddie!... – Carlisle disse seriamente.
– Perdoe-me padrinho... – pediu tentando se conter. – Mas não consigo imaginá-lo ameaçando alguém dessa forma... Sempre é tão... “Benevolente.”
– Sou, mas todos têm o seu limite. Quando indicar que não estava interessado não era o bastante eu precisava agir com maior rigor.
– Está bem!... – o jovem padre anuiu sorrindo mansamente. – Diante disso eu reafirmo minha promessa... Vou tentar revelar possíveis avanços. Se não me fazer entender eu o chamo e o senhor ameaça a leiga abusada.
– Só não vou chamar sua atenção porque estou gostando de vê-lo assim descontraído, senão...
Edward riu da ameaça velada; logo em seguida seu padrinho o acompanhou no riso. Quando finalmente silenciaram deixaram-se ficar envolvidos por aquele clima leve cada um absorto em seus próprios pensamentos. Edward não sabia o que ia pela mente do tutor, mas na sua reafirmava sua promessa. Seu padrinho estava certo, sua juventude ainda seria um problema por muitos anos e, baseado na reação das garçonetes – que não era novidade – poderia contar que cedo ou tarde aconteceria em sua paróquia.
A diferença era que não aconteceria com moças estranhas e sim com aquelas que deveria instruir e guiar. Justamente por isso teria que ser benevolente como Carlisle. Edward disse á si mesmo que bastaria se manter firme e indiferente para desencorajar prováveis avanços. Finalmente livre da irritação e calmo diante do que ainda viria, o padre percorreu os quilômetros que os separava do motel da Molly. Foi com alívio que Edward avistou o letreiro chamativo. O lugar era realmente simples, mas aparentemente limpo. Como não possuía garagem, seu jipe ficou estacionado diante do quarto que ocupariam.
Padrinho e afilhado dividiram o mesmo cômodo que possuía duas camas de solteiro, uma TV com a imagem distorcida e som chiado e um banheiro diminuto. Por hierarquia e educação, Edward deixou que seu padrinho se banhasse primeiro, porém Carlisle lhe cedeu a vez alegando que ele havia dirigido sozinho todo o trajeto e que precisava descansar. O jovem padre não se fez de rogado e depois de pegar as roupas que usaria para dormir, seguiu para o banheiro. Descobriu que o chuveiro não tinha água quente, mas não se importou, preferia dessa forma. Não havia sido criado com luxos então, passado o choque inicial, se deixou ficar sob os pingos frios. A água provocava uma leve ardência em seus ferimentos, lembrando-lhe da madrugada anterior.
Edward esperava que os sonhos lhe dessem uma trégua definitiva daquela vez, mas não alimentava essa esperança. As imagens eram fortes e vívidas demais para simplesmente desaparecerem de uma hora para outra. O padre gostaria de saber ao menos onde as conseguiu. Por vezes acreditava que talvez as tenha visto em algum filme pornográfico que assistiu escondido dos pais, contudo, a ideia lhe parecia tão pueril e simplória que nunca havia sequer partilhado a hipótese em confissão.
Fosse como fosse, vívidas ao não, o padre esperava que ao menos as cenas demorassem á atormentá-lo. Resignado, Edward pegou o sabonete e passou á ensaboar-se. Quando foi preciso esfregar o apêndice flácido e inútil entre suas pernas perguntou-se porque ele não permanecia daquela maneira definitivamente ao invés de despertar para manchar sua índole e conspurcar sua vocação. Como tantas outras questões em sua vida, aquela ficaria sem resposta. Depois de retirar toda espuma de seu corpo e terminar seu banho, saiu do Box para enxugar-se.
Enquanto o fazia, seus olhos pousaram sobre um grande espelho fixado na parede sobre a pia. Nesse momento se lembrou das palavras do tio; Edward nunca se considerou um homem bonito. Não possuía vaidade e nunca fora curioso com o próprio corpo. Não tinha o hábito de olhar-se avaliativamente. Contudo, ao ver-se refletido naquele espelho, aproximou-se para examinar o próprio rosto. O reflexo apresentado sobre a superfície envelhecida lhe pareceu comum. Talvez o que chamasse a atenção fossem seus olhos azuis; nada mais.
Depois de decidir que não possuía beleza alguma e que todas as moças que o olhavam cobiçosamente diferente eram cegas, carentes ou loucas, o padre desejou ver o estrago que causava á si próprio. Posicionando-se de costas para o espelho, contorceu-se o máximo que pôde na tentativa de enxergar as cicatrizes e cortes. Infelizmente o tempo havia agido realmente de forma implacável sobre o espelho e este era coberto de manchas largas que em sua base haviam tomado todo o espaço de reflexão. Tudo que o pároco pôde ver foram seus ombros; sem muita nitidez.
Desistindo de ver-se e já esquecido de uma suposta beleza, Edward terminou de se secar, vestiu suas roupas e seguiu para o quarto. Apenas deixou as roupas usadas em cima de sua mochila de viagem, então se atirou sobre a primeira cama que viu. Acordou seis horas depois – atordoado – com seu padrinho a chamá-lo, já vestido. Sentando-se abruptamente sobre a cama, o padre olhou em volta. Demorou alguns segundos até que se lembrasse onde estavam.
– Que horas são? – perguntou se colocando de pé e rumando para o banheiro.
– Três horas. – Carlisle disse alto para que pudesse ouvi-lo através da porta que havia acabado de fechar.
– Por que não me acordou antes? – inquiriu já atendendo á sua primeira necessidade fisiológica do dia. – Sabia que eu queria sair cedo.
– Você estava exausto. – o padrinho falou do quarto. – E não temos pressa. Não importa a hora que chegarmos.
Edward não lhe retrucou; sabia que não era preciso cumprir nenhum horário, mas queria chegar pela manhã e de preferência, cedo. Depois de balançar aquela parte de seu corpo que somente o constrangia para livrá-la dos restos de urina, Edward foi até a pia mínima para lavar as mãos, o rosto e escovar seus dentes. Voltou ao quarto somente para pegar as roupas que usaria. De volta ao banheiro se vestiu e, depois de pentear os cabelos curtos, saiu sem uma segunda olhada para o espelho manchado.
Incomodava-o sair e deixar as camas bagunçadas, mas aquela havia sido a recomendação do rapaz que os recebeu então apenas juntou suas coisas e saiu com seu padrinho. Todo café que tomaram foi o oferecido pela dona sonolenta do motel quando foi avisar que já estavam de partida e agradecer a estadia. Uma vez de volta a estrada, Edward parou apenas para abastecer quando o dia começava a clarear. Comeram os biscoitos comprados por Carlisle no dia anterior.
O restante da viagem transcorreu praticamente em silêncio. Como o padre não encontrou muitos veículos pesados ao longo do caminho, pôde imprimir uma velocidade constante e logo cruzou a divisa do Maine. Chegou á Wells pouco mais de uma hora depois, gastou quase vinte minutos até que encontrasse a arquidiocese responsável por todas as paróquias do município. Tão logo o fez, apresentou-se ao arcebispo e se colocou á disposição para assumir o posto.
– Então é o senhor que assumirá a paróquia de Sin Bay? – o eclesiástico idoso perguntou mais para si mesmo que para Edward; avaliando-o, tão logo se apresentou e tomou-lhe a benção. – Foi ordenado há pouco, não é mesmo?
– Sim. – o jovem padre respondeu de pronto. – Há dois meses.
– Muito bem! – exclamou olhando para Carlisle. – E o senhor veio com a tarefa de auxiliá-lo?
– Sim, sua eminência.
– Muito bem! – exclamou novamente. – Fui informado que chegariam hoje... Como foram de viagem? Desejam descansar? Talvez nos acompanhar no almoço?
– Se vossa eminência não se incomodar, eu gostaria de seguir viagem. – Edward falou sinceramente. – Agora que estamos perto estou ansioso para conhecer minha paróquia.
O senhor lhe sorriu condescendente.
– Aprecio o ânimo dos jovens. Vá em paz meu filho. Que Deus o ilumine em sua empreitada e o mantenha sempre no caminho da retidão, firme em sua fé e o livre de toda e qualquer tentação que venha abalar sua vocação.
O padre sentiu o rosto corar. Era como se aquele velho homem da igreja conhecesse suas provações. Sentindo-se exposto, balbuciou.
– Amém!
Assim como o reitor Ramiro, o arcebispo Carter se colocou á disposição para o que fosse preciso. Agradecendo-lhe, depois de ouvir-lhe todas as recomendações, Edward voltou ao seu jipe na companhia de Carlisle e finalmente seguiu para a última etapa de seu caminho. Em todo o percurso tentou bloquear as palavras de seu superior; o homem não tinha como saber sobre seus deslizes ou a leve sensação de deslocamento que lhe incomodava algumas vezes. Dizia á si mesmo que os votos foram os mesmos que diria á qualquer outro padre jovem e recém ordenado.
Distraiu-se tanto que se surpreendeu ao chegar á cidade. Sin Bay era realmente uma vila. Não possuía edifícios; apenas alguns sobrados. Em menos de cinco minutos, o padre estava na praça central de onde pôde ver a igreja que administraria daquele dia em diante. Era pequena; uma capela, mas pareceu-lhe linda á luz da manhã.
– Chegamos. – Carlisle murmurou ao seu lado.
– Sim... – o padre falou desnecessariamente, distraído com os poucos pedestres que paravam para acompanhar-lhes a passagem.
– A casa deve ser aquela. – seu tutor apontou para a casa vizinha ao muro que cercava as dependências da igreja, na rua lateral.
Foram avisados para procurar pela senhora que fora incumbida de cuidar da capela durante o tempo que ela estivesse fechada. Ao estacionar e saltar do jipe, Edward experimentou uma sensação de alívio por estar “em casa”. Aproximando-se do portão da casa, bateu palmas para chamar a moradora. Logo a senhora de rosto magro e flácido apareceu na janela.
– Pois não? – perguntou desconfiada.
– Bom dia senhora. – ele disse alto. – Sou Edward Cullen, vim para assumir a igreja, se importaria em me emprestar as chaves?
– Novo padre? – ela exclamou, já deixando a janela.
Em minutos ela já caminhava em sua direção; era pequena e frágil – muito magra – e trazia estranheza no olhar. Ao aproximar-se, repetiu.
– Novo padre?... Acho que não ouvi direito rapaz... Disse que “você” veio assumir nossa igreja?... Tem certeza de que não é ele? – falou apontando seu padrinho.
Edward sorriu mansamente e esclareceu.
– Não senhora... Este é Carlisle Cullen, meu padrinho... – depois que ele murmurou um cumprimento em inglês grosseiro e arrastado, Edward prosseguiu. – Ele é padre assim como eu, contudo veio somente auxiliar-me. O responsável por “nossa” igreja sou eu mesmo.
– Mas você, digo... Desculpe-me. O “senhor” é tão moço ainda!
– Sou sim. – o padre sorriu complacente ao comentário óbvio e há muito batido.
A senhora á sua frente lhe avaliou com descaramento próprio aos idosos então, talvez chegando á conclusão de que um padre novo seria melhor do que continuar sem nenhum, sorriu-lhe cordialmente e lhe estendeu a mão ossuda.
– Pois então seja bem vindo senhor Cullen. Eu me chamo Sarah Williams e estou ao seu dispor. Espere enquanto vou buscar suas chaves.
Enquanto a senhora Williams retornou a própria casa, o padre voltou ao seu jipe para descarregá-lo. Não pôde deixar de notar que algumas pessoas se acercavam, olhando-os com curiosidade, porém sem se aproximar. Edward lhes acenou amigavelmente antes de começar a retirar a pouca bagagem que trouxeram. Sua mala era a mais pesada, justamente por isso fez questão de carregá-la para que seu padrinho não reparasse naquele detalhe.
– Pensei que ela fosse mandá-lo de volta por ser novo demais. – Carlisle comentou sério em italiano. – Custava já ter trazido a chave logo quando você anunciou quem era?
– Ela é apenas uma senhora zelosa. Não iria entregar as chaves á qualquer um.
– Está certo. – o jovem padre reconheceu uma nota de mau humor.
– O que há? – perguntou ao depositar sua mala ao lado da porta principal da casa que ocuparia.
– Acho estranho que fiquem nos olhando...
– Somos novidade em uma cidade pequena. – tentando melhor o humor do padrinho, acrescentou. – Releve.
O tutor não teve tempo de lhe retrucar, pois a senhora Williams chegou com as chaves. Ao que tudo indicava recuperada do espanto com sua juventude, pois desandou á falar sobre a cidade.
– Ah, o senhor vai gostar daqui... Esperávamos ansiosos que nos enviassem um novo padre. Sempre fomos bons devotos. – assegurou; sem dar tempo para qualquer comentário, prosseguiu. – Infelizmente nossa igrejinha precisa de reparos, o senhor vai ver... Tão logo se acomodem, eu os acompanho, tem uma passagem que liga a casa á ela.
– Sim senhora. – Edward falou.
– Não será necessário. – o padrinho disse ao mesmo tempo do que ele.
Edward o olhou de soslaio; a senhora continuou á falar enquanto seguiam pelo corredor com suas malas.
– Os senhores também vão amar a cidade... Ela é sempre muito calma, nada acontece por aqui.
– Conto com isso. – o tutor retrucou num sussurro intimista.
Edward sorria da súbita carranca do padrinho enquanto a senhora falava mais.
– O antigo padre ocupava esse quarto. – disse indicando o primeiro. – Acho que o seu padrinho poderia ficar naquele. – sugeriu indicando uma porta além. – Os senhores gostarão dessa casa... Ela costuma ser fresca no verão e muito aconchegante no inverno.
Sem discutir, Carlisle seguiu para o indicado restando á Edward ocupar o quarto do antigo padre. Sarah o acompanhou sempre falante.
– Como lhe dizia, nossa cidade é muito calma e todos são educados, cordiais... O senhor verá. É realmente uma benção viver num lugar tão aprazível como Sin Bay. Possuímos três praias e em todas é possível ir á pé. Hoje em dia não as freqüento mais, mas em minha juventude não saída de lá...
Edward viu seu riso leve, mas sem registrá-lo na verdade. Novamente o nome peculiar lhe despertou a curiosidade, mas o que verdadeiramente lhe chamou á atenção foi saber que disporia de três praias para sua usual corrida matinal praticamente ás portas de sua nova morada.
Aquele hábito era uma incógnita em sua vida, não se lembrava de onde e quando o adquirira, apenas sentia que precisava movimentar-se. Talvez fosse a necessidade de ação após a breve paralisia; não sabia. Fosse como fosse, para espanto de seus colegas ociosos, acostumou-se á se exercitar nos jardins da abadia sempre que conseguia um tempo livre. A atividade o completava de tal maneira que acordava antes da hora que se iniciavam suas obrigações como seminarista somente para correr no espaço limitado. Saber que teria vastas extensões de areia ao seu dispor foi como receber a graça divina. Sabia não ser merecedor, mas agradeceu-a mentalmente da mesma forma.
– Eh... Tenho certeza que será muito bom viver aqui. – disse vagamente. – Agora, se puder me dar licença, eu preciso me trocar...
– Ah sim... Vou esperá-lo na sala. Quando estiver pronto eu o levo até a igreja.
– Já resolvemos isso, agora... Por favor. – pediu indicando a porta.
Assim que se viu sozinho, Edward retirou as roupas que usava e, depois de retirar o que precisava de sua mala, aprontou-se para sair. Ao chegar á sala encontrou o padrinho sendo vitima da falação da senhora animada.
– Ah... Que bom que chegou, podemos ir agora se...
– Obrigado senhora, mas estou de saída. Padrinho, logo estarei de volta.
Sem esperar por respostas e ignorando o olhar curioso da senhora Williams quando dispensou de conhecer o interior da capela, saiu depois de um aceno breve para ambos. Ao cruzar o portão, viu que algumas pessoas ainda olhavam para a casa com curiosidade.
– Bom dia. – cumprimentou um senhor que avaliava seu jipe.
– Bom dia... Esse carro é seu? – perguntou sem rodeios.
– É sim... Sou o novo padre.
– Ah... – o senhor exclamou admirado, porém não fez alusão á sua idade. – Que boa notícia!
– Fico feliz em saber que sente assim!... – retrucou impaciente. – Por favor, poderia me indicar a direção da praia?
– Sim senhor. – respondeu prontamente, contudo sem pressa alguma. – Temos três... Uma logo aqui á frente, depois das casas... Outra além do portinho e uma além da trilha, mas essa não é muito freqüentada. O pessoal não gosta de passar pelo meio do mato para chegar até ela, por isso é quase sempre deserta.
– Como faço para chegar á essa? – era perfeita.
– Senhor?... – o homem inquiriu como se ele não o tivesse entendido. – São dez minutos de caminhada pelo meio do mato.
– Não tem problema. – disse pausadamente. – Preciso de um pouco de tranquilidade depois da longa viagem que fiz.
Ainda com a expressão incerta, o senhor indicou-lhe o caminho. Agradecendo-o e cumprimentando com a cabeça todos que estavam á sua porta, Edward se pôs á caminho. O padre se agradou de tudo que viu pelo caminho. As casas eram em sua maioria do mesmo estilo simples e despretensioso. Aparentavam ser aconchegantes; frescas no verão e aquecidas no inverno, como descreveu sua falante vizinha. Os cidadãos eram receptivos – não pôde deixar de reparar que havia mais mulheres que homens nas ruas – todos cordiais e educados. Naquele instante acreditou na Sra. Williams; apreciaria viver em Sin Bay.
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